Atração Involuntária
6 Capítulo 6
CAPÍTULO 6
Eu abri os olhos piscando algumas vezes para me acostumar com a claridade. Me movi devagar e gemi quando cada músculo do meu corpo protestou. Estava deitada na minha cama, sob lençóis macios e sentia dedos suaves tocando os meus, acariciando, confortando.
– Não se mova, hermosa. Fique quieta. – Ele riu os lábios nos meus cabelos. – Acho que a noite passada foi demais para você. Deveria ter tomado um analgésico antes de dormir.
Aos poucos ia recobrando a consciência e percebia que estava aninhada em outro corpo, com a cabeça apoiada sobre um braço que não era o meu. Jamais acordara ao lado de um homem em toda minha vida, mas sempre imaginara essa sensação de encaixe perfeito, de proteção, de segurança e conforto. Estávamos juntos na cama. Jesse não me deixara sozinha.
– Jesse – eu murmurei
– Sim. Como se sente?
Eu deslizei a mão sobre o lençol até entrelaçar os dedos nos dele. Ele segurou minha mão e a afagou.
– Dolorida.
Ele riu novamente.
– É o que dá provocar fantasmas. – Não sei se ele se referia aos fantasmas loucos da Missão ou a ele mesmo. Talvez aos dois. – Sua mãe já bateu na porta três vezes. Você tem o sono muito pesado.
Minha mãe. Droga! Levantei de um salto, me sentando na cama, segurando o lençol na altura dos seios.
– Se ela entrar aqui eu estou ferrada – falei alarmada.
– Não se preocupe, Suzannah. Eu tranquei a porta. – Estendeu a mão para tocar meu rosto. – E, além do mais, ela não iria me ver aqui.
Não era muito fácil raciocianar com ele me tocando daquele jeito, o polegar alcançando meus lábios.
– Que... horas são?
– Uma e meia.
– Quê?! – Quase gritei. Lá se vão meus planos para o sábado. – Que droga! Queria ir para a praia.
Ainda não tinha pisado na praia desde que chegara e tinha planejado passar o sábado inteiro me bronzeando e mergulhando. Se bem que, com Jesse aqui na minha frente, eu podia muito bem pensar em outras coisas para fazer. Talvez meu dia não tenha sido perdido no final das contas.
Nessa hora minha mãe bateu na porta novamente. Se ela estava batendo daquele jeito, quase derrubando a porta, durante toda a manhã, eu realmente tinha dormido como uma pedra. Me sobressaltei quando ouvi o barulho, seguido pela voz dela.
– Suzinha. Suzinha! – ela falou do outro lado da porta, quase gritando. Que bom que ela está me chamando de Suzinha. Sinal que ela não ia brigar comigo por eu ter dormido até aquela hora. – Já acordou, meu anjo?
– Já, mãe – respodi no mesmo tom, sem me mexer, olhando para Jesse.
– Até que enfim. Já estava pensando em chamar um chaveiro e arrombar a porta.
– Isso seria interessante – Jesse falou baixinho. Não que minha mãe fosse ouvi–lo.
– Eu já vou sair, mãe. Só vou tomar um banho.
– O almoço está quase pronto. Não demore.
Ouvi seus passos no corredor e depois descendo as escadas.
Jesse levantou e eu desviei os olhos daquele corpo perfeito, corando intensamente. Ele vestiu a calça e sentou na cama novamente, me abraçando por trás.
– Vou te dar um pouco de privacidade, mi hermosa. – Ele afastou meus cabelos e beijou meu pescoço sensualmente, fazendo um arrepio subir pela minha espinha.
Traçou sua língua na minha pele, mordiscando o lóbulo da minha orelha me provocando.
Eu arfava enquanto sua mão deslizava pelo meu ombro descendo pela curva da minha cintura, por cima do lençol.
Me surpreendi quando ouvi um gemido ao pé do meu ouvido. Ele me provocava com carícias e ainda ficava excitado com isso? Isso era ótimo para o meu ego. Me fazia sentir tão poderosa. Então ele se afastou com relutância.
– É melhor eu ir logo. Ou não vou deixar você sair desse quarto.
– Talvez passar o dia no quarto não seja um má idéia.
Ele riu pegando a camisa que estava jogada no chão, mas não a vestiu.
– Hermosa, hermosa... tão doce, tão inocente. – Não mais tão inocente, certo? – E tão tentadora. Você é uma mulher perigosa, Suzannah. Vai me levar para o mal caminho.
