CAPÍTULO 8

Acordei com o toque do telefone seguido de uma batida na porta. Puxei o lençol para me cobrir instintivamente, mas depois lembrei que a porta estava trancada.

– Suze, telefone para você – Andy falou e desceu as escadas novamente.

Me estiquei para pegar a extensão que ficava no criado mudo ao lado da cama e voltei para os braços de Jesse que me recebeu me apertando contra seu peito forte e beijando meus cabelos.

– Alô? – falei com a voz sonolenta.

– Suze? Suze! – Ouvi a voz de Cee Cee do outro lado. – Te acordei?

– Uhum – foi só o que consegui responder.

– Ah, desculpa. Desculpa mesmo, eu não sabia que você acordava tão tarde.

Tarde? Olhei para o relógio digital em cima da penteadeira. Ainda não eram nem nove da manhã.

– Tudo bem, Cee Cee. Eu já ia levantar mesmo. – Mentira lavada! Por mim eu ficava o dia todo ali. Mas não exatamente dormindo.

– Ah, que bom! Então... Vai fazer o que hoje?

– O que eu vou fazer hoje? – Levantei o rosto para olhar para Jesse e lhe direcionei um sorriso sugestivo. Ele riu e me puxou mais de encontro ao seu corpo. – Ainda não sei.

Ouvi que Cee Cee estava falando alguma coisa, mas não consegui entender. Era difícil me concentrar quando Jesse estava passando os lábios no meu pescoço daquela forma, sua língua deixando um rastro de calor por onde passava, suas mãos percorrendo minha cintura, ousadas.

– Suze? Suze? Você está aí?

– Ãhn? Quê?

– Suze! – Cee Cee quase gritou do outro lado da linha. – Você não dormiu de novo, não é?

– Não, é que eu... – Nem conseguia completar a frase. O que foi que ela perguntou mesmo? – O que você disse?

Jesse deu uma pausa para me deixar respirar e eu me concentrei no que ela falava.

– Eu perguntei se você não quer vir aqui para casa hoje? Adam também vai estar aqui. A gente podia passar o dia assistindo filmes e jogando conversa fora.

– Ah, eu... – Na verdade, eu não estava com a mínima disposição de sair de casa hoje. Eu queria mesmo era passar o dia todo com Jesse no meu quarto, mas sei que minha mãe não permitiria isso. E não me refiro nem ao fato de ficar aqui com Jesse, apenas ao fato de ficar aqui mesmo. – Por que você não vem para cá? E traz o Adam também. – Encontro de casais. Eu sou brilhante!

– Sua mãe não se incomoda?

– De jeito nenhum! – E eu não estava mentindo. Minha mãe sempre insistia para eu convidar meus amigos do colégio interno para passar as férias ou algum feriado prolongado na nossa antiga casa. Eu sempre dizia que eles já tinham planos ou inventava alguma desculpa. A verdade era que eu nunca tive amigos que quisesse convidar.

– Tudo bem, então. De que horas?

– Pode vir agora, se quiser. Assim vocês almoçam comigo.

– Ok. Vou ligar para Adam e pedir para ele me pegar. – Já estava me contagiando com a empolgação de Cee Cee. Ela era sempre tão animada com tudo. – Eu levo os filmes.

– Ok. Eu me encarrego da pipoca.

– Fechado! – Se despediu rápido e desligou.

Devolvi o telefone à mesinha e sentei na cama cobrindo os seios com o lençol.

– Bom dia.

– Bom dia, hermosa.

Jesse me olhava com aquele sorriso perfeito, seus olhos negros brilhantes. Eu só fazia sorrir enquanto admirava seu lindo rosto.

– Jesse... Eu estava pensando...

– O quê?

– Sabe... Meus amigos estão vindo para cá.

– Sim. – Ele ficou sério. – Não se preocupe, hermosa, eu já estou de saída.

– Não! – falei alto demais. Baixei a voz. – Eu estava pensando se você poderia ficar.

– Ficar?

– É.

– Mas seus amigos vão estar aqui.

– Eu sei. É que...

– O quê? – Suas mãos tocaram meu rosto numa leve carícia.

– Eu queria que vocês se conhecessem.

– Hermosa – ele começou num tom que parecia que explicava algo a uma pessoa muito leiga –, eles não podem me ver.

– Eu sei, mas você pode vê–los. E...

– E o quê, Suzannah? – Sua voz era suave.

– Eu queria passar o dia com você. – Céus, eu poderia ser mais pegajosa?

