Atração Involuntária
4 Capítulo 4
CAPÍTULO 4
À noite eu esperei todos irem dormir e coloquei meu plano em prática. Vesti uma leggin preta, um top e um casaco preto com capuz por cima. Calcei meus tênis e me preparei para pular a janela. Ajeitei minha mochila com alguns apetrechos ótimos para entrar em algum lugar sem permissão, lanterna, chave de fenda, alicates e coisas assim, que eu adquiri durante minha jornada como mediadora. Então pulei. Pensei que ia ter que mancar por alguns quarteirões, mas, por incrível que pareça, eu caí em pé, com quase nenhum impacto devido à grama fofa.
De repente eu senti como se estivesse sendo observada. Olhei ao redor, mas não vi nada. Devia ser só impressão. Peguei uma bicicleta na garagem e subi me preparando para pedalar até a Missão. Ajeitei o capuz de forma que protegesse meu rosto do vento frio e dei a partida. O caminho era todo em descida, o que me lembrava que a volta não seria nada fácil, mas fez com que eu chegasse no meu destino em poucos minutos. Escondi a bicicleta ao lado de uma lixeira e, com facilidade, pulei o muro caindo sem ruído no pátio. Me virei em direção à escola e dei de cara com uma cena que me deu calafrios. Fantasmas. Muitos deles. Refletiam a luz da lua dando um aspecto horripilante à cena e sorriam de uma forma assustadora. Pareciam uma gangue. E eram liderados novamente pelo asno. Aqueles fantasmas definitivamente não estavam com boas intenções. Mas é claro que eu não deixaria eles perceberem que eu estava assustada. Nunca! Tinha uma reputação a preservar.
– Que bom que estão todos reunidos aqui. – Me aproximei ajeitando a mochila às costas. – É bom que não tenho que dar duas viagens. Chegou o Papai Noel – ironizei. – Então, minhas crianças, o que querem de Natal?
Uma mulher de cabelos crespos e loiros deu um passo à frente, ainda com o sorriso maquiavélico nos lábios.
– Você não foi nada bondosa conosco essa tarde, Mediadora. Nos iludiu e depois nos ignorou.
Nossa. Ela falava bonito. Que dó que eu senti dela. Até parece!
– Vocês podem não ter vida, mas eu tenho. E não posso me expor falando em público com quem nem deveria estar mais aqui. – Encarei um a um para eles verem que eu não estava brincando. – Vou ajudar vocês. Nunca me recusei a isso. Mas tem que ser do meu jeito.
Eles vacilaram na pose desafiadora e eu vi ali minha oportunidade de mediar.
– Então, alguém aí tem um caderninho para eu anotar os pedidos?
– Calma aí, Mediadora. – E de quem era aquela voz? Imaginei que ele não iria desistir tão facilmente. Ele podia não sentir mais a dor, mas a lembrança do soco ainda devia estar fresquinha na sua mente. – Não somos tão fáceis assim.
Mas eu vi que ele estava sozinho nessa. Os outros fantasmas se afastaram com discrição dele, talvez temendo que eu os julgasse pelo seu comportamento. E ele não deixou de notar isso.
– Acho que você está sozinho nessa, coisinha. – Ok. Eu estava provocando, mas ele já tinha me irritado até demais.
– Eu... já... disse para você... não me... chamar de... coisinha. – A cada palavra seu corpo tremia, dominado pela raiva. Foi então que a coisa toda desandou. Fantasmas são... como posso dizer? Eles são sucetíveis demais às emoções alheias. Quer ver um grupo de fantasmas ensandecidos? É só juntá–los com um ser, vivo ou morto, que esteja tendo um ataque de nervos como aquele imbecil estava. Em poucos segundos todos os fantasmas estavam nas mesmas condições, tremendo dos pés à cabeça, levantando lixeiras, quebrando galhos de árvores.
Me abaixei rapidamente quando alguma coisa metálica passou voando a centímentros da minha cabeça. A “coisa” caiu com um baque estridente no piso de cimento da passarela que levava às salas. O que era aquilo? Parecia uma cabeça. Reconheci como sendo a cabeça de bronze da estátua do Padre de Junipero Serra. Nossa. Aquilo teria machucado para valer.
Levantei rápido no instante que uma lixeira voou na minha direção.
