Até que ponto é fantasia

12 Só um pouquinho de paz...


Com o mesmo calor de sempre, aquela força nos puxa de volta para a realidade. Seria pedir demais querer que aquilo demorasse só mais um pouco? Eu fecho meus olhos suspirando ao jogar a cabeça para trás e sinto Lun se mexer desconfortavelmente no sofá. Ela respira fundo antes de levantar e parar na minha frente.

— Precisamos conversar.

— Dá um tempo, vai? Nós mal saímos da história e você já vem com isso… — Se ela soubesse o quanto eu detestava ter que aturar uma discussão desnecessária daquelas…

— Com isso!? Não sei se você percebeu mas você…

— Eu sei! Agora me dá licença que eu preciso… beber água.

— Beber água? Essa é a sua desculpa!?

— É, e eu não vou discutir sobre nada antes disso. — Abro um sorriso e levanto antes que ela voltasse a falar.

— Não vai pensando que eu vou deixar você sair daqui sem…

Não sei se o que foi mais estranho, ela parar a frase daquele jeito ou ela ficar quieta depois disso. Algo deveria estar muito errado… Eu cedo à minha curiosidade e viro o rosto para onde ela deveria estar.

— Morreu aí?

— O que é isso no seu braço?

Ela pega no meu braço esquerdo e dói como se nele houvesse um corte, por causa dessa dor aguda eu me encolho tentando me livrar dela, mas ao invés de me soltar, Luna gira o meu braço fazendo aquilo doer mais ainda. Qual era o problema dela? Eu a empurro para trás e entro na cozinha tocando exatamente no mesmo lugar. Não tinha nada ali e nem doía mais. Devia ser por causa da posição… Se fosse um arranhão leve ainda não tinha saltado o bastante para eu sentir.

— Devo estar ficando maluco…

Luna entra na cozinha com passos um tanto mais lentos que o normal, mas não era como se ela quisesse passar despercebida, aposto que estava olhando para o teto ou algo assim. Quando ela para do meu lado eu pego um copo no armário.

— Voc…

Eu a interrompo fazendo um gesto para ela esperar e bebo a água devagar. O tempo todo ela batia um dos pés no chão. Achava que podia me apressar quando a única pessoa interessada no assunto era ela. Aquilo era muito irritante… Eu coloco o meu copo na pia e encosto na bancada esperando ela falar, mas pelo jeito, ela queria que eu falasse.

— Eu tive que fazer aquilo. — Não era óbvio?

— Como se beijar alguém desacordado fosse algo completamente normal e saudável!

— Como se EU tivesse planejado isso… Você poderia ter morrido!

— Mas não morri. — Será que ela tinha percebido que estava gritando?

— De nada! — Eu saio andando pelo o corredor.

— Você deveria saber que não era assim que a princesa acordava.

— E como eu ia saber disso? Desculpa se a única coisa que eu vi foi metade do filme da Disney. Aliás, você é quem deveria saber que cedo ou tarde algo assim aconteceria.

— Ahh, não vem com essa! Você deveria ter tentado de tudo antes!

— Tipo o quê? Enfiar o braço na sua garganta?

— Pare de ser estúpido! — Lun me puxa pelo pulso e eu a coloco contra a parede. Só assim para ter algum controle sobre onde ela estava. — Me s-solta!

A voz dela estava diferente e a respiração parecia bem fora do ritmo. Eu não conseguia deduzir como o rosto dela estava, até onde eu sabia, ela podia estar tanto pálida quanto vermelha de raiva. Não posso negar que tentei juntar os poucos traços que o narrador deixara escapar e formar um rosto para ela, mas não era tão fácil na prática quanto na teoria, eles simplesmente não se encaixavam…

— Só estou dizendo o que penso!

— Seria melhor se não dissesse. — Agora ela tinha pedido… Eu não me importava se eu fosse parecer um adolescente idiota e não era como se ela estivesse sendo mais madura.

— Terminou? Porque eu já cansei desse drama.

— Eu não estou fazendo drama, só acho que isso tudo é totalmente errado. É como se você tivesse me beijado à força. — Dava para perceber só pelo jeito dela dizer aquilo, que ela estava bastante chateada.

— Sei disso.

— E nem vai tentar negar? — Fica furiosa.

— Por que eu negaria? Se mesmo depois de tudo o que eu falei, é assim que você vê, o que eu posso fazer?

— Pedir desculpas?

