Atropelada Pelo Casamento
1 Diga sim ou diga não
Notas iniciais

Eu deveria saber que aquilo iria dar errado, mas sempre fui o tipo de pessoa que paga para ver. O som dos meus saltos contra o assoalho da igreja era a única coisa que importava enquanto eu corria atrás do meu noivo que fugia de nosso casamento sem ao menos olhar para trás. Ok, talvez não a única coisa. A raiva era vista no jeito com que eu fechava as mãos nas laterais do vestido para impedir que caísse.
No fundo de minha mente conseguia escutar alguns parentes e amigos dizendo para que eu parasse, só que minha atenção estava focada em Christopher. Aquele filho da mãe que achava que iria me deixar plantada no altar e sair de boa. Parei um momento na escadaria da igreja apenas chutar os saltos que tanto me incomodavam e retomei a minha corrida.
— Christopher, seu filho da puta! — Gritei vendo-o atravessar a rua. Ele nem hesitou ao arregalar os malditos olhos azuis na minha direção e estender a sua mão em busca de um táxi — Vou te fazer se arrepender de ter nascido.
E aquele foi o meu erro. Na verdade o meu segundo erro. O primeiro tinha sido correr atrás do meu ex-noivo – nem ferrando eu iria olhar para a cara dele depois desse dia – e o segundo foi não ter olhado para os lados ao atravessar. Era uma tarde movimentada de sábado. Eu deveria saber que teriam carros e motos transitando por ali. Porém aquilo não me fez parar. Nem ao menos senti o impacto tamanho foi o meu choque.
Apenas apaguei.
***************
Abri os olhos de supetão.
— Oh, não! — Olhei ao redor vendo que estava sozinha em um quarto de hospital com as paredes pintadas de um irritante branco semelhante ao tom do meu vestido. Verifiquei meu corpo para ter certeza que não tinha me ferido, já que não queria nenhum tipo de cicatriz em meu corpo e respirei aliviada ao perceber que tinha um problema a menos. — Graças a Deus.
— Ninguém te ensinou a nunca dizer o nome do Senhor em vão?
Sentei-me na cama rapidamente olhando para os lados e procurando de onde tinha se originado essa voz. Meus olhos se focaram em um homem sentado no sofá do outro lado do quarto folheando uma revista. Ele ergueu seus olhos acinzentados na minha direção e deu um sorriso de canto. Franzi o cenho perguntando-me se tinham me dopado tanto ao ponto de eu não reconhecê-lo.
— Quem é você?
Ele se levantou com elegância mostrando suas vestes totalmente brancas e se aproximou de mim com cautela. Será que é um dos médicos? Apreensiva, cruzei os braços e aguardei sua explicação.
— Meu nome é Ezequiel — Ele se apresentou estendendo a sua mão e apertando a minha. Senti algo estranho, como se meus ossos vibrassem e minha pele toda se arrepiou, só que não era algo ruim. — Sou um anjo do Senhor e vim te levá-la para...
— Puta que pariu! — Gritei passando as mãos por meus cabelos escuros e deslizando-as até o meu rosto. — Eu morri e estou tendo um momento de Ghost? — Indaguei confusa com o que estava acontecendo. — Não. Eu não posso morrer. Tenho um noivo para matar primeiro.
Ezequiel permaneceu em silêncio esperando que minha respiração se estabilizasse. Fechei os olhos com força, temerosa.
— Por favor, não me diz que vou olhar para baixo e ver meu corpo — Pedi abrindo um olho e espiando a cama. Nada além de mim mesma. Ergui as mãos na frente do meu rosto e percebi que nem translúcida eu estava. Bufei. — Quem é você? Que brincadeira mais sem graça. Eu acredito nessas coisas, ok? Vi muitos filmes na minha adolescência que destruíram o meu cérebro.
— Eu não estou mentindo.
— Eu estou viva — Rebati cruzando os braços.
— Na verdade, você está em coma. Isso é um sonho causado pelo coma — Parou do meu lado e me estendeu a mão novamente. Olhei desconfiada para aquele gesto. — Quero te mostrar a realidade em que seu corpo está.
