Através da Renegada

3 Capítulo 3: Aos Olhos de Um Homem Mortal


Notas iniciais
Olá, sejam bem vindos!

Devon estava irracionalmente fascinado. Uma garota de vestido branco e perolado aparece bruscamente em sua vida, mais especificamente no hospital onde apenas trabalha como um estagiário, e começa a falar sobre tudo aquilo que ele conhecia bem demais, acreditando ser um conto de fadas bem detalhado e criativo, que seu pai teria supostamente criado para entretê-lo.

Theresa Goldman morreu quando seu filho Devon tinha apenas quatro anos. Hector – que foi seu marido e é pai de seu filho – entrou numa depressão profunda durante meses até que se sentiu incapaz de cuidar do filho e de si mesmo. Devon então foi deixado aos cuidados da avó paterna enquanto seu pai pegava todos os seus objetos de pesquisa e viajava para outra cidade – Sacramento, na Califórnia – para estudar a sociedade contemporânea local simultaneamente com a mais antiquada. Na cidade de Califórnia, Hector via uma saída estreita de sua depressão e a cura do seu coração partido, e tudo o que ele acreditava precisar era a ocupação de sua mente. O historiador retornou à Manhattan dois meses depois com uma pesquisa não concluída e várias histórias sobre o reino de Scarlet. Histórias essas que foram passadas à Devon todas as noites antes de ele dormir e jamais foram esquecidas pela mente fervorosa do pequeno garoto.

Branca nunca tinha andado de carro antes, afinal isso não existia em sua terra. Depois de um dia inteiro em observação e fingindo tranquilidade, a princesa foi liberada para voltar para casa. Ela sentou-se no banco do carona observando minuciosamente todos os detalhes daquela máquina esquisita que andava sobre quatro rodas e tinha bancos desconfortáveis. Branca passou a mão pelo vestido sujo e sentiu algumas pedras caírem, e enfim notou que estava descalça, apertou os dedinhos dos pés. Agoniada com seu cabelo, que agora já estava ficando maior o usual, ela o pegou e com jeito fez um coque feio. Sabia que estava horrorosa, mas estar bonita não era sua prioridade. Independentemente da aparência da princesa naquele momento, Devon não cansava de dar olhadas esgueiras à Branca. Ele não sabia se era fascínio ou curiosidade, mas Devon adorava olhá-la.

O carro estacionou e Branca tomou um leve susto. Imitando o gesto de Devon, ela mexeu na parte de dentro da porta ao seu lado tentando abri-la, mas falhou miseravelmente.

— Mas que droga. — ela sussurrou.

A porta se abriu pelo lado de fora. Devon a puxou devagar e estirou a mão para Branca, que a pegou contra gosto e saiu do carro, assim que se viu fora daquela máquina insana Branca afastou-se. Devon bateu a porta do carro e com um clique de sua chave o fechou.

— Eu moro aí. — ele apontou para a casa logo atrás da princesa.

Branca se virou devagar. Tinha uma escada de mármore com três degraus e uma varanda vazia. A porta dianteira era de madeira e parecia gasta pelo tempo e pela natureza. Toda a casa era amarela e tinha uma grande janela no lado direito, mas estava coberta por uma cortina grossa. Com um aceno de cabeça, Devon convidou Branca a segui-lo e indo atrás dele, a princesa entrou na casa. O ambiente era quente e silencioso, o primeiro cômodo era uma sala. Tinha muitos quadros nas paredes, eles mostravam paisagens e fotos. Um grande mapa emoldurado chamou a atenção da princesa. Havia uma lareira que estava apagada. Debaixo da grande janela, havia uma longa mesa com nichos, e tudo estava lotado de livros que de longe aparentavam ser velhos. Havia duas poltronas no centro da sala com uma mesa entre elas, viradas para a lareira, repousadas sobre um tapete vinho. As paredes eram todas cinzas.

Branca olhou para seus pés descalços e notou o piso de madeira. Como aquilo conseguia ser tão diferente de sua casa? Ela não entendia. Devon deixou suas chaves sobre a mesa da sala e passos foram ouvidos e vinham da cozinha da casa.

— Não me contou que traria visitar, filho. — uma voz séria e gentil soou pela sala.

