Até Derretermos
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Notas iniciais
Esse capítulo é, acima de tudo, introdutório. A maior parte dos "gêneros" e avisos não se aplicam a este capítulo, e sim se aplicariam aos capítulos que se seguiriam.
Sem mais delongas, boa leitura o/
“Imagine se você vivesse praticamente sozinho. Somente você e mais uma pessoa, até o fim de suas eternas vidas, sem mais ninguém. Uma pessoa que vive a mesma situação com você, cada dia de sua vida, cada segundo de seu tempo. Numa situação dessas, ela se torna seu maior bem. Mais valiosa que suas riquezas, mais valiosa que suas terras e mais valiosa do que tudo que você tiver. Por uma simples questão de sanidade, de companhia, de uma mão calorosa na tristeza e de um abraço na solidão, ela é a coisa mais prezada de seu universo. Essa é a dependência mais verdadeira, e o amor mais profundo e simples de todos. O que faria se essa pessoa sumisse?”
Aquelas terras não foram feitas para serem caminhadas. O carpete branco que se espalhava por centenas e mais centenas de quilômetros, que cobria cada pedaço de terra, que pontilhava cada montanha, não fora feito para ser perturbado.
Ainda assim, os pés daquele estranho homem deixavam as mais leves das pegadas enquanto caminhava, sem piscar diante da fustigação do vento, o frio não lhe afetando enquanto seus cabelos esbranquiçados fluíam pelas correntes do ar.
Sua pele azulada refletia a pouca luz do grande astro nos céus, penetrando através das pesadas nuvens daquele mundo, carregadas de gelo. Aquele era um lugar inóspito, sem o menor traço de vida, e até mesmo o sol tinha sua presença recusada naquele lugar.
Ainda assim, o homem nu persistia, com tal porte e disposição que só confirmavam sua inumanidade, pois um humano cairia mediante ao frio, especialmente um nas suas condições. Teria congelado há muito. O homem não o fizera, e seu caminhar era detido apenas pelo vento.
Mas não podia desistir. Viajou por dias, semanas, talvez meses. Deixou de contar. Deixara de se importar. Agora era a hora de caminhar, de persistir e de lutar, e não de chorar ou pensar.
Sua mente era diferente da de um homem normal, ela não se rendia ao pânico. Não vivia nada intensamente. Somente as alegrias tinham espaço para expressões, e certamente tristeza e desistência eram os últimos pensamentos que cruzavam pela sua cabeça.
Em seu ombro, havia uma ave. Uma ave branca e régia, que agora dormia pacificamente. Uma autêntica harpia.
Essa ave havia sido a companheira de viagem do homem há muito, e dormia a maior parte do tempo. Quando acordava, apenas lançava olhares preguiçosos a ele, ou dizia algo, antes de voltar a dormir. Assim como o homem, não comia nem bebia, mas não era invulnerável ao frio. Somente a presença dele salvava a harpia da morte certa.
Apenas algumas horas depois, ela voltou a acordar, e após piscar preguiçosamente algumas vezes, ela pareceu tremer sob sua alva penugem.
Prosseguiram em silêncio, a ave lançando olhares curiosos para o homem. Pararam somente num aclive, como num típico penhasco, onde era possível ver tudo diante deles, por vários quilômetros ao longe.
O homem olhou, de cima da borda do penhasco, as grandes extensões de rocha, neve e gelo diante deles, mas o problema não estava nelas. Eles já haviam encarado a mesma situação várias vezes, e já tinham superado tais distâncias em pouco tempo, ambos confiantes em suas capacidades de superar o que parecia impossível. O que pessoas viajavam em meses eles progrediam em dias, sem descanso e sem parar.
O problema não estava na distância. Estava na gigantesca montanha que se impunha entre eles e os vários quilômetros ali em diante.
Normalmente, ele ficaria satisfeito em simplesmente circular a montanha, mas como irmãs, várias montanhas enfileiravam-se umas as outras, do lado daquele grande titã, todas de tamanhos semelhantes. O homem praguejou.
