Attack on: Flügel der Freiheit
1 Prólogo — Asas pesadas de sangue
Notas iniciais
O mundo não poderia estar mais caótico — ou ao menos era o que julgavam os dois soldados da Tropa de Exploração enquanto observavam o pôr do sol de uma cidade à qual estavam espiando.
Depois de descobrirem que a família real era uma farsa, enfrentarem uma guerra entre facções, tomarem o poder à força, e enfim entenderem que existia um mundo além de Maria, Rose e Shina — um mundo que queria sua total exterminação — acharam que já tinham visto de tudo.
Mas então, veio a notícia.
— Como assim ele sumiu?!
O estalo seco da mão contra a madeira cortou o ar abafado da sala. As chamas trêmulas das lamparinas dançaram nas paredes, refletindo nos rostos tensos do grupamento. Ninguém ousou responder. No centro, a comandante se inclinou sobre a mesa, o tapa-olho e a lente cintilando sob a luz amarelada. Seus dedos ainda tremiam sobre o tampo marcado pelos anos exaustivos de guerra.
— Vocês tinham um trabalho. Um só! Vigiar o Eren durante a missão... e não conseguiram?!
Mesmo na posição de sentido, os joelhos dos novos recrutas da Tropa de Exploração tremiam. Os olhos arregalados e a boca buscando balbuciar uma justificativa qualquer foram interrompidos pela voz suave de Armin.
— Hange-san, por favor... não seja tão dura com os recrutas. Você sabe como o Eren é.
— Sempre você... tentando proteger os novatos. — Ela se jogou de volta na cadeira, bufando alto. — Na verdade, não sei se defende os recrutas ou o seu amigo, que vive arrastando todos nós para o fundo do poço.
— Não fale assim do Eren! — A voz de Mikasa rasgou o espaço como uma lâmina de DMT. Havia um rosnado contido ali, misturado ao orgulho e desconforto.
— Ora, não me venha com isso, Mikasa. Vocês podem até ser família, mas aqui ainda é o exército. Eren é um oficial; e deveria se comportar como tal. Não sumir por aí fazendo o que dá na telha.
Hange foi dura, fria e direta. A crítica cortou fundo, e Mikasa apertou os punhos com força, os dentes cerrados, lutando para não reagir, e piorar ainda mais a situação.
— Ei, quatro-olhos — o baixinho capitão fez-se ouvir pela primeira vez — Não adianta discutirmos de quem é a culpa. E já que esses dois estão tão dispostos a defender o pirralho, deixe que eles se virem o procurando pelo continente — a voz quase melódica e sempre calma de Levi Ackerman não era menos intensa só pela melancolia que se arrastava com as frases.
— Mas capit… — Armin tentou protestar, mas bastou um levantar de mãos de Levi para o fazer recuar de sua argumentação.
— Até porque, duvido que ele ainda dê ouvidos a alguém.
Caminhou calmamente até a mesa de Hange, passando o braço sobre o tampo enquanto murmurava entre os dentes:
— Que sala nojenta...
— Hm... acho que é uma boa sugestão, Levi. — A comandante cruzou os braços, firme, soltando um suspiro demorado. — Armin e Mikasa devem procurá-lo. São os únicos em quem ele ainda confia.
Virou-se para ele, relaxando a postura e sorrindo de canto.
— E, por favor... para de falar que nossa sala é nojenta.
Empurrou uma pilha de relatórios sujos com o cotovelo, como quem tenta abrir espaço na bagunça.
— Isso aqui tem... personalidade.
— Tch. Agora chamam papel engordurado e madeira empoeirada de "personalidade"? — censurou, seco, com um meio suspiro. — Você não tem jeito, quatro-olhos.
Armin e Mikasa, estarrecidos, observaram o início de uma longa discussão sobre a higiene do lugar que eles chamavam de base, em Marley.
Entreolharam-se e, mesmo sem palavras, os pensamentos eram claros: mais uma vez, teriam que correr atrás de Eren.
…
Mesmo após duas semanas em busca de informações ou pistas para levar ao paradeiro de Eren, nada foi encontrado.
Mesmo que eles estivessem trabalhando disfarçados, pensaram que a essa altura tivessem alguma trilha ao menos.