— Pelo quê? Por tentar salvar a sua vida? — Como ela era teimosa… — E se você quiser saber, não é como se essa fosse a primeira vez que nos beijamos.

E nem a última… Mordi a minha língua para não falar o resto da frase em voz alta. Estávamos quase na porta da cozinha e podia ter uma faca ali por perto, então era melhor eu calar a boca. Como Lun fica sem reação eu decido me afastar e voltar para a sala, mas ela bufa e eu percebo que estava bem na minha frente. Ela aparatava, só podia ser!

— V-você está blefando!

— Estou?

— É claro que está! E não fica olhando para mim desse jeito enquanto inventa essas coisas!

— Desculpa por pensar que você não se importava com isso. — Eu fecho os olhos com força. Na verdade, com toda aquela briga eu tinha me esquecido de que estava sem os meus óculos e saber que aquela era a segunda vez aquilo acontecia hoje me deixou muito irritado. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo para eu estar tão desatento. Devia ter pegado a doença dela.

— Você é idiota? — Ela me empurra com as duas mãos. — Você sabe muito bem que não é disso que eu estou falando.

— Ficou irritadinha, é? Calma menina.

— Eu estou calma, você é quem está tentando me tirar do sério.

— Parece que já consegui. — Eu abro um sorriso largo.

— Olha, eu não estou com muita paciência hoje então é melhor você usar toda essa sua ironia barata com alguém que te aguente.

— Pelo menos não sou eu quem está berrando na casa alheia…

— E-eu não… É tudo culpa sua. — Fala bem mais baixo do que antes.

— Se você diz…

— Fale para sua avó que eu peço desculpas, mas que tenho que voltar para casa. — Diz entre os dentes.

— Vai sair correndo?

Ela anda batendo os pés até o meio da sala. Eu sei que, mais uma vez, eu deveria ter ficado quieto, mas eu mal estava conseguindo conter a minha vontade de rir. Era por achar aquilo tudo engraçado ou por estar nervoso? Eu não me importava. Fui para a biblioteca pegar um livro (em braile dessa vez), mas não estava muito fácil de andar por ali, eu tinha chutado uns dois livros que Lun largara perto da arca. Acho que o sentimento de vitória tinha me impedido de ficar bravo com ela por causa disso. Na verdade eu estava bem mais calmo, o que era muito estranho… Eu coloco os dois de volta no lugar e passo a mão ao redor da arca sem encontrar outro largado no chão.

— Você ainda está aí? — Eu pergunto no corredor, esperando que ela me dissesse se havia outros deles no chão, mas ela não responde. — Lun? — Sentei no sofá e esperei ouvir a voz dela ou o baque de alguma coisa caindo, mas nada. Tive certeza de que tinha ido embora.

Até que enfim um pouco de silêncio naquela casa… Sentei no sofá para ler, mas eu estava distraído, provavelmente por não ter dormido o tanto que eu queria e precisava. De repente o sofá pareceu tão confortável… Quando encostei de vez nele, um celular começou a tocar a música tema do filme “Requiem for a Dream” em algum lugar da estante. Gabriel nunca usaria uma música que achava sinistra como toque, então só podia ser dela. Eu tateei a parte de cima estante procurando pelo celular que descobri estar largado atrás de um quadro. Quando o coloquei na mesinha ouvi uma voz bem de longe falando algo como: “Atende logo essa porcaria, Luna!”.

Eu tentei não rir antes de realmente atender a ligação. A mulher que estava do outro lado da linha chamava Rebecca e era a mãe da Luna, ela parecia muito irritada com a filha e eu nem queria imaginar o porquê. Ela me fez algumas perguntas estranhas e eu percebi que conforme fui respondendo ela foi mudando o tom da voz. Era engraçado, eu sentia como se estivesse respondendo a um questionário policial ou algo assim e pelo jeito simpático que ela tinha se despedido, talvez até tivesse gostado de mim.

— Com quem você estava falando?

— Ninguém importante.

— Tá bom então…

Gabriel tranca a porta depois de entrar na sala com alguma sacola de plástico barulhenta em mãos. Ele parecia contente, era como se estivesse sorrindo enquanto falava. Com certeza tinha passado na casa da Emily enquanto esteve fora.

— Você demorou.

— Sério? Acho que fui bem rápido na verdade, até trouxe uns donuts lá da padaria.

— Dos Bianchis?

— Cala a boca… foi na da esquina. Você quer ou não quer?

— Agora não.