O homem dono da voz vinha limpando as lentes dos seus óculos redondos. Quase não tinha cabelo e seu rosto era fino. Os olhos muito parecidos com o de Devon traziam um ar cansado e olheiras pertinentes. Ele recolocou os óculos nos rostos e se aproximou observando Branca.

— Papai, essa é a Branca. — Devon a apresentou. — Branca, este é Hector, meu pai.

A princesa observou o homem com a garganta travada e com medo de dizer qualquer coisa, então apenas estirou sua mão. Intrigado com a postura da garota, ele apertou sem tirar os olhos dos dela. Tão cinzas.

— Você está bem? — Hector perguntou sem sutileza.

A princesa olhou para si mesma, sem sapatos, com a roupa scarletiana suja e com o rosto abatido. Branca negou. Um silêncio desconfortável pairou pela sala, ninguém sabia o que dizer e todos queriam falar alguma coisa.

— Vou preparar um suco para...

— O que sabe sobre a minha casa, Sr. Vasquez? — a voz de Branca se manifestou pela primeira vez naquela casa.

Hector não gostava de ser interrompido, mas não era por isso que suas sobrancelhas estavam arqueadas. O homem se aproximou um pouco mais, assim como Devon que observava os dois meticulosamente.

— Não sou corretor de imóveis, sou um historiador. O que eu saberia? — o homem questionou com secura, ainda que não quisesse ofender.

— Pai. — Devon disse num tom de repressão.

Branca olhou de um para o outro e tomou postura. Ela não entendia muitas coisas que Hector dizia, mas sabia que não gostava do que estava ouvindo.

— O que você sabe sobre Scarlet? — a princesa falou com um tom de agressividade e um quê de impaciência.

Ao ouvir o nome do reino Hector não se moveu. Seus olhos não piscaram. Sua respiração desacelerou. Todo o seu corpo parou de funcionar por três segundos completos, era como se seus sentidos tivessem sido congelados e quando voltou a si ele olhou o filho.

— Achou uma garota de Scarlet? — Hector disse num fiapo de voz.

Devon olhava de Branca para Hector sem parar. Branca respirou devagar e sem tirar os olhos de Hector ela se aproximou dele. O historiador observava cada movimento da princesa minuciosamente e quando ela chegou perto suficiente ele tocou seu rosto. Ninguém entendia o que estava acontecendo.

— Não sou uma garota de Scarlet. — sutilmente Branca tirou a mão de Hector de seu rosto. — Eu sou princesa Cleveland de Scarlet. O que sabe sobre meu reino, mundano?

Ao ouvir o título de Branca, Hector fraquejou um pouco e se afastou. Caminhou com lentidão até o centro da sala e sentou-se em sua poltrona. Devon virou-se para seu pai e quando ia perguntar se ele estava se sentindo bem, o historiador tirou os óculos, massageou a testa e olhou com pesar para a princesa.

— Você é filha da Clarissa? — Hector tomou postura.

Branca arqueou as sobrancelhas e negou com prontidão, ela caminhou até o centro da sala e sentou-se no tapete com as pernas dobradas graciosamente. Por um segundo sentiu-se incômoda, e se eles não sentassem em tapetes do mundo dos humanos? Branca adorava repousar no tapete lilás – rodeado de almofadas – de seu quarto. Que saudades, a princesa sentia.

— Clarissa é minha tia. — Branca disse com calma. — Como a conhece?

Hector não a respondeu, ao invés disso observou os traços de seu rosto com calma como se a reconhecesse.

Morgana? — Hector indagou com a voz em sussurros como se dissesse um segredo. — É por isso que está aqui?

Branca enrugou sua testa inteiramente confusa. A princesa negou com lentidão.

— Quem é Morgana? — ela perguntou no mesmo tom misterioso. — Por que eu estaria aqui relacionada a ela?

Hector umedeceu os lábios.

Alexa. — o historiador disse com precisão e seus olhos levemente esbugalhados denunciavam uma hesitação.

Branca compreendeu o olhar do homem ao falar o nome de sua mãe, mas não estava nem perto de entender tudo o que ele sabia.

— Quem é Morgana? — Branca questionou com a voz ao ponto de descontrolar.

Hector negou e levantou-se bruscamente da poltrona.

— Olhe para mim, mundano, e responda às minhas perguntas. — a princesa exigiu, levantando-se do tapete e sacudindo seu vestido volumoso.

