Através do Tempo
25 Perdão
Notas iniciais
Elliot aparava a grama da parte de trás da propriedade, próximo ao rio, mas algo lhe chamara a atenção. Resquícios de sangue seco estavam entranhados na grama. Ryan se aproximara, apesar de quase três anos de idade, era bem inteligente.
- Onde o homem mau, atacou a mamãe. – Ele dissera, mirando onde o pai olhara.
- "Homem mau"?
- Sim.
- Pode me contar o que aconteceu, filho? – O menino o olhara, então seus olhos pousaram no rio logo à frente. Ele apontara com o indicador.
- O homem mau entrou em casa. Mamãe correu até aqui e acertou ele. Então ele caiu no rio. – Elliot arregalara os olhos. Elizabeth não lhe contara sobre isso. Quantas coisas mais ele deveria saber, das quais ela passara? Ele apanhara seu filho no colo.
- E você ficou com medo? – Ele meneara a cabeça em positivo, enquanto brincava com um dos botões da camisa de seu pai. – O homem mau machucou vocês?
- Não, papai. Mamãe nos salvou.
- Entendi. Mamãe é muito forte, não é?
- Sim. – Ele respondera simplesmente. Elliot sabia o quanto Elizabeth era resignada. Mas perguntaria a ela mesmo assim.
Elizabeth costurava um vestido na varanda em uma cadeira de balanço, quando Elliot se aproximara. O filho do casal havia se soltado da mão do pai e ido para dentro brincar.
- Conseguiu arrumar a cerca? – Ela indagara.
- Sim, tudo certo. – Respondera, mirando-a. Ela notara um clima estranho.
- Há algo errado? – Elliot sentara à cadeira ao lado.
- Ryan me contou que vocês foram atacados por um “homem mau”. Quando foi isso? – Elizabeth arqueara as sobrancelhas em surpresa. Ryan estava se saindo um verdadeiro fofoqueiro, realmente. Ela não imaginava que ele falaria tanto em tão pouco tempo.
- Foi na madrugada do dia em que você retornou. Era um homem forte, simplesmente arrebentou a porta e entrou. Parecia que já estava sondando minha rotina com Ryan.
- Porque não me contou?
- Como eu poderia? Estava tão surpresa com seu retorno, que não tive cabeça para mais nada. Aliás, eu já nem me lembrava mais disso... – Elliot se sentira surpreso com a sentença. Elizabeth havia mudado muito desde a primeira vez que a encontrara após dez anos de separação, na festa do casarão de seu pai. Ela não era mais uma menina boba e inocente. Havia se tornado de fato, uma mulher. – E não me julgue por tê-lo matado, ele teria feito pior se eu não defendesse meu filho.
- Eu nunca te julgaria, aliás, eu teria feito a mesma coisa, você sabe. – Ele apanhara as mãos dela nas dele, mirando os dedos feridos por furinhos de agulha e calos. Sorrira.
- Eu sei que teria feito o mesmo. – Elliot suspirara.
- Tem mais alguma coisa que aconteceu enquanto eu estive fora? – Ela gargalhara, dando um pequeno tapa no largo ombro de seu marido.
- Palhaço!
***
Os anos se passaram rapidamente, Elizabeth havia sido dada como morta, e com a ajuda e influência de Elliot, ela assumira uma nova identidade como Eliza Fawkes, esposa do Ex-capitão reformado do exército britânico, Elliot Ryan Fawkes. Ela jamais retornara para sua cidade natal, tendo o casarão e propriedades de seu pai, ficado sob custódia do estado, uma vez que nenhum herdeiro havia sido dado como vivo.
Os negócios se tornaram promissores, com o início da expansão agrícola na Inglaterra, a implantação de inovadores métodos de cultivo somente alavancou o que antes era um pequeno sonho de um casal jovem e apaixonado, em um grande empreendimento, que abrira portas para muitas famílias com a grande oferta de emprego. É claro que, com o nome da família Fawkes em popularidade, a notícia alcançara os ouvidos do velho senhor Charlie Fawkes, que jamais se esquecera de seu filho, tendo o arrependimento e a culpa o assombrando dia após dia dos anos que se seguiram, após sua ida em busca de Elizabeth.
Ryan Harald sentira seus olhos arderem sob o sol quente e o peso em suas pernas e braços. Seu corpo pingava suor na grama, e sua respiração estava pesada.
- Quanto tempo falta? – Ele indagara ao pai, que mirava o próprio relógio.
- Dez minutos. Acha que aguenta? Pode parar se for demais pra você.
