CAPÍTULO 3

Uma semana se passara desde o dia da minha chegada. Desde o dia que eu conhecera Jesse e que quase fizera sexo com ele. Ele não aparecera mais no meu quarto, nem em lugar nenhum, desde aquele dia. Não sei se por vergonha do que tinha feito, afinal ele era de outra época onde aquele tipo de coisa não acontecia assim tão rápido, ou se ele queria manter distância de mim por me julgar uma garota atirada demais. Esperava mesmo que não fosse a segunda opção.

Eu pensei bastante em tudo que acontecera, revivendo cada momento e ainda ficava sem fôlego quando me lembrava do seu toque no meu corpo, dos seus beijos ardentes. Mas eu também tinha muito com que me ocupar esses dias. Tinha começado as aulas na nova escola que, para meu azar, também era bem antiga e havia alguns fantasmas vagando por lá.

Já no primeiro dia de aula eu ajudei um antigo jardineiro da escola a pedir a filha que cuidasse melhor de suas plantas na casa que ele morava. Tudo bastante parecido com a outra escola que eu estudava. A diferença ali era que eu estava muito perto de casa agora e que minha mãe e meu padastro conheciam e mantinham contato frequente com o diretor da escola. Além disso, meus três irmãos estudavam lá também e Brad, que eu descobrir ter a minha idade, fazia quase todas as aulas comigo. Então eu não podia ficar saindo o tempo todo para resolver problemas durante as aulas e nem podia me dar ao luxo de me meter em alguma encrenca. Precisava manter a pose de certinha o tempo todo e isso já estava me cansando. Era um saco ter que ouvir um certo fantasma de um aluno que morrera em um acidente de carro no começo do ano gritando no seu ouvido durante a aula de história que eu assistia com o meu queridinho meio-irmão.

– Quer parar de se fazer de surda? Você vai me ajudar. Você tem que me ajudar! – ele gritava do meu lado. Ah, se eu pudesse responder.

Enquanto isso eu tentava me concentrar, sem sucesso, no que o professor falava, mas era impossível ouvir alguma coisa com aquele asno do meu lado. Me levantei tentando disfarçar minha irritação e me aproximei do professor

– Posso ir ao banheiro?

– Agora não, srta. Simon. Vou chegar em uma parte muito importante do assunto que pode cair na prova.

O asno que me seguia gargalhou do meu lado, aumentando minha irritação.

– É uma emergência feminina, professor – respondi fazendo minha melhor cara de coitadinha. – Sabe como é.

Homens odiavam falar nesse assunto e eu bem sabia.

– Tudo bem. Tudo bem – falou apressado. – Vá. Mas não demore.

Ele me deu um passe e eu saí da sala sendo seguida pelo irritante fantasma. Andei até uma pilastra para me esconder dos turistas que visitavam a escola e o encarei.

– É o seguinte, cara! – falei puxando–o pela gola da camisa azul que ele vestia. – Ou você pára com essa palhaçada ou eu te obrigo a parar. Fui clara?

Ele me olhou chocado, mas assentiu. Fantasmas sempre ficavam chocados quando eram tocados. E isso me lembrou de um fantasma em específico. Chega, Suzannah!

– Eu vou te ajudar – continuei –, mas não vou poder fazer nada se ficar de detenção por não prestar atenção na aula.

– Tudo bem. Prometo que não faço mais isso.

– Certo. – Eu o soltei e fui andando em direção à sala de aula novamente, mas me voltei para falar com ele novamente – Ah! E Avisa aos seus amiguinhos fantasmas também. Se quiserem falar comigo que esperem eu sair da sala.

Mas quando eu saí da sala indo para o pátio almoçar, eu me dei conta da merda que eu tinha falado. O pátio estava repleto de fantasmas. Deviam ter no mínimo uns dez. Estavam todos juntos ao lado do asno e todos me olhavam sorridentes e acenaram para mim. Merda!

Brad estava bem atrás de mim, junto com seus amigos gorilas que riam de alguma piada sem graça, então eu não poderia fazer nada naquele momento. Continuei andando para me sentar em uma mesa junto com meu meio–irmão depois que compramos nossos lanches. Tentei fingir que não via eles se aproximando, sendo liderados pelo fantasma do asno. Continuei comendo normalmente até que ele parou do meu lado e falou no meu ouvido.

– Pronto! Acabou sua aula. Agora você ajuda a gente.

