Até o Fim

2 Capítulo 02


Notas iniciais
Oie, tudo bem?? Aqui esta mais um cap de AOF E espero que gostem ❤ E desculpa a demora. Caso houver alguns erros, eu peço desculpas.

O carro foi estacionado em frente a pequena igreja que havia em sua cidade. Ele não deixou de perceber que havia muitos outros ali estacionados.

Com um suspiro cansado, sua mãe se desprende do cinto de segurança, mas permanecia no mesmo lugar, imóvel. Ela também possuía um semblante abatido e um olhar triste, sem um foco certo, perdido.

— Peter... — murmura ela, apertando o volante do carro com demasiada força, fazendo com que as pontas de seus dedos magros ficassem brancos.

— Está tudo bem — diz ele, pondo a mão na porta, mas paralisa ao escutar a voz firme de sua mãe.

— Peter! — exclamou ela, o olhando com os olhos melancólicos, através do espelho do retrovisor. — Por favor, não haja como não se estivesse sofrendo — diz ela, entre dentes, com a voz falhando a cada palavra. — Nós sabemos o quanto ela era importante pra você. Annie era...

— Estão todos lá dentro — diz ele secamente, a cortando. — Melhor entrarmos logo.

Ele abre a porta e sai de dentro do carro rapidamente, pondo aquele assunto por encerrado. Ele fecha a porta atrás de si e olha para a igreja. O moreno sentia o ar preso em sua garganta, enquanto suas mãos tremiam. Sentindo o medo se apoderar de si.

Ele olhou para o céu, como se pedisse forças para prosseguir. No entanto, ele pôde contemplar que o firmamento estava completamente nublado, como se estivesse prestes a chover a qualquer minuto e ele percebeu que estava da mesma forma, ele sabia que poderia perder seu autocontrole e a qualquer instante, acabaria desabando, como uma densa chuva.

Sentiu um cheiro estranho adentrar em suas narinas. Desviou os olhos do céu e viu uma figura pequena, encostada em um dos carros próximo a igreja. Os longos cabelos loiros caiam como uma cortina sobre suas vestes escuras, moldando o pequeno rosto em forma de coração, escondido pelos grandes óculos escuros, ocultando os olhos — que Peter conhecia bem — castanhos. Alexia McNally deu mais um trago em seu cigarro e logo em seguida jogou a bituca no chão, a apagando com a ponta de sua bota.

Peter torceu o nariz incomodado com a cena que acabara de presenciar, porém, ele não estava apto para julgamentos, não naquele momento.

“ — Acho que um dia ela vai acabar morrendo de câncer de pulmão — diz a garota fazendo uma careta, enquanto olhava Alexia acender mais um cigarro e o levar em direção ao seus lábios.

— O quê? — pergunta Annie erguendo sua cabeça, parando de ler um de seus livros do Harry Potter.

— Alexia McNally — disse a garota a olhando — Ela até que é bonita, mas se continuar desse jeito o cigarro vai acabar com sua pele, destruindo por completo a sua vaidade. Possivelmente se não tiver sorte vai acabar tendo um câncer.

— Você acha a Lexi bonita? — pergunta a garota divertida, erguendo uma de suas sobrancelhas.

— Você ouviu o que eu disse? — perguntou o garoto descrente.

— Eu parei de ouvir quando você elogiou Alexia McNally — disse ela rindo — Me desculpe.

— Você é impossível, Annie. — Ele ri e sacode a cabeça em negação.”

— Lexi! — exclamou Victória correndo em direção a amiga, a abraçando. — Oh, Lexi — disse ela com a voz cansada.

— Eu sei — disse a loira com a voz se quebrando, mostrando toda a sua fragilidade — Eu ainda não consigo acreditar.

Ele observou a loira enterrar a cabeça no ombro de sua irmã, rendendo-se ao abraço apertado.

— Vamos entrar — sussurra seu pai, apertando o seu ombro, para confortá-lo. Ele assentiu com a cabeça e engoliu em seco, entrando na igreja.

Então, ele sentiu o clima fúnebre ao entrar no local. Ao olhar aquele aglomerado de pessoas, sentados nos bancos de madeira e outras ao lado de frente para caixão de madeira branca, que estava em frente ao altar. Então, ele sentiu as batidas do seu coração adotarem ritmos pesados, ficando difícil até mesmo para respirar — era como se o ar fosse tóxico demais.

Olhou mais a frente e viu a figura masculina, James Foster. O capitão do time de lacross do colégio e ex-namorado de sua melhor amiga. O mesmo estava com a cabeça baixa, sentado em um banco de madeira. Peter sentiu a raiva arder em seu coração, queimando-o como brasa.

— Mas o que...? — murmurou — O que ele está fazendo aqui? — perguntou entre dentes.

O que aquele bastardo, traidor de uma figa, fazia ali? Como ele tinha a audácia de aparecer depois do que havia feito para Annie?

— Controle-se, Peter. Aqui não é lugar para arrumar confusão — sussurrou seu pai em seu ouvido. — Resolva isso mais tarde e bem longe daqui, mas agora tenha pelo menos um pingo de respeito e consideração pelos Carter's, que estão passando um momento difícil.

O jovem assentiu, engolindo, toda a raiva que fluía em todo o seu ser, em seco. Desviou sua atenção para sua mãe, que caminhava tão graciosamente em direção ao caixão. Peter se curvou levemente, como se sentisse um chute na boca do estômago, fazendo-o acordar para a realidade.