- Eu consigo! – O garoto de doze anos dissera. Estava em um treinamento de força e resistência. Elliot treinara seu filho após um pedido de Elizabeth, que sempre desejou que, assim como ela e seu marido, Ryan também pudesse se defender. Desde então Elliot o treinava, assim como treinara Elizabeth em sua infância.
- Tudo bem, vou pegar água pra você. – Elliot dissera, se afastando. Ryan continuara em posição de luta, com o peso em seus braços e também amarrado em suas canelas. Até que uma sombra se aproximara de si. Estava num dos campos de treinamento, próximo ao casarão da família. Ele estranhara a presença, uma vez que não poderia ser seu pai.
- Muito bem, rapaz. Você irá se tornar um homem forte, assim como seu pai. – Ele olhara o dono da voz envelhecida e levemente rouca. Um senhor de espessos cabelos brancos e encaracolados, bem apessoado, vestido de forma requintada, o mirava; sua pele, trazia as marcas do tempo e seu olhar o fardo da vida. Seus olhos eram verdes, como os de seu pai. Ryan saíra da posição em que estava, retirando os pesos de suas pernas.
- Olá, senhor. Eu o conheço? – Charlie olhara seu neto profundamente. Ele realmente recordava fortemente seu filho. Os cabelos pelos ombros, eram loiros e encaracolados, os olhos eram tão verdes e vivos como os de Elliot, mas seu olhar era curioso e genuinamente lembrava Elizabeth.
- Não o conhece. – Elliot surgira, trazendo nas mãos uma garrafa de água e dois copos.
- Elliot Ryan, há quanto tempo, meu filho. – Ryan olhara seu pai e o senhor em questão. Se o chamara de filho, então ele deveria ser seu avô. – Desculpe- me vir sem ser convidado.
- Tudo bem. Ryan, esse é seu avô, Charlie Fawkes, meu pai. – Elliot mirara o filho, em seguida seu próprio pai. – Este é Ryan Harald, meu filho com Elizabeth.
- É um prazer, senhor. – Ryan dissera, cumprimentando-o com um aperto de mãos.
- Harald... – O velho senhor murmurara.
- Elizabeth dera o nome de seu pai como uma homenagem. – Charlie olhara Elliot de esguelha. Não podia falar nada, uma vez que abandonara sua nora e seu neto à própria sorte em sua gravidez.
- E então meu rapaz, irá pro exército assim como Elliot?
- Pai! – Elliot o chamara a atenção.
- Seria uma grande honra para mim, senhor. – Ryan sorrira, mirando seu pai, que não esperava por essa resposta.
- Ora, vejam só! Gostei de você!
Elliot convidara seu pai para se juntar à mesa e almoçar com sua família, à princípio Charlie não se sentira à vontade, mas acabara por aceitar o convite. Quando estavam na grande mesa para o almoço, Elizabeth aparecera. Estava radiante, os anos haviam sido bons para ela. Porém quando a mesma o notara ali, sentira seu sangue sumir de sua face, e lembranças ruins invadirem suas memórias.
- Mãe! – Ryan notara a palidez no rosto de sua mãe, e correra para apoiá-la. Ela olhara Elliot seriamente, e ele se prontificara em explicar.
- Querida. – Seu marido se aproximara amparando sua esposa, sussurrando em seu ouvido. – Ele apareceu de repente. – Elizabeth o olhara de esguelha e então se sentara.
- Elizabeth! Vim conhecer Ryan. Aliás, como você está linda! – Dissera Charlie.
- Não graças ao senhor. Na verdade o senhor nem teria um neto para conhecer se não fosse minha própria força e resignação. – Todos na sala ficaram em silêncio e então Charlie resolvera falar.
- Eu sinto muito. – Ele baixara a face, mirando seu próprio prato. Respirara fundo e então continuara. – Na verdade eu vim aqui para lhes pedir perdão. Até mesmo a você, meu neto. Me perdoe. – Ele olhara de Ryan a Elizabeth. – Eu os abandonei na hora em que mais precisavam de mim. Eu sei que vir aqui agora, depois de tanto tempo, pode não fazer diferença, mas fará para mim. Que já estou velho e moribundo. Eu a entendo, — seus olhos pousaram em sua nora, que o olhava com rancor, — entendo sua raiva, você estava com um bebê no ventre e eu menti, para vocês dois. – Desta vez, fora para Elliot que seu olhar se dirigira. – Sei que pedir por perdão, é pedir muito.