Já disse que odeio quando eles fazem isso? Acho que não. Sabe quando a gente sente aquele arrepio do nada que sobe por toda a espinha e deixa os cabelos em pé? Pois é. Isso acontece quando um fantasma sussurra assim tão perto. Calafrio dos fortes! Me engasguei com o cachorro–quente cuspindo um pouco em Brad que estava sentado na minha frente.

– Eca, Suzannah! Nunca viu comida não, foi? – perguntou se limpando. – Come feito uma esganada. Não sei como não engorda.

Minha vontade era mandar ele se ferrar, mas eu ainda estava mantendo a pose de menininha inocente então me limitei a ficar calada. Os gorilas riram de boca cheia. E eu que era a esganada ali? Porcos!

– Vem! A gente quer falar com você.

Como assim? Desde quando era quando eles queriam? Tá. Desde sempre. Mas será que eles não viam que estava cheio de gente ao meu redor? Vivos que não viam eles?

– Agora não – falei baixinho pelo canto da boca. Os idiotas na minha frente ainda estava ocupados rindo feito hienas e não ouviram.

– Mas você disse que depois da aula...

– Eu disse agora não! – interrompi ainda falando baixo.

Segundo arrependimento no mesmo dia.

Ele começou a tremer de raiva, e os fantasmas que estavam junto dele acabaram sendo contagiados por sua ira. Em instantes um vento muito forte atingiu o pátio e as coisas mais leves começaram a voar para todo lado. Os alunos começaram a se levantar enquanto tentavam pegar os papeis que voavam de suas mochilas.

Brad também levantou junto com os amigos, mas não para ajudar ninguém. Os pervertidos aproveitaram a deixa para agarrar as alunas que tentavam segurar suas saias que levantavam com o vento. Sorte que eu estava de calça jeans. Continuei sentada na maior calmaria enquanto o vento açoitava meus cabelos fazendo a franja ricochetear no meu rosto. Mas não ia me render!

– É melhor você parar com isso, coisinha – falei, dessa vez não me importando de baixar a voz. Ninguém me ouviria naquela algazarra.

– Não me chame de coisinha, sua... sua... – Seu corpo todo tremia ainda mais fazendo um pedaço do teto de madeira que cobria uma parte do pátio começar a raxar.

– Aiô, silver!!! – ironizei, mas começava a ficar preocupada olhando para a rachadura do teto que aumentava. – Pára com isso agora mesmo. Se alguém se machucar... – Mas não pude terminar de falar porque naquele exato instante o pedaço do teto começou a se desprender. Ia cair a qualquer instante e logo abaixo dele, totalmente alheia ao perigo que corria, estava uma garota albina que fazia algumas aulas comigo. Ela estava abaixada recolhendo os livros que cairam da mochila.

Corri imediatamente na sua direção jogando o meu lanche no chão. Então eu me joguei contra ela tirando–a do caminho no último instante antes do teto desabar exatamente no lugar que ela estivera segundos atrás.

– Você está bem? – perguntei ajudando-a a se levantar.

Ela olhou para o local onde o teto caíra e ofegou.

– Você me salvou – ela me olhou com os olhos cheios de lágrimas e me abraçou.

Fiquei sem reação diante daquele gesto. Não estava acostumada a ser abraçada daquele jeito, com exceção da minha mãe.

Encarei o fantasma do asno por cima do ombro dela fuzilando–o com os olhos. Ele deu uma risada debochada e sumiu. Os outros fantasmas ainda ficaram ali por mais um tempo e depois sumiram também.

Afastei a garota com delicadeza. Uma multidão começava a se aglomerar a nossa volta. Ela abriu um enorme sorriso enlatado para mim, as lágrimas agora escorrendo pelo seu rosto albino.

– Você me salvou – ela repetiu.

– Acho que sim – respondi dando de ombros. – Você está bem?

– Tô – ela falou fungando e enxugando as lágrimas. – Você é Suzannah. – Não foi uma pergunta.

– Sim. E você é... – me esforcei para lembrar seu nome, mas não consegui.

– Cee Cee.

– Cee Cee? – Que nome esquisito. Assim como a dona do nome. Ela se vestia de uma maneira digamos que peculiar. Nada combinava com nada, mas transmitia um alto astral que devia ser reflexo de sua personalidade.

– É.

Um professor chegou em seguida fazendo com que todos voltassem as salas de aula e pedindo ao zelador que isolassem a área do acidente. Quando Cee Cee virou-se para ir para a sala eu vi que sua blusa rosa e azul estava suja de sangue nas costas. Olhei para mim para me certificar que não era eu que estava machucada. Não era.