Devon observava seu pai e Branca em silêncio. Hector virou-se para olhar nos olhos cinza de Branca.

— Você não é soberana aqui, alteza. — o historiador colocou seus óculos de volta. — Não pode dar ordens.

Branca enfureceu-se e pensou em rogar-lhe um feitiço da obediência ou pelo menos atingi-lo com força na cabeça, mas se conteve.

— Apenas me conte o que sabe e como sabe. — Branca tentou pedir com delicadeza. — Por que sobre coisas inteiramente restritas ao reino de Scarlet? Você nunca pode ter estado lá, o exército saberia e o eliminaria.

Scarlet tinha uma energia encantada que prevenia a entrada de estrangeiros e que alertava qualquer tentativa de invasão. Hector olhava a princesa em silêncio.

— Por favor. — ela suplicou.

O historiador esfregou o rosto e bufou. Um segredo tão pesado que ele guardava há tanto tempo e mantinha-o tão vivo e tão esperançoso. O segredo de Scarlet que vivia em Hector deixava o lúcido de alguma forma, e Branca estando ali, bem em frente aos seus lados, lhe dava uma confortável certeza de que tudo era real. Ajeitou os óculos e retornou à sua poltrona. Devon e Branca o olhavam com expectativa.

— Foi um pouco depois da morte da mãe do Devon. — Hector começou a contar com o olhar perdido, não queria fixá-lo em ninguém. — Eu estava deprimido e não sabia o que fazer. Não conseguia mais cuidar do meu filho, fui demitido da escola que trabalhava há anos e me sentia infeliz. Decidi então fazer uma viagem à Sacramento por que a história do lugar me chamava atenção há algum tempo e eu queria uma chance de encontrar um propósito. Eu encontrei algo, não bem um propósito, mas foi valioso.

“Numa noite qualquer da primeira semana que passei em Sacramento eu conheci essa mulher. Eu tinha passado o dia enfiado em papéis e pesquisas, e enfim decidi sair para jantar. Assim o fiz, fui num restaurante famoso da cidade e depois dei algumas voltas pelo lugar, estava frio e o lugar era calmo, fazia bem para o meu espírito e me ajudava a pensar. Cheguei a um píer, estava quase vazio, não lembro bem das especificidades do lugar, apenas me recordo de avistar no final do píer uma mulher. Ela estava de costas e usava um vestido longo amarelo, era uma roupa de verão. Seus cabelos dourados flutuavam com o vento e ela então se virou em minha direção.”

A mulher tinha os olhos verdes e profundos, que quando se cruzaram com os meus aqueceram meu corpo por completo. Quando me viu ela virou-se novamente e sentou-se na ponta do píer. Eu fiquei parado onde estava. Senti meu peito fortemente intrigado, assim como uma força quase gravitacional que me puxava para frente, então enfim caminhei. Quando cheguei à ponta do píer, sentei-me ao lado da mulher. Naquela época eu tinha cabelo, então passei a mão sobre eles e olhei para o lado. Ela me olhou no mesmo momento e riu.

— Chegou bem no momento certo. ela disse e olhou para o céu.

— Por que diz isso? — desajeitado eu ajeitei meu óculos e segurei o sorriso nervoso.

Ela me olhou soslaio e depois voltou a fitar a negritude estrelada.

— Eu acabei de encontrar minha constelação favorita. — a mulher falou entre sorrisos. — Se chama O Arqueiro, ou Sagitário se preferir, assim como o signo.

Olhei para o céu e apenas conseguia ver um aglomerado de pontos brilhantes, que embora lindos, não me mostravam figura nenhum. Ela me olhou e com doçura apontou para o céu.

— É só procurar nos detalhes das estrelas. — ela disse e eu acompanhei seu dedo dançar. — Consegue ver? Bem aqui está uma das pontas do arco e logo abaixo está a outra.

Seu dedo subia e descia no ar, apontando em direção às estrelas. Eu tinha conseguido enxergar a constelação preferida dela.

— É muito bonito. — eu a olhei e ela ainda estava maravilhada com o céu.

Depois ela abaixou o olhar até mim. Ficou observando meu rosto e sorriu de novo. Ela soava tão jovial, sua voz tão doce, seu sorriso tão pleno e seu olhar, ah, seus belíssimos olhos verdes, eram estonteantes. Ela estava bronzeada naquela estação.

