Notas iniciais
UFC Fanfics, semi-final. Tema: Plot Twist.

Capítulo 1

“Início”

...

26 de julho de 2012

George estava nervoso. Suas mãos suavam enquanto ele andava de um lado pro outro no quarto em que estava. Mal podia conter o desejo de ir atrás de Diane. Desde que se conheceram, cerca de um ano atrás, não havia passado um dia sem que ele a visse, mas era o dia do seu casamento e Diane insistiu que ele só poderia vê-la vestida de noiva, no altar.

A gravata borboleta o sufocava terrivelmente, mas ele usaria para sempre, se esse fosse o desejo de Diane. Faria tudo por ela. Aguentou, inclusive, as torturantes vinte e quatro horas em que estavam separados, porque era uma tradição que ela gostaria de respeitar. Valeu a pena, cada segundo. Foi um dos momentos mais felizes da sua vida, quando Diane caminhou até ele no altar, parecendo um sonho que se tornava realidade. Naquele dia, instruídos pelo padre, prometeram estar um com o outro, em amor.

Na saúde e na doença.

Na riqueza e na pobreza.

E até que a morte nos separe.

Diane riu nessa parte, olhando para ele com lagrimas nos olhos, antes de completar: — até depois disso, querido.

George sorriu de volta, gostando da ideia. Não imaginava estar com mais ninguém, nem na vida e nem na morte.

— Até depois disso — concordou.

12 de janeiro de 2013

Era início do verão, o sol brilhava alto no céu claro. George e Diane estavam deitados lado a lado na grama, observando as nuvens. Gostavam de fazer programas como esse o máximo de vezes possível. A vida era corrida demais na cidade grande, e os horários de trabalho de George, cada vez mais exigentes, vinham forçando os dois a trabalharem com as brechas para estarem juntos.

Depois de comerem toda comida que Diane havia embalado, e rirem por horas de coisas aleatórias, como o formato das nuvens, Diane propôs a seu marido um jogo de perguntas e respostas. Sempre gostou de conhecer os pequenos aspectos da vida dele e essa era uma boa forma.

—Você não pode estar falando sério sobre isso! — Exclamou Diane, antes de bater a mão na testa, em sinal de descrença.

George riu. — Você perguntou qual o meu maior segredo, e, bem, é esse.

Diane olhou para ele com uma expressão meio divertida e meio incrédula. — Isso só pode ser brincadeira! Eu esperei que você fosse me contar onde guardava as revistas de mulher pelada quando era adolescente; ou que chorou a primeira vez que assistiu ‘Marley e eu’. Mas xixi nas calças? Eu não esperava por isso.

George riu um pouco mais forte com o quão surpresa ela parecia.

— Deus, não posso acreditar que sou casada com um homem que fez xixi nas calças até os onze anos de idade! — Diane zombou exageradamente, em uma falsa descrença.

Quando ela finalmente parou de provocar, foi a vez de George perguntar.

Ainda sem fôlego, depois de tantas risadas, ele encarou Diane. — E o seu?

— Qual o meu maior segredo? — Ela pensou por um segundo. — Bem, eu tenho medo de ficar sozinha. — Diane respondeu, trazendo, de repente, um peso para a conversa antes descontraída.

Ela não explicou, mas George sabia a origem do seu medo. Diane foi abandonada quando criança, e cresceu num orfanato. Esteve sozinha por muito tempo, tendo que cuidar de si mesma desde muito jovem.

Querendo consolar a esposa e afastar a sensação ruim que havia se instalado no ar, George abraçou Diane, trazendo o corpo dela mais perto do seu, antes de sussurrar palavras reconfortantes.

— Você me tem agora, querida. Nuca mais vai estar sozinha novamente.

07 de agosto de 2014

Houve um tempo onde Diane acreditou que a vida poderia ser perfeita, que contos de fadas eram reais e que seu príncipe encantado a guiaria rumo ao felizes para sempre.

No entanto, um pouco mais de dois anos de casada e ela já entendia o quão ingênua tinha sido por acreditar em tal conceito surreal. Não que sua vida fosse miserável, contudo ela tinha defeitos. Seu príncipe tinha defeitos.

George e ela eram felizes, no quadro geral da vida, mas, ultimamente, andavam constantemente brigando por pequenas coisas. Diane achava que o atual trabalho do marido estava o mantendo fora de casa por muito tempo, longe dela. George se sentia frustrado pela dificuldade de Diane em entender que ele precisava trabalhar para sustenta-los.

Depois de viver uma vida inteira sem um lar, Diane não estava preparada para deixar a segurança do seu por muito tempo, por isso, quando casaram, eles concordaram que ela não precisava trabalhar fora. Isso estava bem para George, não se importava em ser o único com um trabalho, mas Diane não percebia que, sendo ele o exclusivo responsável pelo sustento dos dois, havia carga dobrada sobre suas costas. Não podia se dar ao luxo de perder o emprego.

Naquela tarde de sábado, mais uma dessas discussões ditava o tom na casa dos Torres. Deveria ser o dia de folga de George, mas desde que sua empresa estava em expansão, ele vinha fazendo hora extra e trabalhando em horários desregulados.

O clima no almoço era pesado. George, de um lado da mesa, lia os documentos que precisaria para sua próxima reunião. Diane, na outra cabeceira, encarava o marido tristemente. Mais um de seus programas de sábado tinha sido arruinado pelas loucas horas de trabalho de George. Eles haviam combinado de visitar os amigos, do outro lado da cidade, pensando em uma noite divertida juntos.

Agora, mais uma vez, George precisaria trabalhar.