Ele me chamou de mulher. Não garota. Mulher! E de tentadora e perigosa. O que mais eu queria? Ganhei meu dia! Eu ri abobalhada encarando seu peito másculo e toda sua perfeição.
– Vou agora – ele continuou –, mas ficarei por perto. Quando quiser que eu volte é só me chamar que eu virei imediatamente.
– Eu não quero que vá – falei na mesma hora.
Ele me encarou com aqueles olhos negros cheios de paixão.
– Sua mãe vai acabar chamando aquele chaveiro.
É verdade. Droga!
– Tem razão.
– Até mais, mi hermosa. – E sumiu.
Senti uma sensação de vazio se apoderando de mim. Estava ficando dependente da presença dele.
Tomei um banho rápido, vesti um vestido leve de alças com renda nas pontas que batiam no joelho e desci para a cozinha. Estavam todos lá. Brad e Jake tinham acabado de voltar da praia e estavam levando uma bronca de Andy por entrarem com os pés sujos de areia sujando todo o chão e David conversava animadamente com minha mãe.
– Até que enfim, bela adormecida – minha mãe falou quando me viu. – Pensei que ia dormir o dia todo.
– Desculpa, mãe. Estava cansada.
– Eu imagino filha. Essa semana foi difícil para você. – Ela não faz idéia. – Tantas mudanças. É natural se sentir esgotada.
Sentamos à mesa e comemos uma macarronada deliciosa que Andy tinha feito. Era ótimo ter um cozinheiro tão bom na família.
Brad e Jake praticamente devoraram tudo e levantaram correndo depois de colocar os pratos na pia.
– Aonde vocês vão? – perguntei antes que eles passassem pela porta.
– Voltar à praia – Brad respondeu sem se virar.
– Posso ir com vocês? – Talvez ainda desse tempo de pegar um solzinho.
Os dois pararam e se olharam em dúvida.
– Desde que a gente não tenha que ficar de babá.
– Eu sei me cuidar, muito obrigada, Brad.
– Então vai rápido se trocar.
Subi correndo as escadas, coloquei um biquini verde e coloquei o vestido por cima, pegando uma toalha no armário e desci as escadas novamente.
Os dois praticamente me ignoraram durante a descida até a praia conversando sobre mulheres, é claro, mas eu não me importei. Ainda mais quando cheguei lá embaixo e encontrei Cee Cee e Adam debaixo de um guarda-sol. Assim que me viram, acenaram com entusiasmo me chamando.
Estendi a toalha ao lado deles, mas no sol, e tirei o vestido. Cee Cee estava ainda mais branca, se é que isso era possível, com o corpo todo coberto de protetor solar.
Ficamos ali conversando enquanto eu me bronzeava um pouco. Era muito mais fácil conversar com aqueles dois do que eu imaginara. Eles eram legais, apesar de formar uma dupla bem estranha. Dei um mergulho rápido quando senti o sol esquentando demais na minha pele e depois fui com eles numa lanchonete próxima comprar refrigerante. Estávamos sentados numa mesa quando eu vi Brad passar pela janela com cara de quem iria aprontar alguma.
– Pessoal, eu vou aqui um minuto. Não demoro. – Minha curiosidade não deixaria passar essa.
Dei a volta no estabelecimento indo para os fundos da loja em direção ao estacionamento. Brad estava agachado ao lado de um carro e eu ouvi o barulho de pneus secando.
– O que esta fazendo?
Brad deu um pulo do susto que tomou, mas quando viu quem era, relaxou e voltou ao que estava fazendo. Me aproximei mais e vi que ele tinha colocado um pedaço fino de madeira no pino do pneu, fazendo-o secar.
– Brad, de quem é esse carro?
– Não é da sua conta. Cai fora!
Ah! Que ousadia! Então eu reconheci o carro.
– Esse não seria o carro do Sr. Hill, seria? – Sr. Hill era o nosso professor de biologia que eu sabia que Brad odiava, embora com razão. Ele pegava no pé de Brad toda aula, mesmo sem ele fazer nada. Talvez o solteirão tivesse inveja dele por Brad ser jovem e cheio de mulher dando em cima dele.
– Eu já disse que não é da sua conta!
Eu tive que rir com a atitude do meu meio-irmão. Sempre tive vontade de secar os pneus de alguns dos meus antigos professores, mas minha fama não era muito boa por lá. Eu certamente seria a primeira acusada.
– Seu pai não iria ficar nada feliz se descobrisse o que você está fazendo, Brad.
