Através das Eras
1 Sonhos bizarros
Notas iniciais
— É ele? – Pergunta um idoso com farda militar, enquanto apontava para o garoto loiro que estava deitado na maca.
— Sim, senhor. – Uma enfermeira ao lado da maca responde prontamente, provavelmente por causa da alta patente do militar. – Seu nome é Edmund Moore, ele foi identificado recentemente e provavelmente ainda não sabe que ele é um deles.
— Entendo... – O velho olha profundamente para o garoto na mesa. – Ele vai acordar logo?
— Sim, senhor. – Confirma a enfermeira.
Passados poucos minutos, os dois observam Edmund tentando abrir os olhos, porém ele falha várias vezes devido a claridade do local onde estavam.
Após um tempo ele recobra seus sentidos e se senta. É aí que ele percebe que estava deitado em uma maca em um local que ele não reconhecia. E não era apenas ele, haviam muitas outras macas, algumas com pessoas descansando.
Ele reparou em suas roupas. Eram bem simples, similares com a dos pacientes de hospitais.
— Você está bem? – Pergunta a enfermeira. Demora um pouco de tempo até que Edmund confirme. – Você tem alguma lembrança sobre o que aconteceu antes de vir para cá?
— Sonhos... Eufemie... Psicólogo... Água... Sono... – O loiro fala algumas palavras soltas enquanto tentava forçar sua cabeça, o que aconteceu ainda estava um pouco embaçado para ele. – Onde eu estou?
— Você está na estação subterrânea G-10, — Só aí que Edmund reparou no idoso fardado militarmente atrás da enfermeira. – mais precisamente na ala médica.
Edmund começou a reparar nas paredes, no teto, em todos os elementos daquela sala. Ele percebeu que o lugar onde estava realmente se assemelhava com uma sala de um hospital, exceto pelas paredes verde musgo.
— Garoto, você provavelmente não deve estar entendo o que está acontecendo. – Edmund assentiu com a cabeça – E eu creio que você não deve conseguir aceitar o que vou dizer, mas...
O militar deu uma pausa, para organizar seus pensamentos.
— A crença budista estava correta, os humanos realmente reencarnam. Porém, somente um grupo minúsculo de pessoas conseguem se lembrar das suas vidas anteriores, nós os chamamos de Salvatore.
— O governo da Rússia foi o primeiro a perceber isso, porém agora quase todos os países do mundo também sabem. – Enquanto o militar falava, o garoto apenas absorvia as informações sem julga-las como verdade ou mentira, apesar de não fazer sentindo um militar mentindo daquela forma.
— O governo americano criou um projeto para acolher aqueles que se lembram de vidas passadas para ajuda-los. E, no futuro, essas mesmas pessoas iriam retribuir o favor, ajudando o país. – O militar olhou profundamente para o loiro. – E você, Edmund Moore, é uma dessas pessoas.
Edmund arregalou os olhos com o impacto da notícia.
— Agora descanse. – Quem falou foi a enfermeira, deitando Edmund na maca novamente. – Tente se lembrar do que aconteceu, depois você saberá mais informações. — Tendo dito isso, ela e o militar se retiraram.
Deitado, Edmund tentou relembrar o que tinha acontecido.
Através das Eras
Uma semana atrás, Edmund estava tendo um sonho bizarro.
No sonho Edmund está em uma pequena casa de madeira acabada, com pouquíssimos móveis, ele vestia uma calça, uma blusa simples e calçava botas. Perto dele descansava um manto negro.
Ele estava sentado em uma cadeira perto da porta, aparentemente preocupado com algo. Porém a preocupação desaparece completamente quando uma pequena garota morena entra correndo.
— Irmão! Cheguei! – A pequena garota, usando apenas um vestido branco barato, passa pela porta e pula em cima de Edmund, o abraçando.
Com ela mais próxima, Edmund repara melhor na garota, seus cabelos eram bem negros e contrastavam bastante com a pele branca da garota. Contudo o que mais ficou na memória de Edmund foram os seus olhos verdes claros.
Bem diferente de Edmund que tinha uma cor um pouco mais escura e tinha olhos castanhos.
— Eufemie! Eu estava começando a me preocupar com você. – Edmund sorriu mesmo sem querer. Então ele percebeu que não tinha controle do seu corpo, ele podia apenas observar e sentir. – Por que demorou tanto?
— Ah! Desculpe Laim, é que eu me distraí enquanto estava vindo para cá... – Eufemie sorri despreocupadamente, porém algo faz com que Edmund — ou Laim — se incomodasse.
— Alguém te reconheceu? – Edmund pergunta seriamente.
