Atração Involuntária
24 Capítulo 24
CAPÍTULO 24
Eu via uma luz muito forte acima de mim que doía em meus olhos. Às vezes essa luz apagava e depois tornava a acender ainda mais intensa. Mas logo eu percebi que não era a luz que estava acendendo e apagando e sim meus olhos que abriam e fechavam, então eu me obriguei a mantê-los abertos embora minha cabeça estivesse a ponto de explodir.
Eu estava em uma enfermaria de hospital e havia uma enfermeira ao meu lado de costas para mim, mas mesmo assim eu a reconheci como a mulher que tinha nos socorrido quando eu gritei por ajuda.
Então as lembranças daquela noite voltaram a minha mente. Eu deslocando pelo tempo mais uma vez, Jesse dormindo, o homem entrando no quarto e vendo que aquela não era a sua vítima, Jesse acordando e a luta que se seguiu. Então eu intercedi e feri o homem com a faca, o olhar que Jesse me deu e que me fez esquecer de tudo a minha volta, o homem acordando e pulando em cima de Jesse novamente, a faca entrando no peito de Jesse e ele tombando para o lado quase sem vida e então pânico que me invadiu naquele momento e que me fez trazê-lo até a minha época.
– Jesse! – minha voz saiu fraca. Eu sentei na cama e senti minha cabeça girando com o movimento súbito.
– Calma criança – a enfermeira falou com a voz doce e me fez deitar novamente, mas eu estava agitada demais para permanecer naquela posição. – Vamos, deite-se.
– Não – eu quase gritei e tentava me desvencilhar dos seus braços enquanto olhava em volta. – Onde ele está? Como ele está?
– Se acalme, por favor – ela tornou a pedir e tentou me segurar pelos ombros contra a maca.
– Onde ele está? – eu a ignorei e me forcei a sentar tentando não vomitar com a pontada de dor que atingiu a minha cabeça levando lágrimas aos meus olhos.
A enfermeira desistiu de tentar me fazer deitar, mas me impediu de levantar quando viu que essa era a minha intenção.
– O homem que estava como você? – ela perguntou parada ao meu lado e isso me fez parar também.
– Sim. Onde ele está – eu perguntei aflita voltando a olhar em volta à sua procura.
– Ele não está aqui. Está em cirurgia.
– Eu preciso vê-lo. – Eu tentei levantar de novo, mas dessa vez ela me impediu usando mais força.
– Vamos fazer um trato – ela sugeriu com um sorriso bondoso no rosto, me segurando com firmeza. – Você me deixa fazer esse curativo – ela falou apontando para o corte em meu rosto – e eu te deixo sair. Combinado?
O que mais eu poderia fazer? Eu não tinha força suficiente para protestar. E ainda podia aproveitar para obter algumas informações.
– Ok.
Continuei sentada na maca com as pernas para fora e afastei os cabelos que caiam pelo meu rosto, para facilitar o trabalho dela.
Ela se afastou um pouco para pegar o que ela precisaria para fazer o curativo, mas continuou me observando pelo canto do olho como se temesse que eu fosse fugir assim que ela desviasse a vista. Mas eu não ia fazer isso. Não mesmo. Ela poderia me ser útil.
– Há quanto tempo ele está em cirurgia? – perguntei sem rodeios assim que ela começou a limpar o corte.
– Acabou de entrar.
– Eu fiquei desacordada por muito tempo?
– Não – ela respondeu enquanto encharcava um chumaço de algodão com um líquido vermelho. – Cerca de quinze minutos. O que aconteceu com vocês dois? Foi assalto?
Eu ainda queria fazer algumas perguntas, mas eu poderia me aproveitar disso para justificar tudo que acontecera. Tudo mesmo.
– Foi – eu preferi não entrar em muitos detalhes.
– Minha nossa! Esse mundo está mesmo muito perigoso – ela falou enquanto passava aquele remédio que ardia até dizer basta, mas eu ainda estava com tanta dor de cabeça que quase não senti.
– Ele vai ficar bem, não vai? – meus olhos se encheram de lágrimas e não por conta do remédio.
Ela comprimiu os lábios e evitou meu olhar enquanto pegava outro chumaço de algodão e encharcava com outro líquido, dessa vez incolor.
– Ele perdeu muito sangue, querida, mas os médicos daqui são muito bons – ela falou com um sorriso bondoso, mas ainda assim eu notei a tensão por trás de suas palavras.
Eu não consegui falar mais nada depois disso e fiquei esperando ela acabar o curativo.
– Pronto. Está livre agora, mocinha.
Mas ainda assim eu não levantei.
– Ele não pode morrer – eu falei mais para mim mesma, olhando para o chão.
– Não fica assim – ela falou e me abraçou com gentileza. – Ele vai ficar bem. Nós temos muito sangue do tipo dele armazenado aqui. Você vai ver. Vai ficar tudo bem.
Eu não sei por que, mas eu acreditei nela. Eu precisava acreditar.
Ela se afastou e enxugou as lágrimas que escorriam pelo meu rosto.
– Há dois policiais aí fora te esperando – ela informou –, mas é bom você ligar para os seus pais antes. Eles devem estar muito preocupados com você.
– Policiais? – perguntei assustada.