Mas eu acho que ele gostou do que eu falei porque me puxou para seus braços e me beijou sofregamente. E eu ainda nem tinha escovado os dentes. Eca! Me afastei quando lembrei disso.

– Jesse... Hálito matinal e beijo não combinam. – Mas eu falava só por mim porque sua boca continuava deliciosa.

– Eu não sinto nada. – Ele riu e me puxou novamente, mas eu me afastei.

– Sério, Jesse – eu o encarei na expectativa. – Então, você vai ficar?

– Tem certeza? – Apenas acenei com a cabeça. – Se é o que você quer, então eu fico.

– Obrigada.

Ele se levantou, e vestiu a camisa.

– Aonde vai?

– Vou te dar um pouco de privacidade. – Podia existir um homem mais perfeito? Nunca!

Ele se inclinou para beijar meus lábios de leve e eu me afastei.

– Ainda não escovei os dentes, Jesse.

– Boba! – Ele me puxou pela nuca e me beijou antes de sumir.

Tomei um banho e sequei meus cabelos deixando-os completamente lisos. Optei por vestir um vestido azul claro de alcinhas que era justo na parte de cima e solto da cintura para baixo, terminando nos joelhos. Desci para comer alguma coisa e minha mãe só faltou dançar a macarena quando eu falei que tinha convidado dois amigos para passar o dia lá em casa. Foi logo pedindo para o Andy fazer um almoço super especial e dando bronca no Brad quando ele chamou Cee Cee de estranha. Tudo bem que ela era mesmo, mas eu adorei vê-lo levar uma bronca.

Nem preciso dizer a festa que minha mãe fez quando Adam e Cee Cee chegaram. Parecia uma criança recebendo um presente no natal. Praticamente tive que empurrar os dois escada acima para livrá-los dos abraços dela.

Quando chegamos ao meu quarto Jesse já estava lá. Estava sentado no nosso – é, agora é nosso sim – banco da janela e se levantou quando entramos. Dei um sorriso discreto e fechei a porta.

– Nossa, Suze! Seu quarto é lindo – Cee Cee falou maravilhada girando no meio do quarto.

– E olha só a vista! – Foi a vez de Adam falar andando para a janela. Jesse saiu do lugar no mesmo instante que ele subiu nas almofadas para olhar melhor. – Deve ser incrível acordar com uma vista dessa.

Os dois ficaram fazendo observações sobre cada detalhe do meu quarto, mexendo em tudo até que eu os interrompi.

– Adam, Cee Cee – falei, mas na intenção de dizer seus nomes para que Jesse os conhecesse do que para chama-los de verdade –, que filme vocês trouxeram?

– Ah, esqueci no carro – Adam respondeu. – Vou pegar. – Passou por mim e saiu.

– Liga não. Ele é meio cabeça de vento às vezes.

Eu ri e nos sentamos no banco da janela. Jesse continuava parado num canto apenas observando tudo.

– Há quanto tempo vocês namoram? – perguntei tentando puxar algum assunto.

– Oito meses – Ela abaixou a cabeça e corou.

– Que foi?

– Não é nada.

– Fala – incentivei.

– É que... – ela começou, visivelmente constrangida – às vezes eu nem acredito que a gente está namorando.

– Por quê?

– Ah, é que eu sempre gostei muito dele, mas não fazia ideia que ele sentia a mesma coisa. – Ela suspirou. – Nossa! Eu e Adam, juntos.

– Vocês formam um lindo casal.

Ela soltou um riso de escárnio.

– Certo!

– O quê?

– Me poupa, Suze!

– O que foi? – perguntei, confusa.

– Qual é! Olha só para mim. E olha para o Adam. Ele é todo bonitão – Eu não chamaria de bonitão. Bonitão era o carinha que estava no meu quarto rindo de uma forma muito sexy. – E eu sou toda esquisita. A albina! Eu sei muito bem o que as pessoas da escola falam de mim.

Ok, agora chega! Eu não ia deixar ela se depreciar daquela forma.

– Deixa de ser idiota, Cee Cee. – Ela me encarou assustada, mas eu continuei antes que ela falasse alguma coisa. – Se você liga para o que aquele bando de gente fútil fala é porque você não é a garota que eu pensei que fosse!

– Você me chamou de idiota?

– Chamei, sim! – Eu comecei agora ia até o fim. – Poxa, Cee Cee, eu pensei que você fosse mais autêntica, sabe! Mas se você se importa tanto assim com a beleza externa...

– Eu não me importo! – ela protestou. – Mas eu sei que eu não sou bonita.