- Sr. Fawkes, meu pai o considerava muito. – Elizabeth dissera. – Ele o considerava um amigo importante. Eu sei que minha família, meus irmãos e minha madrasta, para ser mais exata, não eram pessoas dignas de consideração e confiança. Mas nunca entendi sua raiva por mim.
- Se o senhor não gosta da minha mãe, também não gosta de mim! – O garoto se prontificara em rebater.
- Ryan, por favor. – Elliot dissera ao filho, que mirava o avô com as sobrancelhas franzidas.
- Pois bem, — Elizabeth continuara, — se tem uma coisa que aprendi com meu pai, é sobre amor, respeito, bondade e compaixão. Posso perdoá-lo sim, pois meu coração está cheio daquilo que meu foi dado. Se não fosse o senhor também, Elliot jamais estaria neste mundo. Então neste sentido, só tenho a agradecer. – Ela dissera, apertando as mãos de seu marido. – Ao contrário do senhor, eu não sou de virar às costas às pessoas. Foi isso que meu pai me ensinou e é isso que levei para a vida. – O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor.
- Obrigado. Eu quero poder conhecer o meu neto, se vocês dois me permitirem. E se Ryan quiser. – Ryan o olhava ainda com olhos ferinos. Mas suavizara o olhar quando sentira as mãos de seu pai, em seu ombro. – Você tem o direito de escolher. Por favor, me dê uma chance. – Charlie dissera, mirando seu neto com pesar.
- Tudo bem. Se o senhor realmente se arrepende e minha mãe o perdoou, eu não me oponho. – Charlie sorrira ao neto, ao ouvir suas palavras, mas o garoto permanecera sério.
O almoço transcorrera de forma rígida no início mas aos poucos o clima fora melhorando. Charlie lembrara de trazer Richard, o mordomo, com ele na viagem, havia ficado no hotel mas combinaria de trazê-lo ali na próxima visita. Se despediram algumas horas depois, combinando um jantar para o dia seguinte.
***
- Ele foi corajoso de vir até aqui. Aliás, nem sei como nos encontrou. – Elizabeth dizia, sentada em sua cama, enquanto Elliot enxugava seus cabelos após um banho.
- Nosso nome chegou a muitos lugares. Agora temos um negócio promissor e ele pôde nos encontrar. – Eles haviam mudado de endereço, agora moravam na capital na maior parte do tempo, mas era um pouco afastados do centro. – Ryan manifestou interesse de entrar para o exército. – Elizabeth o olhara de olhos arregalados. – Calma! Eu pretendo fazê-lo mudar de opinião.
- Ele não tem escolha, uma vez que é obrigatório.
- Mas posso mexer os pauzinhos...
- Tudo bem, Elli... Deixe ele decidir. Eu não sou contra. Ryan é bem treinado. Eu confio no meu filho.
- Nosso filho.
- O que foi que eu disse? – Elizabeth dissera sorrindo, tendo um Elliot abusado, lhe tocando todo o corpo, enquanto beijava seu pescoço.
- Ora, vejam só! Temos uma Eliza cínica por aqui... – Ela gargalhara, agarrando-o para beijar seus lábios de forma ardente, o puxando para a cama, tendo suas roupas prontamente atiradas para todos os lados.
- Espera, espera! – Ela dissera, já sem roupa alguma, parando as carícias ousadas que Elliot já iniciava.
- O que foi, querida? Melhor hora para senhora Fawkes bater um papo comigo... – Ela não pode deixar de se divertir com isso.
- É sério, eu tenho algo para te contar. – Ele a mirara incrédulo. Elizabeth fora até a gaveta da mesinha de cabeceira, e tirara de lá um par de sapatinhos cor de rosa, tricotados em lã.
- É sério? – Ele dissera, com um brilho em seu olhar.
- Sim.
- Como sabe que é uma menina?
- Porque tive um sonho. O nome dela é Juliet. – Elliot sorrira tão grandemente, que iluminara o coração de Elizabeth. Ele a deitara na cama, beijando seu ventre com cuidado e zelo.
- Juliet era o nome da minha mãe. — Ele sorrira docemente, mirando o ventre de sua amada.
- Eu sei. — Elizabeth respondera, acariciando seu rosto de forma terna.
- Agora, papai tem que tomar mais cuidado. Eu estava pronto para jogar sua mãe no meio dos travesseiros. – Ele dissera divertido, olhando Elizabeth de lado.
- Fui salva por minha filha! – Rira-se, acariciando os cachos loiros de seu marido, enquanto o via beijar sua barriga.
Alguns anos podem ter se passado, mas o amor e o desejo, jamais deixara de existir entre eles dois.

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