Será que eles descobriram que eu matei um homem? Mas foi em legítima defesa. Eu juro! Não viaja, Suzannah. Isso aconteceu há mais de cento e cinquenta anos. O cara já deve ter se decomposto.
– Claro, querida. O que aconteceu com vocês foi muito violento. Esse tipo de gente não pode continuar circulando pelas ruas de Carmel. Eles têm que ser punidos.
– Claro. – Meio óbvio.
– Eu ainda não sei o seu nome – ela falou jogando os algodões usados em um lixeiro de metal.
– Suzannah – respondi enquanto tentava pensar em alguma coisa para dizer aos policiais.
– Não precisa ficar preocupada, Suzannah, seu amigo vai ficar bom.
Ela estava pensando que eu estava distraída daquele jeito por conta de Jesse? Claro que eu estava preocupada com ele, mas no momento eu estava mesmo era tentando descobrir como explicaria aos policiais que Jesse tinha nascido no século XIX.
– Ah, já ia esquecendo – a enfermeira falou indo até a mesinha de inox ao lado da maca que eu estava. – Isso estava no bolso do seu casaco.
Em suas mãos estava a miniatura do retrato de Jesse. Peguei-a com cuidado e a guardei de volta no casaco, pensando em como faria para devolver aquilo sem que ninguém notasse.
Avistei os policiais assim que saí da enfermaria. Eles estavam apoiados ao lado do balcão da recepção e vieram ao meu encontro quando que me viram.
– Olá. Eu sou o Oficial Shaw – o policial mais velho de cabelos grisalhos e olhar astuto se apresentou – e esse é o Oficial Caldwell. – Ele apontou para o policial ao seu lado, mais novo do que ele mas que tinha uma barriga avantajada que não condizia com a sua idade.
– Suzannah Simon – falei apertando a mão dos dois.
– Nós precisamos que você nos responda umas perguntas.
– Certo, mas antes eu tenho que ir ver como Jesse está – eu falei me desviando dos dois e indo para o balcão da recepção.
Mas a recepcionista, uma senhora gorda e com cara de sono, me informou que ele ainda iria demorar um pouco para sair da sala de cirurgia. Não me restou alternativa a não ser encarar os policiais que me esperavam sentado nas cadeiras desconfortáveis da sala de espera.
– Nos fale o que aconteceu – o Oficial Shaw pediu enquanto o outro abria um caderninho para fazer as devidas anotações.
– Eu estava andando na rua – eu pensei em uma história rápida – quando...
– O que você estava fazendo na rua à uma hora dessas? – o Oficial Shaw perguntou me interrompendo.
– Eu... Estava chateada com algumas coisas e saí para pensar um pouco. Caminhar sempre me fez bem. – E eu nem me sentia culpada por mentir para a justiça. – Quando eu percebi, já estava muito longe de casa. – ele me interrompeu novamente para pedir meu endereço e dessa vez eu não menti, embora quisesse. – E eu estava voltando quando apareceu esse cara e ele tentou me agarrar, mas Jesse chegou nessa hora e me ajudou.
– Jesse é nome ou apelido? – Era sempre o Oficial Shaw que fazia as perguntas enquanto o Oficial Caldwell anotava tudo.
– Apelido. – Eu não poderia dizer o seu nome ou eles poderiam verificar no sistema e acabariam descobrindo tudo. – Eu não sei o nome dele.
– Vocês não se conhecem? – dessa vez foi o Oficial Caldwell quem perguntou e tinha o cenho franzido.
– Nos conhecemos hoje quando ele me salvou. – Eu já estava mentindo mesmo. Melhor fazer o serviço completo. Essa era a melhor maneira de me livrar das perguntas a respeito dele.
– Ele estava em alguma festa à fantasia? – o velhinho astuto perguntou.
Eu tive que me controlar para não rir nessa hora, mas não fui muito bem sucedida e tudo acabou resultando em uma crise de tosse fingida para encobrir o riso.
– Er... eu não sei – respondi ainda tentando me recobrar.
– E o que aconteceu depois que ele te salvou?
– Os dois começaram a brigar, mas o cara tinha uma faca e, depois que ele feriu Jesse, ele saiu correndo. – Lembrar de Jesse sendo ferido mortalmente causou um aperto no meu peito que quase me fez sufocar.
– Você pode nos descrever esse homem?
Lembrei da aparência do assassino de um século e meio.
– Ele era alto, maior do que Jesse, forte e tinha o cabelo curto. – Mas eu precisava ser o mais vaga possível para não correr o risco de descrever ninguém inocente.
– Só isso? – perguntou o Oficial Shaw visivelmente decepcionado.
– Hum... – Tentei pensar em mais alguma coisa que não incriminasse ninguém. – Ah! Ele estava de roupa preta. – Boa, Suzannah! – Camisa e calça preta.
– Certo – O outro continuou anotando tudo, embora não houvesse muito que anotar.
Eles continuaram fazendo perguntas acerca de onde exatamente tinha sido o assalto, a que horas e se havia mais alguém por perto. Eu respondi a tudo com calma para não me contradizer em nada.
– Quais os objetos foram roubados?
– Como? – Agora ele me pegou.
– O que o homem levou de vocês: dinheiro, celular, relógio, documentos?