Sentiu suas pernas trêmulas, mas obrigou a si mesmo a continuar a andar. Em passos lentos, mal sentindo o chão debaixo dos seus pés, ele caminhou em direção ao caixão, olhando para o chão, sem coragem de encarar o corpo que ali estava repousado.

— Oh, santo Deus... — exclamou sua mãe, com a voz embargada. Ele observou a mulher levar as mãos em direção aos lábios, enquanto a mesma olhava o interior do caixão com a dor nítida em seus olhos negros e o rosto banhado por suas lágrimas cristalinas.

Sem ter mais como fugir, ele desviou o olhar para também olhar o interior do caixão e... Deus.

— Annie... — sussurrou ele com a voz falha, sentindo todo o ar sair de seus pulmões.

Em quantos pedaços seu coração teria que se partir, para, enfim, parar de bater?

Ele observou o pequeno corpo da mulher repousado e aproximou-se em passos errantes, era como se ele estivesse anestesiado, como se o chão não existisse mais.

— Mamãe, por que as pessoas boas têm que partir? — Peter escutou a voz chorosa do pequeno Oliver Carter, perguntar para sua mãe, durante o velório.

— Oh, meu amor. — Escutou o pai do garoto exclamar — Quando uma pessoa está em um jardim e quer colher uma flor. Qual flor essa pessoa escolhe?

— A mais bonita, papai — diz o garoto pensativo.

— É a mesma coisa com as pessoas. — Ele escutou o homem suspirar. — Annie era boa demais para continuar no jardim e por isso precisou ser colhida.

Peter ergueu sua mão trêmula, para tocar nos longos cabelos ruivos, lisos e sedosos da mulher, que estavam espalhados, entrando em contraste com o longo vestido de renda branca que ela usava, lhe dando um ar angelical e puro. Mas, ele abaixou a mão logo em seguida, sem coragem para prosseguir.

Olhou para seu rosto pálido e sereno. Seus olhos estavam fechados, ele sabia que jamais veria aqueles olhos castanhos e tão brilhantes quanto o céu estrelado outra vez. Ele jamais veria o sorriso confiante, que somente ela possuía. Ele jamais ouviria uma voz tão melodiosa quanto a dela. Pois, sabia que assim que aquele caixão se fechasse jamais veria o rosto da garota que tanto amou. Contudo, Peter queria acreditar que tudo ficaria bem… Queria do fundo do seu coração acreditar que ela ficaria bem, no entanto, isso infelizmente não aconteceu.

Annie Carter havia partido e cabia ele aceitar isso.

Fechou seus olhos e segurou a beira do caixão, se equilibrando, devido a leve tontura e as náuseas que sentia. Mas, mesmo que aos sussurros se forçou a dizer:

— Eu sei que não fui o melhor amigo do mundo, mas Annie eu... — Sentia o nó se formar em sua garganta — fiz o possível. Eu sinto muito, por não ter passado mais tempo com você. — Abre os seus olhos novamente. — Eu queria voltar no tempo e ter aproveitado cada segundo. — Soltou um suspiro cansado. — Eu sei que você está em um lugar melhor agora. — Hesitante, tocou em sua bochecha gelada — Eu sou grato por tudo, srta. Carter. — Sorri tristemente, enquanto uma lágrima, teimosa, escorre por sua face. — Eu te amo... e pra sempre e todo o sempre vou amar você.

O funeral de sua amiga foi algo simples, nada exagerado, pois ele sabia o quanto a Annie detestava coisas exageradas. Peter ficou mais um tempo olhando para ela, até a hora do caixão ser fechado. Ver o seu caixão ser fechado, fez um buraco se formar dentro de si. Ele nunca mais veria o seu rosto, mas uma coisa o rapaz sabia era que ele ficaria gravado eternamente em sua memória.

[...]

Olhou para o papel em que estava em mão e respirou fundo, assim que ergueu seus olhos os repousou sobre o vitral, de mosaico colorido, da igreja. Estava na hora do seu elogio fúnebre.

Caminhando em passos lentos até ao altar, parando atrás do púlpito, em frente as pessoas que o olhavam atentamente, então começou a falar:

— Olá. Eu me chamo Peter, Peter Bonneville. Annie Carter era mais que uma amiga — diz olhando para o caixão fechado — ela era a minha irmã. — Segurou o papel com as suas mãos trêmulas — Ela foi o meu porto seguro em meio às minhas guerras. Me ajudou a caminhar, mesmo eu não tendo força. Me lembro de como nos conhecemos, nunca vou me esquecer da camiseta que Annie usava, com o Naruto sorridente estampada nela. E como ela criticou o meu gosto musical em relação a música clássica, dizendo que era coisa de gente chata, e, naquele momento, encantei-me com extrema sinceridade.

“ Peter sentia a agradável brisa da manhã balançar o seu cabelo, enquanto estava sentado sobre o banco da arquibancada. O único som que era capaz de ouvir era a doce melodia que a música de Chopin proporciona.

Em suas mãos pálidas estava um de seus livros preferidos: “O Morro dos Ventos Uivantes”. Enquanto apreciava o som do piano, que saia de seu celular, transmitindo-lhe calmaria.

Até que uma sombra se destaca em sua frente e o doce aroma de jasmim adentra em suas narinas. Ele direciona os olhos para o chão, deparando-se com um par de all-star vermelhos e surrados.

— Posso me sentar ao seu lado? — pergunta uma voz feminina para si.