– Cee Cee, você acha mesmo que o Adam liga para esse tipo de coisa? Você acha mesmo que beleza externa é só o que importa? Pois deixa eu te falar uma novidade: isso é o que menos conta. Adam é louco por você. E ele não está nem aí se você não se veste como uma Barbie. Ele gosta de você do jeito que você é. – Olhei bem no fundo dos seus olhos que estavam cheios de lágrimas. – E eu também – completei.

Ela me abraçou forte.

– Agora para com essa bobagem – falei afastando-a de leve e enxugando as lágrimas que escorriam por seu rosto branco.

– Ai meu Deus, se o Adam me ver assim, vai ficar preocupado.

– Vai lavar o rosto – apontei para a porta do banheiro.

Ela se levantou e foi até lá. Parou na porta e se virou.

– Obrigada, Suze. – Riu e entrou fechando a porta atrás de si.

Jesse já estava do meu lado no banco.

– Isso foi... – comecei.

– Lindo – ele completou.

– Eu ia dizer “meloso”, mas acho que vou ficar com o que você disse.

Ele riu divertido.

– Estou muito orgulhoso de você, hermosa.

Ai, como eu gostava da voz dele. Ainda mais quando ele falava assim bem pertinho do meu ouvido, sua respiração roçando no meu pescoço. Mas então ouvimos Adam subindo as escadas falando com alguém e Jesse se afastou voltando para seu lugar.

– Desculpa a demora – Adam falou assim que entrou e fechou a porta. – Sua mãe me segurou lá embaixo.

– Sinto muito.

– Cadê Cee Cee?

– Estou aqui – ela mesma respondeu saindo do banheiro completamente nova, um enorme sorriso em seu rosto.

Sentamos no tapete enquanto Adam mostrava os filmes que tinham trazido. Um de romance, um de ação e um de terror. Mas optamos por jogar conversa fora e deixar a sessão cinema para a parte da tarde.

– Você tem namorado, Suze? – Cee Cee perguntou de repente.

– Não – respondi sem pensar. Então notei um movimento no canto do quarto. Jesse tinha sumido. Que droga! Mas o que ele queria que eu respondesse. A gente não estava namorando mesmo! Ou estava? Quer dizer... ele nunca tinha feito o pedido oficial, mas... Peraí, agora eu era quem estava bancando a donzela. Estamos no século XXI. Não tinha mais essa de pedir ninguém em namoro. As pessoas namoravam e pronto. E não era exatamente isso que nós estávamos fazendo? Nós dormimos juntos e eu até tinha pedido para ele conhecer meus amigos. Se isso não era namoro, o que era então? Oh oh! Eu fiz besteira. Merda! Merda!

Mas no momento eu tinha que me concentrar no que eles estavam falando. Mas minha vista sempre desviava para o ponto que ele estivera antes, só que ele não voltou.

Em determinado momento, Adam falou algo que me fez esquecer minha preocupação com Jesse por um momento.

– Vocês ficaram sabendo o que aconteceu na Missão na noite de sexta?

Epa. Essa resposta eu sabia.

– Sim – Cee Cee respondeu antes. – Parece que a escola foi invadida por vândalos. Destruíram tudo por lá. Até a cabeça da estátua do padre Serra eles arrancaram.

Essa não era bem a minha versão da história. Céus. O que nós humanos não inventamos para não acreditar que o sobrenatural existe. Vândalos! Até parece que um simples vândalo seria capaz de arrancar um pedaço de bronze daquele tamanho.

Mas isso me lembrou que eu tinha uma coisinha pendente lá na Missão. Ainda havia uns fantasmas para mediar. Não fiquei nem um pouco empolgada quando pensei em enfrenta-los de novo. Se bem que, graças à interferência de Jesse, talvez eles fossem mais simpáticos comigo da próxima vez.

Passamos o dia rindo e conversando besteiras e os filmes acabaram esquecidos num canto. Quando eles foram embora o sol já estava se pondo. Minha mãe ainda insistira para que eles ficassem para o jantar, mas Cee Cee alegara ter prometido à mãe que voltaria antes de escurecer. Depois que eles se foram eu subi correndo as escadas, louca para falar com Jesse. Queria pedir desculpas. Tranquei a porta do quarto e o chamei, mas ele não veio. Chamei novamente e nada.

O jeito era aproveitar a noite para colocar minhas pendências em dia. Não queria chegar no dia seguinte numa escola cheia de fantasmas. Adam tinha falado que, por conta da invasão, a polícia estava vigiando o local. Seria um pouco mais difícil entrar lá dessa vez, mas eu daria um jeito.

