CAPÍTULO 27

Jesse ficou ainda mais tenso, mas não falou nada, embora eu soubesse que isso era questão de tempo.

Ao invés de responder eu simplesmente ignorei a ousadia de Paul e me virei para Jesse que já estava se levantando da cama para fazer sabe-se lá o quê. E eu preferia não saber. E eu até esqueci momentaneamente que Paul estava naquele quarto enquanto observava Jesse se levantar. Hoje ele decidira tirar o pijama e vestia uma das roupas que eu tinha comprado. Ele usava uma calça de malha preta com uma camisa cinza, do tipo básica, de algodão. Seus músculos se destacavam, deixando seu peitoral ainda mais glorioso.

– Jesse, esse é Paul. – Então me virei novamente para Paul, fazendo um esforço sobre-humano para desviar meus olhos daquela vista de tirar o fôlego. – Paul, esse é Jesse, meu namorado.

Paul estendeu a mão para apertar a de Jesse depois que ele saiu da cama e parou ao meu lado, envolvendo minha cintura com a mão esquerda num gesto possessivo que eu adorei. Jesse retribuiu ao cumprimento, mas logo se desvencilhou, como se aquele contato não lhe agradasse.

– É um prazer te conhecer, Jesse – Paul falou e parecia honesto. – Isso que aconteceu com você foi contra tudo que eu já tinha aprendido sobre o assunto. E o que Suze fez também foi incrível. – Ele agora olhava apenas para mim com um novo sorriso no rosto. – Se deslocou para o passado pela segunda vez e ainda trouxe um humano junto. Eu tenho muito que aprender com vocês. – Seu sorriso se ampliou ainda mais e eu senti que vinha alguma coisa por aí. – Mas antes eu quero saber como você está, Suze. Faz tempo que eu não te vejo. E nós nos demos tão bem da última vez que estivemos juntos. Senti sua falta.

Paul só podia estar brincando, certo? Como é que ele falava uma coisa dessas na frente do meu namorado? E ainda por cima mentir dizendo que tínhamos nos dado bem da outra vez. Como se eu não lembrasse que ele tinha me agarrado e que eu tinha dado uma tapa nele depois disso. E o pior era Jesse saber disso tudo.

Eu senti sua mão apertando minha cintura de forma involuntária e olhei rapidamente para Jesse apenas para constatar que aquelas palavras tinham o atingido em cheio. Sua outra mão estava em punho e seu maxilar estava tão rígido que quase dava para ouvir seus dentes rangendo.

– Paul, isso não tem graça – quem falou isso foi Gina, me poupando de ser grosseira.

– Desculpe – ele falou ainda rindo e erguendo as mãos em sinal de redenção. – Mas eu não sou do tipo que perde as esperanças assim tão fácil.

Num instante Jesse estava parado ao meu lado duro como uma estátua e no segundo seguinte ele tinha avançado para cima de Paul dando-lhe um único soco que o pegou completamente desprevenido e o fez cambalear até o sofá, onde caiu pesadamente.

– A única esperança que você vai ter é do meu punho encontrar sua cara novamente se você continuar insistindo em ter alguma coisa com a minha namorada! – Jesse esbravejou e teria partido para cima de Paul novamente se Alicia não tivesse entrado no quarto naquele momento.

Ela estancou na porta quando se deparou com a cena dentro daquele quarto. Eu não sei se ela ficou mais chocada com o fato de Paul estar com o nariz sangrando tanto a ponto de escorrer pela sua camisa branca, ou se por estar óbvio que quem tinha causado aquilo tinha sido o paciente daquele quarto.

O que prevaleceu foi a sua responsabilidade como enfermeira. Sem falar nada ela adiantou-se para Paul para avaliar a gravidade da situação.

– Eu não vou perguntar o que aconteceu aqui, porque isso está bem óbvio – ela falou com voz firme. – Mas eu só espero que isso não se repita. Isso aqui é um hospital e não um ringue de luta livre. – Ela estava com as bandagens nas mãos que iria usar para trocar os curativos de Jesse, mas as usou para estancar um pouco o sangue que ainda escorria. – Está quebrado – ela anunciou depois de tocar levemente o local. – Venha comigo, por favor.

Ela ajudou Paul a se levantar e os dois saíram do quarto sem mais palavras ou olhares.

– Isso foi... – eu comecei a falar, mas Jesse me interrompeu.

– Me desculpe, hermosa. – Ele parecia bastante arrependido do que acabara de fazer. – Eu sei que não deveria ter batido nele, mas...

– Está tudo bem, Jesse. Você disse que se controlaria até certo ponto. E ele foi além do limite. – eu o tranquilizei enquanto me aproximava dele e envolvia meus braços no seu pescoço. – Ele bem que mereceu. Estava pedindo.

– Paul é um imbecil mesmo! – Gina exclamou – Eu vim o caminho inteiro do aeroporto para cá pedindo para ele ficar na dele e ele ainda foi capaz de fazer isso.

– Desculpe, Gina. Eu sei que ele é seu amigo.

– Nada disso, Jesse. Foi bem feito. Se você não tivesse batido nele, eu teria feito isso.

– Eu também, mas foi bom Jesse ter tomado a iniciativa. O estrago foi maior.

– Foi mesmo – Gina concordou rindo. – Eu acho melhor ir ver como ele está. Ele pode ser um idiota de vez em quando, mas ainda é meu amigo. E eu vou aproveitar para dar uma bronca nele.

– Você se machucou? – eu perguntei assim que Gina saiu do quarto.

– Não.

– O que é isso na sua mão? – eu perguntei quando vi que havia uma mancha vermelha na mão que ele tinha usado para aplicar o soco na cara de Paul.

– Acho que não é meu – ele falou como se aquilo não fosse importante e foi em direção ao banheiro para lavar a mão. Eu fui junto.

Mas o sangue era dele, nós descobrimos quando ele colocou a mão debaixo do jato de água na torneira da pia. Havia um pequeno corte ali e, apesar de não ser grande ou fundo, sangrava bastante.

– Acho que eu bati forte demais – ele murmurou como se pedisse desculpas.

Gina voltou cerca de uma hora depois com um sorriso estranho e se recusou a dizer o motivo da alegria quando nós perguntamos.

– Paul ainda vai ficar um tempinho na enfermaria – ela informou depois que desmanchou o sorriso. – O médico já colocou o nariz dele no lugar, mas ainda está inchado. Ele está parecendo mais um macaco-narigudo.

– E você deixou ele sozinho? – eu perguntei. Não que isso me incomodasse, mas achei estranho.

– Ah, ele não está sozinho – ela murmurou e o sorriso voltou aos seus lábios, mas ela desconversou. – E ele me expulsou de lá quando eu tentei tirar uma foto dele para guardar de recordação.

Eu notei que havia mais naquela história do que ela estava contando, mas acabei me distraindo com as mãos de Jesse que acariciavam minha cintura distraidamente.

Ele estava assistindo a um jogo de beisebol que passava na televisão. Nós dois estávamos sentados lado a lado na cama dele, recostados na cabeceira da cama, com seu braço envolvendo minha cintura e sua mão livre acariciava a minha que estava repousada na perna dele.

