Até a Eternidade
1 o Amor
Somos feitos do Amor. É dele que nascemos e é por ele que vivemos. Ele nos liga uns aos outros e nos mantém unidos. Aqueles que não amam nada nem ninguém, são destinados a passar a eternidade a sofrer na Solidão do escuro Inferno do deus Arsanno.
Foi no grande banquete de casamento entre a princesa de Iluna e o príncipe de Epel que revi minha amada. Estava belíssima. Seu nome, Zuria, casava perfeitamente com o meu, Beltzak. Éramos opostos: seus cabelos lhe eram alvos como as nuvens do verão; seus olhos, duas safiras azuis tão brilhantes quanto seu sorriso. Enquanto eu tinha os cabelos negros como a noite, os olhos acinzentados, mortos, tristes.
A conheci enquanto criança, quando viajei para o reino de Gazkia, lugar onde reinava seu pai. Gazkia e Iluna eram reinos amigos até aquele dia; não imaginei que levaríamos guerra conosco. Enamorei-me por aquela menina, tão bela e inocente. Não poderíamos nunca ficar juntos. Que importância isso tinha? Éramos crianças.
Durante a cerimônia, fiquei a observar-lhe cada movimento gracioso: suas palavras, seus gestos, seus jeitos. Ela me reconheceu. Veio falar-me. Sua voz era a própria delicadeza. Ah, como eu queria abraçá-la! Mas eu era um guerreiro. precisava manter a paz.
– Que fazes aqui? Pretendes algo contra o reino? — olhei atentamente em seus olhos.
– Não lembra de mim, guerreiro? Não namorávamos? — falava suavemente — Por que dizes a mim com tanta indiferença?
– Isso foi há muito tempo. Agora, és rainha, e está em território inimigo.
– Não poderia eu querer ver-te? Saber como está? Se ainda me ama... como eu o amo?
Não mentia. Seus olhos diziam a verdade. Minha voz traiu-me. Não queria expulsá-la. Mas não era aquele meu dever? Não a expulsei; aliás, não fiz coisa alguma.
Pois quando parei para observá-la, um de seus guardas atravessou-me com a espada e derrubou-me no chão. Senti a dor penetrar-me profundamente enquanto tentava ver o que acontecia: um ataque. Queriam tomar o palácio? Não sei.
A Morte veio até mim, abrindo caminho entre os outros guerreiros que tentavam lutar. A Sombra Negra era a mais pura serenidade. Recolheu-me em seus braços e levou-me até a morada dos mortos. "Então é assim que é a morte. É muito mais calma que a vida", pensei comigo. Quando o avistei.
Sentado em seu trono de sombras, estava Arsanno. Magnífico deus, cruel, sem qualquer sentimento. A Sombra deixou-me sozinho com ele.
– Você é um homem bom — falou-me — não seria justo deixá-lo afogar-se em Mafiaren...
– Que quer dizer? Vai me dar a vida de volta?
– Acabou de morrer, já queres voltar pro mundo dos vivos? És como todos os outros, desesperados para viver novamente. Vou explicar-lhe. Eu sou Arsanno. Eu estou aqui para dar-lhe um presente. Para contradizer o que vocês humanos dizem a meu respeito, eu concedo um pedido a todo aquele que foi bom em vida. Você pode me pedir qualquer coisa; desde que não seja sua vida de volta.
– Qualquer coisa? Não há nada que eu queira que possas me dar.
– Peça mesmo assim. Não é possível que somente deseja viver de novo.
– Quero estar com minha amada... é a única coisa que desejo.
***
Humanos são tão imprevisíveis. Muitos haviam passado por mim. Nenhum havia pedido algo que me causasse tanto ódio e tanta dor. Homens bons fazem coisas boas em vida, mas quando se deparam com um deus, demonstram o que verdadeiramente pensam. Eis aqui, na minha frente, um amante. Ele não me pediu riqueza alguma, ou um lugar de honra em Argiaren. Como seu último desejo, ele quis me causar fúria. Estar com sua amada. Ela o matou! E mesmo assim, o Amor o cegava após a morte.
Eu já fui apaixonado. Udaberri. Eu desejei viver com ela para todo a eternidade. Mas ela rejeitou-me. Disse-me que queria ser livre. Percebi que o Amor era um sentimento vil e insignificante, que não trazia nada além de sofrimento e solidão. Mas não poderia deixar de cumprir minha palavra. Eu teria de atender o pedido do amante sofredor que estava diante de mim. Mas como não foi específico, fiz à minha maneira.
***
Foi como um sonho. Num instante, via o rosto indiferente de Arsanno. No outro, vi-me sendo transformado em algo estranho. Zuria estava tão perto de mim. Ela também não estava entendendo o que se passava. Falei-lhe, com toda a voz que eu tinha:
– Eu te amo!
Beijei-a. No momento em que nossos lábios se tocaram, senti todo o meu corpo endurecer. Arsanno era cruel. Estávamos juntos. Transformados em uma única estátua. Estaríamos juntos por toda a eternidade, dali até o fim dos tempos.
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