Mas é claro. Objetos são roubados em assaltos. Acho que eu fiquei meio lenta de raciocínio depois de me deslocar pela segunda vez.
– Documentos. Isso! – Tentei não demonstrar a empolgação que estava sentido. Eu tive uma grande ideia. – Ele levou a carteira de Jesse com tudo dentro. Todos os documentos.
– Que tipo de documentos?
– Tudo que pudesse identifica-lo. Ele me disse antes de desmaiar que agora iria parecer um indigente.
– E o que ele levou de você?
– Nada. Eu não tinha nada para ele roubar. Por isso ele se irritou e tentou me agarrar.
– Você saiu de casa sem documentos? – o Oficial Caldwell perguntou em tom de reprovação.
– Foi – eu respondi fingindo estar arrependida. – Nem me lembrei disso. Não estava muito bem essa noite.
Depois que eles terminaram as perguntas, eles se ofereceram para me levar em casa, mas eu recusei a oferta de pronto.
– Eu não saio daqui enquanto não souber que Jesse está bem.
Se os policiais acharam estranho eu me preocupar tanto com alguém que mal conhecia, eles não falaram nada. Mas, pensando bem, pelo ponto de vista dos policiais, Jesse tinha me salvado, então era natural eu ficar preocupada com ele, certo?
– Então ligue para os seus pais. Nós vamos precisar da assinatura deles para constar no Boletim de Ocorrência.
A última coisa que eu queria agora era aguentar a minha mãe surtando quando descobrisse que eu não estava em casa e que estava em um hospital por ter me envolvido em um suposto assalto. Mas os policiais me levaram até o telefone da recepção do hospital e ficaram ao meu lado esperando enquanto eu fazia a ligação. Eu ainda pensei em ligar para um número qualquer e encenar uma conversa falsa, mas uma hora ou outra minha mãe teria que saber o que houve. E os policiais tinham meu endereço, então eu achei melhor enfrentar logo aquilo de uma vez.
A ligação caiu na secretária eletrônica duas vezes antes que Andy, com a voz sonolenta, atendesse murmurando um “alô” rouco.
Respirei fundo para criar coragem.
– Oi Andy. É Suze. – Esperei a ficha cair. Não demorou muito.
– Suze? Suze?! Onde você está? O que aconteceu? – ele perguntou quase gritando e sua voz já estava completamente alerta agora.
– Calma, não surta. – Então eu ouvi a voz da minha mãe perto de Andy falando coisas sem sentido. – Andy? – chamei apressada. – Andy?! – tive que gritar para ele me ouvir por cima dos berros da minha mãe. – Andy, não passa para a minha mãe, por favor. – Ainda ouvia uma confusão do outro lado da linha. – Andy, você está me ouvindo?
– Estou Suze – ele falou em um tom mais alto que o normal para que eu pudesse ouvir.
– Não passa o telefone para a minha mãe – repeti.
– Por quê?
– Por que ela não vai me deixar falar um só segundo.
Eu ouvi mais uma pequena confusão com minha mãe provavelmente tentando arrancar o telefone das mãos de Andy, mas depois veio o silêncio.
– Onde você está, Suze? – Andy perguntou já mais calmo, mas ainda bastante preocupado.
– No hospital, mas eu estou bem – eu falei rápido antes que ele tivesse outro ataque. – Eu não estou machucada.
– O que aconteceu?
Eu não tinha opção a não ser contar a mesma história para ele.
– Antes de mais nada, não esquece que eu estou bem, ok?
– Suzannah, o que aconteceu? – ele perguntou desconfiado.
– Eu fui assaltada.
– O quê?! – ele gritou do outro lado da linda e eu tive que afastar o fone do ouvido para não ficar surda.
– Você lembra que eu falei que estou bem, não lembra?
– Como foi isso? O que você estava fazendo na rua à uma hora dessas, Suze?
Eu via que o Oficial Caldwell estava ficando impaciente ao meu lado e resolvi finalizar logo aquela ligação. Os policiais de Carmel deviam ter mais a fazer do que ficar cuidando de um caso de assalto e quase homicídio como, por exemplo, os guaxinins que andavam roubando comida dos turistas desavisados que insistiam em fazer piquenique nos parques.
– Depois eu explico com calma. Os policiais precisam que mamãe venha aqui assinar algumas coisas.
– Ok. Nós já estamos indo – ele falou antes de desligar.
Nós? Eu não precisava que Andy viesse também. Bastava a minha mãe, já que ela era única que poderia assinar a papelada. Se bem que talvez fosse melhor ele vir junto, assim ele poderia segurar a esposa caso ela tentasse me matar por ter saído de casa tão tarde.
Depois que eu desliguei, os dois policiais voltaram para as cadeiras desconfortáveis da sala de espera, mas eu continuei ao lado do balcão. Ainda tinha uns detalhes para resolver.
– Posso fazer outra ligação? – eu pedi à recepcionista que me olhou com cara de poucos amigos.
– Tem um telefone público no final do corredor, sabia? – ela falou com uma sobrancelha arqueada.
E eu que pensei que a expressão dela era por conta de sono, mas já vi que ela não foi com a minha cara. Ela provavelmente só tinha sido simpática comigo e me deixado usar o telefone antes porque os policiais estavam comigo.