Com certeza ele estava vermelho. Nessas horas sempre me vinha na cabeça a imagem dele há uns seis? Sete anos atrás… Quando eu estava procurando os fones que eu tinha emprestado para ele e acabei achando algumas coisas que ele não queria que encontrassem na gaveta de meias dele. Parando para pensar, aquela foi a última vez que eu o vi com o rosto vermelho daquele jeito…

— Achei seus óculos com a Emily, acho que caíram no chão do carro quando você dormiu.

— Então admite que foi vê-la?

— Se continuar assim não vou te devolver!

— Até parece… — Eu viro os olhos e estendo a mão. — Tenho que comprar um par reserva e deixar aqui, já que você sentou em cima do último.

— Você ainda lembra disso? — Eu passo a mão no ar tentando achar os meus óculos, mas Gabriel só podia estar esquivando para me provocar. — Faz tempo pra caramba. Já-já vai falar que eu te devo trinta reais.

— Cinquenta na verdade…

— Idiota. — Ele dá um soco forte no meu braço e eu dou risada.

— Tenho que devolver isso. — Eu mostro o celular dela. — Onde ela mora?

— Ela saiu? Pensei que estivesse com a vó… Relaxa, mais tarde eu levo lá.

— Não, eu levo. Você só precisa me dizer como chegar lá. Vou ter que sair mesmo e como só fui uma vez, é melhor perguntar. — Guardo o celular dela no bolso de trás das minhas calças. — E devolva os meus óculos.

— Sabe o mercadinho. Hm… Não. Passando pela papelaria, depois esquerda e duas para a direita, eu acho… — Ele vai se afastando dando risadas.

— Para de ser besta, eu estou com pressa. Não vai querer que eu pegue à força, vai?

— Da última vez você me deixou com um olho roxo e nem vem me dizer que nem viu porquê você sabia muito bem que…

— Anda logo. — Eu dou risada. Tinha sido mesmo sem querer. Como eu ia adivinhar que ele tinha abaixado se eu nem podia vê-lo? Bom, pelo menos agora eu tinha os meus óculos de volta e poderia sair em paz.

Eu pego o pendrive que eu já tinha separado e visto uma jaqueta enquanto saia de casa. Com a minha bengala eu vou tentando juntar o que Gabriel disse com o que eu lembrava do caminho. No fim das contas ele tinha falado duas para esquerda no lugar de três, o que só percebi porque a rua errada era mais inclinada do que a certa. Depois disso não foi difícil de achar a casa dela, era a única com calçada de paralelepípedos na rua toda. Quando toquei a campainha pela segunda vez ela gritou dizendo que já vinha.

Esperando por ela eu encostei no portão tentando escapar da garoa que caia. Eu nunca tinha entrado lá e tudo o que eu sabia é que deveria ter um quintal de uns cinco metros na frente da casa por causa do dia da pizza, aliás, lembrar que no fim daquela noite ela tinha jogado alguma coisa na minha cara me fez bufar.

— O que você quer? — Ela abre a porta da sala provavelmente. A voz dela parecia irritada e confusa ao mesmo tempo. Eu deveria ser a última pessoa no mundo que ela imaginaria ver ali.

— Não vai me convidar para entrar? — Eu aponto para o céu ou quem sabe para um poste… Estava chovendo.

— Tá, entra.

Ela mal me espera passar pelo portão e já sai andando. Qual era o problema dela? Eu passo a minha bengala por aquilo que deveria ser um gramado muito mal cuidado e torço para não ter nenhuma poça d’água no meio do caminho, mas perto da entrada tinha uma e eu acabo molhando de leve uma das minhas meias. Eu resmungo subindo o pequeno degrau da frente da porta. Pelo menos tinha um tapete ali…

— Agora vai me dizer o que veio fazer aqui?

— Não vai oferecer um chá ou um café? — Eu a provoco enquanto guardava a minha bengala no bolso da jaqueta.

— Olha aqui… — Lun passa por mim batendo a porta com mais força do que precisava. — Se não quiser ser chutado para fora é melhor falar logo! — Ela vai até onde deveria ser o meio da sala e eu vou atrás dela.

— Nossa, quanta agressividade… Eu vim te fazer o favor de devolver isso.

Antes que ela falasse alguma coisa, eu tiro o celular dela do meu bolso e Lun o agarra como se a vida dela dependesse daquilo. Aposto que estava procurando por ele há um bom tempo, mas não teve a brilhante ideia de ligar para ele ou a bateria tinha acabado enquanto estava no meu bolso, aliás, tinha mais alguma coisa no meu bolso: a pulseira dela.

