Notas iniciais
Mari, peço desculpas caso a história tenha ficado sem-graça ou algo do tipo. Eu tentei fazer algo fofo e diferente, não sei se consegui. Na verdade eu queria mesmo era te dar uma comedia com shounen-ai de presente, mas eu não estava conseguindo escrever de jeito nenhum...
Enfim. Espero que goste, fiz com todo o carinho ^//^
E todos que lerem também, viram? :3

— Mail, esta será sua casa a partir de hoje.

...

“Casa”?

Levantei o rosto e fiquei encarando o lugar para onde aquele senhor (acho que o nome era Watari) tinha me trazido. Era uma construção antiga, mas estranhamente bem conservada e... Não sei por que, mas ela me intimidava. Eu não queria entrar lá, eu tinha medo do que poderia encontrar lá.

O senhor apertou mais forte a minha mão, como se tentando me passar conforto com aquele gesto, e me fez andar através da entrada. Tinha muitas árvores em volta, e o único som que eu conseguia distinguir era o do vento batendo em suas folhas.

E esta foi a primeira vez que eu botei os pés na Wammy’s House. Quando eu tinha apenas 5 anos de idade.

Duas semanas antes, eu corria e ria sem qualquer preocupação, pela rua da minha casa. Minha família não era perfeita nem uma das mais bem dotadas, mas eu gostava dela. Então por que eles me deixaram? Eu sei que não era culpa deles (eu tinha cinco anos, não era burro), mas por que eu tinha que ficar sozinho? Por que? Naquela batida de carro, eu perdi meu pai, minha mãe e meu avô, então como eu consegui sair só com alguns machucados? As enfermeiras do hospital disseram que eu tinha sorte de estar vivo e que deveria agradecer por isso. Mas agradecer pelo quê? Eu não via motivos para me sentir grato em estar vivo, se para isso eu tivesse de ficar sozinho.

Há duas semanas eu brincava perto de casa como qualquer outra criança. Agora eu entrava sem qualquer escolha em um orfanato.

O senhor me guiou por diversos corredores bem iluminados, e de vez em quando eu via algumas crianças rindo e brincando em algumas salas por onde passávamos. Este lugar não parecia mais tanto um lugar terrível agora. Mas continuava me intimidando um pouco.

— Mail, este é Roger – Watari me apresentou para outro senhor assim que entramos em uma sala que parecia ser um escritório, e fechou a porta – Ele é o responsável pelo orfanato.

— Muito prazer, Mail – o tal Roger falou sorrindo, com o mesmo tom de voz que as enfermeiras do hospital usavam. Eu não gostava daquele tom. Ele sempre me fazia lembrar do acidente; a luz forte, os gritos, e depois o forte cheiro de ferrugem e a cor vermelha que eram o que mais insistiam em fazer parte da minha memória.

Me escondi um pouco atrás de Watari, com tudo aquilo voltando à minha mente.

— Mail... – Watari agachou, ficando na minha altura e me olhando com um sorriso bondoso. Ele pelo menos falava de um jeito normal comigo – Se lembra do que conversamos? Agora você não deve mais dizer o seu nome verdadeiro para ninguém, certo? Agora você irá se apresentar como “Matt”.

Acenei uma vez com a cabeça.

Watari passou a mão carinhosamente pelos meus cabelos, afagando minha cabeça, e levantou se dirigindo ao tal Roger outra vez.

— Roger, cuide bem dele – como? Ele... Ele ia embora?

Eu me lembro de segurar forte a barra do casaco dele, com um olhar apelativo. Eu não queria que ele fosse embora... Eu não queria ficar aqui... Não queria...

Mas ele se foi.

E eu fiquei aqui.

Três anos se passaram desde então, do mesmo jeito. Três anos até que alguma coisa realmente mudasse. Três anos até que ele chegasse.

Podem dizer o que quiserem; que eu estava sendo dramático demais, que eu não estava me esforçando para me adaptar, que era eu quem não queria mudar. Eu não ligo. Agora experimente perder toda sua família aos cinco anos de idade e ir para um local estranho onde a maioria das pessoas são igualmente estranhas antes de sair julgando os outros, tá legal?

Mas eu aprendi uma coisa. Eu aprendi a fingir.

Isso mesmo, fingir. Era a opção mais óbvia, afinal, se eu continuasse por mais tempo naquele estado de apatia de quando cheguei, iam começar a chegar os psicólogos querendo conversar com a pobre criança perturbada. E eu não queria conversar.

Por isso, depois de umas três ou quatro semanas acho, eu já conseguia sorrir, conversar, rir e brincar como antes. Mas prestou atenção no verbo usado anteriormente? “Fingir”. Foi realmente a melhor coisa que eu fiz; sem mais olhares de pena, sem mais “como você está?” pelos corredores nem mais conversas particulares com o diretor de como a vida era importante e deveriaser valorizada.