Fui até o telefone que ela apontou e liguei para Gina.
Ela atendeu depois de apenas três toques e sua voz não estava sonolenta. Será que ela estava acordada desde àquela hora em que tinha me ligado antes de eu me deslocar?
– Gina, sou eu, Suze. Desculpe ligar a cobrar, mas é que eu...
– Ai meu Deus, Suze! – ela praticamente gritou do outro lado do telefone. – Você quer me matar do coração? O que aconteceu? Onde você estava? Eu te liguei um zilhão de vezes e você não me atendeu. Eu já estava enlouquecendo aqui. Como é que você faz uma coisa dessas comigo? Você não tem amor à vida, não é? Eu poderia ter...
– Você vai me deixar falar ou vai ficar tagarelando a noite inteira? – eu a interrompi.
– O resto da noite. Porque daqui a pouco amanhece.
– Gina – eu chamei sem muita paciência.
– Fala.
– Eu preciso da sua ajuda.
– Manda.
Então eu expliquei para ela tudo que tinha acontecido. A verdade. Mas eu falei rápido porque precisava de uma solução o mais rápido possível. Ela ficou calada o tempo todo, embora eu soubesse que ela estava cheia de perguntas para fazer. Mas quando eu cheguei à parte que tinha trazido o Jesse do passado comigo, ela não conseguiu mais se segurar.
– Minha nossa! Como foi que você fez isso? Eu nem sabia que você podia transportar alguém com você.
– Nem eu. Eu só sei que estava desesperada por um médico e quando vi já estava aqui.
– E como ele está?
– Ele ainda está em cirurgia, mas eu acho que ele vai ficar bem. – Ele tinha que ficar bem.
– Eu estou indo para aí.
– Ok, mas antes eu preciso daquela ajuda.
– Ah, claro. Fala.
– Eu nem sei se você pode ajudar. Na verdade eu preciso mesmo é de alguma ideia. Eu não sei o que fazer com relação a isso.
– Quem é que está tagarelando agora? – ela perguntou divertida.
– Certo. Vou direto ao ponto. O problema é que Jesse não existe no nosso século. Ele não tem nenhum documento, endereço. Nada! Eu consegui ganhar um tempo com os policiais, mas...
– Como foi que a polícia entrou na história?
Eu falei que todos estavam pensando que nós tínhamos sido assaltados e que eu já dera meu “depoimento” e que eles tinham acreditado na minha história. O tempo todo eu falava baixo e sempre olhando ao redor para verificar se não havia ninguém por perto para ouvir.
– Mas quando Jesse acordar, eles vão querer falar com ele – eu completei. – Pegar os dados dele e tudo mais.
– Sem dúvida.
– E então?
– Você quer que eu faça o quê exatamente?
– Eu não sei. Talvez você conheça alguém que possa conseguir documentos para ele.
– Que tipo de pessoa você pensa que eu sou? – ela perguntou, mas eu notei o tom sarcástico na sua voz.
Eu não pude deixar de sorrir também.
– Eu não conheço ninguém, mas conheço quem conhece – ela falou e pude notar que sua voz estava empolgada. – Eu vou fazer umas ligações no caminho para o hospital. Quando chegar aí eu acho que já terei uma resposta.
– Obrigada, Gina.
– Não me agradeça ainda. – E desligou.
Cinco minutos depois que eu desliguei, eu vi um médico saindo por uma porta dupla e indo em direção ao balcão da recepção. Ele falou alguma coisa com a mulher chata e ela olhou de relance para mim. Sabia o que aquilo significava. Corri imediatamente até ele que me olhou assustado com a minha aparição súbita.
– Como ele está? – eu perguntei ignorando a cara feia que a recepcionista lançou na minha direção.
– Ele quem?
– Jesse.
– Jesse é o homem que chegou esfaqueado aqui? – ele perguntou olhando para a recepcionista que apenas confirmou com a cabeça. Então ele voltou a atenção para mim. – Você é parente dele?
– Não, mas eu...
– Sinto muito, mas eu só posso passar informações aos parentes.
– Foi ela quem chegou com ele, Dr. Elgin – a enfermeira que tinha me atendido saiu da enfermaria bem a tempo. – Eles foram assaltados e o rapaz se feriu. Então ela o trouxe para cá. A coitadinha estava desesperada querendo saber como ele estava. Quase não me deixou cuidar do ferimento dela.
– Bem, se é assim então – o médico falou. A vontade que eu tinha era me ajoelhar aos pés daquela enfermeira maravilhosa, mas eu me contentei em lhe lançar um olhar de gratidão e ela sorriu simpática para mim. – Ele perdeu muito sangue – o médico informou – e a perfuração por pouco não atingiu o coração. Ele ainda está muito fraco, mas a situação é estável agora.
Eu quase fui ao chão com isso. Fiquei tão aliviada que senti meu corpo inteiro amolecendo. Nem tinha reparado que estava tão tensa.
– Eu posso vê-lo? – eu perguntei com lágrimas nos olhos. Dessa vez de felicidade.
– Por enquanto não. Mas ele está sendo encaminhado para a sala de recuperação e assim que ele estiver acomodado eu aviso para você poder vê-lo.
– Obrigada, doutor.
– Sem problemas – ele falou. – Mas agora eu preciso que você preencha a ficha dele.
