A ruiva abriu a porta da geladeira, fazendo com que o os vidros e potes chacoalhassem precariamente lá dentro. Procurava algo para beber. Logo que chegou na festa sua amiga Marlene tratou de encher dois copos com alguma bebida forte para as duas, mas Lily não era muito de álcool. Ela não era nada de álcool, nem de festa, e mesmo assim estava em uma. Era só que o sentimento de deslocamento a acompanhava desde a noite anterior ao evento até o dia seguinte, ela sempre tinha a impressão que tinha feito ou faria papel de boba. Deixou a bebida descer pelo ralo da pia e substituiu por suco de uva encontrado na geladeira. Podia até fingir que era vinho, assim quem sabe ninguém enchesse a paciência por ela, uma garota em seus plenos 20 anos, não beber.

— Sabe, alguém já te falou sobre o conceito de festa? — falou alguém da porta da cozinha. Lily virou-se para dar de cara com um moreno baixo, cabelo bagunçado, barba bem aparada e... quente. Lily sabia por cima quem era, mas isso não significada que ele saberia também. — Oi, eu sou o James.

Eu sei, pensou ela. Estudante do quinto semestre de engenharia, trabalha na prefeitura da cidade com Mary McDonald. Tinha um encontro ontem, e disse pra todo mundo que tinha se preparado todo porque dessa vez... Bom, ela sabia quem era.

— Lily — sorriu o mais natural que conseguiu. Era por isso que ela nunca vinha nessas coisas... Não tinha ideia de como conversar com ele.

— Sabe, Lily, jogar bebida boa em festa é quase contra lei! — o garoto sorriu abertamente, aproximando-se. — Você é a amiga da Marlene, não é? Acho que a gente já se viu...

— Sou sim — sorriu sem jeito, encostando-se na bancada. — Você estuda em Hogwarts, não é? Eu também, sexto semestre de Direito. A gente deve ter se visto nos corredores...

Ou em fotos. Ela via muito James nas fotos das festas da cidade, muitas com Marlene ou Mary. Duvidava seriamente que ele sequer tenha reparado nela em alguma foto de eventos das amigas... Lily sempre saia meio apagada em fotos, o que era um absurdo se você considerasse que a menina era ruiva.

— Eu nunca vi você em festas com a Marlene — a música lá fora aumentou um pouco e ele se aproximou mais. Será que ele era rouco daquele jeito mesmo? Porque se fosse aquilo era uma puta injustiça, além de lindo tinha uma voz tão sexy.

— Eu não sou muito de festa — respondeu, bebericando seu suco.

— Ué, por que não? — quis saber, como se fosse muito incomum. Ah, James Potter... Você realmente não consegue entender como uma nerd pode não se sentir bem em uma festa?

— Sei lá... Eu só... — encolheu os ombros, jogando aquilo como resposta. Ele que se virasse com isso.

— Nós podemos mudar isso! — sorriu ele, e Lily sentiu sua pele esquentando. Que sorriso! Aquilo era totalmente... Pervertido. — Vamos dançar?

— Não sou muito de dança também — riu nervosa. Isso dizia muito sobre o porquê estava escondida na cozinha e não no meio de todo mundo. Espremida no meio deles, aquele cheiro forte de bebida, cigarros e corpos suados. A música alta e o chão que parecia irregular e escorregadio.

— Ah, vamos lá — riu ele, definitivamente muito perto. — Eu sou um ótimo condutor!

A ruiva riu, escondendo o rosto em seu copo, balançando suavemente a cabeça.

— Tudo bem — concordou James, resignado. — Mas a gente podia ir lá pra fora, né?

Já tinha excedido o tempo em seu esconderijo, então concordou, indo em direção à sala. De onde tinha vindo aquele "a gente"? Eles não estavam juntos, mal se conheciam.

Encontraram uma roda de amigos em comum, incluindo Marlene e se ajeitaram no meio deles. Alguns mexiam nos celulares, outros brincaram e riam, ela se encaixou ali, rindo com eles, mas sem falar nada.

— Finalmente vocês se conheceram! — gritou Marlene, do outro lado da roda. Ela se equilibrava de uma forma muito suspeita no carinha do lado, jogando charme e seu decote para quem quisesse receber. — Lily ouve falar muito de você!

— Ah, é? — sorriu James em direção a ruiva. — Bem ou mal?

— Bem — sorriu ela também. — Eu estudo com a Mary, ela fala muito do emprego.

— Vou até passar menos serviço pra ela segunda — riu ele. — Aliás — o barulho era bem alto, ele aumentou o tom de voz, mas Lily mal ouvia. Aproximou-se dele, sua orelha em direção à boca do moreno, a mão dele suavemente em sua cintura. — Aliás, a Mary vem?

— Acho que não, disse que ia ver com o namorado — respondeu Lily, hiper consciente da proximidade. Os lábios de James eram bem rosas, pareciam muito interessante. Os dois eram quase da mesma altura, o local onde a mão de James permanecia parecia o centro do seu corpo agora.

— Que pena — o sorriso dele murchou um pouco. — E você, Lily? Tem namorado?

— Não — negou a garota. Nem se deu ao trabalho de perguntar se ele tinha, sabia que não.

A música diminuiu e os dois se afastaram. Lily o observava por trás de seu copo, ele era tudo o que todo mundo dizia e mais um pouco. Brincava com todo mundo, o sorriso sempre no rosto. Às vezes arriscava uns passos de dança com uma das meninas, e Lily só queria estar no lugar delas, com o corpo colado no dele, passar a mão por aqueles cabelos, e seus braços e lábios...

— Marlene... — Lily chamou a amiga. — Pega aqui a chave da sua casa, acho que eu já vou.

Marlene nem discutiu, já tinha sido um esforço a menina ter chegado até ali e permanecido tanto tempo.

A ruiva se despediu da roda de amigos e James foi o último.

— Já vou indo, tchau James — a intenção era ser só um aperto de mão ou algo assim, mas o garoto colocou uma das mãos no cabelo da ruiva e deu um beijo em sua bochecha.

— Tchau, Lily — despediu-se ele, aquela voz rouca em sua orelha. — Foi um prazer te conhecer, até a próxima.

A ruiva sorriu e foi embora, o sangue pulsando forte em seus ouvidos, coração acelerado e o estômago agitado.

Ah, como ela queria a chance de ter uma próxima. Quem sabe eles se encontrassem nos corredores da faculdade no outro dia, ou em um lugar mais a vontade...

Deixou a festa com a nítida sensação de que não tiraria James Potter de sua cabeça até a próxima vez.

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