Ele ergue seus olhos escuros em direção ao rosto da dona da voz. Ele observou os longos cabelos ruivos, lisos, que moldavam o rosto de traços suave. Os grandes olhos cor de amêndoas, intensos, eram destacados pelos longos cílios negros, as bochechas levemente coradas, possuía algumas sardas e os lábios carnudos da garota, estavam repuxados para um leve sorriso.

No entanto, não foi a aparência da jovem que chamou sua atenção e sim a camiseta que a mesma usava. Uma estranha camiseta laranja, com o desenho de um garoto loiro sorridente estampado nela. Peter franziu as sobrancelhas, ao tentar traduzir a pequena frase que estava escrita ali.

— Ei, você está me ouvindo? — pergunta a garota olhando-o.

Ele piscou os olhos no mínimo cinco vezes, antes de voltar o seu olhar para o rosto da garota.

— Perdão — responde ele, levemente constrangido. — O que dizia?

Ele viu a garota soltar uma risadinha baixa e melodiosa, enquanto balançava, graciosamente, a cabeça em negação.

— Eu disse: “posso me sentar ao seu lado?” — perguntou ela, com a voz carregada de humor.

— Oh, sim. Claro — diz ele, olhando para o seu livro novamente.

— Obrigada — disse ela sentando-se ao seu lado.

Ela praticamente se jogou no banco e inclinou-se para trás, como se fosse deitar. Peter desviou os olhos para o livro novamente e tentou voltar a concentrar-se na leitura.

— Me chamo Annie Carter. — Ele escuta a voz da garota — E você?

Peter desviou seus olhos do livro e olhou novamente para a garota, que o encarava sorridente.

— Me chamo Peter Bonneville. — Soa simplista.

— Bonneville? — pergunta ela e ele assentiu — Você é parente de uma garota morena chamada Victória Bonneville?

— Sim, ela é minha irmã. — Ele ergue uma das suas sobrancelhas — Por quê?

— Ah, é que ela é da minha turma de espanhol. — A garota sorri.

— Hm — murmurou ele. Então, o moreno percebeu que a música de Chopin não tocava mais; apanhando o celular que estava ao seu lado, voltou novamente a música de sua playlist.

— Curte clássico? — perguntou ela erguendo suas sobrancelhas.

— Sim. — Ele sorri levemente — O som dos instrumentos me faz relaxar.

— Ah! — exclama ela — Gosto é gosto, né?!

— Sim, realmente. — Ele sorri mais — E essa é a minha música preferida, Nocturne No.20 In C-sharp minor, de Chopin.

— Quem é esse? É aquele surdo lá, que compôs uma música? — pergunta Annie o olhando com as sobrancelhas arqueadas.

Peter não conseguiu conter o sorriso que se erguia no canto dos seus lábios. Balançou a cabeça em negação, ao abaixá-la.

— Não, minha querida Annie. — Ele a olha por mais alguns segundos — Esse homem ao qual você se refere é Beethoven. O homem que estou falando é Frédéric Chopin.

Ele pode escutar a garota bufar ao seu lado.

— Tá, tá. Mas prefiro rock — diz ela rindo. — Clássico é coisa de gente chata.

— Ei! — exclama ele — Eu não sou chato.

Ele ouviu a garota gargalhar e não pôde evitar de sorrir.”

— Mas, Annie tinha o seu próprio gosto peculiar para filmes e séries. — Ele engole em seco — Ela amava The Big Bang Theory, assim como todos os livros e filmes da saga Harry Potter. Mesmo odiando clássico, a fiz ver um dos meus filmes preferidos e ela acabou se encantado com o filme: Orgulho e Preconceito. — Ele aperta mais a folha, a amassando — Ela tinha uma estranha paixão por animes e mangá, mas Naruto sempre foi o seu preferido. — Tanta sorri, mas o máximo que conseguiu foi formar os lábios em uma linha reta. — Uma vez ela me fez maratonar o anime inteiro, dizendo que iria me ensinar a ser menos careta e iria me fazer viver como um jovem normal, ao menos aquele dia. Annie estava certa, desde o começo, pois eu nunca me diverti tanto em minha vida.

Ele via Victória abraçada a Alexia em um canto mais afastado. Ele sabia que sua irmã chorava no ombro da amiga.

— Annie foi mais que uma simples estrela na vida das pessoas. Ela era o próprio Sol — diz ele, sentindo o nó se formar em sua garganta. — Ela iluminava nosso dia nublado com seu doce sorriso e fazia nosso coração se aquecer com a sua companhia. O seu brilho nos fazia enxergar além da escuridão dos dias difíceis.

“ Peter estava deitado sob uma manta ao lado de Annie. Os dois haviam subido a pequena colina para admirar o pôr do Sol, pois aquela era a época que Orrville estava parcialmente nublada e o clima estava mais quente.

— É encantador — murmura Peter maravilhado.

— Eu disse que você iria gostar — diz Annie risonha.

— As vezes eu sou agradecido em concordar com suas maluquices, Annie.

Ele ouviu a garota gargalhar ao seu lado, enquanto os cabelos ruivos da mesma balançavam graciosamente com o vento, lhe dando um ar gracioso e admirável.

— Eu vou tomar isso como um elogio, Sr. Careta — diz a garota com humor.

— Minha mãe me apoiou na minha decisão de ir cursar música, na universidade de Julliard — disse ele sorrindo — Você deveria ir comigo para Nova York, Annie.

— É o que eu mais queria, Peter. Mas, o meu pai quer que eu vá para Stanford. Ele disse que eu deveria me formar em direito, assim como ele — diz a garota, sentindo o coração se apertar.