Mas… nada.
Ninguém poderia sequer imaginar que eram eldianos da ilha de Paradis. O disfarce, que deveria protegê-los, tornou-se também o maior obstáculo.
Vasculharam hotéis, hospitais, centros de treinamento, museus...
Não importava onde procurassem, não havia sequer um rascunho de informação.
Era como se Eren tivesse desaparecido do mundo.
Apoiados no parapeito de madeira, estavam frustrados e cansados. Os fios loiros desgrenhados e olheiras pelas noites em claro pela busca contrastavam com o cerrar de punhos, onde as unhas já marcaram as palmas da mão feminina. Não podiam se desesperar, foram treinados para manter a calma, mas… como suportar a ausência de informação? Como suportar fracassar com a tropa, e… com Eren?
Observavam a cidade que pulsava diante deles, do alto do píer. Navios entravam e saíam do cais, mesmo no entardecer que iluminava os céus com um laranja lindo, só que dessa vez sem os limites das muralhas.
Tudo era grande. Vivo.
E estranhamente… livre.
Armin fitava os trabalhadores e transeuntes do porto e refletia se eles sentiam algum medo. Se o terror da guerra e da morte brutal poderia abalar o espírito daquelas pessoas.
Já a morena ao seu lado apertava discretamente o cachecol vermelho ao redor do pescoço, tentando conter a ansiedade.
Olhos fixos, em uma família. Pai, mãe, filhos… todos pareciam tão felizes, tão realizados ali na companhia um do outro.
O pai tomou um dos filhos no colo e jogou-o ao ar, enquanto mãe e a filha mais velha riram, divertindo-se. Sem tensão. Sem medo.
Sua memória a traiu, relembrando de brincarem com os Yeager, entre as roupas que eram estendidas pela matriarca.
Quantos anos ela não sabia o que era isso? Não... será que em algum momento ela soube? Afinal, mesmo nesses momentos de leveza, sentia que não era ali que pertencia.
— É estranho... — murmurou Armin. — Crescemos achando que o mundo inteiro era um punhado de paredes. E agora, ver isso...
Ele abriu os braços, como se quisesse abraçar o mar à frente.
— Eu queria que o Eren enxergasse isso com os mesmos olhos que eu vejo.
Mikasa não respondeu de imediato. O vento balançava seus cabelos e seu cachecol, encarando o ambiente.
— Ele enxerga, Armin. Só... de um jeito diferente.
— Diferente? — estalou o céu da boca — Me parece que tudo que ele faz é guerra e guerra. Desde a batalha de Trost… — ergueu a cabeça, admirando um dirigível passar — Não, desde a queda de Maria… Eren é viciado em matar, em violência.
— Não! — rosnou entre os dentes — Ele só os vê como são.
— E como eles são?
— Como uma ameaça.
As palavras de Mikasa flutuaram com todo o peso que parece ter adicionado uma tonelada entre eles.
— Isso me parece uma desculpa.
Fez uma pausa, sem tirar os olhos do horizonte, e ela mordeu os lábios tentando se conter.
— Como algo que ele precisa destruir antes que destrua a gente. — Mikasa concluiu os pensamentos, respirando pesadamente.
Armin suspirou e sorriu sem humor.
— A busca eterna pela liberdade do Eren está fazendo ele perder a trajetória...
Permaneceram imóveis, ouvindo o som do mar contra os cascos dos navios, enquanto o céu alaranjado desaparecia aos poucos, dando lugar às luzes artificiais da cidade.
— Veja... estamos aqui. Podemos conhecer comidas novas, lugares diferentes, tecnologias que nem imaginávamos... pessoas.
Essa última palavra pairou no ar.
Pessoas. Esse era o problema.
A frase de Mikasa voltou à mente de Armin como uma lâmina: “Como algo que ele precisa destruir antes que destrua a gente.”
Era uma verdade que rasgava o tecido da existência; uma realidade perversa, onde apenas os fortes sobreviviam.
Mikasa sabia disso. Aprendeu disso. Viveu isso.
E por isso, as palavras lhe saíam com a naturalidade de quem já viu atrocidades demais.
Armin inspirou demoradamente antes de soltar o ar.