– E eu preciso saber quem vai assumir as despesas dele daqui para frente – a recepcionista falou e eu notei seu olhar irônico.
– Er... despesas? – eu perguntei olhando para o médico.
– Bem... – ele começou, coçando a cabeça grisalha. – O atendimento até agora foi gratuito por se tratar de uma emergência, então o governo cobre, mas depois que ele sair da sala de recuperação, ele terá que ir para um quarto e essa parte será cobrada.
– Eu pensei que esse hospital fosse público.
– Semiprivado – foi a resposta da recepcionista.
Essa mulherzinha já estava me dando nos nervos.
– Sinto muito – o médico falou e sumiu ao passar pela porta dupla.
– Então, querida, você vai assumir as despesas ou nós teremos que manda-lo para o hospital público que fica na cidade vizinha? – ela perguntou com um sorriso vitorioso no rosto.
Cheguei ao meu limite com ela.
– Qual é o seu problema, hein? – eu perguntei irritada, mas sem gritar. Falava por entre os dentes para que só ela ouvisse. – Eu te fiz alguma coisa para você ser tão antipática assim comigo ou você é assim com todo mundo? Sabia que se eu fizer uma reclamaçãozinha sequer para a direção desse hospital sobre o seu comportamento, eles não vão ficar nem um pouco felizes? – Eu vi o sorriso dela murchando aos poucos. – Não é minha culpa se você é infeliz no seu trabalho. Eu já passei por um bocado de coisas essa noite e não tenho porque ficar aturando o seu mal humor. – Ela ia falar alguma coisa, mas eu não permiti. – Eu estou cansada, minha cabeça está a ponto de explodir, eu ainda vou ter que ouvir um belo de um sermão da minha mãe por ter saído de casa às escondidas e o homem que eu amo quase morreu essa noite. – De novo, eu acrescentei em pensamento. – Se o seu único problema é saber se eu vou pagar ou não essa porcaria de conta, então seu problema está resolvido. Eu vou pagar todas as despesas dele.
– Como você vai pagar? – ela perguntou arqueando uma sobrancelha, mas eu pude notar seus olhos cheios de lágrimas.
Como eu vou pagar? Boa pergunta. Nem eu sabia a resposta.
– Minha mãe está chegando daqui a pouco. Eu estou sem cartão aqui, porque, caso você não tenha notado ainda, eu fui assaltada – eu enchi a boca para falar isso. Pelo menos essa história de assalto estava me servindo para alguma coisa. – Mas assim que ela chegar, eu resolvo isso. Só preciso que você seja um pouco paciente. Se não for pedir demais, é claro.
Eu me virei de costas para ela sem esperar por uma resposta e fui me sentar na sala de espera, onde os policiais estavam entretidos em alguma conversa sobre beisebol.
Mal tinha sentado quando ouvi o barulho de passos apressados vindo pelo corredor. Logo em seguida minha mãe apareceu com o rosto aflito, seguida por uma comitiva. Além de Andy, que estava ao seu lado, Brad e Jake também vieram e estavam com o rosto com expressões que variavam de sono a preocupação. Eu levantei para falar com eles, mas antes mesmo que eu pudesse falar alguma coisa minha mãe pulou em cima de mim e me apertou nos seus braços quase me esmagando.
– Mãe... – eu falei com dificuldade para respirar – tem um pulmão aqui dentro. Ar... faltando.
– Ah, desculpa – ela falou se afastando, mas ainda sem me soltar completamente. – Eu estava tão preocupada.
– Eu prometo que explico tudo com calma – eu falei antes que ela começasse a ter um ataque –, mas agora a senhora precisa assinar algumas coisinhas.
Eu apontei para os policiais que já estavam de pé e nos observava esperando para se livrar logo daquilo. Minha mãe assinou os papéis que os policiais lhe estenderam, mas continuava me olhando de soslaio.
– Sua filha teve muita sorte, Sra. Ackerman – o Oficial Shaw falou quando já estava de saída. – Vamos fazer de tudo para pegar esse louco.
– Nos mantenha informados, por favor – Andy pediu, apertando a mão do policial.
– Claro.
Depois que os policiais saíram, minha mãe me puxou até uma das cadeiras e se sentou de lado na cadeira de forma a ficar de frente para mim.
– Então, mocinha – ela falou me encarando séria. – Comece a se explicar.
Quando eu ia começar a falar, Gina apareceu correndo pelo corredor do hospital, recebendo um olhar fuzilante da recepcionista. Gina estava descabelada e esbaforida, mas me lançou um sorriso confiante assim que me viu.
– Mãe, eu já te explico. Me deixa apenas acalmar Gina. – Eu levantei e fui até Gina e a puxei para um canto mais reservado. – E aí? – eu sussurrei.
– Sua amiga é o máximo ou não? – ela perguntou no mesmo tom, com um sorriso ainda maior.
– Você conseguiu? – eu perguntei espantada.
– Queridinha, eu consigo tudo!
– Como? Como você conseguiu? – eu estava radiante.
– Eu te disse que conhecia pessoas – ela sorriu para mim. – Na verdade você também conhece.
Só havia uma pessoa que nós duas conhecíamos que tivesse tanta influência.
– Paul?