Apenas para provoca-lo, eu subi um pouco mais a mão e apertei sua coxa, roçando as unhas levemente sobre o tecido da calça. Sua mão que estava por cima da minha me deteve no mesmo instante e ele me olhou de soslaio, me repreendendo com o olhar e olhou rapidamente para Gina que estava entretida assistindo ao jogo, esparramada no sofá.

Notei um volume se formando no seu ventre e apertei os lábios para impedir um sorriso.

– Você acha isso bonito, não é? – ele sussurrou perto do meu ouvido quando viu a direção do meu olhar.

– É lindo – eu sussurrei em resposta, ainda olhando para lá, subindo minha mão um pouco mais, quase encostando na sua virilha.

Seu corpo se retesou e foi a vez dele de apertar os lábios para abafar um gemido.

Nesse momento o celular de Gina tocou fazendo com que nós dois nos sobressaltássemos. Eu retirei rapidamente minha mão dali e Jesse pegou um dos travesseiros que estava aos pés da cama e colocou no colo.

– Era Paul que estava ligando avisando que havia sido liberado – Gina informou depois que desligou. – Eu vou levar ele para a casa dele.

– Casa dele? – eu perguntei estranhando aquilo. Desde quando Paul tinha casa ali?

– O avô dele tinha uma casa aqui. Agora é dele.

Logo depois que Gina saiu, Alicia entrou no quarto e estava levemente corada como se tivesse corrido.

– Está tudo bem? – eu perguntei notando-a um pouco esbaforida.

– Sim. Muito trabalho hoje.

Ela começou a preparar os curativos novos que trocaria pelos antigos e hoje eu não saí do quarto. Apenas fui para o sofá para liberar o caminho.

Jesse já estava bem melhor e amanhã receberia alta no final do dia. Eu sabia que quanto mais ele melhorava, mais disposição ele tinha para fazer “coisas”. E eu tinha certeza que eu seria punida pelo meu comportamento dessa tarde. E não deu outra.

Assim que me deitei na cama para dormir ao seu lado eu senti sua mão entrando pela minha blusa em direção aos meus seios.

– Você quer me deixar louco, não é? – ele perguntou sem interromper as carícias e me deixando sem fôlego. – Me tocar daquele jeito com sua amiga aqui dentro foi crueldade.

Eu apenas abri um sorriso de menina travessa para ele, sem condições de falar nada. Então sua mão desceu e entrou pelo short do pijama, indo em direção ao centro da minha feminilidade. Eu arqueei meu corpo quando sua mão me tocou por cima da calcinha que já estava úmida.

– Não vai me parar? – ele perguntou maliciosamente intensificando os movimentos.

Por que eu pararia? Aquilo estava tão bom. Ah, é. Ele ainda está machucado.

– Para. – Minha voz parecia mais uma súplica sensual.

– Você quer mesmo que eu pare?

Então sua mão entrou pela minha calcinha, tocando diretamente no meu sexo quente e molhado pelo prazer que ele me proporcionava. Seu dedo entrou rapidamente em mim e ele passou a fazer movimentos de vai e vem e circulares. Eu arqueava meu quadril contra a sua mão querendo mais e mais, incapaz de raciocinar.

– Você quer que eu pare? – ele sussurrou contra meu ouvido, sua respiração contra a minha pele deixando tudo mais intenso.

Se ele parasse agora, ele poderia se considerar um homem morto. De novo. Mas é claro que eu não consegui falar isso. Eu mal lembrava do meu nome naquele momento.

– Responde – ele exigiu ainda contra o meu ouvido.

– Não... para – eu gemi baixinho, me contorcendo por inteira.

– O quê? Não entendi. – Ele me provocava com sua respiração e sua língua agora deslizava pelo meu pescoço.

– Não para, por favor – eu implorei.

E ele me atendeu. Seus movimentos tornaram-se mais rápidos e ele introduziu outro dedo em mim. Eu abri mais as pernas para facilitar o movimento e continuava a arquear meu quadril involuntariamente. Ele me penetrava com três dedos agora e eu já sentia o prazer mais intenso se aproximando.

Seus lábios tomaram os meus, num beijo sôfrego e eu senti o orgasmo me atingindo com força total. Se ele não estivesse me beijando naquele momento, provavelmente alguém teria ouvido os gemidos que brotaram da minha garganta.

Ainda sentia os espasmos percorrendo meu corpo quando ele retirou a mão da minha calcinha e... Céus! Ele lambeu os dedos.

– Gostoso – ele murmurou com um sorriso torto nos lábios perfeitos e me encarando intensamente.

Tive vontade de bater minha cabeça na parede naquela hora. Esse homem ainda me deixaria insana.

Eu tentei retribuir. Juro que tentei. Mas Jesse deteve minha mão quando percebeu minhas intenções.

– Nós teremos muito tempo quando eu sair daqui – ele falou, repetindo minhas palavras da noite anterior.

– Você é mau – eu sussurrei quando ele voltou a beijar meu pescoço.

– Você não gostou? – ele perguntou se afastando de mim para me encarar com um semblante de fingida inocência.

– Se eu gostei? – Eu colei meu corpo contra o dele. – Se nós não estivéssemos em um hospital, eu arrancaria sua roupa agora mesmo – eu declarei beijando seu pescoço.

Um misto de riso e gemido brotou de sua garganta e ele me pressionou mais contra o seu corpo. Ele afastou meu rosto para que pudesse me olhar nos olhos.

– Você gosta de me torturar – ele murmurou.

– Não tanto quanto você gosta de me torturar – foi a minha resposta e em seguida eu o beijei.

Mas antes que aquele beijo pudesse evoluir ainda mais, ele me afastou delicadamente e me aconchegou nos seus braços, pondo-se a acariciar meus cabelos. Apesar de ainda estar desejosa pelo seu corpo, não foi difícil relaxar e logo eu adormeci.

Eu acordei com a sensação de que estava sendo observada.

– Bom dia, hermosa – Jesse murmurou assim que percebeu que eu despertava.

Eu ergui meu rosto e apoiei no seu peito para poder olhar nos seus olhos negros. Me senti de volta no tempo quando ele ficava me observando dormir.

– Bom dia.

– Hoje é meu último dia aqui – ele me lembrou enquanto acariciava meu rosto com as costas dos dedos.

O que significava que... Bem, significava que eu precisava comprar logo as camisinhas.

– Nós precisamos conversar sobre essa história de eu ir para a casa de Gina – ele prosseguiu alheio aos meus pensamentos. – Eu não acho isso certo, hermosa.

– Jesse, ela já falou com os pais dela. Não há problema nenhum.

– Eu vejo problema, Suzannah.

– Eu não vou ficar discutindo isso – eu falei me afastando dele e levantando da cama. – Não é nada permanente. É só até acharmos outro lugar para você ficar.

Eu não dei tempo para ele responder mais nada, entrando no banheiro e fechando a porta atrás de mim. Eu também não queria que ele ficasse na casa de Gina. Queria mesmo que ele ficasse na minha casa. No meu quarto, para ser mais específica. Mas eu sabia que isso seria impossível.