– Merda! – Corri em direção ao muro. Eu não era do tipo que fugia, mas eu também não era suicida. Eu não tinha a mínima chance com um bando de fantasmas com crise nervosa e que ainda tinham poderes paranormais. Dei um impulso para pular e me agarrei no topo do muro fazendo força para subir, mas senti uma força estranha me puxando de volta e eu caí de costas esparramada na grama. Ai. Essa doeu.
– Já vai, é? Agora que eu estava começando a me divertir.
Me levantei com toda a dignidade que a situação permitiu e me encostei no muro para encará-lo de frente. Foi então que eu vi a cabeça do padre Serra voando em minha direção novamente. Ainda estava sem ar pela queda e não conseguiria desviar. Fechei os olhos esperando o impacto. Mas ele não veio. Abri meus olhos e dei de cara com as costas do meu salvador. Jesse.
Ele estava parado na minha frente usando seus poderes para fazer a cabeça de bronze voar em outra direção e cair com outro barulho terrível em cima do cimento. Os fantasmas fizeram menção de recomeçar o ataque, mas Jesse foi mais rápido.
– Parem já com isso! – ordenou e, por incrível que pareça, eles pararam. Até o asno. – Vocês são idiotas ou o quê? – Sua voz era firme e autoritária.
– Quem é você? – peguntou a mulher de cabelos crepos. Seu corpo ainda tremia assim com o dos demais, mas nada se movia ao nosso redor.
– Não importa quem eu sou, mas que ela é. – Ele apontou para mim por sobre o ombro, sem se virar na minha direção. – Ela é uma mediadora. A única no raio de quilômetros. A única capaz de ajudá–los. E o que vocês fazem? Tentam matá-la.
– Ela nos irritou. – Dessa vez foi o asno que falou. Ah, como eu queria torcer aquele pescoço magricelo.
– E daí? – Jesse falou ainda com o mesmo tom de voz. – Ela tem todo o direito de fazer o que quiser. Quem manda aqui é ela.
Opa. Gostei dessa!
– Não quero ver mais nenhum de vocês sequer tentando machucá-la. Entendido?
Mas nenhum deles respondeu. Então Jesse fez algo que fez meu queixo cair. Fez com que todas as lixeiras voltassem a voar desgovernadas, espalhando mais lixo no pátio, junto com a cabeça do padre Serra e ainda alguns galhos de árvores, mais pesados que os outros. Ele simplesmente estava fazendo sozinho o que os outros tiveram que fazer em conjunto.
– Eu perguntei se vocês entenderam! – Era óbvio que Jesse era bem mais poderoso que todos ali, talvez devido ao fato dele ser mais antigo nessa coisa de assombrar do que os outros.
– Sim – todos responderam quase ao mesmo tempo, assustados com tamanho poder.
– Agora vão. Ela não vai mais ajudá–los essa noite.
Como assim? Quem ele pensava que era para impor uma coisa dessas sem me consultar. Tudo bem que eu não pretendia mesmo mediar mais hoje, mas eu não gosto que me digam o que fazer. Mas antes que eu falasse qualquer coisa, todos desapareceram, deixando apenas nós dois ali. Jesse fez as coisas pararem de voar e a Missão mergulhou no silêncio novamente.
– Você está bem, Suzannah? – ele perguntou ainda sem se virar.
– Estou. – Por que só agora, depois de toda aquela confusão, é que meu coração estava disparado?
– Que bom.
– Espera! – falei apressada antes que ele sumisse. Ele continuou de costas. – Como você descobriu que eu estava aqui? – falei a primeira coisa que me veio a cabeça. Só queria que ele ficasse mais um pouco. Mas então eu fiquei curiosa. Como será que ele me achou?
Ele apenas deu de ombros, andou até onde estava a cabeça da estátua e a pegou, levando-a até o corpo que ficava no meio do pátio, rodeado por bancos de madeira.
– Você me seguiu? – perguntei seguindo-o.
– Claro que não! – ele respondeu, talvez rápido demais. – Eu só... vi você saindo de casa e quando você não voltou eu saí para te procurar.
– Então era você – falei num sussurro lembrando de ter sentido que estava sendo observada quando saí de casa. – Você estava me espiando? – Juro que falei isso de brincadeira, só para irritá–lo, mas quando ele não respondeu eu tive que tomar isso como uma afirmativa. – Jesse?