Esperei todos irem dormir depois que jantamos – Brad lavou os pratos – e me preparei para sair. Da mesma forma que da outra noite eu pulei a janela e peguei a bicicleta. Olhei ao redor para ver se Jesse estava me vigiando, mas nem sinal dele. Tudo bem. Depois eu resolvia isso com ele.

Assim que cheguei na Missão eu vi a viatura da polícia parada em frente ao portão de entrada. Bem longe do local por onde eu tinha entrado na sexta. Deixei a bicicleta no mesmo lugar, atrás da lixeira, e pulei o muro. Mas não vi nenhum fantasma. Nem mesmo o asno. Andei um pouco por lá, evitando passar perto do portão. Nada de fantasmas. Viagem perdida. Saco!

Sentei embaixo de uma árvore para criar coragem para enfrentar a subida na volta para casa. A noite estava fria e eu puxei o capuz para proteger o rosto do vento. Devo ter agarrado no sono porque comecei a sonhar com Jesse. E ele não estava chateado comigo. Ele disse que teve que sair daquele jeito porque ele lembrou que tinha deixado a torneira aberta. Então ele começou a repetir meu nome de novo e de novo e, não satisfeito, ficou cutucando meu braço. Eu mandava ele parar, mas ele não parava. E começou a me chacoalhar pelos ombros. Então eu acordei.

E eu estava mesmo sendo chacoalhada pelo Jesse que estava abaixado na minha frente.

– Nossa! – ele falou quando me viu abrindo os olhos. – Pensei que não ia mais acordar, Suzannah.

Ele se ergueu e se afastou. Ok. Fora sonho mesmo. Ele estava chateado.

– Jesse espera. – Levantei rápido e fui atrás dele.

Ele parou, mas não se virou. Eu parei na sua frente para poder olhá-lo.

– É melhor você voltar para casa, Suzannah. Está tarde. – Sua voz era fria, seu rosto sem expressão.

– Jesse, me desculpa.

– Pelo quê?

– Você sabe.

Ele me olhou com os olhos negros sem brilho. Droga! Ele estava mais chateado do que eu pensei.

– Não, não sei, Suzannah.

Droga! Para de me chamar de Suzannah. Queria gritar.

– Me desculpa pelo que eu disse essa manhã.

– E o que foi que você disse?

Ele queria que eu falasse. Dane-se. Eu queria mesmo era fazer as pazes com ele.

– Me desculpa por ter dito que não tinha namorado, Jesse.

– E você tem namorado, Suzannah?

Quê? Como assim? Que tipo de pergunta é essa? Céus, será que eu tinha interpretado tudo errado? Será que ele tinha ido embora por outro motivo?

– Er... bem... – eu gaguejando. Eu, Suzannah Simon, mediadora, gaguejando. Patético. – É que nós dois estamos juntos e...

– E o quê, Suzannah?

Se ele não parasse de me chamar desse jeito eu seria capaz de batê-lo. Tudo bem que esse era meu nome, mas quando ele chamava assim nesse tom frio, fazia um arrepio subir pela minha espinha. E não era um arrepio bom.

– Eu pensei que... por tudo que... já aconteceu com a gente... – gaguejando de novo – que talvez a gente estivesse... namorando.

Corei horrores ao dizer isso. O que estava dando em mim? Primeiro gaguejava, agora corava feito uma menininha boba. É. Esse é o efeito de Jesse sobre mim, pobre mortal.

– Você pensou isso? – Mesmo tom de voz, mesmo olhar, mesmo rosto se expressão.

Meu Deus. Tinha me enganado completamente. Que mico.

– Pensei – respondi num fio de voz baixando a cabeça.

Jesse respirou fundo.

– Então por que disse que não tem namorado?

Ãnh? Como assim?

– Quê?

– Se você pensa assim, por que disse aos seus amigos que não tem namorado?

– Eu só...

– Quem você pensa que eu sou, Suzannah? – Ok. Finalmente seu rosto assumiu alguma expressão, mas não foi boa. Era de raiva e mágoa. Seus olhos brilhavam intensos. – Que tipo de homem você acha que eu sou?

– Eu...

– O quê?

– Eu pensei que... – Eu não conseguia falar nada. Não sabia se ficava triste por ele estar tão chateado comigo ou se feliz por ele também se considerar meu namorado.

– Pensou o quê? Que eu sou do tipo que vai para cama com qualquer uma e some no dia seguinte? Ou do tipo que faz sexo por diversão sem assumir compromissos?

– Eu não...