Quando eu saí do banheiro, depois de trocar de roupa e escovar os dentes, Alicia já estava no quarto arrumando o café da manhã na bandeja ao lado da cama.

– Bom dia, Suze – ela me cumprimentou sorridente assim que me viu.

– Bom dia, Alicia. Mais calma hoje? – eu perguntei lembrando da sua agitação no dia anterior.

– Quê? – Então ela pareceu lembrar ao que eu me referia e corou. – Sim. Claro. Bem... eu tenho... Tenho que ir à enfermaria. Com licença.

Por que ela estava gaguejando? E por que ela corou tanto?

– Falei alguma coisa errada? – eu perguntei encarando Jesse com o cenho franzido depois que Alicia saiu.

– Não que eu tenha notado – ele respondeu já começando a comer.

Eu me juntei a ele e comemos em silêncio. No final da manhã, Gina entrou no quarto, esbaforida e olhou ao redor como se procurasse alguma coisa.

– Cadê ele? – ela perguntou olhando aflita para mim e Jesse que estávamos arrumando as coisas dele.

– Ele quem? – eu perguntei estranhando sua atitude.

– Paul. Pensei que ele estava aqui.

– Não. Por que ele estaria?

– Eu vi o carro que ele alugou no estacionamento.

– Ele não veio aqui.

– E eu espero que ele não venha – Jesse murmurou sem deixar de colocar as roupas na mala.

Então aquele mesmo sorriso divertido de ontem voltou aos lábios de Gina.

– Ah. – A compreensão apareceu no seu rosto. – Acho que sei onde ele está.

– Onde?

– Oi? – ela perguntou se fazendo de surda ou desentendida. – Nada não. Pensei alto. E aí Jesse, ansioso para deixar o hospital?

Mas logo em seguida nós tivemos a surpresa – não sei se agradável – de ver Paul entrando no quarto.

– Antes que alguém venha me bater, eu quero informar que eu vim em paz.

– Você é muito cara de pau, Paul – Gina exclamou já tentando empurrar ele para fora do quarto.

– Não, é sério, Gina. Eu vim pedir desculpas.

– Quê? – eu e Gina exclamamos juntas.

Aquilo não parecia o tipo de coisa que Paul faria. O sobrenome de Paul era orgulho.

– Qual é! Parem com isso – ele pediu, terminando de entrar no quarto e fechando a porta atrás de si. – Eu sei reconhecer quando passo dos meus limites.

– Será que sabe mesmo? – Jesse perguntou se adiantando e se aproximando dele com olhar ameaçador.

– Sem brigas, ok? – ele pediu erguendo as mãos. – Eu já aprendi a lição. Eu vim aqui te trazer isso. – Ele estendeu um envelope amarelo para Jesse. – Recebi hoje de manhã. Está tudo aí dentro.

Mas Jesse não pegou o envelope. Continuou olhando para Paul como se quisesse esganá-lo.

– Essa foi rápida – Gina murmurou.

– Foi. Eles me deviam um grande favor, então me deram prioridade. – Voltou-se para Jesse novamente. – Não vai querer? – ele perguntou tornando a estender o envelope na sua direção.

– O que você vai querer em troca disso?

– Jesse, por favor – eu pedi me interpondo entre os dois. – Nós aceitamos sim, Paul. Obrigada.

Mas antes que eu pudesse pegar o envelope das mãos de Paul, Jesse me deteve.

– Não, Suzannah. Eu não vou aceitar a ajuda dele enquanto não souber o que ele vai querer em troca.

– Jesse, isso não é hora de ser orgulhoso. – Eu me virei para ficar de frente para ele. – Nós precisamos desses documentos.

– Está tudo bem, Suze – Paul me interrompeu. – Eu acho que mereço isso.

– Merece muito mais – Jesse respondeu por entre os dentes.

– Jesse, por favor.

Que saco! Por que Jesse tinha que bancar o ofendido logo agora? Se Paul resolvesse voltar a ser canalha e se recusasse a nos entregar aqueles documentos, nós teríamos sérios problemas.

– Ok, Jesse, você tem razão – Paul exclamou se afastando um pouco e colocando o envelope em cima da mesa ao lado da cama. – Quando eu me ofereci para ajudar você eu realmente fiz isso querendo alguma coisa – ele admitiu e não parecia constrangido com isso. – Eu não fiz isso por você, Jesse. Eu fiz pela Suze. Queria que ela ficasse grata comigo para que depois eu pudesse cobrar a gratidão com algum favor particular.

– É muita ousadia sua dizer isso! – Jesse exclamou querendo avançar em cima de Paul novamente, mas eu o detive.

– Paul, vai embora, por favor – eu implorei não querendo ver mais sangue esparramado ali.

– Não, eu ainda não terminei. – E ele teve a coragem de sentar no sofá com se estivesse tudo bem. – Eu confesso que essa era a minha intenção inicial. E eu pensava assim até ontem.

– E vai me dizer agora que não pensa mais? – Jesse o desafiou ainda tentando passar por mim.

Sabia que ele não estava fazendo muito esforço porque eu jamais conseguiria detê-lo se ele realmente quisesse.

Gina, que continuava parada ao lado da porta, sentou ao lado de Paul, talvez para protege-lo.

– De certa forma.

– O que fez você mudar? – eu perguntei mesmo não acreditando totalmente nele.

– Sem contar isso? – ele perguntou apontando para o curativo no nariz. Não estava mais inchado, mas ainda havia uma pequena mancha roxa sob seus olhos. – Tenho esse costume de querer o que não posso ter. Você me rejeitar fez com que me parecesse ainda mais atrativa. Um desafio.

Gina lhe deu um soco no ombro fazendo ele se encolher.

– Ai.

Jesse tentou se desvencilhar dos meus braços de novo, dessa vez usando mais força.

– Paul, se você está tentando melhorar sua situação aqui, não está indo muito bem.

– Ok, ok. – Ele ergueu as mãos ainda sem se levantar do sofá. – Eu já disse que não quero brigar. É só que eu não gosto de perder, mas eu percebi que eu nunca fui considerado jogador para começo de conversa. Então eu estou desistindo de jogar.

– Você o quê? – eu perguntei perplexa.

– Isso mesmo. Eu não vou mais atrapalhar vocês dois. – Ele deu de ombros de maneira displicente. – Estou caindo fora.

– Vai sair da cidade? – Jesse perguntou esperançoso parando um pouco de tentar forçar passagem.

– Hum... Não. Eu tenho interesses na cidade. Mas – ele continuou quando viu que Jesse interpretou aquilo errado – não tem nada a ver com vocês dois. Embora eu ainda queira aprender mais com o que aconteceu com vocês. Mas só se permitirem. Não vou forçar a barra.

Eu sabia o quanto Paul poderia ser prepotente e para ele estar agindo dessa forma alguma coisa tinha acontecido. E eu não me refiro apenas ao soco que ele tinha recebido.