O moreno desviou os olhos do Sol e mirou os olhos castanhos da jovem.

— Mas o que você realmente quer? — pergunta.

Annie queria ser uma dançarina, Peter sabia disso. Ela queria poder ir para Julliard com o rapaz. Ela queria ir para Nova York e cursar dança. Era isso que Annie queria. Mas, ela jamais teria coragem de decepcionar os seus pais, mesmo que para isso tivesse que abrir mão dos seus sonhos.

Ela já havia causado desgosto demais para sua família. Então, não podia se dar ao luxo de causar mais um.

— Peter... — sussurra em um tom de repreensão.

— O que você realmente quer, Annie? — pergunta ele novamente.

— O que eu quero não importa — diz ela olhando para os olhos negros do moreno. — Por favor, não vamos falar mais sobre isso.

Ela pode escutar o jovem suspirar ao seu lado e isso a fez sentir novamente um incômodo no peito.

Ela sempre decepciona as pessoas, sempre.

— Tudo bem.

Eles ficaram olhando a paisagem até o Sol se pôr no horizonte. O crepúsculo do anoitecer já podia ser visto e admirado.

— Eu te amo, Annie. — O garoto diz com sinceridade.

Ele escutou a garota ofegar e olhar com os olhos arregalados, enquanto sentia seu tolo coração se aquecer.

— Eu também te amo, Peter — responde a garota com a voz levemente emocionada — Você é a razão de eu querer sorrir todos os dias.”

— Ela tinha sua própria essência cativadora — Olhou para as pessoas e pode ver que a mãe de Annie chorava sendo amparada por seu marido, assim como a maioria das pessoas que estavam tão arrasadas quanto ela. — Ela era uma pessoa incrível e eu tive a maior sorte desse mundo em ter tido a oportunidade de ter a conhecido. E eu sei que ela deve estar cativando os anjos neste exato momento — Deu um sorriso triste e olhou para o vitral — pois, Annie Carter é a melhor amiga que alguém poderia ter.

“ Annie estava linda em seu vestido azul bebê. Ela parecia uma linda princesa, em sua festa de dezesseis anos.

Ela o olha pelo espelho e sorri. Ela estava realmente muito bela.

— Já disse que você é a aniversariante mais linda do mundo? — perguntou Peter colocando uma delicada tiara, que mais parecia uma coroa, no cabelo de sua amiga, que naquele momento estava preso em um coque, mas deixava alguns cachos escaparem.

— Você também não está nada mal, Sr. Bonneville — diz ela sorrindo.

— Eu sei que estou um arraso — ele sorri, convencido.

Ele percebeu a garota revirar os olhos e logo em seguida dar uma risada baixa.

— Não é pra tanto, Peter.

Os dois acabaram descendo juntos no salão que ocorria a festa. Annie fez questão de estar com os braços entrelaçados ao do amigo a todo o momento.

— Hora da valsa, meu amor — diz a mãe de Annie olhando-a.

— Dança comigo, Peter? — pergunta ela olhando-o com os olhos brilhando.

— Mas, Annie, eu não posso. — Olha para ela — O seu pai...

— Eu só danço se você dançar comigo primeiro — diz ela olhando-o com um sorriso — Por favor, diz que sim?!

Peter olha para os pais de Annie, como se pedisse confirmação e os que assentem com um sorriso, lhe permitindo ter a primeira valsa com a sua filha.

Annie sorri empolgada, o puxando pelo braço, para o meio do salão.

— Você é maluca — diz ele rindo baixo.

Então, as primeiras melodias da música começaram tocadas, fazendo o garoto arregalar os olhos e a olhar boquiaberto.

— Isso é...

— Nocturne sei lá o que, de Chopin — diz ela com um sorriso largo — Queria que a nossa primeira dança fosse especial, Sr. Bonneville.

— Eu me sinto honrado, Srta. Carter. — Ele sorri.

— Caso houvesse como eu invocar um patrono aqui e agora, com toda a certeza, você seria a minha lembrança mais feliz, Peter — disse a garota o olhando com os olhos marejados.

Sem conseguir conter o sentimento esquisito que tomara conta de seu tolo coração, o garoto se inclinou e selou de leve os seus lábios sobre a testa da jovem.”

— Eu me sinto honrado por ter sido o seu melhor amigo e confidente. — A vontade de chorar era quase insuportável — Eu a amo... — sua voz treme. Fechou os seus olhos na tentativa de se controlar — para sempre e todo o sempre eu vou amá-la.

" Peter sentia o vento gelado ir de encontro ao seu corpo, enquanto a garoa fina umedecia o seu cabelo. Já estava escurecendo e ele precisava chegar em casa antes do jantar.

Ponhou as mãos dentro do bolso do casaco e se obrigou a andar mais rápido.

Ele estava na casa de Charlotte Evans, co-capitã das líderes de torcida, devido ao trabalho química que deveriam fazer juntos.

Com um pequeno sorriso nos lábios, se lembrou do que havia acontecido mais cedo, antes dos pais da jovem chegarem. O momento em que Charlotte havia se entregado a si. O momento em que ela o apresentou os prazeres da carne e a luxúria do mundo. Sim, ele havia acabado de perder sua virgindade com uma das garotas mais populares de Orrville High School.

Muitos diriam que ele era um sortudo filho da mãe e obviamente ele concordaria, radiante.