– O próprio – ela assentiu. – Eu liguei para ele e expliquei a situação toda e...
– Você contou para ele que eu trouxe Jesse para cá? – eu perguntei assustada.
– Sim. – Ela estranhou a minha reação. – Por quê? Tem algum problema?
Na verdade nem eu sabia. Nós não tínhamos ficado amigos depois que nos vimos pela última vez, mas eu nunca tinha contado nada para Gina.
– Eu... não sei. Como ele reagiu?
– Ele ficou um pouco chocado com a notícia. Também não sabia que um deslocador poderia transportar pessoas junto. Mas depois ele ficou radiante. “Mais uma descoberta para os meus estudos”, ele disse – ela falou tentando imitar a voz de Paul.
Hum. Curioso. Pensei que ele ficaria cheio de ressentimentos comigo pela forma com que eu o tratei da última vez. Se bem que ele fez por merecer. Mas agora Paul tinha voltado a crescer no meu conceito. Saber que ele me ajudaria independente do que tinha acontecido me fez ver que talvez ele não fosse aquele garoto mimado que achava que tudo que ele queria ele poderia ter.
– Ele disse que vai demorar alguns dias para toda a documentação ficar pronta – Gina continuou –, mas ele já deu uma adiantada nas coisas para você ter o que falar.
– Como assim?
– Ele já me deu alguns dados que vão estar nos documentos.
– Quais documentos ele vai conseguir?
– Tudo. Desde Certidão de Nascimento até registro escolar.
– Registro escolar? – eu perguntei espantada. Eu nunca iria pensar nisso.
– Claro – ela falou como se comentasse uma coisa muito óbvia. – Ele vai precisar se quiser fazer faculdade.
Faculdade. Eu também não tinha pensado nisso. Jesse agora tinha um futuro pela frente. A minha dúvida era: como seria esse futuro? Esse Jesse não era o mesmo que eu conhecia.
– O que foi? – Gina perguntou preocupada com a minha expressão abatida.
– Eu estava pensando... – comecei olhando para o chão. – O Jesse que está lá dentro é totalmente diferente do Jesse que nós conhecemos.
– Claro que não, Suze – ela tentou me confortar, mas também não estava muito firme.
– Gina, ele não passou cento e cinquenta anos se adaptando aos costumes da nossa época. Ele não sabe o que são carros, celular, televisão. Como ele vai fazer para viver em um mundo tão diferente do dele? – Quanto mais eu falava, mais desesperada eu ficava. – Meu Deus! Que burrice que eu fiz. Ele vai me odiar agora.
– Para com isso, Suze! – Gina me repreendeu. – Você salvou a vida dele.
– Eu queria poder falar com ele agora – eu murmurei mais para mim mesma.
– Ele já saiu da cirurgia?
– Quem? Ah, sim. – Ela pensava que eu me referia ao Jesse vivo. – Mas não é desse Jesse que eu estou falando. Eu queria falar com o meu Jesse.
– Suze...
– Eu sei que ele não existe mais – eu continuei falando. – Ele não morreu então seu espírito nunca existiu.
– Por que você fez isso, Suze? Por que você se deslocou mais uma vez? Você sabia que isso era perigoso.
– Eu não podia continuar daquele jeito, Gina. – Eu estava com lágrimas nos olhos mais uma vez. – Ele estava sofrendo e iria continuar assim para sempre. Ele nunca poderia seguir em frente por minha causa. Ficaria toda a eternidade vagando por aí e eu não pude deixar isso acontecer.
– Você também estava sofrendo.
– Mas um dia isso iria acabar. Eu vou morrer e logo ficarei livre da dor de perde-lo. – Eu sei que parecia dramático, mas era como eu me sentia. – Ele nunca mais voltaria para mim e eu já tinha aceitado isso. Eu sei que ele fez tudo pensando no meu bem, então o mínimo que eu poderia fazer, era aliviar o sofrimento dele. Ele não merecia sofrer pela eternidade.
Gina abriu os lábios como se quisesse falar alguma coisa, mas pareceu mudar de ideia na última hora e comprimiu os lábios, desviando os olhos do meu.
– O que foi? – perguntei estranhando sua atitude, mas ela apenas baixou a cabeça. – Gina, fala. O que foi?
– É que... – ela começou ainda sem olhar para mim. – Aconteceu uma coisa que talvez seja melhor você não saber.
– Nem pense em não falar – eu a adverti, séria.
Ela sabia que eu era curiosa e que não desistiria até que ela falasse tudo.
– Jesse tinha decidido voltar para você – ela falou de uma vez e me olhou para avaliar minha reação.
Mas eu não consegui esboçar nenhuma. Estava em choque.
– E-Ele o quê?
– Suze eu acho melhor...
– Fala, Gina! – eu gritei e ouvi minha mãe reclamando alguma coisa de onde ela estava e baixei o tom de voz. – Fala logo!
Ela respirou fundo devagar e depois soltou o ar com força antes de falar.
– Ele chegou lá em casa depois de uma da manhã te procurando. Eu não sei o que o fez mudar de ideia, mas ele disse que tinha desistido de tentar ficar longe de você.
Eu já estava cansada por tudo que tinha acontecido naquela noite e isso fez com que eu chegasse ao meu limite. Eu caí no chão sem forças para sustentar meu peso e comecei a chorar.