Foi nesse momento que Alicia entrou no quarto empurrando o carrinho como almoço. Teria sido uma coisa completamente normal se ela não tivesse corado intensamente quando viu que Paul estava no quarto. Ou se Paul não tivesse se levantado e ido até ela, ajudando-a a trazer o carrinho para dentro.

Eu não estava acreditando no que eu estava vendo. Não poderia ser isso, poderia? Eu devia estar imaginando coisas. Mas foi só eu dar um rápido olhar para Gina para confirmar aquela história. Ela observava os dois com os lábios pressionados para conter um sorriso. Aquele mesmo sorriso divertido.

Alicia e Paul? Meu Deus, esse mundo está perdido. Paul era um cafajeste de marca maior e estava dando em cima de Alicia. E ao que parecia, ela estava gostando. Mas provavelmente, apenas porque ela não conhecia o verdadeiro caráter dele. Alicia era uma pessoal maravilhosa e eu não permitiria que Paul fizesse isso com ela.

Esperei Alicia sair do quarto e me virei furiosa para ele.

– O que você pensa que está fazendo?

– O que foi que eu fiz? – ele perguntou realmente surpreso com a minha pergunta.

– Você está dando em cima dela.

Acho que ele ainda pensou em me desmentir, mas pareceu mudar de ideia na última hora.

– E o que você tem a ver com isso?

Eu realmente não tinha nada que ficar me metendo na vida deles, mas ainda assim eu me sentia na obrigação de fazer alguma coisa.

– Alicia é legal, Paul. Você não a merece.

– Novamente, Suze: isso não é da sua conta. – Ele estava sério.

– Paul, não que eu ache ruim você desviar suas atenções da minha namorada – Jesse falou envolvendo minha cintura com um braço –, mas não acho correto você ficar iludindo uma garota doce com Alicia. Ela merece mais que um homem bajo como você.

Eu deveria ficar com ciúmes por Jesse chamar Alicia de “garota doce”, certo? Mas eu não estava. Porque Alicia era isso mesmo. Doce, gentil, alegre e prestativa.

– Ok. Eu não faço ideia do que isso signifique, mas tenho certeza que não foi um elogio. – Ele se afastou do carrinho e voltou a sentar no sofá ao lado de Gina que permanecia em silêncio. – E antes que vocês comecem a me insultar num idioma que eu entenda eu vou logo avisando que Alicia sabe como eu sou. Sobre o que eu vim fazer aqui. Quer dizer, a parte de eu ter vindo aqui querendo roubar Suze de você.

– Você falou isso para ela? – eu perguntei com um visível tom de sarcasmo.

– Falei – ele respondeu honestamente. – Quando eu saí daqui do quarto ontem eu estava furioso e acabei descontando nela. Falei coisas horríveis sobre você – ele falou apontando para Jesse. – Te chamei de tudo menos de santo e, sabe, não foi muito legal escutar um sermão de uma enfermeira, mas foi o que acabou acontecendo. – Ele falava aquilo com certo tom de constrangimento. – Ela me deu uma bronca daquelas. Parecia até uma mãe brigando com o filho. E olha que minha mãe nunca me chamou a atenção daquele jeito. Confesso que fiquei sem graça. E acabei gamando.

– Você não pode estar falando sério – eu exclamei.

– Ah, ele está sim – Gina respondeu sorrindo de orelha a orelha/ – Eu vi com meus próprios olhos. Até fiquei com medo de Alicia. Nunca pensei que ela pudesse ser tão firme daquele jeito. Foi constrangedor.

– E onde está a parte em que ela correspondeu a você? – Jesse perguntou acreditando tanto naquela história quanto eu.

– Deixa eu contar, deixa eu contar! – Gina agitava a mão no ar como uma criança pequena. – Por favor.

– Tanto faz – Paul murmurou dando de ombros.

– Foi engraçado de se ver – ela começou. – Embora ele não soubesse que eu estava vendo. Quando escutei a discussão, eu me escondi num canto. Quando Alicia terminou de falar, Paul ficou meio aparvalhado. Então ele a beijou. Assim do nada! E sabe o que ela fez? Ela deu uma tapa na cara dele.

– Isso me lembra alguma coisa – eu murmurei tentando conter um sorriso.

– Com a diferença que ela gostou – ele retrucou com uma sobrancelha erguida.

– Pior é que gostou mesmo – Gina confirmou quando viu minha cara de descrença. – Porque ela o beijou depois da tapa. E olha que ele ainda estava com o nariz inchado. Mas gosto não se discute.

– Rolou mais faíscas do que quando eu te beijei – ele falou olhando para mim.

– Eu não senti nada.

– Eu senti – ele retrucou. – Calma aí, Jesse – ele falou rapidamente quando viu que Jesse não tinha gostado nada de saber aquilo. – Eu já disse que estou pulando fora. Ela é toda sua agora.

– Ela nunca foi sua – ele falou por entre os dentes.

– Eu sei. Agora eu sei disso. – Ele levantou do sofá e, corajosamente, se aproximou de Jesse e estendeu a mão. – Amigos?

Ele olhou para aquela mão estendida na sua direção e não parecia muito disposto a aceitar o cumprimento.

– Ainda não – ele respondeu por fim. – Não enquanto eu não me convencer que você possa ter mudado um pouco.

– O único interesse que eu ainda tenho com a sua namorada é o fato dela ser uma deslocadora. Nada mais.

– Quando me sentir convencido, eu respondo se seremos amigos ou não.

– Uma trégua então – ele sugeriu ainda com a mão estendida.

E dessa vez Jesse a apertou.

– Certo.

– Jesse, seu almoço vai esfriar – eu o lembrei querendo encerrar logo aquele assunto.

Nossa! Como eu estava me sentindo leve agora. Sem esse clima de briga constante pairando sobre as nossas cabeças.

– Será que a gente pode pedir o almoço aqui no quarto? – Gina perguntou se adiantando para o telefone. – Eu estou com preguiça de ir até a lanchonete.

– Acho que pode. Mas a comida que vai vir é a da copa. Não é tão boa quanto a comida da lanchonete.

– Uma vez só não mata – ela respondeu com o cardápio na mão. – Posso pedir para vocês também?

– Pode – eu e Paul respondemos juntos.

Dez minutos depois o almoço chegava e nós nos pusemos a comer em silêncio. Finalmente o assunto havia se encerrado e a paz parecia reinar a nossa volta.

– O médico já falou a que horas você vai receber alta, Jesse? – Gina perguntou enquanto comia sua sobremesa.

– Entre quatro e cinco da tarde.

Paul, que ainda estava comendo, se engasgou de repente. Depois de se recuperar da tosse ele nos encarou com um brilho estranho no olhar.

– Tive uma ideia.

– E precisava se engasgar? – Gina perguntou estendendo um guardanapo na sua direção.

– Eu fiquei surpreso com a ideia que eu tive.

– Nossa, sinto que vem bomba por aí.

– Jesse – ele chamou, ignorando o comentário –, Gina me falou que você não havia gostado muito da ideia de ir morar na casa dela.

– E ainda não gosto, mas...

– Jesse, por favor, não começa – eu pedi.