Depois de longos debates internos, Diane decidiu que iria sozinha. Estava cansada de desmarcar compromissos por conta dos problemas de George. Ela gostava de ficar em casa, mas não aprisionada. Precisava sair em alguns momentos.

Disse a George que iria sozinha, e ele não teve como discutir, devido à situação, mesmo que não tivesse aprovado em tudo.

Depois de longos momentos de um silêncio sepulcral, Diane, que sempre apreciou a companhia do marido, resolveu tentar mais uma vez.

Querido, tem certeza que não pode vir comigo hoje? É um longo caminho daqui até a casa da Alice...

— Eu já te disse, não posso — George respondeu a ela. — Meu chefe vai arrancar meu coro se eu faltar. Está é uma ação importante, Diane.

Ele soou um pouco duro até para os próprios ouvidos, porém culpou o canso e o estresse, prometendo a si mesmo que compensaria sua esposa por sua atitude e ausência, assim que expansão estivesse completa.

Diane abaixou a cabeça antes de responder — Ok.

George suspirou.

— Tenho que ir, antes que eu fique atrasado — avisou. Então se levantou, pegando o paletó no encosto da cadeira em que estava sentado. — Te vejo mais tarde. — Ele disse ao beijar a testa da esposa. — Sinto muito.

Quando ele saiu, Diane, se sentindo angustiada, abaixou os talheres e empurrou o prato que estava comendo. Não tinha porque ficar remexendo na comida, havia perdido a fome.

...

Mais tarde naquele mesmo dia, George se arrependeria de todas as vezes em que deixou de estar com sua esposa para trabalhar, de cada momento em que foi duro com ela e julgou a falta de compreensão com seus horários. Se arrependeria de ter deixado de ir com ela, ou de atender o celular quando ele tocou pela primeira. Porque, não foi até que chegou em casa, que ele descobriu que jamais poderia compensar nenhuma dessas coisas, era tarde demais.

O momento em que ele descobriu foi um borrão. Encontrou um de seus amigos, Augusto, sentado do lado de fora de sua casa, esperando ele chegar. O olhar no rosto de Augusto era tão angustiado que George não podia sequer começar a entender. Gritou, preocupado. Exigiu saber onde estava Diane, porque Augusto estava lá.

Largou tudo que tinha na mão e correu para o amigo, que, soluçando, ainda não tinha sido capaz de proferir palavras. Sacudiu Augusto violentamente, demandando por respostas, mas tudo que obteve foi um sacudir de cabeça em negação.

George caiu de joelhos, sabendo, naquele momento, que sua vida seria virada de cabeça para baixo. Quando Augusto finalmente lhe contou, ele não tinha mais forças para ficar de pé. Gritou sem sentido, o som ecoando no escuro da noite, tão doloroso e quebrado como a própria alma de George estava.

Não recordava dos momentos que sucederam, nem de como chegou ao hospital. Mas nunca esqueceria a sensação do corpo frio da mulher que amava. Nunca esqueceria o quão impotente se sentiu ao ser obrigado a fazer o reconhecimento do cadáver que antes era o corpo cheio de vida de sua esposa.

A dor que parecia arrancar suas entranhas; o choro que feria a garganta; a desesperança que lhe pesava os ossos.

Nunca esqueceria as imagens que, horas mais tarde, estarrecido, viu na televisão: as sirenes dos carros de polícia, a fachada do hospital, a calçada manchada de sangue, e a repórter que falava em frente a ela:

Estamos aqui no lugar que foi palco de uma tragédia, ontem, por volta da oito da noite. Diane Torres, vinte e oito anos, saiu de casa para visitar alguns amigos, aqui em Osasco, quando foi abordada por dois assaltantes armados. Eles emboscaram a vítima nesta esquina e pediram para entregar a bolsa. Segundo testemunhas, a vítima não reagiu ao assalto, mas isso não foi garantia de vida. Os homens armados deram dois tiros antes de fugir. Diane chegou a ser levada ao hospital em estado crítico, mas, infelizmente, não resistiu aos ferimentos. A brutalidade desses marginais deixa marido e amigos revoltados e perplexos”.

19 de maio de 2015

O detetive Fagundes nunca esteve tão intrigado com um caso como está com esse. O homem, George Torres, apareceu morto sua casa, apenas nove meses depois que sua esposa foi morta num suposto assalto. A causa da morte: desconhecida até o momento. Não haviam sinais de arrombamento no local do crime, nem impressões de outras pessoas, além do próprio defunto.

O local era uma bagunça, como se o falecido Sr Torres não tivesse se preocupado em limpar desde a morte de sua esposa. Fagundes entendia o que o luto fazia com as pessoas, por isso, não se chocou tanto.

Enquanto o legista retirava o corpo e os peritos coletavam as evidências, Fagundes ordenou a dois outros policiais que procurassem testemunhas. Ele iria falar com a pessoa que reportou o sumiço de George Torres. Precisava descobrir o que tinha acontecido ali.

Notas finais
Curiosidade: Essa história era, originalmente, um roteiro. No quinto semestre do meu curso, temos um trabalho que chama "vídeo coletivo", que, como nome já diz, é um trabalho em grupo, feito por duas turmas. É a primeira experiência que temos de como seria trabalhar de verdade com audiovisual, pois as funções são divididas como no mercado de trabalho, cada um fazendo sua parte de um todo. Escolhemos fazer um curta ficcional. Eu acumulei as funções de Direção de Arte e Roteiro. Na época, essa história foi uma das duas opções de roteiro. Acabamos filmando a outra opção, pois era menos complexa, na prática. O curta que saiu chama "Depois da queda", tem link dele no meu perfil.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.