Ele me olhou me fuzilando. Então um sorriso perverso atingiu seus lábios.
– Mas você não vai dizer nada a ele, nem a ninguém, Suzinha. – Odeio quando ele faz isso. Ele sabe que eu não gosto que me chamem de Suzinha. A minha vontade era bater nele, mas eu ainda tinha que continuar minha pose de santinha.
– Me dê um bom motivo para não contar – falei com um sorriso cínico no rosto.
Ele se levantou, aproximando-se de mim até quase me tocar, seu rosto ainda com o sorriso perverso.
– Por que se você abrir seu bico, Suzinha – Ai, que ódio! – eu terei o imenso prazer de contar para sua mamãe certas coisas que aconteceram no seu quarto na noite passada.
Congelei. Ele não poderia saber o que realmente acontecera no meu quarto. Ou poderia? Mas, pensando bem agora, eu não tinha me preocupado muito em não fazer barulho. Na verdade, eu não me preocupei com nada a não ser em aproveitar o momento.
– Não sei do que está falando – desconversei, mantendo o rosto impassível, mas por dentro minha mente girava num turbilhão.
– Não lembra é? Sei – ele falou sarcástico. – Então deixa eu refrescar sua memória. – Então ele fechou os olhos num semblante claro de prazer – Oh... aaahhh... oooohhhhh....
– Cala a boca, Brad! – falei por entre os dentes. Mas ele continuou “gemendo” ainda mais alto. Ainda bem que não tinha ninguém por perto.
– Ooooohhhh.... Jesseeeeeee.
Ouvir ele dizer aquele nome foi o suficiente para acabar com todo meu alto controle. A vontade de bater em alguém foi mais forte. E ele estava pedindo mesmo! Ele nem viu o que lhe atingiu na barriga. Caiu no chão sem ar, soltando imprecações!
– Sua louca! Você vai ver só!
Antes mesmo que ele tivesse a chance de levantar eu puxei seus cabelos para trás fazendo com que ele me encarasse.
– Se você se atrever a contar isso para alguém, eu vou fazer você desejar nunca ter nascido, está ouvindo? – E o soltei fazendo ele cair de costas no asfalto novamente.
E para minha irritação, ele riu. E bateu palmas.
– Bravo! – Eu o encarei furiosa. – Finalmente eu conheço a verdadeira Suzannah. Eu sabia que aquilo tudo era só fachada.
– Vai se ferrar, Brad! – eu gritei, a raiva aumentando a cada instante.
Ele se levantou ainda rindo e se aproximou de mim novamente. Ele não tinha medo da morte não?
– É o seguinte, Suze. – Ele se aproximou ainda mais e me agarrou pela cintura. Tentei me livrar, mas ele era mais forte. – Estamos num impasse aqui. Eu não quero que você conte para o meu pai o que eu fiz e você certamente não quer que eu conte para sua mãe o seu segredinho. – Tentei me desvencilhar novamente, mas sem sucesso. – Então eu proponho um acordo simples. Você fica de boca fechada e eu faço o mesmo. O que acha?
– Me solta, seu imbecil!
– Suzinha, isso lá são modos?
Ele se afastou num pulo para trás no momento que meu joelho se ergueu de encontro com sua parte mais sensível.
– Você é bem selvagem, hein? – ele disse zombeteiro. – Jesse também é do tipo violento? Se bem que eu acho que não. Não ouvi a voz dele. Só a sua. Ou melhor... seu gemidos.
Voei para cima dele, tomada pela raiva, mas dessa vez ele desviou do soco por alguns centímetros.
– Está bem! Parei! – ele falou erguendo as mãos num gesto de rendição.
Me virei para encará–lo tirando o cabelo que o vento insistia em jogar no meu rosto.
– Se você falar alguma coisa...
– Eu não falo se você não falar! – ele me interrompeu, sustentando meu olhar. – Ok?
O que mais eu podia fazer?
– Ok.
Dei as costas para voltar para a lanchonete. Brad me alcançou e passou um braço pelos meus ombros. Eu o empurrei com um safanão e ele riu.
– Então, conta aí... quem é esse Jesse? É da escola?
– Não é da sua conta. – Ah, se ele soubesse!
– Você é bem apressadinha, hein? – ele continuou se aproximando de novo andando ao meu lado. – Mal chegou na cidade e já levou um carinha para o quarto.
– Vai se ferrar!
– Boca suja.
– Imbecil!
Ele se afastou rindo e eu entrei na lanchonete novamente, ainda arfando de raiva.
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