Através Do Olhar
3 Capítulo 3
BPOV
Me levantei muito cedo como eu queria. As 6:30 da manhã dando um espaço de uma hora e meia até chegar à minha primeira aula. Eu tinha que acordar pelo menos uma hora antes, dando tempo pra despertar. Se eu não fizesse isso, provavelmente eu ia acabar rosnando pra alguém. E isso nunca é uma coisa boa de fazer.
Apesar de ter dormido relativamente pouco, eu tive sonhos agradáveis. Durante toda noite, sonhei com Edward e seu belo cabelo cor de bronze, e seus fortes traços faciais. Mas, havia algo triste nos meus sonhos. Ele podia ver. Isso era algo que provavelmente nunca aconteceria. Eu me senti horrível quando despertei e percebi que era somente minha imaginação trabalhando outra vez.
Arrastei-me para o chuveiro e relaxei sob a água quente. Me encostei nos azulejos da parede e deixei a água fumegante lavar a minha sonolência. Não sei quanto tempo eu fiquei lá. Quando estava desperta suficiente, desliguei a água, limpei a condensação que se formou no espelho do banheiro e encarei meu reflexo. Eu parecia um pintinho molhado. Eu gemi e me afastei , escorregando no meu roupão branco e fofo.
Após me vestir rapidamente, fui à cozinha, pegar um café. Alice já estava lá dentro, cantando pra si mesma. As luvas amarelas que usávamos para a limpeza iam até seus cotovelos. Levou-me um minuto para perceber que a casa estava totalmente limpa. Não só limpa, mas impecável.
"Bom dia dorminhoca." — ela sorriu, esfregando caprichadamente o balcão.
"Caramba você madrugou!" — eu falei, sentando numa das banquetas altas onde tomávamos o nosso café da manhã.
Ela ignorou meu comentário me passando uma xícara de café pegando o dela em seguida; simples e preto, enquanto o meu tinha creme e açúcar. Comecei a mexer, e uma vez que todos os grãozinhos de açúcar sumiram, eu bebi barulhentamente o líquido quente. Me arrumei sobre meu banquinho desconfortável, olhando sempre pra baixo.
"Você não teve uma ressaca ou algo assim?" — eu murmurei .
"Oh, não! Eu não bebo.", ela riu e puxou as luvas num piscar de olhos.
"Você me assusta, então." — falei abaixando a minha cabeça e pressionando a testa sobre a bancada fria de mármore, tentando fazer com que o frio de lá me despertasse. Não funcionou. A bancada tinha cheiro de lavanda e limo, provavelmente algum produto de limpeza que Alice usou. Eu amassei meu rosto um pouquinho no local,e finalmente levantei minha face.
"Então, você e Edward, hein?"
"Eu não sei do que você esta falando." — eu olhei ao longe, trazendo a caneca para o meu lábios.
"Mentirosa! Eu vi a maneira que você olhou para ele. E ele é tão bonitinho."
"E cego."
"Isso te incomoda?" — ela olhou mim, com uma de suas sobrancelhas perfeitas ligeiramente levantada.
"Não." — eu respondi um pouco depressa demais. "Sim, talvez um pouco. Não sei! Eu adorei conversar com ele. Ele era engraçado e doce. E ... e... "
"Sexy", ela afirmou com um sorriso. Eu suspirei e assenti.
"Isso realmente não interessa. Acho que ele nem se importa com isso; a beleza." Eu corei envergonhada pela minha própria admissão. Esfreguei meu pescoço, fechando os olhos.
"Ah que nada! A primeira impressão vem com o olhar. Pode-se perceber muita coisa sobre uma pessoa a partir disso. Tenho certeza que ele liga pra as aparências sim, mas de uma forma diferente."
Logo, me lembrei o que aconteceu quando ele alisou minhas mãos e corei outra vez.
"Eu não sei. Talvez." Dei ombros. Olhei para baixo vendo minha caneca quase vazia e mexi o restinho de líquido que havia nela.
"Agora, a questão mais importante é: se ele te chamar pra sair, você vai dizer sim?" Alice serviu outra caneca de café pra ela mesma.
Ela pode não beber álcool, no entanto ela consome muita cafeína ... Não me admira que ela seja tão elétrica.
Eu dei ombros novamente, não querendo admitir a minha confusão. "Talvez. Mas eu não acho que ele gostou tanto assim de mim, de qualquer jeito."
EPOV
Tocava as teclas do teclado displicentemente, deixando o som ecoar pela sala. O meu coração e meu espírito não estavam tão musicais essa manhã. Jasper estava no quarto dele, digitando algo em seu laptop. Pelo menos ele não parecia incomodado com as notas mal tocadas.
Ele não tinha mais me incomodado sobre Bella. Eu estava feliz por isso. Eu tinha que pensar nisso um pouco mais antes de decidir o que eu iria fazer.
Bella. O nome me fez suspirar. Sonhei com a sua voz e seu perfume. Eu desejei poder sonhar com algo a mais do que som. Se pudesse sonhar com imagens completas e definidas, isso já faria minha vida muito melhor.