– Eu tenho uma proposta para lhe fazer – Paul anunciou e nós ficamos em silêncio esperando. – Por que você não vai morar na minha casa?

Agora o silêncio que se seguiu não foi de espera, mas de perplexidade. Todos ali estavam chocados demais para falar alguma coisa.

– Não me olhem com essa cara! – Paul pediu dividido entre risonho e chateado. – Eu disse que eu também fiquei surpreso. Mas achei uma boa ideia.

– Por que eu faria isso? – Jesse perguntou com o cenho franzido, despertando do transe.

– É melhor do que ficar na casa dela, não acha? – Paul falou apontando para Gina com certo desdém.

– Ei, qual é o problema com a minha casa? – Gina perguntou indignada.

– Além de você ser mulher? – ele perguntou com sarcasmo. – Eu moro sozinho, você não.

– Mas ela é minha amiga, você não – Jesse retrucou de imediato.

– Mas seria uma boa forma de iniciarmos nossa amizade. Assim você vai poder observar meu comportamento e dizer se podemos ser amigos ou não.

– Por que eu ainda acho que tem alguma coisa por trás disso? – Jesse comentou desconfiado.

Eu confesso que também achava aquilo estranho. Mesmo Paul parecendo sincero ao dizer que havia desistido de dar em cima de mim, ainda era estranho ele chamar Jesse para morar na sua casa. E um novo olhar para Paul confirmou as suspeitas. Ele realmente tinha uma segunda intenção naquilo tudo.

– O que você está aprontando, Paul?

– Por que vocês têm sempre que pensar o pior de mim?

– Fala logo Paul – Gina insistiu, também percebendo as intenções do amigo.

– Até você, Gina? – ele perguntou tentando se fazer de vítima. Não deu muito certo. – Ok, ok. Eu me rendo. Meu avô estava escrevendo um livro sobre o mundo dos mediadores e deslocadores, principalmente sobre os deslocadores, mas ele não conseguiu terminar. Na verdade, nem chegou à metade. E eu achei que... bem, com você lá – ele falou apontando para Jesse –, Suze estaria lá também. Fonte de informação direta, sabe como é. Mas, repetindo, eu só iria querer informações, mais nada.

– Paul, você já sabe tanto quanto eu sobre esse assunto.

– Não sei nem metade. Eu preciso de experiências de vida, exemplos. Eu quero seguir a mesma linha de raciocínio do meu avô.

– E seria apenas isso? – Jesse perguntou ainda não completamente satisfeito.

– Hum... não – Paul admitiu por fim. – Eu também quero escrever sobre o único fantasma que voltou a vida. – Jesse apenas ergueu uma sobrancelha. – Você deve ter visto coisas incríveis nesses cento e cinquenta anos. E você foi o único aqui que já passou por todos os estágios da vida. Meu avô nunca pensou em escrever sobre isso. Ele nunca imaginou que isso seria possível.

– Você quer escrever sobre a minha vida? – Jesse perguntou sarcástico.

– Sobre a sua morte, para ser mais específico – ele o corrigiu. – Você ficou morto muito tempo, aprendeu muita coisa sobre os dois mundos, deve ter ficado muito mais forte que muitos fantasmas que eu já conheci.

– Ele está tentando te bajular, Jesse – Gina informou e acabou ganhando um beliscão no braço. – Que é? Você está mesmo!

– Ok, eu estou – Paul admitiu com um sorriso travesso no rosto. – Está dando certo?

– Não muito – Jesse respondeu contrariado.

Acho que, assim como eu, ele achava uma boa ideia ele ir morar com Paul, mas ainda era tudo muito recente. Acho que ele estava inseguro se acreditava ou não em Paul.

– Ah, qual é, Jesse! Eu não mencionaria nomes nem nada que pudesse identificar nenhum de vocês. Não é nem um livro que eu queira publicar. É mais uma coisa para juntar as informações que eu já tenho. Mas se alguém se interessar em publicar, tanto faz. Ninguém nunca chegou tão perto de entender o mundo dos mortos quanto eu. Imagina só quão importante não seriam essas descobertas.

– Ah, chegamos ao ponto que interessava – Jesse exclamou de repente. O que ele tinha entendido que eu não tinha? – Glória. Tudo o que você quer é para ter isso, não é? Glória!

Paul pareceu surpreso com isso. Mas ao mesmo tempo constrangido.

– E se for? – ele o desafiou com expressão altiva. – Que mal tem nisso?

– Mal nenhum. Mas eu sabia que algum interesse pessoal você teria nisso. É sempre você em primeiro lugar.

– Meu avô foi ridicularizado pela sociedade quando tentou provar a existência de mediadores e de vida após a morte. – Paul agora parecia realmente irritado. – Ele me ensinou tudo que eu sei e eu tive que fingir para o resto da minha família imbecil que não acreditava nele. Tratar ele como meu pai o tratava: como um velho gagá. O mínimo que eu posso fazer por ele é restaurar a sua honra.

– Honra? E desde quando você sabe o que é honra – Jesse o interrompeu com desdém.

– Eu posso não ser um perfeito cavalheiro como você é – Paul, embora falando com a voz carregada de ironia, parecia sincero –, mas meu avô era. E eu quero ter o gostinho de jogar na cara do meu pai que ele não é metade do homem que meu avô foi um dia.

– Você faria isso com seu pai? – Jesse perguntou incrédulo.

– Não fiz ainda por falta de provas.

– Mas ele é o seu pai.

– E o meu avô era o pai dele. Isso não o impediu de trata-lo como um velho senil.

Aquela lógica de Paul parecia fazer sentido para mim. Não que isso o tornasse uma pessoa íntegra, afinal ele pensava em humilhar o próprio pai, mas ele estava fazendo isso pelo avô. Ok. Não apenas pelo avô, mas ainda assim contava alguma coisa.

– Você faz o que quiser com a sua vida, mas tenha certeza que no final das contas isso não vai ser tão prazeroso quanto você está pensando que será – Jesse o aconselhou sério. – Família é uma das coisas mais importante que temos na vida.

– Todos os membros da minha família juntos não têm nem metade da importância que uma única amizade tem para mim. Os tempos mudaram, Jesse. As famílias não são mais unidas como eram antigamente.

– Eu ainda acho que você vai se arrepender de fazer isso.

– Certo, pode até ser, mas o arrependimento será só meu. – Ele parecia ter encerrado aquela conversa. – Então, já tomou sua decisão?

Jesse olhou para mim como se pedisse minha opinião sobre tudo aquilo. Eu realmente não tinha uma.

– Você faz o que achar melhor, Jesse. A decisão é sua.

Então ele olhou para Gina da mesma forma.

– Você é quem sabe, Jesse – ela falou dando de ombros.

– Você não vai ficar chateada se eu não for para a sua casa? – ele parecia receoso de magoá-la por escolher morar com alguém que mal conhecia.

– Só se você começar a agir igual a ele – ela respondeu tentando fazer graça.

– Não há perigo disso acontecer – ele afirmou com um sorriso.

– Hei, olha como fala de mim.