— Sou Clarissa. — ela finalmente me presenteou com seu nome.

— Eu me chamo Hector. — respondi, mas dessa vez sorri sem me segurar.

Devon estava desconfortável ao ouvir as palavras do seu pai falando daquele jeito sobre outra mulher que não fosse sua mãe. Hector o olhou e travou sua fala.

— Continue. — disse o rapaz.

Branca os observou e depois focou os olhos em Devon. O estagiário olhou a princesa de forma vaga e depois abaixou o rosto.

— Eu e Clarissa nos apaixonamos naquele dia. Com certeza eu me apaixonei primeiro. — o historiador continuou a contar a história e Devon notou um brilho incomum na face de seu pai. — Eu abandonei minha pesquisa e me dediquei a estar junto dela o máximo que pude, por que desde o início eu sabia que ela iria embora.

Numa noite, deitados na cama do hotel eu estava hospedado, eu e Clarissa olhávamos a chuva fina pela janela. Ela apertou minha mão e tornou a dizer que dali há não muito tempo precisaria partir. Eu não a entendia. Queria que ela viesse comigo para Manhattan. Eu queria que Clarissa ficasse. Ela me disse que não podia.

— Eu deixaria tudo pra trás por você, Hector. — ela me disse com seus olhos grudados nos meus.

A luz da lua que atravessava a janela molhada e iluminava minha amada fazia meu coração doer ainda mais por sua iminente partida.

— Por que não deixa? — indaguei com urgência. — Venha comigo. Você irá amar o Devon. Irá amar Nova Iorque.

Clarissa deu uma risada gostosa e vi em seu rosto que desejávamos o mesmo.

— Eu sei que amaria tudo isso. Eu amaria todas as coisas com você. — ela apertou minha mão de novo. — Hector, eu sou uma rainha.

Meu rosto perdeu todas as cores e expressões. Ela era da realeza. Mas meu ceticismo foi mais forte do que eu e então soltei uma risada incrédula. Soltei sua mão e sentei-me na beirada da cama, de frente para a janela. Clarissa suspirou e pôs a mão em meu ombro.

— Apenas diga que não quer ficar comigo, Clarissa. — eu sabia que ela queria, mas me sentia amargo.

Ela tirou a mão de mim e sem sequer olhá-la eu sabia que sua expressão estava magoada.

— Não seja injusto comigo, Hector. — sua voz estava ofendida. — Meu nome é Clarissa Cleveland e eu sou a rainha de Scarlet. Não posso ficar. Eu tenho deveres tão maiores que eu. Infelizmente, maiores que nós.

Eu me levantei da cama e esfreguei meu rosto. Clarissa estava enrolada com os lençóis esbranquiçados do hotel.

— Do que você está falando? — eu finalmente a olhei de novo. — Que lugar é esse?

Clarissa ficou em silêncio e parecia estar vivendo um conflito interno muito forte. Enfim ela começou a falar e me contou tudo. Sobre a história da fundação de Scarlet, o oráculo, as fadas, as bruxas, os Elfos, as profecias, a magia, o grandíssimo Palácio de Gelo. Eu duvidei de tudo pertinentemente. Então ela me mostrou. Eu vi a luz da magia em suas mãos e ela transformou um relógio de parede em gelo. Gelo puro e frio. Eu achei que fosse enlouquecer, mas apenas fiquei mais encantado por aquela mulher.

— Esse crime que eu cometo agora te contando tudo isso é a prova de que não há ninguém neste mundo, em nenhum dos mundos, que eu confie como confio em você ou que eu ame como eu amo você, Hector. — Clarissa me beijou.

Eu a amava tanto. Nos dias que nos restaram ela me ensinou tudo sobre Scarlet, Clarissa queria que eu a conhecesse. Ela me deixaria, eu entendia o porquê finalmente. Abandonar o nosso amor pelas raízes dela fez-me amá-la ainda mais. Eu conheci Clarissa, cada detalhe de sua vida e sua casa. Ela me contou de sua família. Seus pais, suas irmãs. E como havia sido escolhida para ser a soberana de Scarlet.

Um dia ela partiu. Eu nunca mais tornei a vê-la.

Notas finais
Mito obrigada por ler esta história ♥