Ele nem percebeu que já estava em seu quarto e deitado em sua cama, muito menos sabia como havia trocado de roupa e mal se lembrava se já havia jantando. Ele estava tão aéreo e perdido em seus próprios pensamentos, que mal notou que quase não interagiu com sua família quando chegou. Riu sozinho, ao notar o quão bobalhão estava sendo, mas quem poderia o culpar a final? Ele agora era um homem.

— Para de ser idiota, Peter. — riu baixinho.

Ele escutou um toque em sua varanda. Ele tirou os cobertores de cima de si e levantou-se, em passos lentos, caminhou até ela. Abriu a porta de vidro, lentamente e se deparando com a figura feminina olhando-o.

— Annie? — pergunta ele surpreso.

— Você não respondeu nem uma das minhas mensagens. Então, eu vim ver como você está — diz ela entrando em seu quarto. — E também nem sei pra que você tem celular, se não é para se comunicar com as pessoas.

— Me desculpe. — Ele a olha e vê a mesma se sentar em sua cama — Eu estive ocupado o dinheiro inteiro. Fui fazer o trabalho de química com Charlotte Evans, mais cedo.

— Hm. — escutou a mesma murmurar, enquanto o rapaz fechava a porta de sua varanda. — o Mr. Adams me colocou para fazer o trabalho com Thalita Foster. A garota gótica, irmã do capitão do time de lacross, James Foster.

Ela se deita em sua cama, enquanto os cabelos vermelhos se espalham pelo lençol.

— Boa sorte. — O rapaz ri e se deita ao lado da garota.

— Você é muito engraçado, Sr. Bonneville. — diz a garota revirando os olhos.

— Eu sei. — Ele beija a bochecha da garota e os cobre. Peter sabia que Annie estava ciente de que ele não a deixaria ir embora àquela hora, ainda mais no frio. Eles já haviam dormido juntos várias vezes, mas para ele era como dormir com Victória. Annie era como uma irmã para si.

A garota deitou a cabeça no peito do rapaz, enquanto sentia ele lhe acariciar os cabelos.

— Você está diferente — comenta a garota olhando nos olhos.

— O quê? — pergunta confuso.

— Você está mais radiante. — Ela o examina — O que aconteceu?

O rapaz engoliu em seco e olhou para o teto.

— Eu perdi a minha virgindade com Charlotte, hoje — diz o rapaz em um suspiro.

Ele viu a garota ofegar em surpresa. Por um segundo ele acreditou ver um lampejo de decepção nos olhos com de amêndoas da moça. No entanto, a mesma disfarçou com um sorriso.

— Uau — diz ela abaixando a cabeça, enquanto sentia as mãos dele em seus cabelos.

O coração da garota parecia grande demais em seu peito. Entretanto, ela não tinha o direito de sentir-se mal, não pelo Peter. Ele era a única razão de sempre manter a sua sanidade, ele era seu porto seguro, seu refúgio. Então, não. Ela não tinha o direito de sentir tristeza pela felicidade do rapaz. — Ela o abraçou e afundou o rosto no peito do jovem e suspirou, ao sentir o cheiro de lavando que vinha dele.

Ele era o seu melhor amigo, ele era o único que se importava verdadeiramente com ela. Ele era a única pessoa que a fazia sentir viva.

Ela sentiu a respiração do rapaz se tornar mais leve e a mão do mesmo havia parado de acariciar os seus cabelos.

— Fico feliz por você, Peter — sussurrou ela erguendo a cabeça. Se deparou com o rapaz com os olhos fechados e com o semblante sereno. Ela amava vê-lo dormir. Ela amava o sorriso largo do rapaz. Ela amava como ele sempre conseguia fazê-la se sentir leve, com apenas sua presença.

Ela o amava.

Ela o amava de todas as formas possíveis, e por causa desse amor ela se contentava em ser apenas sua amiga. E por amá-lo, Annie queria, de todo o coração, vê-lo feliz, mesmo que isso acabaria custando sua felicidade também.

Não sendo egoísta ou pensando em si própria, mas deveria colocar a felicidade do amigo acima da sua. Naquele momento se questionou se sua casa era mesmo a Sonserina, pois tinha que ser corajoso e bom demais para abrir mão de alguém. Ela soube reconhecer a derrota.

A garota se esticou para o lado e desligou o abajur e voltou a se deitar aninhada ao rapaz.

Peter podia quase jurar que sentiu alguém lhe selar os lábios durante a noite."

— Ainda sou incapaz de acreditar que a garota alegre e de sorriso fácil, a garota da risada escandalosa e contagiante, era na verdade... Uma das pessoas mais tristes que eu já conheci. — O rapaz respirou fundo mais uma vez — Ela era uma garota cheia tão de vida, com tantos sonhos, que chega ser quase impossível de acreditar que ela não está mais aqui— diz abrindo os seus olhos que estavam marejados.

" Annie e Peter corriam feito loucos pela chuva, se molhando tanto pela água que caía do céu, como pelas pessoas que só formavam no chão.

Até que começaram a correr pela grama e Annie escorregou, levando Peter junto ao chão, o qual caiu por cima de si. Começaram a rir descontroladamente. Annie rola para o lado oposto — assim como ela — ficando de barriga para cima e deixando a chuva molhar os seus rostos.

Ficaram um tempo assim, sentindo a chuva os envolveram.

Peter se vira para a garota, que olhava para o céu, com um olhar distante, quase melancólico. Naquele ângulo, parecia que a garota estava chorando. Confuso e sentindo o coração apertado, ele entreabre os lábios sem saber o que dizer.

