Cassy e Delillah perambulavam por cada fenda no comércio do Fosso, perdidas.

– Tem certeza que é o terceiro á direita? — Cassy murmurou para Delillah.

– Não lembro direito — A garota cutucou a outra, em sinal de avançarem — Vamos perguntar então, Quatro disse que todo mundo sabe onde fica.

– Certo.

Elas se espeemeram pelos audaciosos apressados e pararam em uma lojinha de conveniência.

– Com licensa — Delillah se aproximou da mulher idosa que estava esperramada em uma cadeira na calçada da loja. Ela tinha variadas tatuagens engilhadas na pele danificada pelo passar dos anos, porém seus olhos verdes transbordavam confiança que pareciam deixá-la levemente mais jovem. — A senhora sabe...

– A senhora? — A velha se acomodou na cadeira, com um sorriso desdentado — Faça-me o favor de falar direito comigo antes de vim perguntar qualquer coisa.

– Foi mal — Cassy tomou partido, já que a tinha visto centenas de vezes e sabia de sua rancoridade — É que a gente está procurando o Estúdio de Fellipo e não temos certeza de onde fica.

– Estúdio? De tatuagem? — A velha gargalhou — As pentelhas mal começaram a iniciação e já estão atrás de se tatuarem? Já se foram os tempos em que a Audácia era...

– Valeu pela a ajuda, coroca — Cassy cortou, impaciente, enquanto empurrava a outra na direção oposta — Vamos Delly.

A velha ficou resmungando, enquanto as duas abriam caminho pelos buracos do Fosso.

– Vamos nesse aqui mesmo — Cassy apontou para um estabelecimento cor de vinho. Uma placa luminosa pendia-se acima da porta, estampada por diferentes modelos de tatuagem. Delillah recuou.

– Mas Quatro disse que o de Fellipo...

– Pelo amor de Deus, Delly — Cassy bateu os braços — Tanto faz se o Estúdio é ou não desse tal de Fellipo. São só tatuagens.

Delillah cruzou os braços, receosa. Cassy não fazia ideia do porque de toda aquela persistência no tal Fellipo, mas parecia ser algo grande. Puxou seu pulso e a arrastou para dentro do Estúdio.

O local era bastante decorado. Paredes vinho, piso de madeira e verniz, quadros de diferentes magnitudes e abajúres amarelados. Cassy ia na frente, animada. Delillah ainda tinha aquela expressão de tortura, que se dissipiu ao se deparar com o tatuador.

Ou com as costas dele.

Definitivamente era alguém jovem e esguio. Um rapaz. Tinha cabelos castanhos rebeldes e a pele era alva. Diferente da imagem de tatuador que ela imaginou que seria, o rapaz tinha a pele limpa como talco.

Ao notar a freguesia, ele se virou e o coração de Delillah parou.

Olhos dourados.

– Posso ajudar? — Ele se aproximou, tirando a máscara que cobria sua boca e nariz da irritação da tinta.

– Viemos fazer tatuagens — Cassy sorriu entusiasmadas, apontando para ela mesma e a amiga. O rapaz pesou os olhos de ouro nos dela e se curvou.

– Certo, já escolheram quais vão ser?

– Ainda não — O tatuador ofereceu um álbum a Cassy e a garota tomou o objeto em mãos — Obrigada.

– Podem ir escolhendo enquanto termino esse. — Ele se voltou a cadeira em que antes se encontrava e só agora as duas amigas perceberam que havia outro cliente por ali.

– Vamos escolher, então — Cassy se sentou em um sofá de recepção e folheou as páginas do albúm, cutucando os modelos que gostava.

Delillah apenas permaneceu pasma, encarando as costas do tatuador.

– Posso te fazer uma pergunta? — Ela recitou. O tauador apenas ergueu os olhos em sua direção, ainda com a máquina de tinta entre os dedos.

– Vá em frente. — Ela expirou fundo. Tinha milhares de perguntas que queria fazer. Perguntas que ninguém conseguiria responder. Que nem ela saberia como perguntar.

E se aquele homem fosse o menino pelo qual ela era apaixonada? O menino que a salvou da insanidade, mesmo que fosse ela a ter destroçado a sua?

E se ele fosse Fellipo?

Seus dedos apontaram para um sitio abaixo da clavícula, no mesmo lugar onde tinha mostrado á Quatro.

– Você acha que uma Fénix ficaria bom?