— Nossa, estava com medo de ter perdido isso na rua! Muito obrigada. Que bom que você achou, a maioria dos contatos que eu tenho aqui não existem em outro lugar e seria um saco sair pedindo para todo mundo de novo… — E o botão da tagarelice acabava se ser pressionado… — Eu acho que tenho nada para oferecer agora, mas posso colocar uns pães de queijo no forno. Eu já ia comer mesmo… Ah, senta aí que eu vou trazer um suco que eu fiz. Você gosta de maracujá, né? — Eu mal concordo e ela já vai para os fundos da casa, lá deveria ficar a cozinha.

— De nada… — Eu bufo. Quando ela iria perceber que coisas como “aí” e “ali” não funcionavam muito bem comigo? Antes de eu começar a procurar o sofá ela já estava de volta na sala. Mesmo não estando muito perto de mim o cheiro forte de suco se espalhava pelo ar.

— Por que você ainda está de pé? — Ela estrala língua. — Ahh, droga. Tem um sofá à sua direita, uns poucos passos eu acho… e cui…

— …dado com a mesinha. — Eu completo a frase depois de bater a canela com tudo na infeliz.

— D-desculpa…

— Pelo o quê? Fui eu que não vi… — Eu sento no sofá e esfrego a canela. — Bom, dá próxima vez fale sobre coisas assim primeiro, certo? — Por algum motivo eu não queria deixá-la desconfortável; bom, desconfortável com aquilo pelo menos.

Ela deve ter acenado com a cabeça porque mesmo dizendo nada, estava mais relaxada quando sentou do meu lado. Lun encostou o copo cheio na minha mão e eu tomei um gole, o gosto estava tão bom quanto o cheiro e eu não estaria mentindo se dissesse que eu poderia tomar a jarra inteira.

— Hm… Eu quase esqueci. — Eu coloco o copo vazio na mesinha e procuro a pulseira no meu bolso, mas não chego a tirá-la de lá. Não queria deixá-la feliz demais e ficar parecendo o cara da SEDEX ao mesmo tempo.

— Quase esqueceu do quê?

— Nada… Eu tenho que ir agora. Preciso me encontrar com o grupo do meu trabalho de segunda. — Por que eu estava dando satisfações para ela?

— Mas já, daqui a pouco vou tirar os pães de queijo do forno e está chovendo…

— Eu não vou derreter com uma garoazinha dessas. — Eu viro os olhos.

— Mas não precisa se molhar atoa, eu te empresto o meu guarda-chuva.

— Não precisa. O portão está aberto, certo? Vou indo.

Ela se mexe um pouco, deveria estar cruzando os braços. Ao contrário do que eu imaginava, Lun não vai comigo até a porta, ela fica ali, provavelmente me encarando com a cara emburrada. Ela só podia ser bipolar… Pelo lado bom não estava chovendo forte, o ponto de ônibus era perto dali e eu não iria me molhar tanto até chegar na lanchonete em que o resto do grupo estava. Quando eu fechei o portão escutei a porta da sala sendo aberta com tudo.

— Acho que vou passar na sua casa amanhã.

— Não vou dizer que estou surpreso. Eu e Gabriel estamos jogando truco para ver quem vai ceder uma parte do guarda-roupas para você.

— Nossa, como você é engraçado… — Ela ironiza enquanto trancava o portão.

— Acabei de lembrar o que eu queria te dizer lá no sofá: a Rebecca é um amorzinho, diga que eu mandei um abraço para ela quando vocês se encontrarem de novo.

— O-o que!? Você falou com a minha mãe. O que ela falou pra você? — Luna derruba a chave no chão. Ela parecia estar com medo? Wow, do que ela pensava que a mãe dela era capaz de falar para um desconhecido?

— Pergunte para ela. — Eu atravesso a rua.

— Len, espera! — Ela parecia estar com sérias dificuldades para destrancar o portão.

— Amanhã eu te conto. — Olho as horas no meu relógio de pulso. — Estou atrasado e não tenho tempo para isso.

Por sorte ela desiste de me seguir e eu vou tranquilo para a lanchonete. Eu mal abro a porta e Lisa já me cumprimenta. Se eu não tivesse parado de andar na metade do caminho ela teria me arrastado para a mesa. Detestava profundamente quando alguém fazia isso do nada. Fernando ria da cena enquanto se entupia de alguma coisa com cheiro doce e enjoativo.