Pressionei os lábios juntos antes de suspirar e ceder, entrelaçando meus dedos aos deles e sentindo um tornado de sensações se formando em meu peito. Pisquei com força contra a rajada de vento que bateu em meu rosto e quando dei por mim estava parada no meio de um quarto idêntico ao que eu estava anteriormente, porém com uma cena distinta.
Minha mãe estava sentada em uma cadeira ao lado da cama segurando minha mão e a apertando por entre seus dedos redondos. Seus olhos estavam fechados e sua testa encostada na minha cintura. Pensei que ela estava dormindo até que vi seus lábios se mexendo com velocidade. Ela estava rezando.
A porta se abriu e meu pai entrou com um copo na mão.
— Joy, você precisa comer algo — Ele disse estendendo o copo na direção dela. Cruzei os braços, incomodada por assistir aquela cena. Fazia anos desde a última vez que meus pais se falaram desde o divórcio. — Ela vai precisar que você esteja forte.
Minha mãe assentiu e deu um tapinha no dorso de minha mão e olhando para meu rosto com uma mistura de medo e repreensão.
— Por que você foi fazer essa loucura, Júpiter? Eu sempre repeti que aquele garoto não era certo para você. Se ao menos tivesse me escutado... — Suspirou voltando sua atenção para o meu pai. Encolhi os ombros. — O que o médico disse?
— Que o estado dela não é grave, tirando o jeito com que ela bateu a cabeça. — Ele fez uma careta, como se relembrasse. Com desgosto percebi que ele era uma das pessoas que estava tentando me impedir de atravessar a rua. Fechou os punhos, explicitando a sua raiva e encarou minha mãe determinado — Aquele filho da mãe nem se deu ao trabalho de visitá-la?
— Não. E nem ligou — Minha mãe respondeu.
Não precisava ser nenhum gênio para saber que estavam falando de Christopher. Não agüentando a raiva e o pesar com que meus pais se olhavam, encarei o meu corpo. Eu estava pálida e largada com uma camisola verde de hospital substituindo o vestido que fiquei semanas meses procurando. Meus cabelos escuros estavam embaralhados e um pouco jogados no meu rosto. Incrível como eu estava parecendo uma princesa antes e agora parecia um cadáver.
Percebi cortes distribuídos por meu rosto e meu braço esquerdo – mostrando de que lado tinha caído. Agulhas estavam enfiadas em lugares diferentes de minha pele para que diversas medicações entrassem em minha corrente sanguínea. Uma enfermeira entrou, parando para anotar tudo o que os estranhos aparelhos indicavam.
Engoli a seco e virei-me para Ezequiel que estava assistindo tudo em silêncio sentado naquele maldito sofá.
— O que estamos fazendo aqui?
— Você queria uma prova — Ele respondeu com naturalidade.
— Você é Deus? — Perguntei pondo as mãos na cintura. Ele arqueou uma sobrancelha. — Porque se for eu tenho umas boas reclamações para fazer.
— Já disse que sou apenas um anjo do senhor — Ele suspirou. — Agora que a tem podemos ir?
Ergui uma sobrancelha, confusa.
— Ir para onde?
— Sua mãe estava rezando para que você conseguisse algo melhor — Ele apontou na direção de minha mãe. Assenti não querendo prestar atenção na cena atrás de mim. — Por isso vim guiá-la em uma jornada para mostrar as suas opções por entre os namorados que já teve...
Ergui as mãos.
— Espera! Fomos de Ghost para O Fantasma do Natal Passado? — Analisei suas palavras e meus olhos castanhos se arregalaram — Todos os namorados? Eu tive cinco. — Ressaltei.
Ezequiel sorriu.
— Então melhor nos apressamos se você ainda quiser acordar hoje — Ele estendeu a mão na minha direção com um convite implícito — Vamos?
— Arg! Isso é tão cli...
Minha frase foi brutalmente interrompida quando percebi que não estava dentro do hospital. Oh, não. Estava em um bar lotado de jovens com os hormônios a flor da pele. Segurei um bufar ao reconhecer aquele lugar.
Era o bar que tinha conhecido Christopher.
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