Através da Renegada
4 Capítulo 4: O Livro Viajante
Notas iniciais
— Irmãs? — Branca disparou assim que a história de Hector terminou e seus olhos se arregalaram. — Morgana é uma terceira filha de Eros?
Hector pigarreou.
— Eu não posso dizer nada que você não saiba sobre. Não é minha família, não é minha história. — Hector negou enquanto levantava-se da sua poltrona. — Agora se me permitem...
— Não! — Branca basicamente gritou. — Não permito. Parece muito cômodo agora você simplesmente dizer que não pode dizer nada sobre a minha família quando já disse tanto sobre minha própria tia. Diga quem é Morgana!
A voz autoritária de Branca ecoou naquela sala que agora não parecia mais tão aconchegante assim.
— Não grite com meu pai, Branca. — Devon a olhou com seriedade.
A princesa revirou os olhos e de repente alço ocorreu-lhe.
— Morgana? — Hector indagou com a voz em sussurros como se dissesse um segredo. — É por isso que está aqui?
Branca olhou com urgência a Hector.
— Por que eu estaria aqui por conta de Morgana? — ela perguntou como se já soubesse a resposta. — Ela vive no mundo dos humanos? Ela foi banida ?!
Hector pigarreou e olhou Branca com súplica.
— Não vou contar. — o historiador foi firme. — Quero que deixe a minha casa imediatamente, alteza.
Devon colocou a mão no rosto e negou devagar. Branca ficou boquiaberta.
— Está me expulsando? — a princesa questionou sem gritar. — Como ousa?!
Uma discussão iminente estourou e não havia ninguém prestando atenção num brilho dourado e incomum pairando em frente à lareira apagada.
— Eu ouso sim! — Hector alterou a voz. — Você entra na minha casa e me faz contar de um passado que eu já considerava morto! E quer ainda exigir coisas de mim!
O brilho intensificou-se.
— Passado este que envolve minha terra e minha família! — Branca rebateu.
O brilho explodiu e tomou forma. Um barulho surdo caindo no chão soou.
— O que foi isso? — Devon alertou-se e começou a olhar em volta.
Branca viu o objeto imediatamente e aquilo de alguma forma a deixou tranqüila, era algo familiar. A princesa segurou o vestido e andou com rapidez até a lareira e pegou o objeto – que notou ser um livro – com urgência.
— Não acredito que veio até mim. — ela sorriu com os olhos molhados.
Hector e Devon se entreolharam e estavam sem entender. Ambos olhavam as mãos vazias da princesa.
— Branca, o que você está fazendo? — Devon questionou.
A princesa olhou-o entusiasmada.
— O Livro das Profecias, ele está aqui! — a garota sacudiu o livro tão palpável aos seus sentidos.
Os mortais continuavam olhando-a confusos, até que Branca entendeu. Ela abraçou o livro.
— Vocês não podem enxergar. Mortais não enxergam objetos encantados. — a princesa concluiu.
Os olhos de Hector se arregalaram por um instante com aquela frase e ele apertou os dedos. Antes que notassem, ele respirou fundo, piscou com força e relaxou os músculos. Devon olhava Branca com inteira curiosidade, não apenas por ser sua magia, mas por algo que não entendia. Branca fixou seu olhar nos olhos escuros de Devon pela primeira vez em algum tempo e desviou-os quando o livro começou a gelar em seus braços. Com um suspiro, ela o abriu. Na página treze, havia algo desenhado, um casebre velho, numa rua larga, pessoas desavisadas. Os olhos de Branca – os brancos – doeram quando ela viu a frase que surgiu abaixo da figura.
— Que? — ela não reconheceu as letras.
Para Branca, surgiu um título na página. Grande, com letras cursivas bonitas e enfim entendíveis.
— O Retorno da Promessa. — a princesa leu em sussurros e logo abaixou os olhos novamente — O que isso significa?
Branca apertou a página do livro. Notou então uma placa no desenho, com um nome. Sabia que o livro não lhe mostraria aquilo sem razão.
— Onde fica...
Branca não terminou sua frase. Se ela pedisse ajuda para achar o lugar acabaria levando alguém com ela e não poderia. Encontraria sozinha, então.
— O que? — Hector perguntou contra gosto.
Branca olhou Hector e negou.
— Nada. — ela disse simplória. — Você queria que eu fosse embora, então estou saindo.
Quando a princesa deu um passo em direção até a porta o livro sumiu de seus braços, soltou uma exclamação sutil, mas continuou andando.
— Não, não faz isso. — Devon falou com receio indo até Branca. — Aonde você vai? Você não sabe nem onde está.
Branca parou perto da porta e quando se virou para olhar Devon sentiu um impulso, mas controlou-o, não sabia exatamente o que era, mas sabia que estava lá. Caminhou devagar até ele e o abraçou com cautela, envolvendo seu pescoço com seus braços. Branca não se lembrava da última vez que tinha abraçado alguém. Hector observava aquela cena com um incômodo significante, então deixou a sala em silêncio. Devon abraçou Branca como se temesse tocá-la, repousou suas mãos largas nas costas delicadas da princesa que tremeu.
— Obrigada, Devon. — ela disse e o soltou.
O rapaz ficou observando-a andar até a porta e enfim batê-la.