— O que faremos Kald? – A harpia perguntou ao homem, olhando-o com sábios, ainda que inquisitivos olhos verdes. – Não dá para driblar essas aí.
— Nós escalaremos. – O homem afirmou, começando a descer do aclive, deslizando pela neve fofa que fazia uma ladeira até o solo diante da montanha.
— Era o que temia. – A harpia suspirou. – Não me acorde. Não gosto de acordar caindo.
— Certo. – Kald se colocou diante da montanha, e a analisou. Tinha muitos pontos de apoio, como toda a montanha, mas ao contrário das montanhas normais, essa tinha uma camada de gelo recobrindo boa parte dela. Isso atrapalharia a maior parte dos seres vivos a escalarem-na, mas não Kald, que era um com o gelo. Sem pensar novamente, ele pôs-se a subir, seus pés e mãos fazendo um rápido progresso através da pedra congelada e do ar, que parecia ficar cada vez mais frio, quanto mais ele subia.
Os flocos de neve abatiam-se sobre seu rosto ferozmente, tragos pela furiosa e eterna tempestade daquele local, uma tempestade que escurecia o céu azul e o tornava acinzentado. Alguém que analisasse o plano geral poderia se sentir melancólico, com o vasto mar branco, azul e cinza perante ele; Gelo, rocha, neve e nuvens. Nada além disso, por quilômetros que se passaram, por quilômetros daquela paisagem e por quilômetros do local que viria a seguir. Apenas o frio era companhia das pessoas naquela hora, naquele local.
Apesar da vastidão da montanha perante a si, o homem não desistiu. Suas mãos, frias como gelo que tocava, não vacilavam nem arranhavam ao rasparem na rocha afiada e, por vezes, áspera. A harpia pareceu perturbar-se com o movimento, e emitiu um leve som de desprazer em seu sono. Kald a ignorou. Precisava superar aquela montanha, precisava seguir o seu instinto.
Demoraram várias horas, mas Kald não reclamou. Sua velocidade fora muito além das expectativas de qualquer outro homem, pois o que acabara de fazer em horas, uma pessoa teria demorado dias, tamanha era a ligação de Kald com o frio.
No cume da montanha, Kald sentou-se, e cerrou os olhos, focando no horizonte.
Nada.
Somente mais e mais quilômetros da mesma brancura acinzentada de antes.
Ele suspirou, e uma voz ecoou em seu ouvido:
— Não desista, Kald. – Ele virou o rosto pra encarar a harpia, que o encarava. Era difícil dizer a expressão de um pássaro, mas Kald achou que expressava pena. – Não vou fingir que entendo completamente a sua busca, mas... Nós estivemos assim por anos. Nós já caminhamos demais para desistir agora. Não creio que já tive algo tão profundo assim por alguém, mas se seu sentimento por ela é tão forte assim, certamente é algo que vale a pena a procura por todo esse tempo.
Kald encarou a ave por alguns momentos, em silêncio, antes de abrir um pequeno sorriso.
— Obrigado, Tarkus.
— Não há de quê. – A ave aprumou-se. – Agora, tome mais cuidado quando for descer. Quero ter um sono agradável dessa vez.
— Não posso prometer nada, amigo. – Kald replicou, mas Tarkus já dormia aconchegado nas próprias asas.
Kald passou os dedos tenramente na cabeça majestosa da ave, antes de começar a descida, muito menos cuidadoso do que antes, saltando de ponto a ponto.
(...)
Quando se encontraram pela primeira vez, foi na clareira de um grande monte de neve, próximo a uma floresta de abetos semi congelados, num lugar onde a temperatura deveria ter ceifado suas vidas, mas as plantas ainda resistiam e lutavam valentemente pela vida. Gotas de orvalho congelado dependuravam-se das folhas, vindas de tempos distantes, da última vez que as árvores haviam experimentado o raro calor daquelas terras.