– Er... Cee Cee... – chamei meio constrangida. Eu e meus salvamentos desastrosos. Estava acostumada a salvar a minha própria pele, mas quando se tratava de proteger outra pessoa eu não tinha muita experiência. Ela se voltou para mim sorrindo. – Eu acho que você está... er... sangrando.

Ela franzio o cenho e puxou a camisa no local que eu apontava. Quando viu o sangue ela me encarou com o rosto sem expressão, mais pálida que o normal e eu percebi seu corpo amolecendo. Era só o que me faltava. Corri na sua direção e a segurei no momento que ela desmaiou.

– Cee Cee! – Ouvi um grito às minhas costas. Um garoto bonito se aproximou com o rosto coberto pelo medo. – O que aconteceu?

Ele tentou tirá–la dos meus braços, mas eu a puxei.

– Quem é você? – perguntei desconfiada. Já tinha protegido ela e não ia entregá–la a qualquer um por aí.

– Quem sou eu? Eu sou o namorado dela. – Ele me olhou de cima a baixo. Eu não gostei disso. – E você, quem é?

– Meu Deus! O que aconteceu aqui? – perguntou o professor já todo descabelado, a peruca fora do lugar.

– Ela desmaiou – respondi simplesmente.

– Adam, ajude a levá–la para a enfermaria, por favor.

– Sim, senhor.

Ele virou–se para mim como se pedisse permissão e eu deixei ele pegar Cee Cee no colo e levá–la para a enfermaria. Mas eu fui junto.

– Minha nossa! O que houve? – perguntou uma enfermeira gorda de sorriso bondoso.

– Eu não sei – Adam respondeu e olhou para mim.

– Eu sei – falei. – Ela se machucou quando o teto caiu, mas só desmaiou depois que viu o sangue. Ela está machucada nas costas.

A enfermeira a virou de lado para avaliar o ferimento deixando–a de costas para mim.

– Cee Cee não gosta de sangue – Adam falou se afastando para dar espaço para ela trabalhar.

– Notei.

Ouvimos um gemido leve. Cee Cee estava acordando.

– Não se mexa, por favor – falou a enfermeira segurando-a pelos ombros. – Estou fazendo um curativo aqui.

– Tá muito feio? – ela perguntou com voz chorosa.

– Só um corte leve.

– Quem está aí?

– Sou eu, meu amor – Adam falou se aproximando um pouco.

– Adam. Onde está Suzannah?

– Estou aqui.

Adam me olhou intrigado.

– Vocês se conhecem?

– Claro! Suzannah salvou minha vida quando o teto desabou. Se não fosse por ela, nesse momento eu seria só um patêzinho de Cee Cee.

Eu tive que rir com a piada.

– Será que vocês dois poderiam esperar lá fora? – a enfermeira pediu quando Adam esbarrou nela sem querer fazendo com que ela quase derrubasse o vidro do remédio.

– Claro. Desculpe – Adam falou apressado e saímos. – Então – ele continuou quando já estávamos do lado de fora –, você salvou a vida dela. Obrigado.

– Não foi nada. – Já estava ficando sem saco para todos aqueles agradecimentos. – Fiz o que qualquer um teria feito. Só que eu estava mais perto.

– De qualquer forma, obrigado. E desculpe por ter sido grosso com você.

– Sem problemas, eu também fui.

Certo. Chega de momento meloso.

– Amigos? – ele estendeu a mão para mim.

Hein? Ai meu Deus. O que é isso? Parece que estou no meio de um filme bem meloso.

– Amigos. – Porque não? Era melhor andar com eles do que com a turma de brutamontes que era o grupo do um meio–irmão.

Voltei para a sala sozinha deixando Adam para cuidar da namorada, mas eu tinha uma coisinha para fazer antes. Passei em frente a uma sala que vivia vazia e que normalmente era usada para atividades extras. Estava procurando um fantasma e sabia que ele estava lá. E não deu outra. Fechei a porta e ele veio logo falar comigo.

– Olha só, você me provocou. Eu...

Mas quem disse que eu queria papo com ele? Juntei minha raiva acumulada naquela semana e apliquei um soco certeiro naquela cara de asno fazendo com que ele caisse em cima de algumas carteiras fazendo um estrondo tremendo. Ah. Suspirei aliviada. Agora me sentia bem melhor.

– Ah! Venha aqui essa noite e eu te ajudo. – Afinal, não ia querer ele no meu pé para o resto da minha vida.

Saí logo daquela sala antes que alguém viesse verificar o motivo do barulho.