— Sim, mas eles não sabem que a nossa casa aqui. – A pequena morena tenta acalmar o irmão.
— Eles te seguiram? – Edmund começou a dar sinais de irritação.
— Sim... – A garota de uma pausa – Mas eu fui muito rápida e eles não conseguiram me acompanhar, então não precisa se preocupar. – Ela sorria para ele enquanto dava uma volta para mostrar seu corpo. – Viu, eu estou bem.
Edmund aperta os olhos, reparando bem nela.
— Eu já tenho treze anos, não precisa se preocupar. – Continua Eufemie orgulhosamente.
Apesar de Eufemie não ter mostrado, Edmund consegue notar vários pequenos machucados, que haviam sido tratados anteriormente e escondidos. Edmund range os dentes de raiva, porém se controla.
“Aqui também não vai dar...” Edmund pensa.
Então o loiro se levanta e começa a reunir as poucas coisas que eles tinham na pequena casa.
— Nós estamos nos mudando. – Edmund avisa, enquanto continua a reunir os pertences dos dois.
— Não precisa irmão, provavelmente apenas alguns sabem sobre nós. – A pequena garota tenta argumentar, aquela cidade tinha pessoas ruins, sim, mas as pessoas que não a conheciam a tratavam realmente bem e Eufemie não queria causar mais problemas à seu irmão.
Ao notar a intenção da garota, Edmund para de arrumar a bagagem e anda até ela. Ele começa a ficar irritado, por que sua irmã defendia aquelas pessoas?
A pequena esperava algum tipo de repreensão, porém Edmund a abraçou.
— Quando você vai conseguir entender que eu estou aqui para te proteger. Se algo te acontecer, eu... – Edmund apertou o abraço. Algumas lágrimas escorriam pelo rosto de Eufemie.
— Eu te amo, minha irmãzinha, eu nunca vou deixar que ninguém te machuque. — Edmund apartou o abraço e beijou gentilmente a testa de Eufemie. – Mesmo que tenhamos mães diferentes, eu ainda sou seu irmão. – Edmund sorriu para ela.
A pequena garota secou as poucas lágrimas que rolavam em seu rosto. Edmund soltou ela e voltou a arrumar as coisas, só que dessa vez Eufemie o ajudava.
— Não se preocupe com esta cidade novamente, Eufemie. – Edmund diz à sua irmã ainda sorrindo.
“Eles cometeram o pecado de te machucar, então irão receber a devida punição.” Completa mentalmente, de um jeito sério e sombrio.
Após isso, Edmund acorda em um estalo. Ele se mantém assustado. Apesar de desejar ver a continuação do sonho.
O sonho era bizarramente real. Ele conseguia se lembrar de muitas coisas, como a temperatura ambientem. A0inda podia sentir o abraço que tinha dado em Eufemie, ele se lembrava também do ódio que sentiu ao saber que sua pequena irmã foi agredida.
Porém o que ele mais se estranha era que ele lembrava do sonho como se fosse uma memória antiga dele.
O pior é que esse tipo de sonho se tornavam cada vez mais frequentes, tanto que aquela não era a primeira vez que ele via Eufemie e Laim na Inglaterra medieval.
Seus sonhos ultimamente envolviam a histórias dos dois irmãos.
Através das Eras
— Pode me contar mais sobre esses... Sonhos? – A psicóloga sentada ao lado de Edmund pede.
Após dois dias do último sonho ele tentou uma psicóloga. Não era a primeira vez que ele tinha esse tipo de sonho e já fazia tempo que ele tentava descobrir se tinha alguma mensagem dentro de seus sonhos ou se eles eram causados por algum tipo de trauma.
Edmund estava deitado em uma cadeira própria do consultório.
— Eu me assusto com o quanto eles são reais, porém o que realmente temo é o fato de lembrar perfeitamente deles. – O loiro começou a ficar nervoso. – Sonhos devem ser esquecidos quando nós acordamos, certo? – Edmund estava exaltado e aguardava uma resposta que o acalmasse.
— Algo a mais? – Não era isso que ele queria ouvir.
A psicóloga que o ouvia agora não era a primeira, mas ela estava sendo exatamente igual aos outros que não conseguiram ajuda-lo.
— Eles estão cada vez mais frequentes. – Tentou ajuda-la.
— Para sua sorte, eu já vi casos assim antes. – Isso acalmou e alegrou Edmund. – Porém eu não tenho total certeza... – Ela parecia pensar em algo. – Se você notar qualquer coisa que tenha a ver com seus sonhos, me ligue.