Então estava decidido. Nós agora estávamos todos indo para a casa de Paul, ele no carro dele e eu e Jesse no carro de Gina. Chegamos a uma impressionante construção de dois andares, na lateral de um penhasco perto da praia de Carmel. Era feita quase toda de vidro, para aproveitar a vista do oceano e do pôr-do-sol.

Paul estacionou seu carro novo, um Maserati Quattroporte, conforme Gina me informara quando eu perguntei, em uma das quatro vagas da garagem e Gina fez o mesmo. Eu nem quis saber quanto poderia ter custado aquele carro, mas tinha certeza que estava fora do meu alcance como mera mortal.

Subimos em silêncio pelos degraus de cimentos até a larga porta de vidro da entrada da casa. Lá dentro estava tudo fresco e silencioso. A decoração era do tipo moderna, tudo era liso demais, novo demais e impessoal demais.

Paul nos guiou por uma escada circular de aço que ia da porta da frente até a cozinha hi-tech, onde instrumentos brilhavam agressivamente.

– Querem beber alguma coisa? – ele perguntou abrindo a enorme geladeira.

Todos nos decidimos por refrigerante e eu fiquei observando enquanto Jesse bebia aquele líquido pela primeira vez. Ele fez uma careta estranha, provavelmente estranhando o gás da bebida, mas pareceu aprovar depois de alguns goles. Seguimos pelo corredor e paramos em frente a uma porta.

– Esse será o seu quarto, Jesse – ele informou abrindo a porta.

O quarto era umas cinco vezes maior que o meu e a cama era enorme, do tipo king-size. Como o resto da casa, tudo era muito liso e moderno, com muito metal e vidro. Até as estantes com livros antigos eram de metal. Tudo era muito frio, mais parecido com um quarto de hotel. Mas através das enormes janelas panorâmicas era possível ser ver o céu azul e abaixo o mar azul mais escuro. A vista era de tirar o fôlego.

Jesse também parecia estar pensando o mesmo que eu quanto à impessoalidade do aposento, mas não comentou nada.

– Meu quarto é no final do corredor – Paul informou. – Fiquem à vontade para desfazer as malas. Eu preciso fazer uma ligação.

Ele saiu com Gina em seu encalço dizendo que precisava de outra lata de refrigerante. Ficamos sozinhos naquele quarto enorme sem saber exatamente o que fazer.

Eu me lembrei que ainda havia algumas sacolas de roupas que eu havia comprado para Jesse e que estavam escondidas dentro do meu guarda–roupa. Tinha que dar um jeito de trazê-las.

Jesse pegou a mala que estava no chão e levou até uma das portas que deveria ser o closet. Eu fui junto.

– Você está calado – eu comentei abraçando-o por trás, envolvendo sua cintura e descansando meu rosto nas suas costas.

– Eu ainda não sei se tomei a decisão certa. – Ele se voltou para ficar de frente para mim e me abraçou também. – Não sei se um dia vou conseguir ser amigo dele.

– Desde que vocês não se matem.

Eu apoiei meu queixo no seu peito para poder olhar nos seus olhos negros. Ele me encarava com intensidade e eu podia sentir seu coração disparando contra o meu rosto.

– Eu te amo, hermosa – ele sussurrou se inclinando para me beijar.

Eu fechei os olhos ao sentir os lábios quentes e macios cobrir os meus. Fui envolvida por uma onda de calor ao sentir as mãos másculas deslizar pelas minhas costas, perdendo-me em suas carícias. Ele aprofundou o beijo ao me ouvir gemendo baixinho e suas mãos entraram pela minha blusa, tocando a pele nua e me fazendo arquear contra o seu corpo.

Uma batida na porta se fez ouvir e nós nos separamos assustados com o barulho. Eu havia me esquecido onde estávamos. Saí do closet deixando Jesse lá se recompondo enquanto eu ia abrir a porta.

Paul estava lá, ainda com o telefone no ouvido e pediu para a pessoa com quem ele falava esperar.

– O que acha de um programa de casais? – ele perguntou com um sorriso no rosto.

– Como é?

– Gina já concordou. Ela está ligando para o seu irmão para chamar ele. E então? Está dentro?

– Fazer o quê?

– Jantar. Topa?

– Não sei, Paul...

– Vamos lá, Suze – Paul pediu diminuindo o tom de voz e afastando mais o celular. – Quebra esse galho para mim. Alicia não quer sair só comigo. E ela ver que já está tudo bem entre nós pode contar uns pontos para a minha pessoa. Por favor – ele tornou a pedir. – Tudo por minha conta. Para compensar o favor. Por favor.

– Mas você vai se comportar?

– Claro. Palavra de escoteiro.

– Você foi escoteiro?

– Não. Mas o que vale é a intenção.

– Tudo bem – eu respondi rindo. – Mas eu preciso ir em casa para trocar de roupa.

– Eu te levo – Gina anunciou aparecendo no longo corredor. – Também tenho que ir em casa. Mas a gente tem que ir agora ou vai ficar muito tarde.

– Ok.

Eu tornei a entrar no quarto e encontrei Jesse ainda no closet guardando as poucas roupas que havia naquela mala.

– Vamos jantar em casais – eu anunciei empolgada. – E finalmente você vai provar comida de verdade.

– Jantar aonde? – ele perguntou terminando de guardar a última peça e se voltando para me olhar de frente.

– Não sei – eu me aproximei mais e envolvi seu pescoço com os braços. – Tenho que ir agora para me arrumar. A gente se vê daqui a pouco.

Eu o beijei rapidamente porque Gina já estava me chamando no andar de baixo. Eu estava ansiosa para esse jantar. Ainda nem havia falado com a minha mãe sobre isso e nem sabia se ela iria me autorizar a sair à noite na hora do jantar, mas Jake já havia confirmado que iria então ela não teria argumentos para me impedir.

E ela não impediu. Agiu normalmente como se não fosse a primeira vez que eu sairia com meu namorado. Ok. Para ela não era a primeira vez. Mas eu achava que ela não tinha impedido porque Jake iria junto então eu não ficaria a sós com Jesse em nenhum momento.

Eu tomei banho e sequei os cabelos com cuidado até que ficassem completamente lisos. Apliquei uma maquiagem leve e escolhi um vestido verde de tecido leve. Eu nunca havia usado aquele vestido antes e agora encontrara a oportunidade. Ele era frente única e batia na metade das coxas sem ser muito colado. Era sensual, mas não vulgar. Perfeito! Calcei sandálias de salto não muito alto da mesma cor do vestido e coloquei maquiagem, documentos e celular numa bolsa de mão e desci as escadas. Eu iria com Jake e ele já estava me esperando na sala. Seu queixo pareceu cair quando ele me viu.

– Você não vai assim, vai? – ele perguntou ficando de pé em um pulo.

– O que tem? – eu dei uma volta completa para que ele visse minha roupa por inteiro na hora que minha mãe e Andy saíram da cozinha.

A reação de Andy foi igual à de Jake, mas ele não falou nada. Minha mãe abriu um sorriso que parecia que rasgaria seu rosto.

– Filhinha você está linda! – ela exclamou e me abraçou com cuidado para não amarrotar o tecido.