– Desculpa amiga – ela falou, me abraçando com força. – Eu sabia que era melhor não te falar nada.
– Ele ia voltar. – Eu chorei ainda mais. – E agora eu estraguei tudo.
– Suze... – ela murmurou acariciando meus cabelos. – Está tudo bem, Sra. Ackerman – Gina falou por sobre o meu ombro, aumentando um pouco o tom de voz. – É só o cansaço.
– Eu estraguei tudo – eu repeti desesperada. – Agora Jesse se foi para sempre.
– Não fala assim, Suze. Ele está lá dentro. E eu tenho certeza que ele não te odeia.
– Mesmo não odiando, mas nós nunca mais teremos o que tínhamos antes. E é tudo culpa minha.
– Eu tentei te ligar várias vezes, mas você não atendia. – E pensar que eu tinha retornado essa ligação e mudara de ideia na última hora. Tudo poderia ter sido diferente. – Então ele saiu pela cidade te procurando e depois ele apareceu lá em casa de novo dizendo que tinha te visto se deslocando.
– Espera – eu falei apressada no meio de um soluço. – O que você disse? Ele me viu me deslocando?
– Uhum – ela assentiu com a cabeça. – Ele disse que tinha acabado de chegar à sua casa e estava te esperando na entrada de carros quando ouviu um barulho no seu quarto. – Devia ter sido o toque no celular que quase me distraíra quando eu estava me preparando para me deslocar no tempo. – Ele ainda te viu, mas já era tarde demais. Você já estava se deslocando.
Eu me sentei no chão e abracei meus joelhos, colocando meu rosto entre eles. Que merda que eu tinha feito. Eu tive tantas oportunidades para fazer com que tudo ficasse bem, mas em todas às vezes eu tinha tomado a decisão errada e agora estava tudo perdido.
– Ele ficou desesperado depois que você saiu – Gina continuou em um tom baixo. – Chegou lá em casa muito alterado fazendo um monte de coisas voarem. Foi sorte que ninguém acordou. Steph demorou um pouquinho para o fazer voltar ao normal. Ele não falava coisa com coisa e foi difícil entender o que ele estava falando. Então, de repente ele sumiu.
– Meu Deus – eu murmurava para mim mesma, ainda de cabeça baixa –, o que eu fiz? Eu o perdi novamente.
– Suzannah? – eu ouvi uma voz chamando atrás de mim e me virei para ver a enfermeira boazinha que eu ainda nem sabia o nome. – Ele está acordando.
Eu me levantei de um salto e fui na sua direção.
– Quem está acordando? – minha mãe perguntou também ficando de pé.
– Jesse, o rapaz que a salvou durante o assalto – a enfermeira informou com um sorriso orgulhoso no rosto. – Um homem muito corajoso. – Quem via assim pensava que ela estava falando do próprio filho.
Eu queria pedir para ela ficar calada, mas agora já era tarde. Minha mãe me olhava com o cenho franzido, mas a pior reação foi a de Brad.
– Jesse? O seu Jesse?
– Como assim “seu Jesse”? – minha mãe perguntou se aproximando mais.
Olhei para Brad quase fuzilando ele com o olhar e ele voltou a se sentar percebendo que tinha falado demais.
– Eu te explico mais tarde, mãe – eu falei apressada me aproximando mais da enfermeira. – Me mostra o caminho? – eu pedi sorrindo ansiosa para ela.
– Espera um minuto, mocinha – minha mãe chamou me segurando pelo braço. – Você até agora só fez me enrolar e ainda não explicou nada do que aconteceu.
– Eu sei, mãe. Mas agora realmente não dá. – Eu me desvencilhei delicadamente. – Se a senhora quiser voltar para casa a gente conversa lá.
– Nada disso. Eu não saio daqui enquanto você não me explicar tudo.
– Se você quiser, Suze – Gina falou se aproximando de nós –, eu posso adiantar a parte do assalto. Explicar como tudo aconteceu. – Ela deu um olhar sugestivo para mim que dizia que ela ia falar o mesmo que eu tinha contado para os policiais, como eu havia explicado para ela por telefone.
– Obrigada – eu agradeci e voltei minha atenção para a enfermeira que me esperava pacientemente. – Vamos?
– Vamos. Por aqui – ela falou apontando na direção das portas duplas.
Meu coração batia descompassado dentro do meu peito. Eu estava nervosa e minhas mãos tremiam para me denunciar. Eu não sabia como Jesse iria reagir a tudo isso, mas eu só esperava mesmo que ele não me odiasse pelo que eu tinha feito. Era como Gina tinha falado: eu tinha salvado a vida dele. Isso deveria me dar algum crédito, certo?
Eu entrei no quarto tremendo feito vara verde. Lá estava ele deitado, com os olhos fechados e cheio de fios pelo seu corpo.
– Tente não deixa-lo muito agitado – a enfermeira falou em um tom baixo.
– Espera – eu chamei no mesmo tom, antes que ela saísse. – Eu não sei seu nome.
– Dana Evans – ela falou com um sorriso bondoso no rosto. – Pode me chamar de Dana.
– Dana – eu repeti e me aproximei mais dela. – Obrigada por tudo. De verdade. – E a abracei.