— Annie...? — Ele a olha com preocupação e ela se vira para ele, acordando a garota, que estava perdida em pensamentos.

— Eu te amo, Peter — diz ela, tentando controlar a voz.

— Eu também amo você.

Annie ergue a sua mão, mostrando o seu mindinho e o garoto também faz os mesmo. Os dois cruzaram os seus mindinhos e ela sorri, mas se Peter fosse mais atento ele teria notado a tristeza naquele pequeno sorriso. Ele teria notado o pedido de socorro silencioso, que os olhos castanhos da garota gritavam.

— Melhores amigos até o fim — diz Peter olhando para os seus mindinhos unidos.

— Até o fim — sussurrou Annie com a voz distante."

— Nós seremos melhores amigos para sempre e o para sempre não tem fim. — Olhou para o caixão deixando uma lágrima, uma única lágrima, dolorosa cair. — "Melhores amigos até o fim". Essa era a nossa frase — diz a sua frase com a voz embargada. — Obrigado — diz saindo da frente do seu caixão. Escutou soluços e gemidos de dor das pessoas.

[...]

Ele ficou até o final e viu o caixão descendo a cova, enquanto flores eram jogadas sobre ele. Mesmo com a cabeça latejando, mesmo não conseguindo dizer adeus, decidiu ficar ali.

— Peter? — diz uma voz masculina o chamando, já fora do cemitério.

O rapaz se virou para olhar o dono da voz, e sentiu cada músculo do seu corpo se enrijecer, ao se deparar com os olhos puramente azuis de James.

Ele não conseguiu reparar durante o velório, mas agora estando perto via o quão detonado o jovem capitão estava. Os olhos vermelhos e inchados, o rosto mais pálido do que o normal. Os cabelos loiros estavam totalmente desalinhados, devido o mesmo passar a mão e puxá-los a todo momento.

— James — diz ele secamente.

Ele pode ver o queixo do rapaz se inclinar levemente, enquanto o rapaz soltava-o lentamente pela boca. Por um momento, Peter imaginou-se dando um soco bem encaixado no queixo quadrado do rapaz.

— Será que nós poderíamos conversar? — pergunta o rapaz.

Peter olha de cima para baixo com desprezo visível em sua face e deixa um sorriso debochado escapar pelo canto do seus lábios.

— Por quê? — questiona. — O que você quer comigo, Foster? Ou melhor… — Ele arqueia as sobrancelhas. — O que você está fazendo aqui, depois de tudo que aconteceu?

Ele observou que o rapaz engoliu em seco e desviou os olhos para o chão.

— Eu só... — Ele observou o jovem respirar fundo. — Eu só queria entender o que levou ela a fazer isso. Eu... — O loiro passou a mão mais uma vez em seu cabelo e voltou a olhar para o moreno, com os olhos cheios de culpa e arrependimento.

Peter desviou o olhar e mirou o céu mais uma vez. O céu ainda continuava completamente nublado.

— Como eu vou saber — diz ele rispidamente. — Sua consciência está pesando, Foster? — perguntou em tom debochado, mas cheio de mágoa e raiva.

— Eu não vou ser um babaca, covarde, dizendo que não tive culpa. — Ele ouviu o rapaz fungar. — Eu sei que poderia muito bem ter evitado, mas, mesmo assim, não evitei e acabei machucando a Annie.

Peter direcionou os seus olhos escuros novamente em direção ao rapaz, vendo-o com o rosto molhado pelas lágrimas.

— Annie era uma garota incrível, James. Tão incrível e maravilhosa, que é difícil de se acreditar que alguém pôde ter partido o coração dela.

O loiro o olhou com tanta dor, inundando os olhos claros de arrependimento.

— Eu a amava. — Admite James com sofrimento.

— Quem ama não trai, Foster.

"Peter estava em sua sala, sentado no sofá, enquanto beija os lábios finos de Charlotte com desejo. A loira retribuía o beijo na mesma intensidade. Ele podia sentir o calor dominar cada parte em seu corpo e uma fisgada embaixo do seu ventre o fazia querer mais da jovem. Ele sentiu as mãos finas da garota desabotoar os botões de sua camisa, enquanto a da mesma estava em algum canto, jogada pela sala.

O barulho de alguém batendo na porta o faz acordar e se afastar da moça.

Por Deus. Quem era o filho da mãe que atrapalhava aquele momento?

— Só um minuto — diz ele dando um selinho na jovem e se afasta, indo em direção a porta, bufando.

Ele abotoou os botões de sua camisa social, de maneira apressada. Com um semblante irritado, abre a porta. Quase levou um susto ao deparar-se com a Annie completamente encharcada — pela chuva que caia sem piedade, pelo lado de fora —, em sua frente.

— Annie? O que aconteceu? — pergunta ele, preocupado, ao ver a tristeza nos olhos da garota. Ela estava devastada e era a primeira vez que ele a vira tão tristes e odiou isso.

Ela o abraçou com força e começou a soluçar contra o seu peito. Peter sentiu-se aflito, sem saber o que fazer. Ele sentia suas vestes também molharem, contudo, naquele momento, aquilo pouco o importava.

— Eu sou tão idiota — diz a garota soluçando. — Fui uma tola em querer acreditar que eu era o suficiente — diz ela contra o seu peito — Mas eu sabia que não era... Mas, só queria acreditar. Eu queria acreditar...

O garoto sente o coração se esmagar contra o seu peito.