— Desculpem pelo atraso. O Mark não está aí, está? Eu salvei a parte dele aqui dentro. — Eu tiro o pendrive do bolso.

— Atrasado como sempre. Eu até falei que era para estar aqui umas duas horas antes, mas nem assim ele chega no horário… — Felipe reclama e tinha razão. Mark era um irresponsável que quase não tinha ajudado no trabalho. Ele só estava no grupo porque o orientador tinha insistido que cada grupo deveria ter necessariamente quatro pessoas.

Eu sento na cadeira e depois de pedir o meu almoço, nós três começamos a revisar a nossa parte do conteúdo. Não era muito difícil, já que era um tema bem óbvio para um curso com sonoplastia: trilhas sonoras de suspense em cenas de tensão. Pensando bem, Luna até poderia gostar daquilo, como ela fazia cinema poderia ser útil…

Só meia hora depois Mark dá o ar da graça. Mesmo sabendo que a dele era a menor parte, ele continuava tentando jogá-la para cima dos outros. Eu estava pensando seriamente em mandá-lo ir a merda e falar toda a parte dele sozinho, mas perderíamos pontos por causa disso e Lisa tinha se comprometido em ajudá-lo a não pegar DP. Fazer o quê…

Quando finalmente cheguei em casa eram umas cinco horas da tarde e eu realmente não tinha nada de importante para fazer. Encontrei o meu irmão no quarto dele e quando ameacei entrar, ele correu na minha frente bloqueando o meu caminho.

— É melhor você esperar eu encontrar o chão primeiro…

— Ok. — Eu encosto na porta dando risada.

Deveria estar a mesma zona da semana passada ou pior ainda. Não tinha jeito, Gabriel sempre pensava melhor quando espalhava as coisas dele por aí e eu não era muito diferente, mas eu tinha trocado a bagunça física por arquivos no computador, eram tantas pastas com mais e mais pastas dentro que nem eu sabia como não me perdia.

— Devolveu o celular dela?

— Sim e ela falou que vai passar aqui amanhã.

— A vó gosta bastante dela, só você que fica implicando atoa, mas acho que não tanto quanto antes, né? — Ele mexia em algumas folhas. — Lá na pizzaria até que vocês estavam se dando bem e do nada você ficou bravo com ela.

— Do nada? Ela jogou alguma coisa em mim.

— Uma ervilha. — Ele aponta como se fosse relevante. — Aliás, esqueci de perguntar porque a Emily estava toda sem jeito quando eu voltei da cozinha. O que aconteceu?

— Um mal entendido, ela achou que eu e a…

— Len, você pode descer comigo um pouquinho?

Minha avó me dá um susto. Não tinha percebido que ela estava no topo da escada. A voz dela estava calma, mas eu a conhecia o bastante para saber que ela estava preocupada. O que tinha acontecido? Eu desço atrás dela e estranho o fato dela me levar para a lavanderia.

— Deixa eu ver uma coisa no seu braço.

Apesar de ser muito estranho, eu deixo minha vó fazer o que queria. Ela levanta o meu braço esquerdo e o solta sem dizer nada. Por que ela tinha me levado para o lado de fora da casa para fazer algo assim?

— O que está acontecendo?

— Nada. É que quando eu fui lavar a blusa vermelha que você estava usando ontem, eu achei uma mancha de sangue nela, mas acho que eu que derrubei tinta nela, desculpa. — Agora fazia sentido.

— Bem nessa parte aqui? — Eu aponto para onde eu tinha pensado que havia um corte mais cedo.

— Isso mesmo… A Luna vai vir aqui amanhã, né? Nem acreditei quando Gabriel me disse que ela tinha saído assim do nada. — Nós entramos na cozinha.

— Ela disse que sim.

— Menos mal, é que nós temos que conversar sobre uma coisa importante.

Detestava quando a minha avó deixava as coisas vagas daquele jeito, mas eu sabia que, mesmo estando curioso, não adiantaria muito insistir. Quando sentei numa das cadeiras, ouvi o barulho de algo pequeno e de vidro sendo colocado em cima do balcão. Minha avó tira uma panela com algo fervendo do fogo e o cheiro do molho de tomate caseiro me fez suspirar, tinha esquecido que hoje era dia de macarronada. Já disse que ela deveria abrir um restaurante?

Notas finais
Mandem um olá, queridos fantasminhas!