— É isso que mais me assusta. O Eren sempre disse que lutava pela nossa liberdade... mas, ultimamente, parece que o mundo dele só pode ser livre de uma forma: a forma que ele enxerga.
Mikasa apertou o próprio braço com força. Tentando lutar contra a realidade do momento que sua dupla tentava trazer. Sua cabeça doeu e lembranças das últimas conversas com Eren fervilhavam em sua mente.
O tom de voz era quase que ouvido por si: “Essas pessoas, enquanto elas existirem, não estamos seguros… não teremos paz.”
— Lembra quando éramos pequenos, e ele sempre se envolvia em confusão com os garotos mais velhos?
— E como lembro... — um sorriso sem alegria escapou dos lábios de Armin. — Na maioria das vezes era por minha causa. Ele dizia...
— “Apenas os fortes são verdadeiramente livres. Só o forte pode proteger. E liberdade sem proteção... é ilusão.”
— Aquele idiota — Armin estalou a língua. — Quando foi que proteger virou controle na cabeça dele? Até do que sentimos.
“Até o que sentimos”. A simples afirmação parece ter levado Mikasa para uma viagem…
Quantas vezes tentou se aproximar de amigos. Na academia como recrutas, na Tropa de Exploração, e Eren sempre foi receoso. Em sua ânsia de protegê-la do mundo, a impediu de sair para o bar com outros soldados, ou até de coisas “simples” como noite das meninas.
Mesmo com Armin, tentou lembrar quando passou tanto tempo apenas na companhia do loiro e… nada. Nenhuma lembrança. Sempre Eren estava entre ela e qualquer outra relação humana.
Encararam-se pela primeira vez naquela conversa.
Havia algo nos olhos dela.
Não raiva. Nem tristeza.
Algo mais maduro.
Uma pergunta antiga, engasgada há tempo demais.
— Armin...
— Sim?
— Você já pensou em…
— Boa noite, casal, aceitam? — um garoto vestido com roupas simples retirou o pedaço de papel e entregou nas mãos de Armin o panfleto, retirando-se.
— Nós não… — inutilmente Mikasa tentava corrigir que eram apenas amigos, mas o misterioso garoto sumiu tão de repente como surgiu.
— Espera, Mikasa. O que é isso?
Ele se levantou de súbito, assustado com a contestação. Um anúncio da exibição teatral dos Tybur. Vários estavam espalhados pela cidade, já tinham visto outros daqueles; mas esse… esse era diferente.
Manchado no rodapé do pôster, alguém havia desenhado um símbolo.
Asas da liberdade. Pintadas em vermelho. Sangue.
Seus olhos se fixaram nos traços com tremor, cientes do que aquilo significava.
Palavras eram dispensáveis, afinal, o pensamento deles estava alinhado com o significado: Eren planejava assim.
— Será violento — o sussurro de Mikasa escapou dos lábios, como o presságio de algo devastador prestes a acontecer.
— Como sempre.
A voz de Armin não soou como acusação.
Soou como aceitação.
Aceitação de quem sabia que teria que participar de mais um banho de sangue brutal.
(...)
Dos céus, o som de festa dos soldados, das hélices cortando o vento e do suspiro pesado dos oficiais mais antigos era ouvido. Resquícios de uma batalha vencida, se é que isso podia ser chamado de vitória.
Connie e Jean já haviam recolhido o corpo de Sasha, ferida já no dirigível, deixando a festa para aqueles que viam motivos para comemorar a carnificina.
Em uma sala, Eren, junto com Zeke, Levi e Hange estavam sozinhos, em uma espécie de sala, sendo interrogados.
Tudo parecia bem. Sasha seria apenas um efeito colateral, algo que poderia acontecer com qualquer um mas…
Era mais do que isso. Esse peso, essa incerteza de que haviam feito o certo incomodava-os mais do que em qualquer outra missão.
Mikasa estava sentada no fundo, os cotovelos nos joelhos e o cachecol amarrotado entre os dedos. A palma da mão ainda suja de sangue… sangue marleyano, sangue inimigo… não era?
Sua mente voltou para aquela família que viu no cais. Será que eles estavam bem? Eles pareciam perigosos? Não. Pareciam inimigos? Não. Então por que sangraram por suas mãos?