– A senhora vai deixar ela sair assim, mãe? – Jake reclamou apontando para o meu vestido.

Eu ainda não me acostumara de ouvir os três chamando a minha mãe de “mãe”.

– Qual é o problema? Ela está maravilhosa.

– O problema é que falta a parte de baixo da roupa – ele reclamou.

– Ciúmes entre irmãos é uma coisa normal – David falou sabiamente enquanto descia as escadas. – Na verdade, esse é um caso típico de irmão mais velho sendo super protetor com a irmã mais nova. Estatísticas confirmam que sete em cada dez famílias americanas...

– Ok, ok, David, já entendemos – Jake o interrompeu. – Vamos então? Espero que leve um casaco.

– A noite está quente. Não vou precisar.

Eu virei às costas para ele, jogando o cabelo para fazer charme e fui em direção à porta na hora que Brad entrou.

– O que é isso? – ele perguntou assim que me viu, parando no meio da porta. – Cadê a roupa?

– Não enche! – eu passei por ele, empurrando-o para o lado, sem falar mais nada e esperei por Jake ao lado do carro.

Eu não me importava com a opinião deles. Eu havia me olhado no espelho antes de sair e sabia que estava bem. E minha mãe confirmou isso. Restava apenas saber o que Jesse acharia.

Jake saiu de casa e Andy veio junto e se aproximou de mim com uma expressão estranha.

– Sabe, Suze – ele começou e parecia inseguro, tímido –, eu estava pensando em fazer um almoço amanhã. Um churrasco. Como despedida das férias de vocês.

– Legal.

– Você pode convidar seu namorado se quiser. Seria como as boas vindas dele à família.

Ah, aí estava o motivo da insegurança. Confesso que eu fiquei emocionada com a atitude dele.

– Obrigada, Andy, tenho certeza que ele vai adorar.

No caminho até o restaurante, Jake ficou em silêncio, para minha sorte. Paul havia combinado de jantarmos no Bistrô Giovanni. Era um restaurante italiano que eu nunca tinha ido antes, mas que era famoso pelas massas mais gostosas da região.

O carro de Paul já estava estacionado próximo ao restaurante quando chegamos ao local. Quando entramos no restaurante demos o nome de Paul e a maître nos levou a uma mesa na varanda que ficava de frente para o mar. O local era todo fechado por vidros para não congelar os clientes e proporcionar uma vista fantástica.

Alicia também estava lá sentada ao lado de Paul. Era uma mesa circular para seis pessoas e Jesse estava de costas para a entrada, mas se virou quando Paul murmurou alguma coisa. Eu consegui ver o brilho nos seus olhos mesmo à distância. Ele se levantou conforme eu me aproximava e agora estávamos frente a frente. Seus olhos percorreram meu corpo, avaliando cada detalhe, causando uma reação imediata em mim. Sua mão me puxou com delicadeza pela cintura até quase juntar nossos corpos.

– Você está linda – ele sussurrou no meu ouvido.

E eu que pensava que aquele arrepio que subia pelo meu corpo era devido ao fato dele ser fantasma. Mas não. Lá estava aquela mesma sensação novamente. Pernas bambas, falta de ar, coração disparado e completo esquecimento de todo o resto.

Quando eu consegui voltar à mim e lembrei de cumprimentar Alicia e apresenta-la a Jake. Gina chegou logo em seguida pedindo desculpas pelo atraso e logo deu um beijo nojento no meu irmão. Ok. Nojento para mim.

– Você também está lindo – foi a minha vez de sussurrar no seu ouvido quando todos já estavam sentados e começavam a fazer os pedidos.

Jesse vestia uma calça jeans escura com camisa social azul dobrada até os cotovelos. Sexy demais para minha cabeça. Os dois primeiros botões estavam abertos e os demais pareciam implorar para ter o mesmo destino.

A distribuição dos lugares ficou assim: Jesse à minha direita, Gina à esquerda, Jake do seu lado e Paul do lado de Jesse. Alicia ficou entre Jake e Paul, imediatamente à minha frente e eu pude ver que ela, apesar de bastante tímida, parecia estar gostando da companhia de Paul. Eles não haviam trocado nenhum beijo durante o jantar, mas suas mãos passaram quase o tempo todo entrelaçadas. O ruim de sentar ao lado de Gina é que eu tinha que fingir que não via a mão boba de Jake em sua perna a todo instante.

Eu, Jesse, Alicia e Paul escolhemos penne à bolonhesa e Gina e Jake se decidiram por fettuccine ao molho branco. A comida de lá era realmente divina.

– Ok, hermosa, você tem razão – Jesse comentou apenas para que eu ouvisse depois da primeira garfada –, comida de hospital não é boa.

– E você ainda vai provar o famoso churrasco do meu padrasto – eu o informei lembrando do convite de Andy. – Ele te chamou para almoçar lá em casa amanhã.

Eu sabia que Jesse iria gostar da notícia. Ele sempre fizera questão de ser aceito pela minha família e agora tudo estava se tornando realidade.

Seu sorriso foi aumentando gradativamente como se ele estivesse absorvendo aquela novidade com calma para apreciar o seu significado. Lentamente ele aproximou seus lábios dos meus e o toque foi tão suave e gentil que levou borboletas ao meu estômago.

Voltamos a comer sem falar nada e eu fingi que não vi seus olhos marejados.

O resto da noite transcorreu muito bem. Paul estava tão concentrado em agradar Alicia que até esqueceu de ser desagradável. Conversamos sobre assuntos diversos, rimos, comemos. Ouso dizer que aquela foi a noite em que eu mais me diverti em saídas com os amigos.

O clima do casal ao meu lado havia esquentado e eu já não era a única que percebia as mãos bobas por baixo da mesa. Em uma das famosas ida ao banheiro entre garotas, eu, Gina e Alicia aproveitamos para retocar a maquiagem e fofocar.

– O que você queria? – Gina exclamou quando eu mencionei as carícias que ela estava trocando com meu irmão. – Todo esse tempo em que você estava no hospital com Jesse nós mal nos vimos. Eu não tinha motivos para dormir na sua casa sem você estar lá.

– Gina, eu já te disse que minha mãe já sabe que você e Jake iniciaram a vida sexual.

– Eu sei, mas ainda assim é estranho.

– Ah, e por falar nisso, ela marcou consulta no Ginecologista para a segunda depois da aula.

Voltamos para a mesa com Alicia à frente corada até a raiz dos cabelos. Ela se mantivera calada enquanto eu e Gina conversávamos e eu me perguntava se ela era virgem. Ao que tudo indicava ela era sim, mas nossa amizade ainda não chegara ao nível que me dava liberdade para perguntar isso.

Já passava das onze quando Paul pediu a conta.

Nós convidamos Paul e Alicia para o churrasco de amanhã, mas ela estaria trabalhando e Paul não quis ir sem ela.

Jake iria dormir na casa de Gina e ele estava falando que me deixaria em casa antes de ir para a casa dela quando pareceu ter uma ideia melhor.

– Jesse – ele o chamou quando já estávamos em frente ao restaurante. – Você sabe dirigir?