Eu suspirei uma segunda vez. Eu finalmente decidi praticar meu instrumento, tentei tocar algo conhecido, tentando me concentrar. Escolhi uma canção quando aprendi quando ainda era uma criança. Algo fácil e que minha mãe adorava. Fur Elise de Beethoven.
Batidas soaram contra a porta principal. Eu ignorei, sabendo que Jasper iria atender. Continuei a tocar, tomando respirações profundas e estáveis.
"Ei Jazz! Qual é a tua cara, escutando essa porcaria música clássica, isso é coisa de menininha que –" Uma voz grossa rugiu alto, parando no meio da frase. Eu sorri pra mim mesmo, e não parei de tocar.
"Olá." — eu disse assim que ele parou, ainda tocando.
"Ah, oi. Você deve ser o novo companheiro de quarto do Jasper. Sou Emmett. Eu tô aqui bem do seu lado. Desculpe, eu tenho tipo... uma boca grande."
"Tudo bem. Edward." — parei, esticando minha mão pra frente. Ouvi-o dar alguns pequenos passos e parar antes de pegar a minha mão.
A mão dele era grande e pesada. Ele devia ser musculoso, devido a força que usou no aperto. Mas, pelo menos, ele foi rápido. "Então, está gostando de Shreveport?"
"É muito bom. Só estou um pouco aborrecido, por não poder sair mais ", respondi honestamente. Desliguei o teclado e encostei-o na parede.
"Bem, Jazz, eu to passando pra saber se quer ir na academia hoje"
"Não, obrigado. Não estou de bom humor ", Jasper disse. Ele parecia um pouco cansado.
"Na verdade, eu estava pensando em me exercitar. Existe uma boa academia por aqui? " — eu perguntei, de pé.
"A Universidade tem um ginásio decente. É pra onde eu vou. Além disso é de graça " Emmett disse, soando um pouco mais animado por ter nova companhia pra malhar.
"Isso é excelente. Eu realmente queria dar uma corrida agora." Segui para o meu armário e comecei a sentir, procurando um calção e uma camiseta.
"Correr? Mas eu pensei que você era-"
"Lá tem esteiras, não tem?".
"Bem, sim, claro. Mas, porque eu achei que por você ser cego não poderia correr.", ele explicou com a confusão e constrangimento aparecendo por cada palavra dita.
"Não eu não posso sair correndo por uma rua, mas acho que posso andar sobre uma faixa reta em movimento. Além do mais, eu sou cego não aleijado."
A risada de Emmett ecoou pelo quarto. Só pela sua voz eu poderia dizer que ele era um grande homem. "Desculpe, você tá certo. Como eu disse, eu tenho uma boca grande."
"Não tudo bem. Sério mesmo. Você se importa se eu me alongar um pouco antes? Tem umas boas duas semanas que eu não faço nenhum tipo de exercício."
"Claro. Está bem. Jasper, tem certeza que você não quer ir?" — ele pediu novamente.
Não ouvi a resposta dele, mas ele com certeza ele deve ter feito algum gesto. "Muito bem, quem vai perder é você."
Peguei minha bengala e minhas roupas e segui para o banheiro do outro lado do corredor. Me troquei rapidamente. Dobrei minha roupa e coloquei-as na pilha de roupas sujas. "Ok. Estou pronto."
"Importa-se se irmos a pé?"
"Nenhum pouco", eu respondi.
Nós não conversamos muito depois disso. Ele não fez nenhuma tentativa de me orientar. O que não era necessário, mas mesmo assim foi bom ele manter distancia quanto a isso.
O dia estava quente, mas o caminho não foi longo. Eu tentei gravar o trajeto, mas com certeza teria que vir com alguém da próxima vez até decorar, o caminho era demasiadamente sinuoso.
"Vamos lá, O que eu posso fazer por você?" — ele disse assim que entramos. Ele tinha me guiado até a esteira. Eu subi sobre ela, sentindo os controles com os meus dedos.
"Não, eu acho que já sei como fazer. Neste botão aqui eu acelero e estes os outros aqui são para variar a inclinação certo?"
"É isso mesmo. Eu vou pra máquina ao seu lado, só para que você saiba, " Emmett disse-me. Eu tive a sensação que ele que ele procurava algo, mas eu não tinha certeza. Afinal eu não leio mentes.
Aos poucos e comecei a correr. Meu coração começou a bombear mais forte e me senti vivo. O sangue corria pelas minhas veias acelerando a minha respiração.
"Então, qual é o seu curso?" Emmett perguntou do meu lado direito
"Porque é que todos perguntam isso?" — eu ri, pressionando os controles. Mais rápido, eu sempre quero ir mais rápido.
"Talvez porque você está estudando em uma faculdade cara. Geralmente as pessoas daqui tem que estudar alguma coisa. Sabe como é, ter conhecimento pra construir seu futuro." Ele falava como se não tivesse fazendo exercício nenhum, mas eu não podia afirmar realmente isso.
"Música."
"Legal. Isso explica o teclado na sala." Ele riu um pouco. "A propósito, desculpe a comentário sobre os clássicos serem coisa pra garotas."
