Além do mais, sua alta presença era algo confortavelmente estranho... Estar bailando com Undyne, parecia mais era uma sensação de sonho. Não que fosse surreal, mas a música e os passos calmos eram complementares. Alphys sentia-se em uma valsa com o príncipe encantado que um dia, sua criança interior desejou encontrar. — E resolveu enterrar esse desejo interior, infantil abaixo de todas as camadas carnais e espirituais, para nunca ser feita de tola.

Olhou para os lados, reparando como certos casais e pessoas singulares olhavam as monstras ali com um uma feição que expressasse... Nojo. Repudio. Alphys, no entanto, deu de ombros: Se estavam sendo observadas, significava que estava indo bem. Muito bem. Elevou a cabeça, observando sua companhia e não deixou de notar como os olhos de Undyne pareciam distantes, como se estivesse prestando a atenção em alguma coisa à distância. Disfarçadamente, Alphys maneou a cabeça para onde sua parceira estava olhando.

Não havia ninguém ali. E se tivesse, talvez fosse algum conhecido. Ela estava bastante aérea e apenas acenou com a cabeça, como se estivesse ouvindo o que Alphys dizia — mesmo que não tivesse dito absolutamente nada. Quem sabe, estivesse apenas viajando graças ao álcool?

— Undyne, você já ouviu falar de um assassino que está andando por aí?

A voz da pequena monstra saíra baixa, mas Undyne sacudiu a cabeça como se voltasse à realidade. Seus olhos cerraram-se e logo se abriram lentamente. Alphys estava impressionada com a maneira que a peixe fechava os olhos.

— Perdão? — Pronunciou como se tivesse esquecido a pergunta feita.

— Hah... Ah, digo... Você ouviu falar d-do assassino que está às soltas por aí? — Alphys respirou, tentando fazer com que sua respiração não se tornasse errática, por prestar a atenção nos mínimos gestos da ‘companheira’. — É-é estranho, não?

Undyne pareceu tornar-se surpresa novamente. Suas sobrancelhas arquearam como se tentasse lembrar-se de alguma reportagem sobre isso. Sua boca remexeu, formulando alguma resposta.

— Um assassino? — Pronunciou de tom duvidoso, como se não acreditasse no que ouvira. — Mas aqui é uma cidade tão tranquila... Não é?

“Ela parecia tão inocente sobre isso."

Alphys considerou um ponto: Dar um resumo da notícia do assassino, ou bem dizendo, assassina, refrescaria a mente dela. No entanto, como Undyne nunca ouviu falar sobre isso? Esses assassinatos têm acontecido durante um mês inteiro, é impossível que não tenha ouvido falar sobre isso.

Hum... Digamos que há um assassino rondando essa região... A Cidade dos Monstros, cometendo crimes horrendos. Isso tem acontecido durante um mês seguido.

— Credo! — Undyne pronuncia, soltando uma das mãos e pondo perto da boca, expressando sua reação incrédula. Retornaram a juntar as mãos, fazendo Alphys dar uma pirueta. Após sua fala deu um breve sorriso, o que a policial poderia achar estranho antes de ouvir o que vinha a seguir. — A polícia está cuidando disso, não é?

— Sim, nós estamos... Buscamos por informações e qualquer coisa é bastante importante. Afinal nós sempre adivinhamos quem possa ser o assassino. — Ela respondeu, dando um sorriso, demonstrando uma determinação radiante.

Undyne assentiu concordando. A noite soava tranquila, inclusive aquele frio em suas costas não se repetiu mais. Alphys passou a achar que era impressão ou algum choque de estar sozinha. E com a monstra ali, sentia-se mais segura.

— Alphys, precisamos ir.

A voz de Sans se torna presente ali e parecia bastante alta por só haver elas duas ainda na pista. Na visão do esqueleto, Undyne aparentava ter esbanjado uma expressão incomodada, logo disfarçando ao ver o rosto da pequena monstra mostrando um sorriso. Desviaram os olhares, enquanto Alphys anunciava um breve “preciso ir.”, soltando as mãos e acompanhando Sans.