Enquanto dizia isso ela dava um pequeno cartão de visitas para Edmund, com tudo o que ele precisaria saber para contata-la novamente.
— Acabou nosso tempo, te vejo na próxima semana. – Edmund se agradece e se levanta. – Ou talvez até mais cedo. – Edmund refletiu sobre a última parte.
O loiro sai do consultório esperançoso.
Ele realmente esperava que daquela vez ele pudesse entender aqueles sonhos recorrentes que o intrigavam.
Enquanto andava até a sua casa, Edmund começou a reparar nas pessoas que andavam do outro lado da rua. Ele não prestava grande atenção nelas, até que chegou uma que realmente o cativou:
Uma garota, aparentemente da sua idade, com uma pele bem clara contrastando com cabelos negros. Porém o que lhe puxava a ela eram os seus olhos verdes claros.
— Eufemie... – Edmund murmurou sem nem perceber.
Quando a ficha caiu, Edmund rapidamente se escondeu com medo da garota o ter ouvido. Ele ainda não tinha entendido como, mas aquela garota era idêntica à Eufemie, apenas alguns anos mais velha.
Edmund percebeu que seu coração estava acelerado e ele respirava rápido. O choque de ter visto alguém que estava em um sonho foi forte; e ainda era sobre aquele tipo de sonho.
Apesar de lembrar do que a psicóloga tinha lhe falado antes dele sair, Edmund resolve não ligar para ela até ter maior certeza do que estava acontecendo.
Através das Eras
Já em casa, Edmund tirou um tempo para pensar na garota que tinha visto. Até tomou como possibilidade de seus sonhos serem uma espécie de premonição, porém desconsiderou por achar a ideia muito absurda.
Como um sinal de que estava pensando há muito tempo, sua barriga ronca.
Para dar um fim a sua fome, Edmund resolve preparar alguma comida instantânea, afinal, ele tinha capacidade zero em culinária.
Contudo, para sua infelicidade ele tinha esquecido de comprar qualquer comida instantânea, restando apenas alguns ingredientes para alguém que realmente soubesse cozinhar.
Ele cogitou ir até alguma loja de conveniência, mas já estava tarde e não tinha nenhuma loja dessa perto de onde morava. Resolveu então usar a internet para tentar fazer alguma receita simples.
Ele ficou tentando por cerca de uma hora e meia, até chegar no ponto onde Edmund simplesmente desistiu. Ele não conseguia fazer nada com um gosto, no mínimo, comestível. Iria tentar apenas mais uma vez e, senão der certo, iria dormir com fome mesmo.
No instante que se preparou para começar, algo invadiu abruptamente a sua mente.
Ele se viu novamente na mesma casa pobre de madeira, porém era diferente da casa do seu último sonho, parecia mais nova. Ele rapidamente notou que estava sonhando acordado quando viu Eufemie se aproximando dele. Logo, concluiu seus sonhos não apresentavam linearidade.
— Não dá Eufemie... – Edmund suspirou derrotado. – Não tem como eu cozinhar algo, eu sou um desastre na cozinha... – O loiro estava abatido.
— Não se preocupe irmão, eu sei que se você tentar mais você irá conseguir! – A menor tentava anima-lo. – Vamos, eu vou te ajudar agora.
Eufemie se aproximou de Laim e pôs suas mãos sobre as dele para guiar os movimentos do mais velho, fazendo com que ele tenha maior manejo das ferramentas.
O resultado foi um prato simples.
— Incrível irmãzinha, você é realmente incrível! – O irmão mais velho estava impressionado por ter conseguido cozinhar algo.
— Não é pra tanto Laim! – Ela se envergonhou por conta dos elogios.
Repentinamente, Edmund volta para a realidade.
Então, ao olhar novamente para os ingredientes dispostos à sua frente, ele conseguiu fazer os movimentos corretamente e replicar o que tinha feito como Laim.
Ao perceber o que tinha feito, Edmund quase grita em choque. Como era possível ele conseguir fazer algo de um sonho na vida real? Isso ia de frente com tudo que ele achava ser a verdade.
E, por não querer aceitar isso, Edmund resolveu não pensar sobre por hora.
Ele iria ignorar isso enquanto ele não pudesse criar um explicação lógica sobre isso. Consequentemente, Edmund se lembrou da garota que era idêntica à Eufemie que ele conhecia.
Ele desejava reencontra-la e perguntar se ela também tinha esse tipo de sonho. Contudo sabia que isso dificilmente aconteceria, as chances eram muito baixas. Porém, lá no fundo, ele queria acreditar que isso seria possível.
Que eles estavam conectados.
Através das Eras
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