"Tudo bem. Pode acreditar, eu já ouvi coisas piores do que isso. E você? Faz o que? " Eu pressionei o botão mais uma vez mais, dessa vez o que adapta a inclinação ligeiramente. Eu finalmente consegui ajustar do jeito queria.
"Sociologia."
"Sociologia! E, o que isso implica? " Eu senti meus braços e minhas pernas começaram a queimar com o calor do exercício. Exercitar-me era minha forma de relaxar.
"Caramba, eu sei lá! Sou bolsista por que eu jogo basquete no time da Universidade, o que mais eu posso dizer?" — ele riu.
"Ah, isso faz sentido." Eu ri com ele.
Ouvi um toque de telefone ao meu lado. "Merda, outra vez! O que é que ela quer agora? Droga de mulheres." Houve um clic. "Oi amorzinho."
Sua voz mudou completamente, tornou-se manhosa como um bebê em tons suaves e cheios de suspiros. Uma garota poderia fazer isso tudo?
"Não, eu vou pra lá hoje a noite. O que você gostaria de fazer?" Ele riu. "Claro, o que você quiser Rosie. Te amo. Tchau, docinho. " Ouvi outro clic. Ele tinha desligado o celular.
"Rosie?"
"Ah, minha namorada. Ela vai para LSUS¹. Ela está esta se formando em administração", a voz dele era feliz.
Eu assenti e não dissemos mais nada durante algum tempo. Sentia a felicidade das pessoas ao meu redor, porque eles tinham sua outra metade. Senti inveja. Eu queria ter isso também.
Mas, como eu poderia ter isso se nem sequer tentar algo com alguém eu tentava? Isso era algo que eu começava a ponderar, enquanto continuava a correr.
BPOV
Após uma manhã lenta, e algumas aulas bastante chatas. Tive um intervalo. O clima era parecido com o de ontem, só que com mais nuvens e um pouco mais de vento. A brisa era refrescante. Eu tinha algumas horas livres e a idéia de ir à biblioteca fez o meu cérebro doer. Eu queria aproveitar mais o sol. Caminhava lentamente através do campus, simplesmente passeando.
Minha respiração parou quando o vi novamente. Ele estava sentado no mesmo banco como no dia anterior. Seu rosto estava virado para cima, aproveitando o calor do sol, sorrindo ligeiramente. Ele parecia tão absorto em seus pensamentos. Eu parei, pensando no que eu deveria fazer.
Parte de mim queria ir direto pra biblioteca tentando evitá-lo. Eu sempre fui meio solitária, com medo de confiar muito nas pessoas. Sempre levei minha vida sem muita agitação, sem amigos e sem garotos. E eu sempre vivi bem desse jeito.
Mas vendo ele ali tão pacífico e lindo daquela maneira tão exclusiva... Era quase impossivel resistir. Tomei minha decisão e segui em direção a ele.
Quando faltava uns 10 passos pra chegar ao seu lado, ele virou seu rosto e sorriu. Os lábios dele tinha um lado mas alto que o outro. Um sorriso meio torto. Eu quase voltei atrás e decidi correr, mas depois percebi que ele já tinha me notado e se eu saísse agora seria muito mal educada. Respirei fundo e completei o caminho com passos rápidos e largos.
"Este lugar está ocupado?" — perguntei levianamente.
"Agora está", ele até sorriu para mim. Foi estranho, era como se ele pudesse me ver. "Oi, Bella".
Eu sentei, mantendo uma certa distância entre nós. "Então, como é o que foi seu segundo dia?"
"Chato, o seu?" — ele inclinou seu rosto para a minha voz novamente, com um sorriso ainda maior em seus belos lábios.
"Me surpreende o fato de eu ainda estar acordada." — eu disse a ele honestamente.
Ele riu e inclinou-se para trás. Sua cabeça voltada para o sol novamente e dos lábios não saiu mais nada.
Eu podia ver os cantos dos olhos dele. Para minha surpresa, os seus olhos estavam abertos, e piscando lentamente. Mas eu não poderia definir a cor deles, pareciam claros. Aparentemente não havia nada de anormal. Queria saber o que tinha de errado com eles.
"Posso te perguntar uma coisa?" — ele disse suavemente, com o rosto ainda virado para o céu.
"Claro, o que é?" — eu cheguei um pouco mais perto. Não sei por que, simplesmente pra me sentir mais confortável.
"Gostaria de jantar comigo?" — seu rosto abaixou ficando próximo ao meu. Poucos centímetros nos separavam novamente. Seu hálito de hortelã se espalhava pelo meu rosto e eu respirava dificilmente. Mordi meu lábio, pensando sobre o assunto. A conversa com Alice de hoje cedo passava pela minha mente. De manhã eu não tinha dado uma resposta verdadeira, então, eu quis dizer a verdade dessa vez.
"Eu adoraria, Edward."
O grande sorriso torto cresceu ainda mais em seu belo rosto e tornou-se contagioso. Meu próprio sorriso se propagou juntamente com um suave corar.
"Que tal sexta?"
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