— Você está louca?! — Sans esbravejou, acertando o jornal enrolado na cabeça de Alphys. Enquanto esta tentava impedir de todas as formas, mas era em vão: O esqueleto era ágil e tirava por poucos milésimos o jornal. — Só tínhamos nós três ali! E com uma assassina solta na cidade, você faz a melhor coisa: Dá mole de ficar de bobeira com aquelazinha lá.

— Mas havia as p-

Acertou ela mais uma vez.

— Quem, sua doida?! Os bêbados lá no canto? Os DJs? Até eles se darem conta, você poderia ter morrido. Ah meu Deus, que isso não aconteça...

“Eu só estou preocupado com você.", ele pensou internamente ainda olhando fixamente para a amiga. Sabia que ela não entendia a profundidade desses cuidados, que estava tomando.

— Sans, não acuse ninguém sem provas! Ela é inocente. E me dá esse jornal aqui! — Aproveitou a distração do amigo, pegando o jornal enrolado e jogou embaixo da mesa de trabalho, olhando de cara feia para o esqueleto, que estava silencioso.

— Ah, cara. Vamos lá... — Sans parecia arrumar algum argumento para convencer à amiga. — Ela está na cidade há poucos dias, nunca ouviu falar disso?! Todos estão comentando sobre esse assunto, até mesmo o pessoal no colégio do Papyrus! Isso não é desculpa para dizer que não sabia.

— Por qual motivo seria ela?! — Questionou.

Apesar de não querer perder a paciência com seu amigo, sabia que até certo ponto, ele tinha muita razão sobre isso. No entanto, Alphys não queria admitir: Era orgulhosa demais para isso.

— Olha o tamanho daquela mulher! — Ele incitou. — Ninguém nunca a viu na cidade... Além de ser uma bela de uma mentirosa.

— Mentirosa... — Alphys murmurou, tentando raciocinar as palavras do amigo. Parecia ser sem nexo, como um ataque de ciúmes bobo. Sem razão alguma para tudo aquilo ser verbalizado. Mesmo assim, estava interessada no que ele tinha a dizer. — Como assim?

— Não existe nenhum centro de luta na cidade. Isso, inclusive é quase inútil, pois aqui é um lugar pacífico. Não há nada disso que ela disse aqui na cidade. Alguns de nossos ajudantes passaram entrevistando pessoas que pareciam fazer artes maciais e qualquer outro negócio de defesa. E adivinha? Ninguém faz isso!

Como se fosse uma arma de choque eletrizando todos os seus sistemas, Alphys arregalou os olhos surpresa. Pôs a mão próxima à boca, desacreditada. Não podia ser real. Não mesmo.

Deveria haver um bom motivo para Undyne estar mentindo.

— Mas, ei! Não se preocupe... — Estalou os dedos ósseos à frente da amiga, que ainda estava desnorteada. Cutucou a ponta do nariz amarelo dela, ganhando a atenção para si. — Ela não apresentou nenhum índice de fazer algo errado, além de mentir. Nossos vigilantes estão monitorando alguns suspeitos.

— S-suspeitos?

Sans caminhou até a mesa, pegando uma pasta de tom vermelho e entregou na mão da policial. Murmurou um “lê aí”, deixando a sala com um suspiro, antes mesmo batendo a porta. Alphys leu atentamente cada parágrafo da folha, absorvendo os detalhes minuciosos. Além de Undyne, havia uma jovem moça e dois rapazes como suspeitos.

Os rapazes foram vistos em uma área suspeita, agindo de uma forma questionável. Já a moça, fora vista com Undyne. De qualquer forma, todos poderiam deduzir que era estranho. – E então, deu-se conta de algo: E se forem um quarteto do crime?

Negou com a cabeça. De todas as incertezas que lhe rondavam, apenas havia uma única afirmação: Precisava de respostas para as suas perguntas. Olhou para o monitor do computador, encontrando um novo obstáculo: Como chegar a Undyne e as fazer? E de fato, haveria suas respostas?

Mas, em seu coração ela sabia que não haveria suas respostas.

Notas finais
Estamos na reta final.