Notas iniciais
Pessoal, minha primeira fic!

Houve uma gritaria geral quando anunciaram o nome dele. Eu podia sentir a excitação de todos ali ao erguerem seus punhos ao ar, como uma saudação. Três mil pessoas presentes com um único objetivo: torcer pelo campeão em ascensão.

Eles o veneravam.

Roque, o treinador, o esperava na entrada do ringue. Estava orgulhoso, ansioso, atento. Ele riu fracamente e olhou para mim, apontando para a orelha direita. Cerrei os olhos e prestei atenção na música de entrada dele: I'm not afraid, Eminem. Sorri, pois era a trilha que eu tinha sugerido.

Caminharemos nessa estrada juntos pela tempestade, em qualquer tempo, frio ou quente

Ele foi recebido ao ringue com mais gritos. Meu coração se aquecia só de ver o sorriso de satisfação. Eu, ali da primeira fileira, mal conseguindo permanecer sentada de tanta empolgação, tinha certeza que aquele era um grande dia. Ele merecia, depois de tudo que já tinha passado.

Acho que eu tinha que ir lá para chegar aqui, alguns de vocês talvez ainda estejam naquele lugar, se está tentando sair, simplesmente me siga...

Enquanto o apresentador da noite anunciava os patrocinadores oficiais, Cobra olhou na minha direção. Não disse nada, não esboçou nenhuma feição decifrável. Era apenas ele ali, olhando para mim. E eu podia entender tudo que queria dizer. Não precisávamos verbalizar, sorrir ou fazer gestos. Do nosso jeito, sabíamos que cada vez que um de nós subia no tatame e batíamos as luvas, era pelo outro.

Eu costumava dizer: eu e ele contra o mundo.

Cobra cumprimentou o rival, recebeu as últimas palavras do treinador, me olhou pela última vez e a luta começou.

Eu só faço, não me importo, o que você pensa? To fazendo isso por mim, foda-se o mundo...

Dois rounds se passaram. A luta estava equilibrada, os dois eram excelentes. Socos certeiros, rápidos, precisos, raivosos, furiosos, vontade de vencer. Nessa altura os dois estavam machucados, com pesar verifiquei que Cobra estava sangrando um pouco mais. Algo no rival, Alexander Ferrer, me incomodava. Ele tinha olhos cruéis, de alguém que procura se vingar do adversário. Em lutas, era normal assumirmos uma pose de bad boy, como forma de intimidar o oponente. Mas não daquele jeito. Era como se ele tivesse problemas pessoas com Cobra. Se fosse eu naquele ringue em seu lugar, o olhar dele se equivaleria ao olhar que eu lançaria para Bianca, por exemplo.

Terceiro round. As ring girls entraram, distraindo por instantes a plateia. Dez segundos de luta justo e então, de repente, tudo aconteceu de uma vez só.

O golpe ilegal veio certeiro ao mesmo tempo que eu e sua torcida nos levantamos berrando palavrões. Cobra tentou se levantar e o pior aconteceu: abandonando completamente a razão e ideais de luta, Alexander acertou sua cabeça no chão em um golpe fatal. Insatisfeito, chutes vieram na mesma região.

O ringue girou milhares de vezes enquanto braços fortes me impediam de ir ao seu encontro. Lembro de macas, pessoas de branco e gritaria. Muita gritaria. Os jornais do dia seguinte relatariam aquilo como a maior confusão do ano.

I'm not afraid, I'm not afraid....

Ambulância. Hospital. Sem parentes, é claro. Apenas eu e seu treinador esperando. Descobri ali naquele sala de espera o que era rezar.

Um homem alto, com pose de gente séria nos deu a notícia sem cerimônias. Disse alguns termos, nos explicou alguns exames, falou sobre novos tratamentos, nos disse que a Liga iria arcar com tudo. Tudo isso para dizer a única palavra que eu consegui absorver ao final?

- Coma? — repeti baixinho, enquanto Roque jogou-se na cadeira com as mãos nos olhos — tipo, morto vivo? Por quanto tempo?

- Não posso dizer, senhorita. Isso depende dele apenas. Faremos o máximo, mas jamais poderia te dar uma previsão.

Coma vem do grego e significa sono profundo. Coma significa estado de inconsciência. Coma, naquele momento, significou que ele não estava mais ali por enquanto.

Coma significa que eu estava sozinha no mundo.

Notas finais
O que acharam?