Ele finalmente se virou para mim, mas ainda não me encarava. Olhava para o chão e mantinha os braços cruzados sobre o peito.
– Suzannah eu... – ele respirou fundo. – Eu sinto muito pelo que aconteceu. Eu... fiquei surpreso. Ninguém nunca tinha falado comigo desde a minha morte. Muito menos me tocado, então eu... – novo suspiro. – Eu fui pego de surpresa e acabei fazendo o que não devia.
– Jesse, eu...
– Deixa eu terminar, por favor – ele me interrompeu. – Me comportei de maneira desprezível, como um selvagem e desrespeitei você de uma forma que nunca vou me perdoar. Eu espero que um dia você me perdoe pela minha atitude. E eu prometo que nunca mais te incomodarei com minha presença.
– E quem disse que é isso que eu quero? – Meu Deus! Eu não tinha dito isso? Ok. Eu tinha, sim! E era exatamente o que eu sentia.
Finalmente ele ergueu a cabeça e me encarou com surpresa no olhar.
– Jesse – continuei dando um passo à frente, me aproximando mais dele –, estamos em pleno século XXI. Muitas coisas mudaram desde a época em que você era vivo. – Ele franziu o cenho, mas não disse nada. – Você disse que se comportou como um selvagem. Como você chamaria a minha resposta ao seu comportamento? Porque, caso você não tenha notado, eu não fiquei parada enquanto você fazia tudo. Muito menos tentei te impedir em momento algum. – Eu não fazia idéia de onde tinha tirado toda aquela coragem, mas o que importava era que eu estava conseguindo falar tudo que eu queria. E ele estava ouvindo. Seus olhos negros brilhavam à luz da lua, de forma intensa. Ok, Suzannah. Você está assustando ele. – Eu não estou dizendo que estou acostumada a fazer esse tipo de coisa – completei antes que ele pensasse que eu era uma qualquer –, mas eu não me arrependo de nada do que aconteceu naquele dia.
Jesse começou a caminhar na minha direção, diminuindo ainda mais a distância entre nós. Quando eu percebi que os olhos negros e profundos estavam fixos em meu rosto me encarando intensamente, meu coração começou a bater ainda mais depressa, ameaçando romper o meu peito. Quando ele finalmente me alcançou, eu já estava arfando, quase sem ar.
Sem se importar com detalhes como espaço pessoal e limite, ele parou diante de mim e estendeu a mão, hesitando por um breve instante enquanto buscava respostas em meus olhos. Não sei o que ele viu ali, mas ficou satisfeito e acariciou meu rosto. Eu podia sentir seus dedos vibrando com a intensidade do momento. Ele me acariciava, traçando o contorno do meu rosto com tal reverência que eu sentia a garganta oprimida em resposta.
– Você não sabe do que está falando, Suzannah. – Sua voz estava rouca, mas firme.
– Sei, sim! – Tentei falar no mesmo tom, mas tudo que saiu foi um sussurro.
– Isso é errado. Você é uma mulher jovem, bonita e...
– E você é um homem...
– Morto! – ele completou se afastando. – E você está viva.
– Você estava bem vivo naquele dia. – Tudo bem. Agora eu estava provocando. Mas o ponto é que eu não gosto de ser desprezada, ainda mais sabendo que ele só estava fazendo isso por educação. Eu sabia que ele queria aquilo tanto quanto eu.
– Suzannah, eu...
– Cala a boca, Jesse. – Então eu tomei coragem e fiz a única coisa que eu tinha vontade de fazer naquele momento. Cruzei a distância que nos separava e o beijei.
Ele correspondeu com fervor, suas mãos fortes percorrendo minhas costas. Mas então, tão rápido quanto tinha começado, o beijo terminou. Ele me afastou me empurrando delicadamente pelos ombros.
– Suzannah, não – ele falou num fio de voz. – Isso é errado.
A raiva me subiu à cabeça de uma forma que meus olhos enxeram de lágrimas. Num átimo, movida pelo impulso e pela dor da rejeição, eu fechei a mão em punho e o soquei. Então corri com as lágrimas já escorrendo pelo rosto.
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