Quando senti sono, Caleb se levantou, então não dormi. Eram seis horas da manhã e eu tinha acabado de me aprontar. Caleb não falava conosco mais do que necessário, e Brad ainda estava com sono por isso nem chegou notar o clima estranho. Mas eu notei, acho que notei pelo menos.

– Toma — Caleb me entregou o passaporte quando chegamos ao aeroporto.

Entramos no avião sem falar nada, sentei na cadeira da janela, Caleb do meu lado e Brad na ponta. O avião decolou, mas nenhum dos dois fizeram nada de normal como as outras pessoas, eles ficaram totalmente alertas, os dois, como se esperasse que alguém se levantasse e atirasse contra nós.

– Tem alguma coisa errada ? — sussurro para Caleb.

– Estamos indo para um país que nos odeia. O que não está errado ? — disse rude.

– Desculpe — murmurei — mas o que acontece com você? Uma hora seu humor está ótimo, outra hora chega com pedra e pau na mão.

– Isso é perigoso — ele continuava rude — tem gente tentado te matar pra conseguir a porcaria que seus pais fizeram. Estamos indo para uma base desativada onde, por acaso, Brad perdeu a perna, e você está preocupada com o meu humor ?

– Estou tentando entender porque você não faz o minimo esforço para ser agradável na maioria das vezes.

– Não tenho que ser agradável, Ana — seu tom rude foi substituído por um cansado — só tenho que te manter viva.

– Talvez eu não queira isso — murmurei para mim mesmo.

– Nunca mais — ele diz contendo a fúria em suas palavras — diga isso de novo.

Olhei em seus olhos e eles pareciam determinados, preocupados e cansados, como sempre. Ele me olhava como se, por acaso, eu resolvesse me jogar de uma ponte, ele estaria lá em baixo para me pegar, ou melhor, ele estaria lá em cima pronto para me impedir. Não tive outra reação, apenas virei para a janela.

– Melhor você dormir — ele disse — já que passou a noite acordada.

Não respondi, mas ele tinha razão, eu estava exausta.

Acordei assim que o avião pousou. Chegando do lado de fora, Caleb pediu que um taxista nos levasse até um hotel que quando chegamos, notei, era luxuoso, muito bonito e de andares intermináveis. De novo ficamos na cobertura.

Dessa vez éramos três estudantes em expedição.

– Fiquem aqui — Caleb disse — vou alugar um carro. Não abram a porta pra ninguém.

– Claro, Caleb — disse Brad revirando os olhos.

Caleb o ignorou e foi embora.

Resolvi explorar o local, quando passamos pela porta uma enorme sala aparece, mais para cima um balcão separa a cozinha da sala, tudo muito luxuoso. A parede toda de vidro mostra a cidade logo abaixo de nós. A parede onde fica a TV tem uma abertura do lado direito onde tem um largo corredor onde ficam os quartos, escritório e acesso a parte de cima onde fica a piscina. Subo até lá e me encanto com a vista. A piscina é enorme, em formato retangular e fica bem na beira do prédio, o resto é todo um jardim, cheio de flores, há um banco embaixo de uma parreira bem trabalhada.

– Ual — digo para mim mesma.

Me sento na beira da piscina de pernas cruzadas, brinco com a água usando as mãos por um tempo até ouvir passos subindo a escada.

– Ana ? — Brad me chama.

– Aqui.

Ele olha direto para mim e sorri, depois se senta ao meu lado.

– É uma vista bonita... — diz pensativo.

– É sim.

Ficamos em silêncio por um tempo, Brad fez como eu e colocou as mãos dentro da água.

– Eu não gosto desse lugar — ele diz.

– Imagino...

Voltamos a ficar em silêncio, Brad ficou fitando a cidade por um tempo, depois voltou sua atenção para a água. Caleb não demorou a chegar, tínhamos acabado de voltar para dentro quando ele passou pela porta.

– E agora ? — pergunto.

– Vamos sair daqui uma hora. Não é muito longe daqui e quanto mais rápido acabarmos com isso, melhor.

Assinto e pego minha mochila em cima do sofá.

– Com que quarto eu vou ficar ? — pergunto.

– Pode escolher — Caleb dá de ombros.

Entro no corredor e pego o quarto do meio, ele tem uma cama enorme, uma TV de frente para a cama na parede, uma parede toda de vidro como a da sala com grandes cortinas pretas, o carpete era macio e havia um banheiro igualmente enorme, com uma gigantesca banheira. Não tive tempo para aproveitar a banheira, por que tomei uma ducha rápida, coloquei um jeans, meus tênis e uma camiseta regata, por causa do calor. Prendi o cabelo em um rabo de cavalo e sai do quarto. Os dois já estava na sala esperando, Caleb usava o uniforme preto, e, incrivelmente, Brad também. Fiquei meio deslocada olhando para os dois bem vestidos, ambos ficavam extremamente lindos de preto.

– Hm... Vamos? — perguntei.

– Vamos — Caleb disse — mas antes vista isso.

E me entregou uma muda de roupas com um coturno preto em cima.

– Isso é mesmo necessário ? — perguntou Brad, mau humorado.

– Sabe que não está totalmente vazia e ela não ia chegar nem perto vestida como uma civil.

Brad bufa e eu pego as roupas na mão de Caleb. Volto para dentro do quarto e vejo as roupas que Caleb me mandou usar. Uma calça preta jeans e uma camiseta comum, quando coloquei a roupa elas marcaram o corpo, mas eu entendi porque eles as usavam, essas roupas davam grande liberdade de movimentos e isso era bom. Coloquei os coturnos pretos e notei que parecia como eles. Estava até bonita.

Voltei para a sala e Caleb me olhou de cima a baixo quando me viu. Brad me olhou como se aquilo fosse ruim.

– Está tão ruim ? — perguntei olhando para baixo.

– Não, não — Brad disse rapidamente — podemos ir ?

– Vamos — Caleb respondeu seco.

Usamos um elevador particular de dentro do apartamento, direto para o estacionamento onde um Jeep muito parecido com o que Caleb usava estava parado.

– O que, raios, você tem com Jeeps ? — Brad pergunta.

...

Quando paramos, olhei em volta sem entender nada. Era uma estrada deserta com uma casinha de madeira caindo aos pedaços no meio do nada. Parecia a cena da casa do Cão Coragem.

– É aqui ?

– É — Brad respondeu, seu maxilar estava travado.

– Brad, você não precisa ir se não...

– Precisa sim — Caleb interrompeu e eu o olhei com raiva — quanto mais segurança, melhor.

– Tem razão — Brad respondeu rápido.

Ele foi o primeiro a sair do carro, nós fomos depois. Andamos até a casinha caindo aos pedaços, o sol quente me fazia suar e a camiseta preta estava grudando nas minhas costas. Apenas eu parecia me incomodar com o calor.

Quando chegamos a casinha, não tinha nada lá dentro. Parte do teto tinha sido levado com o vento, mas isso não chamou minha atenção. O que chamou foi que em alguns pontos do chão a madeira estava queimada. Brad e Caleb andaram até os fundos e saíram. Procuraram até achar o que seria uma porta de um porão. Quando abriram a porta eu vi uma escada de madeira, nada fora do comum. Descemos, um porão comum. Dessa vez, eles abriram uma outra portinha no chão, então eu me surpreendi, não porque não vi a portinha, mas porque quando abriram eu vi o tinha embaixo. Um corredor branco, cheio de pedaços de parede e poeira, como um lugar depois de um terremoto.

– Chegamos — Brad disse.