Através da Renegada
6 Capítulo 6: A Pedra Fundamental de Scarlet
Notas iniciais
Hector arrastou uma cadeira de madeira da cozinha e Dominic sentou-se à sala perto da lareira. Anthony sentou-se na poltrona que antes Devon ocupava e conversou, pela primeira vez, com seu pai. O príncipe não precisava de confirmação alguma, ele simplesmente sabia e sentia. Sabia desde que entrou naquela sala, sabia por que pediu ao espelho para encontrar o que precisava, mesmo que não soubesse o que era. Hector contou ao filho sobre sua história com Clarissa, Anthony não se emocionava fácil, mas seus olhos molharam com facilidade nos meados daquela conversa. Dominic apenas ouvia, seus olhos desviavam para a lareira e as chamas iluminavam seus olhos, o elfo deu falta do rapaz que estava ali quando chegou, mas ficou calado.
— Coisas terríveis aconteceram à Scarlet quando minha mãe retornou. — Anthony começou a contar quando seu pai calou-se. — Ela foi presa e durante dezoito anos, pensávamos que ela estava morta. Mas minha irmã a salvou, assim como salvou o reino inteiro. Aliás, sou gêmeo.
Hector ergueu as sobrancelhas e sorriu. Era pai de gêmeos, de um belo rapaz e com certeza uma bela menina.
— Há uma garota? — ele perguntou sem conseguir deixar de sorrir.
Anthony assentiu.
— É a nossa rainha e se chama Avalon. — disse o príncipe com um tom orgulhoso. — Viemos por que ela está aqui.
O coração de Dominic apertou quando o nome de Avalon foi mencionado, e Anthony teve uma sensação parecida quando decidiu não mencionar Rubra. Afinal, o príncipe não fazia a menor ideia do que estava acontecendo entre ele e a fada salvadora.
— Então, precisamos partir. — Dominic levantou-se.
Anthony assentiu e repetiu o feito, ajeitando manga da blusa. Hector ficou um tempo sentado, ponderando, antes de também se levantar. O homem apertou os dedos e passou a mão fria pelo rosto magro.
— Há uma coisa... uma coisa. — Hector murmurou quando levantou. — Uma coisa.
Dominic o olhou impaciente e Anthony enrugou a testa.
— Que coisa? — Dominic segurou-se para não gritar.
Hector fez sinal pedindo um instante e deixou a sala com rapidez.
— Iremos embora logo e acharemos as meninas. — Anthony tentou tranqüilizar seu amigo no momento que se viu sozinho com ele.
Dominic ficou quieto. Estava demasiadamente irritado e não achava prudente agir agressivamente com o príncipe de Scarlet, mesmo que agora uma amizade nascesse ali.
— Eu sei que você acabou de encontrar seu pai e...
— Ah, então é isso mesmo. — uma voz arrastada soou no final da sala.
Anthony e Dominic viraram-se e viram Devon. Ele estava com os cabelos escuros molhados e tinha trocado de camisa. O príncipe tomou postura e estirou a mão para o seu novo irmão, e foi surpreendido quando ele a apertou educadamente. Devon estava imensamente irritado e mesmo cumprimentando Anthony ele não mudou sua cara fechada e claramente insatisfeita. Quando soltaram as mãos, olharam-se nos olhos e inconscientemente buscaram por semelhanças.
— Quem é a Branca? — foi a única coisa que Devon conseguiu dizer.
Anthony piscou sem entender.
— Sim, eu a conheço. — Devon explicou. — Ela esteve aqui e desapareceu tão rápido. Sei que ela é princesa, mas não entendi bem o que ela estava fazendo aqui. Vocês irão atrás dela?
Dominic e Anthony se entreolharam. Não estavam ali pela Branca, jamais estiveram. Ela não esperava que eles estivessem, na verdade, Branca não esperava por ninguém.
— Ela é uma prima desagradável. — Anthony foi sucinto. — Não estamos aqui por ela.
Devon ergueu as sobrancelhas.
— Que tipo de família é você? — o rapaz mundano caminhou devagar até o príncipe.
Anthony soltou uma risada baixa.
— Branca me enfeitiçou, me enganou, me levou até Scarlet para que ela e a mãe dela pudessem me prender e enfim reinassem sobre Scarlet, e deixar o reino desfalecer, claro. — ele disse com simplicidade. — As rixas familiares são inúmeras.
Devon deu dois passos pra trás e antes que pudesse dizer algo Hector voltou à sala. Ele estava afobado e trazia algo nas mãos. Uma pequena caixa de madeira, bem ornamentada e bonita, tinha uma parte de vidro que dava visão para o interior da caixinha. Assim que Anthony e Dominic colocaram os olhos sobre o objeto, surpreenderam-se por motivos diferentes. Ambos viram a pedra comprida em forma triangular, bem pontuda. Negra e com pontos brilhantes. Anthony não fazia ideia do que era aquilo, Dominic sabia muito bem o que era.
— Impossível. — o elfo sussurrou sem tirar os olhos das mãos de Hector.
O historiador entregou o objeto a Anthony.
— O que vêem? O que é? — o homem apressou-se em perguntar. — Uma de vocês esteve aqui. Uma garota princesa, filha de Alexa. Ela disse que mundanos não podem ver seus objetos encantados, e então eu entendi.
Mas Anthony não entendia nada, observava a caixa e depois a pedra dentro dela. Dominic pegou o objeto devagar e analisou com fascínio.
— Eu recebi essa caixa das mãos de Clarissa. — contou Hector. — Pouco antes de ir embora ela me implorou para guardar esta caixa num lugar onde jamais alguém alcançaria. Mas eu nunca o enxerguei.