Kald caminhara até a clareira, passando rente aos gélidos troncos dos abetos, e ao chegar lá, vira uma figura sentada numa rocha, balançando a cabeça ao som de uma música que apenas ela ouvia.
Não houve medo ali, nem hesitação, nem hostilidade. Apenas curiosidade, que fez com que Kald caminhasse até a mulher ali sentada.
— Quem é você?
A mulher virou a cabeça para encará-lo, e foi então que ele percebeu que ela parecia com ele. Pele azul, longos cabelos brancos e olhos azuis e reflexivos como safiras, que pareceram brilhar ao ver Kald. Sem dúvida alguma, ela também reparara em sua aparência, tão semelhante a dela.
— Init. Você...? – Ela respondeu-lhe, erguendo uma sobrancelha inquisitiva a ele.
— Kald. – ele andejou até o seu lado, na rocha. – Se importa que eu me sente com você?
— Nem um pouco. – Um sorriso floriu em seus lábios, e ela se afastou para o lado, dando espaço para Kald sentar-se ao seu lado.
Por um bom tempo, apenas se sentaram, por vezes lançando olhares curiosos e admirados um ao outro, como se estivessem maravilhados com a própria presença um do outro. Foi Init que quebrou o silêncio:
— Sabe, eu nunca vi alguém como eu antes.
— Nem eu.
— Você se lembra de quando surgiu?
— Mais ou menos. – Kald tentou recordar-se. Num passado distante, ele lembrava-se de ter surgido. De pedra fria e ar gélido, numa existência de puro frio. Era como se não existisse nada no mundo a não ser o frio, um eterno e penetrante frio que existira desde o começo de tudo. Súbita e sem explicação, ele passou a ver formas. Viu rochas cobertas de neve. Viu o gélido ar azul, que fustigava e escarpava as montanhas com sua brisa cortante. E com a visão, veio o sentido. Começou a se mover. Inicialmente trôpego e desacostumado com aquela forma física, ele não demorou a adquirir o porte e andejar de um homem. Descobriu que o frio não lhe incomodava. Descobriu que o tempo não o afetava, e ele vira montanhas surgirem e ruírem com as intempéries e o tempo. Porém, ele também descobrira que sua vida era vazia, sem sentido. Por que vivia? O que poderia fazer? Era uma questão mais filosófica do que angustiada. Afinal, jamais tivera algum sentido ou ímpeto, por que deveria ter agora? Por que sim? Por que não?
Ele começou a buscar seu sentido. Viajou por lugares onde os picos das montanhas encontravam as nuvens, e de lá ele vira belos lagos congelados e melancólicos pinheiros, situados num raro oásis de água que ainda não havia congelado naquele local. Viajou por lugares tão gélidos que a rocha havia sido esmagada, reduzida aos seus constituintes mais primais. Mesmo com aquele frio, não sentira nada, e mesmo os lugares onde o próprio ar congelaria dentro dos pulmões de qualquer ser que o aspirasse não afetaram o homem, e ele cruzou vastas planícies de rochas bizarras, tão imunes ao frio quanto ele. Ele viajou através de oceanos de água gélida, onde placas de gelo, grandes como continentes, flutuavam á deriva e batiam umas nas outras com impactos poderosos, uma zombaria da dança tectônica do núcleo.
Jamais pensara que acharia alguém para ajudá-lo em um dos raros oásis de vida naquele gélido mundo, mas – supôs Kald – era apropriado.
— É... Mais ou menos. A palavra certa. – Init olhou para frente novamente. – Lembramos de imagens. De nossa... Vida, antes de termos um corpo. Lembramos de como foi andar pela primeira vez, do desconforto. Ainda assim, tudo parece tão difuso, tão... Irreal.
— Como se nossa existência fosse um mero sonho. – Kald completou.
Init assentiu gravemente.
O silêncio reinou naquele dia.
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