Se alguém perguntasse qual era a pior sensação que existe, o que muitos responderiam? Perda, solidão, medo, provavelmente. Eu já senti tudo isso e exatamente por isso posso dizer: nenhuma dessas. Não, a pior sensação que existe é a de mentir. E mais do que mentir para os outros, era mentir para si mesmo. Mentir para si mesmo durante tanto tempo, que no final até você acaba acreditando nessa mentira.

E foi isso o que acabou acontecendo.

Durante tanto tempo eu usei aquela máscara de falsa alegria, sorrindo para todo lado, para todos, que até eu comecei a cair na minha ilusão de “felicidade”. Eu sentia um vazio dentro de mim, mas prontamente o ignorava e ia tentar preenchê-lo com algum jogo. Se sentia vontade de chorar, por qualquer motivo que fosse, me apressava em colocar um sorriso no rosto. Eu basicamente tranquei tudo o que sentia de verdade e me deixei enlaçar como um boneco pelas minhas próprias mentiras.

E ninguém nunca percebeu.

Até aquele dia.

Todas as crianças no orfanato estavam realmente entusiasmadas pela chegada de um novo garoto na instituição. Ele era diferente, estranho até. Ficava bravo muito facilmente, andava sempre com um chocolate ao alcance, e era muito inteligente. Perdia apenas para o eterno número um: Near.

No dia que ele chegou, mais precisamente na noite que ele chegou, estava nevando fracamente, e eu o olhei de relance na porta principal, apenas vendo seus cabelos loiros cobretos de branco. Mais tarde Roger anunciou que aquele garoto seria meu colega de quarto.

E esta foi a primeira vez que encontrei Mihael Keehl.

Não que eu soubesse o nome verdadeiro dele na época, mas enfim.

Mello era bem hiperativo, como não demorei a descobrir, e a toda hora comentava ou perguntava alguma coisa. E eu sempre respondia, sempre com o sorriso que agora já parecia colado no meu rosto.

Nos tornamos amigos. Ou o máximo de proximidade que eu conseguia manter com alguém, coisa que eu, já incoscientemente, tentava evitar.

Mas...

12 de Dezembro.

Era a data do acidente.

Posso ter tentado apagar muitas coisas, mas essa data, essa lembrança, por mais que eu tentasse, eu não consegui. Não sei se isso era bom ou ruim.

Mas então. Nesse dia, estava frio como todo o mês de dezembro era, e eu o passei todinho na sala de jogos com as outras crianças, como outro dia qualquer. A verdade era que eu não queria ficar sozinho naquele dia. Eu tinha medo. Medo de encarar minhas próprias lembranças. Pensando agora, eu realmente era uma criança estranha por ter tais pensamentos aos oito anos. Mas isso não vem ao caso agora.

E quando eu voltei para o quarto, Mello estava lá, deitado de bruços na cama e olhando pela janela.

— Matt, você não me considera seu amigo? – ele perguntou ainda encarando através do vidro, assim que fechei a porta atrás de mim.

— Ahn? É claro que sim – respondi sem entender.

— Não minta para mim! – ele exclamou, finalmente me olhando, ele levantou da cama e deu alguns passos na minha direção. Ele parecia bravo.

Mas o que é que eu tinha feito?

— Do que você está falando, Mello? – perguntei confuso.

— Se você me considerasse seu amigo mesmo, não faria isso. Não ficaria mostrando esse sorriso falso para mim – ele bufou.

Como?

...

— Você acha que eu não consigo perceber? Desde que eu cheguei aqui eu não vi você dar um sorriso de verdade, e isso me irrita! Eu não quero ficar vendo essa máscara idiota, eu quero ver “você”!

Era isso mesmo?

...

Ninguém nunca percebeu, ninguém nunca sequer reparou algo a mais ou a menos nas minhas expressões e atitudes, e ele, em apenas algumas semanas... Nunca conversávamos sobre o que nos levou até a Wammy’s, mas era óbvio que o que quer que o tivesse levado até lá, o tinha tornado mais maduro para a idade do que deveria ser. Assim como eu.

Ele conseguiu enxergar através da minha mentira, e isso bastou para fazer ruir a cuidadosa aparência que montei nos últimos três anos. Ao que parece ela não era tão perfeita assim. Antes que eu percebesse, lágrimas quentes e salgadas escapavam dos meus olhos e rolavam pelo meu rosto. Lágrimas que há muito eu fazia de tudo para impedí-las de cair.

Senti dois braços quentes me envolvendo, sem graça, e o cheiro de chocolate que se tornaria um dos meus maiores conhecidos.

— Você pode chorar na minha frente – ouvi a voz dele meio abafada – Eu sempre vou estar para te dar um abraço.

Mais tarde naquele dia foi a primeira vez em muito tempo que eu dava um sorriso sincero. Apenas ele viu. E sinceramente, eu não me importava que ele fosse o único a ver.

Talvez seja ai que tudo começou. De uma amizade, do afeto, ao amor ingênuo da infância que apenas evoluiu com o tempo.

12 de Dezembro.

O dia em que senti minha realidade desabar.

E o dia que eu reaprendi a sorrir de verdade.

Notas finais
E então?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!