O príncipe de Scarlet assentiu e tinha os olhos na pedra nas mãos de Dominic.
— Tantas coisas fazem sentido. — disse o elfo olhando Anthony. — Esta é a Pedra Fundamental de Scarlet. Está desaparecida há quase vinte anos, ela é imbuída de energia scarletiana. Essa Pedra é o item encantado mais antigo e mais poderoso de todos os tempos. Ela foi esculpida de uma rocha ígnea pelas mãos de uma criatura nunca revelada, os livros dizem que é gelada e solitária, mas nunca soubemos quem é. A Pedra Fundamental de Scarlet é extremamente delicada e sofreremos um perigo terrível caso ela caia em mãos erradas.
Hector estava boquiaberto e Devon sentia um enojo inevitável, mas também um quê de curiosidade e fascínio. Anthony, pelo contrário, estava com medo.
— Devemos deixá-la aqui então. — disse o príncipe. — Minha mãe deveria estar tentando escondê-la e não sei se é uma boa ideia tirá-la daqui agora.
Dominic assentiu devagar e devolveu a caixa de madeira para Hector.
— Podemos confiar no senhor? — o elfo perguntou com sua postura militar.
— A protegerei com minha vida. — o homem disse com seriedade.
Era enfim o momento de partir. Anthony abraçou seu pai e apertou a mão de seu irmão, jamais imaginaria que os encontraria ou sequer que existiriam. Quando enfim saiu pelas ruas de Manhattan estava escuro e chovia um pouco. O príncipe e o elfo seguiram até a casa de Lisandra com seus corações em suas meninas, e talvez um pouco em Branca também. Nem que fosse para gritar com ela.
***
Avalon ajeitou a mochila no ombro enquanto Rubra fechava a porta atrás delas. O corredor era escuro, estreito e tinha um cheiro horrível de enxofre. Era abafado e dava a sensação de que as paredes estavam fechando prestes a esmagá-las, Rubra teve um sentimento frio e trêmulo, do qual não estava familiarizada: o medo. O corredor que parecia mais um túnel, só não estava um total breu por conta de uma luz muito distante no fim da passagem, tão distante que não conseguiam ainda enxergar. Avalon ouviu a respiração de Rubra ofegar e se sentiu quase estúpida por não estar temendo nada. Em silêncio, as duas continuaram cruzando o longo corredor. Avalon sentiu algo passar por cima do seu pé, em seguida Rubra sentiu o mesmo, e ambas tiveram espasmos com os pés, mas continuaram.
O cheiro ruim aumentava, mas o calor se dissipava e a luz estava mais próxima. Embora com o odor pertinente, estava mais fácil de respirar e o corredor se alargou. Estavam quase no fim, num momento da travessia, Rubra ouviu vozes. Seus olhos arregalaram e ela agarrou o pulso de Avalon que se virou devagar. Agora com uns feixes de claridade, podiam se enxergar pouco nitidamente.
Não ouviu?, Rubra pensou.
Avalon enrugou a testa. Uma risada fina soou abafada e distante. A rainha assentiu e a fada também, e agora tentando fazendo o menor barulho possível elas continuaram sua travessia. Quando enfim chegaram próximas a luz, notaram que havia uma curva e era de lá que a iluminação e onde o barulho soava. As paredes eram rochosas. Rubra tomou a frente e espiou pela curva, e viu uma porta de madeira aberta dando passagem para uma sala de pedra e a iluminação era proveniente de várias velas acesas. A fada tinha sua visão limitada, não podia se inclinar mais, por que poderia ser vista. Ela e Avalon ouviam barulhos de coisas batendo, livros, colheres, sapatos tocando o chão pedregoso. Quando ergueu os olhos, Rubra viu um grande lustre dourado e as paredes cheias de prateleiras abarrotadas de livros velhos. A fada arriscou-se mais um pouco e viu um grande caldeirão. Enorme e de ferro. Mas não conseguiu ver o que tinha dentro dele, Rubra se assustou quando de relance viu a silhueta de alguém. Uma mulher alta e de cabelos claros, foi só isso que conseguiu ver.
— Tome isto. — elas ouviram uma voz feminina dizer.
Em seguida um barulho de líquido sendo derramado foi ouvido. Rubra e Avalon se entreolharam, não reconheciam a voz.
— O que é? — uma segunda voz manhosa surgiu. — Tem um cheiro terrível.
Branca!, pensou Avalon.
A fada vermelha se esforçou para não revirar os olhos.
— Beba logo! — uma terceira voz surgiu com agressividade. — Vai curar seus ferimentos.
Alexa, os pensamentos de Rubra soaram com pesar.
Um silêncio perdurou por segundos até que a voz de Branca surgiu novamente.
— Como chegou aqui? — a princesa questionou.
Alexa suspirou.
— Eu conheço as coisas, querida. — disse a mulher. — E vim atrás de família. Uma família mais parecida comigo.
A primeira voz que ouviram soltou uma risada.
— Alexa, você sempre foi minha preferida. — disse a voz.
Avalon e Rubra se olharam quase sem respirar.
Família? Que família?, a fada vermelha pensou.
Avalon apenas negou sem saber o que estava acontecendo.
— Morgana, cara irmã, o momento não poderia ser mais propício. — Alexa deliciou-se nesta fala.
As salvadoras de Scarlet taparam a boca para evitarem a exclamação e logo em seguida ouviram um tilintar de taças como em um brinde. A família Cleveland acabava de finalmente receber de volta sua primogênita Morgana.
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