— O que houve? — sussurra ele a apertando contra si.

— James me traiu — diz a garota com a voz embargada.

— O que? — pergunta o moreno irado.

— Eu o vi. — A garota soluça — Ele estava com a Kristene.

— Oh, Annie... — diz Peter, acariciando os cabelos molhados da garota.

— Eu não sabia o que fazer, Peter. Então, eu vim pra cá — diz a garota o apertando — Eu sabia que você me faria me sentir melhor, como sempre faz. — A garota soluça. — Eu preciso...

— Quem é, Peter? — pergunta a voz feminina a interrompendo.

Annie se afasta do amigo e olha por cima do ombro do mesmo e vê a garota loira vestir a camiseta. A ruiva sentiu o corpo paralisar ao reconhecê-la: Charlotte Evans. A garota que tirou a virgindade do seu amigo. Então, lentamente ela desviou seus olhos para o rapaz e pela primeira vez notou, que os lábios do mesmo estavam borrados de batom vermelho. A camiseta social do jovem estava amassada e os botões abotoados de forma incorreta, fora do lugar certo.

Ela sentiu o ar faltar em seu pulmão e as lágrimas descerem com mais intensidade. Não precisava ser nenhum gênio para saber o que estava acontecendo ali. Annie sabia que os dois ficavam a algum tempo, mesmo que ela nunca tivesse presenciado. Então, por que, raios, aquilo doía tanto?

— Me desculpe. Não foi uma boa hora, 'né? — pergunta a garota magoada e se afasta, indo de encontro a chuva.

— O quê? Não. Espere, Annie — diz o garoto atordoado e a olha sem entender.

Ela sentiu o seu tolo coração se partir em tantos pedaços, que mal se poderia contar.

— Não, Peter. Me desculpe por interromper o casal.

— Annie? — Charlotte aparece ao lado de Peter. Annie não entendia o que estava acontecendo com ela mesma. Aquilo estava doendo mais do que a traição de James. Com toda a certeza, aquilo doía mais que a Maldição Cruciatus.

Ela ergueu seus olhos castanhos para a co-capitã. Os olhos azuis de Charlotte demonstravam curiosidade e... Preocupação. Deus, como ela desejava que a loira fosse uma víbora, mas, não; a Evans era uma boa pessoa. E por mais que odiasse admitir, olhando-os ali, parados em sua frente, os dois faziam um belo casal.

Ela se virou para sair, mas paralisou com a voz de Peter, lhe chamar:

— Espere, Annie.

Céus, aquilo era uma tortura.

— Não. — Ela se virou para o garoto furiosa, enquanto as lágrimas desciam pelo seu rosto, mas a chuva conseguia disfarçar. — Quer saber de uma coisa, Peter? Vá para o inferno. Vão todos para o inferno — gritou, perdendo todo o seu autocontrole e resto de sua sanidade, enquanto corria pela chuva.

Ela podia escutar o moreno gritar o seu nome, mas não. Ela não iria voltar, porque caso voltasse, Annie sabia que iria se arrepender amargamente. Pois, assim que encarasse os olhos do amigo, seria o fim de sua sanidade. Seria a sua ruína. Tudo o que a Carter queria naquele momento era esquecer. Esquecer da traição de James, da falsidade Kristine, das brigas constantes que tinha com seus pais, da inveja que sentia de Charlotte. Mas, principalmente, queria se esquecer, do amor que se permitiu sentir por Peter Bonneville.

Tudo o que ela desejava era esquecer."

Ele viu como outro ofegou e então se escorou no muro, como se precisasse de um apoio para se manter em pé.

Ficaram um tempo em silêncio, enquanto as lágrimas escorriam pela face do jovem capitão em sinal claro de arrependimento.

— Eu terminei tudo com Kristine, depois de que Annie nos pegou juntos ficando dentro do meu carro, mas eu estou ciente de que já é tarde demais — diz ele com melancolia — E tenho tanto ódio de mim, por ter arrancado aquele olhar de decepção dela. Eu me odeio mais que tudo por saber que a fiz chorar e por, talvez, também ter uma parcela de culpa pelo que aconteceu. Eu me odeio, Peter. — Ele escutou a voz do garoto se embargar novamente e isso fez o seu coração se contrair em dor. — Eu me odeio tanto, por saber que fiz aquela garota incrível sofrer. Eu a amo, mas como diz aquele velho ditado: “só perdendo pra gente saber valorizar”. — Ele riu com amargura — E eu a perdi.

— Saber que você se arrependeu fez com que minha raiva diminuísse um pouco, mas ainda a minha vontade é de te socar até você perder a consciência — diz Peter olhando-o.

— E eu sei que mereço — diz o rapaz em um suspiro cansado — Eu fui aceito em Princeton. Então, isso quer dizer que eu vou sumir do seu caminho. Vou tentar recomeçar em Nova Jersey, fora de Ohio.

Peter suspirou e olhou nos olhos azuis do rapaz e assentiu.

— Então, o melhor que eu posso fazer por você é te desejar boa sorte.

Ele reparou que o rapaz tentou sorrir, mas acabou não conseguindo.

— Valeu, Peter.

[...]

O caminho de volta a sua casa foi ainda mais silencioso do que a ida à igreja. Na verdade o que tinham pra falar, afinal? Somente o silêncio era o suficiente.

Ao entrar em seu quarto, ele observava os cacos espalhados pelo chão. Seu quarto estava uma bagunça, mas nada daquilo se comparava a bagunça e a balbúrdia que estava no seu interior.