– Suzannah – seus dedos tocaram meu queixo me forçando a olhálo nos olhos –, eu não sou assim.

– Eu sei que não.

– Então por quê?

– É só que... é tudo muito recente. – Tomei coragem e falei de uma vez. – Eu nunca namorei antes, então era meio que automático, sabe? As pessoas perguntavam e eu já respondia de uma vez. E a gente nunca falou nada sobre isso, então eu só...

– Suzannah – ele me interrompeu, sua voz agora suave e gentil –, você quer namorar comigo?

Ai meu deus. Será que eu era jovem demais para ter uma parada cardíaca? Porque eu tinha a impressão que meu coração parara de bater.

Responde, Suzannah. Responde! Eu estava zonza, um zumbido no meu ouvido. Sentia borboletas no meu estômago. Quando foi que eu comi isso? Para de babar, idiota. Ele está esperando uma resposta!

– Sim – consegui responder num sussurro.

Ele riu e me puxou para seus braços.

– Hermosa – hum, bem melhor agora –, você às vezes é tão boba.

– Eu não sou boba.

– É sim. Minha boba.

Ok. Eu podia ser boba então. Ele podia me chamar do que quisesse que eu aceitaria.

Então ele me beijou. Céus, como eu estava feliz. Me sentia flutuando, meu corpo leve, minha cabeça girando de alegria.

Ele interrompeu o beijo com delicadeza e se afastou um pouco.

– Vamos acabar logo com o que você veio fazer aqui e vamos para casa, certo?

O que foi que eu fui fazer lá mesmo? Ah, os fantasmas.

– O problema é que eu não vi nenhum fantasma aqui.

– Deixa eu te ajudar com isso, então. – E sumiu.

Era essa a ajuda que ele ia me dar? Me deixar sozinha? Grande ajuda, Jesse.

Morda a língua, Suzannah!

Porque logo em seguida Jesse voltou com os fantasmas. Todos eles. Quantos eram mesmo? Sete, oito... onze, doze, treze. Treze fantasmas. Urgh. Isso me lembrou um filme. Credo! Mas aqueles ali não pareciam ter nenhuma intenção diabólica nos rostos pálidos. Apenas me encaravam ansiosos. Beleza. A hostilidade acabou.

Jesse foi para baixo da árvore que eu estava dormindo e sentou se recostando no tronco numa pose displicente e sexy. Se bem que ele ficaria sexy até plantando bananeira. Eu sentei na grama do pátio e os fantasmas fizeram o mesmo. Me senti no meio daquela brincadeira “seu rei mandou...” Tirei um caderninho da mochila – é, eu tinha levado um caderninho. Fazer o quê? Era muita coisa para lembrar. Não tinha memória de elefante. – e comecei a anotar os pedidos. Comecei logo com o asno... quer dizer, Cris, conforme ele se apresentou, que pediu para eu avisar ao irmão dele que ele podia ficar com sua prancha de surf e seus CDs, contanto que desse um certo CD para uma garota em especial. Ele me deu o telefone da casa dele, os nomes de todos da família, qual era o CD e o nome da garota. Serviço completo. Adoro quando eles facilitam meu trabalho. Depois dele foi a vez da mulher de cabelos crespos, que se chamava Stella, e que pediu para passar a sua mãe o número do seu seguro de vida para que ela sacasse o dinheiro e pagasse a hipoteca da casa. Novamente, ela me passou todas as informações que eu precisaria e eu passei ao próximo. E assim foi até eu anotar os pedidos de todos. Eu teria trabalho de sobra por, no mínimo, um mês. Três semanas se não acontecesse nenhum imprevisto.

– Bom trabalho, Mediadora – Jesse falou se aproximando depois que ficamos a sós. Ele estendeu a mão e me ajudou a levantar. – Vamos para casa agora. Você precisa dormir.

– Eu estava pensando em fazer outra coisa. – Ri sugestiva.

– Você tem aula amanhã, hermosa. – Ele também riu passando a mão no meu rosto.

– Por que você tem que me lembrar isso?

– Alguém tem que ser o responsável dessa relação.

– Eu sou responsável.

– Então vamos para casa dormir?

– Você não vai dormir.

– Eu não preciso. Mas vou ficar te olhando.

– Isso não é justo!

– É para mim. – Ele riu e me puxou para si, me beijando no pescoço.

Tudo bem. Eu já estava me acostumando a aceitar tudo que ele dizia mesmo. Ainda mais com ele sendo tão persuasivo.

E não seria nada mal dormir nos seus braços mais uma noite. Nada mal mesmo.