– Sim.

Quê?

– Sua carta está válida?

Aí também já era demais.

– Está.

Como é?

– Você pode levar Suze para casa? – ele perguntou estendendo as chaves do seu carro. – Amanhã você me devolve o carro no almoço.

– Claro.

Oba!

Eu e Jesse sozinhos em um carro? Não poderia querer mais nada.

Esperei que estivéssemos dentro do carro para satisfazer minha curiosidade.

– Desde quando você sabe dirigir? – perguntei enquanto o observava colocar a chave na ignição.

– Você não acha que eu passei esses cento e cinquenta anos apenas vendo o tempo passar, acha? – ele respondeu com um sorriso colocando o carro em movimento. – E Paul realmente conseguiu todo tipo de documentação que eu possa precisar.

– Você dirige bem – eu comentei quando o carro já estava em movimento.

– Obrigado. – Ele passou a mão livre nos cabelos e me olhou meio de lado. – Eu já falei que você está linda? – ele perguntou com a voz rouca.

– Falou – respondi ficando com a boca seca de repente.

– Esse... vestido ressaltou a cor dos seus olhos.

Não entendi o motivo da paradinha antes da palavra “vestido”.

– Alguma coisa errada com a minha roupa?

– Nada. Só... foi muito difícil manter as mãos longe de você essa noite. – Por que ele tinha que falar isso com essa voz sensual?

– Não precisava manter – eu devolvi me virando na sua direção fazendo com que o vestido subisse um pouco mais.

Ele olhou naquela direção e eu fiquei feliz de vê-lo engolindo em seco.

– Hermosa, eu estou dirigindo – ele me repreendeu sem muita convicção.

– Eu não.

Me inclinei na sua direção até que meus lábios encostassem no seu pescoço. Senti os pêlos arrepiarem naquela região e ele comprimiu os lábios inclinando a cabeça para trás. Uma mão saiu do volante e deslizou pela minha coxa, subindo cada vez mais.

– Pare de me provocar, Suzannah – ele pediu com a voz tão rouca que era quase um rugido.

– Você começou – eu o acusei mordiscando o lóbulo da sua orelha fazendo-o fechar os olhos de prazer.

– Eu ainda preciso manter os olhos na estrada. Você não quer causar um acidente, quer?

Eu me afastei com relutância e coloquei o vestido no lugar. Um acidente naquele momento não seria bem vindo.

– Para onde nós estamos indo?

– Como para onde? – ele perguntou como se a minha pergunta não fizesse o mínimo sentido. – Para a sua casa.

– Por quê?

– Porque é onde você mora.

Jesse e sua lógica inquestionável.

– Pensei que você fosse me levar a um lugar onde pudéssemos ficar sozinhos.

Eu não falei nada demais, falei? Então por que ele apertou o volante com tanta força e passou a respirar com tanta dificuldade?

Fizemos o resto do caminho em silêncio. Não por ter ficado um clima estranho entre nós, mas porque palavras não eram necessárias naquele momento. Ele estacionou em frente à entrada de carros e desligou o carro antes de se voltar para mim.

– A que horas devo chegar amanhã?

– Acho que por volta das onze está bom.

Eu dei uma rápida olhada para a minha casa para constatar que todas as luzes estavam apagadas.

– Seu padrasto foi muito gentil em me convidar.

– É, ele foi sim. Mas ele gostou de você. Na verdade, toda minha família gostou.

– Você tem uma família incrível.

– Eu sei. – Eu o encarei com uma sobrancelha arqueada. – Você vai continuar falando da minha família ou vai me beijar?

Eu não precisei falar uma segunda vez. Ele me puxou pela nuca e nossos lábios se encontraram sedentos. Logo eu estava sentada em seu colo, seu braço apoiando minhas costas, presa entre seu peito e a direção. Tomei cuidado para não encostar na buzina sem querer e acordar todos na casa. Mas antes mesmo que eu pudesse me empolgar, ele me afastou ainda me mantendo em seus braços.

– Acho melhor pararmos por aqui – ele falou com a voz entrecortada pela falta de ar.

– Por quê?

– Apesar de a sua família estar me aceitando, eu não acho que eles gostariam de nos encontrar aqui dentro.

– É, talvez não.

Afinal, se qualquer pessoa olhasse pela janela da sala, iriam ver uma cena bastante constrangedora.

– Eu vou sentir sua falta, Suzannah – Jesse murmurou me aninhando em seu peito e beijando meus cabelos. – Vou sentir falta de estar com você a todo instante, de ouvir sua voz, sentir seu cheiro, seu calor. – Ele suspirou pesadamente. – Eu queria voltar a ser invisível aos olhos dos outros para entrar em seu quarto e beijar seus lábios até o amanhecer.

– Prefiro muito mais você visível. Assim eu também posso sentir o seu calor e ouvir seu coração batendo forte. – E na posição que eu me encontrava, meu rosto encostado em seu peito, eu podia ouvir com nitidez as batidas do seu coração. – A distância não é de todo ruim. Apenas faz com que os momentos juntos se tornem mais especiais.

Ele ergueu meu rosto com delicadeza até que nossos lábios quase se tocassem.

– Eu amo você, mi hermosa. Amo como nunca pensei ser possível amar alguém. – Ele encostou nossos lábios levemente. – Em certos momentos os homens são donos do próprio destino, mas você é quem dita a minha vida agora. É por você que eu baseio cada passo da minha vida. É por você que eu respiro, é por você que meu coração bate.

– Jesse – eu sussurrei com lágrimas nos olhos –, você tem o dom de me fazer chorar.

– Eu não quero te fazer chorar, Suzannah. Eu te fiz chorar muito no passado e não suportaria...

– Jesse – eu o interrompi colocando um dedo em seus lábios –, essas são lágrimas de felicidade.

Ele beijou a ponta do meu dedo com ternura e eu senti um calor se espalhando por todo meu corpo.

– Se depender de mim, essas serão as únicas lágrimas que escorrerão dos seus olhos, hermosa – ele sussurrou enquanto secava uma lágrima que escorria pelo meu rosto.

– Eu te amo, Jesse.

– Eu te amo, Suzannah.

O beijo que veio a seguir foi um dos mais ternos que já havíamos trocado. Havia paixão nele, como sempre havia em qualquer carícia que trocávamos, mas era o amor que predominava ali. Foi tudo tão intenso que novas lágrimas brotaram dos meus olhos e, para minha surpresa, dos dele também.

Nos afastamos sorrindo com as lágrimas escorrendo por ambos os rostos.

– É melhor você entrar – ele falou ainda sorrindo e enxugando seu rosto um tanto sem graça. – Já está tarde.

– Certo. – Voltei para o banco do passageiro e procurei minha bolsa que tinha ido parar no chão do carro. – Até amanhã.

– Até amanhã, mi hermosa.

A sensação de vazio me dominou no instante que eu deixei o carro. Ele esperou que eu entrasse em casa antes de ligar o carro novamente e ir embora. Eu ainda o vi respirando fundo umas duas vezes como se me deixar fosse muito doloroso.

Era exatamente como eu me sentia.