Lentamente, desfez o nó de sua gravata e desabotoou o único botão de seu paletó.

Ele olhou para a porta de vidro da sua varanda, que naquele momento se encontrava embaçada, devido a chuva que caíra do lado de fora. Caminhou lentamente em direção a mesma, enquanto os cacos faziam barulho debaixo dos seus pés, ao serem esmagados por seu sapato social.

Ele parou em frente à porta e a abriu sem o menor cuidado, fazendo com que os seus pelos se arrepiarem devido ao vento gélido e úmido, que foi de encontro ao seu corpo. Ele pode sentir com clareza o cheiro de terra molhada e isso fez o seu coração se esmagar, pois Annie amava aquele cheiro. Tudo aquilo era uma tortura, pois tudo, absolutamente tudo, lhe lembrava ela.

Caminhou em direção à chuva, sentindo o seu corpo se encolher por um instante, devido a água gelada que caia sobre si. Ergueu a cabeça e olhou com dificuldade para o céu, que naquele momento desabava em uma densa chuva, com os olhos marejados. Em uma prece silenciosa, clamando a Deus, para tirar aquela dor de dentro do seu peito ou ao menos atenuar.

" Peter estava sentado no sofá de sua sala, enquanto suas pernas tremiam em ansiedade. Já eram mais de onze horas da noite e sua mãe estava com uma camisola de seda branca, sentada em sua frente.

O rosto da mulher estava inexpressivo, mas Peter observava os dedos da mais velha tremerem e isso o deixou levemente aflito.

— O que aconteceu? — pergunta Victória, entrando na sala com cara de sono, enquanto caminhava para se sentar ao lado do irmão.

— O Sr. Carter me ligou — diz ela, com a voz estranhamente controlada.

— O que? Como assim? — pergunta Peter a encarando, com as sobrancelhas franzidas — O que ele queria?

Victória olhava para mãe com a curiosidade nítida em seus olhos negros. Enquanto a mulher mais velha, solta um suspiro trêmulo, olhando para suas mãos com receio.

— Annie está no hospital — diz a mulher, engolindo em seco.

— O que? Por quê? — pergunta Victória confusa.

Peter sente os batimentos cardíacos acelerarem, temendo a resposta.

— Ela ingeriu uma quantidade muito grande de calmantes — diz a mulher agora erguendo a cabeça e fitando os filhos — Ela foi encontrada desacordada no quarto, com os remédios espalhados pelo chão. — A mulher passa a mão no rosto, como uma forma de afastar as lágrimas. — Eles a levaram para o hospital, mas... — Ela engoliu em seco, sem coragem para prosseguir. Sentiu a mão do seu marido apertando o seu ombro, como se dissesse: “Eu estou aqui com você”.

— O... O que? Co... Como assim? — pergunta Victória gaguejando — Ela tentou suicídio?

Peter sente o corpo inteiro tremer e se levanta do sofá rapidamente.

— Eu vou ao hospital — diz ele, caminhando em passos rápidos em direção às escadas.

— Eu vou com você — diz Victória, caminhando logo atrás do rapaz, com o rosto transtornado e as lágrimas banhando a sua face.

— Espere — diz seu pai, olhando-os com os olhos cansados — Não... — Ele respira fundo — Não há nada que você possa fazer agora, Peter.

O rapaz se vira para o casal, irritado. Seu coração se esmagava em seu peito em preocupação, desejando estar ao lado de sua amiga naquele momento.

— Como não? — pergunta ele — Annie é minha amiga, pai. Eu preciso estar ao lado dela.

— Peter....— diz sua mãe com a voz quebrada, enquanto deixa uma lágrima cair, junto com sua máscara de indiferença — Infelizmente a Annie... — Ela respira fundo, enquanto outra lágrima cai. Ciente do estrago que aquelas palavras causariam, com os olhos fechados, acrescentou: — Annie já chegou sem vida ao hospital. Ela está... Morta.

Peter sente seu mundo ficar em câmera lenta, onde ele conseguia ouvir o som da sua própria respiração ofegante e o coração pulsando, com uma impressionante clareza. Era como se os seus pés grudassem no chão, sentindo o seu corpo paralisar, perdendo totalmente os movimentos, a única coisa que conseguia fazer naquele momento era respirar. No entanto, naquele momento parecia que o ar o sufocava, como se estivesse o envenenando.

— O que? — pergunta Victória, perdendo as forças nas pernas e caindo no chão.

— Não... — sussurrou Peter. Sentiu o ar se esvair do seus pulmões, como se houvesse levado um chute no estômago. Mas, na verdade, o que ele realmente sentia, era como se uma lâmina rasgasse lentamente e dolorosamente o seu coração."

Ele sentia o seu terno grudar em seu corpo, porém, isso pouco lhe importava. Ele queria sentir aquela chuva, queria com todas as suas forças que ela levasse aquela dor horrível. — Deus, ele queria tanto que aquilo tudo fosse só um pesadelo. Mas, infelizmente, não era; tudo aquilo era real.

Céus, aquilo doía como o inferno.

Fechou os olhos e levou sua mão esquerda em direção ao seu peito, apertando o paletó com força. Deixou o soluço reprimido escapar do fundo de sua garganta, enquanto as lágrimas escorriam por sua face, misturando-se com a chuva e pela primeira vez permitiu-se chorar a dor do luto. Permitiu derramar toda a dor dilacerante que sentia em seu coração… E era como se o céu, naquele momento, chorasse junto com ele.



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