Do outro lado, Armin mantinha os olhos no horizonte, onde o céu noturno parecia indiferente à sangrenta batalha que transcorreu. Levantou-se, indo até uma janela, vendo a destruição que era deixada para trás.
Fumaça escura. Fogo. Destruição… todas causadas por ele, e seu Titã Colossal, que explodiram o porto que mais cedo era sua admiração.
Seu rosto estava coberto por fuligem, os olhos vermelhos — não só do cansaço, mas de algo mais antigo. Algo que doía mais do que qualquer ferida.
— Você se lembra... — murmurou ele, quase sem som — ...quando tudo o que queríamos era ver o mar?
Ela apenas deixou a cabeça pesar, abaixando-a entre as pernas. O que era esse sentimento? Remorso? Arrependimento? Ela apenas seguiu a vontade de Eren, mas… por que esse custo parecia tão alto?
— Eu pensei que... quando conseguíssemos, estaríamos livres. Que finalmente viveríamos algo... nosso. Não para sobreviver. Só... para existir.
Ela ergueu os olhos, lentamente. Suas pálpebras tremiam, e ela nem se importou em sujar o cabelo, apenas apertou a cabeça, em uma vã tentativa de fazer ela parar de doer.
— A gente viu o mar. E depois... vimos a guerra. — a voz de Mikasa saiu como um fio de quem tenta buscar a sanidade, a razão em meio a tanta tragédia.
— E depois, vimos o Eren. — completou Armin, com amargura na voz. — Cada passo dele parecia nos arrastar mais fundo. Como se nossos sentimentos estivessem presos à corrente que ele carrega.
Ele fechou os olhos e sua mente foi invadida por uma sequência de imagens de antes de sua explosão. Um casal apaixonado, uma mãe de mãos dadas com seu filho. Um trabalhador carregando malas para seu patrão…
Tudo incendiou. Não eram apenas soldados inimigos, vidas inocentes estavam sendo incineradas por ele… tudo pela noção de liberdade que Eren tinha.
— Quantas vidas... — ela sussurrou. — Quantas vidas eu tirei hoje... por ele?
— Ele diz que faz isso por nós. Mas parece que... o que ele realmente quer é vencer. Não importa quem fique pelo caminho. Não importa o que a gente sente.
— Não, Armin… Isso foi… — Ela queria defendê-lo. Queria de verdade, mas como se suas mãos tremessem diante do horror que proporcionou, apenas para ele conseguir um novo Titã, e para trazer o Bestial até eles…
Sentia que sempre ela precisava entender, mas quando seria sua vez de ter os sentimentos entendidos por ele?
— Mikasa, ele também é meu amigo, mas… — Sua boca salgada, pelas lágrimas que deixavam trilhas no rosto, tomava vida por si própria, sem controle, em desabafo — Até quando ele pretende nos controlar? Até quando teremos que abrir mão da liberdade por segurança? Até quando teremos que ser…
O maxilar travou. Não queria dizer aquilo, não em voz alta.
— Assassinos.
A fala dela ecoou na mente e todos os músculos, ainda doloridos pelo recém-conflito, se erigiram.
— Eu não sei mais se ele está lutando pelo nosso futuro... ou só para provar que estava certo o tempo todo.
De repente o mundo pareceu em silêncio. Apenas um zumbido passava pelas mentes deles. Armin, a todo tempo, tentando entender os pensamentos, os sentimentos e as reações de Eren. Eram tantos “por quês” sem resposta.
Já Mikasa apenas tentava se convencer de que o gosto ferroso do sangue era necessário. Eren era sua família… sua única família. Ele só queria preservar isso… era só o jeito dele de cuidar, de amar.
Armin virou o rosto para Mikasa. Suas orbes azuis estavam opacas, quase cinza, não diferente dos castanhos dela. Faltava brilho, faltava vida.
— Sabe o que é mais irônico? A liberdade... que ele tanto fala... é a única coisa que ele nunca nos dá.
Mikasa desviou o olhar. Seus olhos se fixaram nas nuvens lá fora. Não queria acreditar nisso… Não poderia acreditar, mas… seu silêncio, sua incapacidade de responder a Armin, era a concordância que sua voz não poderia dar.
— Nós só queríamos ver o mar….
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