***
A festa em Scarlet tinha acabado há duas horas. No grande salão, que agora estava mobiliado diferente com grandes tapeçarias bonitas, sofás confortáveis, uma longa mesa de jantar, poltronas, prateleiras de livros recheadas e, claro, rente à parede de fundo do palácio, bem no centro dela, estava o belo trono com pedras de gelo, vazio. Clarissa andava de um lado para o outro sem parar. Eros tinha ido até sua toca. Dominic estava fazendo uma busca, que sabia que era inútil, pelo reino. Anthony estava inquieto e já tinha cogitado correr dali e saltar dentro do espelho.
— Elas estão no mundo dos humanos. — disse o príncipe que agora já estava com a gravata folgada. — Eu tenho certeza.
Clarissa grunhiu.
— Não vamos afirmar nada...
— Estão no mundo dos humanos. — Eros entrou escancarando as portas do palácio. — Acabei de falar com as patronas Lisandra e Gio...
Anthony levantou-se rapidamente.
— Falou com minha mãe? — ele perguntou com urgência.
Clarissa puxou o ar com força e sentou-se, desviando o olhar. Anthony pensou em desculpar-se, mas não achou apropriado. Eros olhou de sua filha até seu neto.
— Elas sabem sobre Branca e o Livro das Profecias apareceu novamente. — o ancião comunicou.
Clarissa levantou-se e caminhou até seu pai, com a mão no peito como se ele doesse.
— Há alguma notícia de Branca? — ela perguntou.
Eros negou pesaroso.
— Eu vou atrás delas. — Anthony anunciou indo em direção a sala do espelho. — Onde está aquela espada?
— Você não pode levar uma arma daquela para o mundo dos humanos! — Clarissa o repreendeu.
Anthony parou e virou-se para sua mãe.
— Preciso fazer algo. — o príncipe disse com um quê de exaustão. — Vi minha irmã e a minha... Não sei o que Rubra é minha, mas eu vi as duas salvando Scarlet enquanto eu ficava desacordado. Eu quero fazer alguma coisa.
Eros e Clarissa se entreolharam, antes que pudessem dizer alguma coisa a porta do palácio foi novamente aberta. Dominic ficou parado na porta e fez uma reverência.
— Altezas. — ele disse.
Todos assentiram.
— Pode entrar, Dominic. — Clarissa permitiu-o.
O Elfo estava suado e com sua roupa amassada, seu cabelo cheio estava esvoaçado por andar de cavalo – com Manteiga – em alta velocidade. Ele ajeitou sua espada na bainha e aproximou-se. Suas botas sujas marcavam o chão.
— Não há sinal delas em lugar nenhum. — sua voz tremia, mas ele era o comandante do exército de Scarlet, não fraquejaria.
— Elas estão no mundo dos humanos. — Anthony contou.
Os olhos castanhos de Dominic arregalaram-se por um instante. Um silêncio tomou o palácio. Dominic soltou um ar que segurava e seus ombros caíram.
— O Livro das Profecias...
Um baque surdo impediu o fim da frase de Eros. Todos se viraram pra trás e em cima do trono estava o livro dourado. Sem pestanejar, Anthony foi até o livro, o ar frio do trono o estremeceu, e o toque gelado e familiar do livro lhe deu força. Enquanto Anthony reaproximava-se o livro abriu-se e sozinho foi até a página treze. O príncipe franziu o cenho.
— É um desenho. — ele disse. — Pela metade.
A página estava vazia apenas com um desenho partido ao meio. Com um quê de hesitação, Dominic aproximou-se. O elfo sentia-se incômodo andando pelo palácio que de onde, por natureza, era apenas um criado. Quando se pôs ao lado do príncipe e inclinou a cabeça para olhar o que dizia a página do livro, o desenho completou-se. Os rapazes se entreolharam. Anthony apertou os olhos ao ver o esboço da placa que compunha o desenho.
— Conheço esse lugar. — disse o príncipe que em seguida abaixou os olhos para ler a frase que surgiu.
Dominic negou devagar.
— Que palavras são essas? — Anthony questionou.
— É um idioma bruxo antigo. — o elfo concluiu e olhou Eros. — Você pode traduzir para nós?
O ancião negou.
— Não sou um bruxo e não tenho meios que possam ajudar. — ele disse. — Mas Lisandra pode. Devem ir de encontro a ela e seguir o que o livro lhes deu.
Eros tirou um pergaminho de dentro das vestes e também uma pena, num olhar rápido ele copiou as letras desconhecidas que o livro trazia, quando terminou guardou a pena e entregou o pergaminho ao neto. Minutos depois o livro desapareceu das mãos de Anthony que assentiu para seu avô.
— Vem comigo? — o príncipe olhou Dominic enquanto colocava o papel no bolso.
O Elfo desembainhou sua espada afiada e entregou-o para Eros.
— Nomeie Ashter para ficar em meu lugar, é o mais indicado. — Dominic pediu e olhou Anthony. — Vamos.
Clarissa deu um abraço rápido em seu filho e olhou dele até o Elfo.
— Tomem cuidado. — ela disse e afastou-se.
Os dois assentiram e em silêncio eles seguiram até a sala minúscula do espelho.
— Está apaixonado pela minha irmã? — Anthony foi direto quando se viu sozinho com o elfo.
Dominic observava o espelho de névoa e pensava na única pessoa que queria encontrar. Avalon
— Está apaixonado pela Rubra? — Dominic rebateu.
Anthony respirou fundo e soltou uma risada.
— Espero que encontremos aquilo que precisamos. — disse o príncipe antes de mergulhar no espelho.
E aquela sua última frase, que causou reações significativas ao espelho de névoa, mudou todo o curso de uma viagem. Dominic saltou no espelho logo depois, mentalmente concordando.
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