– Que é isso, meu anjo. Foi um prazer.
Ok. Agora chega de sentimentalismos. Eu quero ver Jesse. Só isso.
Me afastei devagar dela e lhe lancei um sorriso agradecido e ela saiu me deixando sozinha com ele. Era uma sala de recuperação e havia mais duas camas, mas estavam vazias. Respirei fundo e me voltei, andando até a lateral da cama dele. Os leitos eram divididos por cortinas, mas como ele era o único ali, todas as cortinas estavam abertas.
Ele já estava com aquelas roupas de hospital e estava muito pálido. Eu continuei olhando o rosto perfeito daquele homem que eu tanto amava e sem consegui me controlar, eu comecei a chorar. Ele ia me odiar. Eu tinha certeza disso. Mesmo eu tendo salvado a sua vida, eu tinha tirado ele de um mundo que ele conhecia. Da sua família, dos seus amigos. E agora ele seria forçado a se adaptar a outros costumes de forma abrupta. Outro século, outra realidade. Ele ia me odiar. Isso era um fato.
Mas eu não podia permitir isso. Eu estava até pensando na possibilidade de leva-lo de volta para a época dele. E eu nem me importava de ficar com uma dor de cabeça dos infernos depois.
Mas o problema era que agora que eu o tinha ali do meu lado eu não queria deixa-lo partir novamente. Eu acariciei sua mão querendo senti-lo mais um pouco e sua mão se moveu levemente embaixo da minha.
– Suzannah? – sua voz estava rouca e cansada. Ele ainda estava com os olhos fechados e se esforçava para abri-los.
– Eu estou aqui – eu murmurei apertando sua mão na minha e me aproximando mais da cama.
– Você está bem? – ele perguntou abrindo os olhos devagar.
Por que ele estava perguntando se eu estou bem? Foi ele quem se feriu gravemente e não eu.
– Estou – respondi enquanto o via olhando ao redor e depois fixando os olhos em mim.
– Onde eu estou? – ele perguntou com a voz ainda fraca.
– No hospital – eu falei baixo. – Mas não surta, por favor – eu me apressei a falar quando o vi franzindo o cenho. – Eu posso explicar. Pode parecer loucura para você, mas o que eu vou te falar é verdade. E eu preciso que você acredite em mim. – Eu respirei fundo para criar coragem e começar a falar. – Eu sou uma deslocadora. – Pronto. Falei – O que significa que, além de eu poder tocar, ver e falar com fantasmas, eu também posso me deslocar pelo tempo e espaço. Então eu voltei no tempo para evitar que você morresse, mas tudo acabou se complicando demais. Eu já tinha tudo planejado, mas não deu certo. Você se feriu gravemente e eu não poderia deixar você morrer. Não de novo. – Eu falava rápido para não perder a coragem. Ele continuava com o cenho franzido e eu me perguntava se ele estava acreditando ou pelo menos entendendo tudo que eu estava falando. – Você precisava de um médico e, sem querer, eu juro que foi sem querer, acabei te trazendo para o meu tempo. – Respirei fundo mais uma vez para recuperar o fôlego. – Nós estamos no século XXI. Mais de cento e cinquenta anos à frente do seu tempo, para ser mais específica.
Eu esperei que ele esboçasse alguma reação, mas ele não falou nada.
– Se você quiser – eu continuei –, e eu tenho certeza que você vai querer, eu posso te levar de volta. Mas, por favor, não me odeie. – Ele continuou em silêncio e com a mesma expressão. – Você entendeu alguma coisa do que eu falei, Jesse? Porque se você não entendeu, eu posso explicar de novo e falar mais devagar dessa vez ou talvez explicar de outra forma para...
– Eu entendi tudo, hermosa – ele falou apertando minha mão que ainda estava segurando a dele.
– Ah, certo, então eu... – Então eu congelei quando a ficha caiu. – Espera. O que foi que você disse?
– Eu disse que eu entendi o que você falou.
– Não... depois. – Eu estava nervosa. Meu coração estava disparado e minhas mãos voltaram a tremer.
Um sorriso foi aparecendo devagar nos seus lábios perfeitos.
– Hermosa – ele sussurrou.
– Jesse? – perguntei com uma sobrancelha arqueada, ainda sem acreditar.
– Sim?
– Jesse?
– O que foi, hermosa?
– Jesse! – eu gritei e pulei nos seus braços.
– Ai – ele gemeu. – Ai, calma.
– Ah, desculpa. – Eu chorava novamente, mas agora mais feliz impossível. – É você mesmo?
– Sou eu, sim.
– Mas como? Como foi que...?
– Espera – ele me interrompeu. – Antes de tudo, eu quero fazer uma coisa.
Ele me puxou pela mão de forma que eu me inclinasse e ficasse bem perto do seu rosto. Sua outra mão entrou pelos meus cabelos e pararam na minha nuca me puxando até que os meus lábios encostaram de leve nos seus. Foi apenas isso. Um leve roçar dos lábios e eu senti tudo a minha volta girando e os ruídos dos aparelhos desapareceram. Estávamos novamente no nosso mundo particular onde tudo estava exatamente como deveria estar.
O calor subiu pelo meu corpo. Um calor que eu pensei que jamais sentiria novamente. Eu estava viva. E ele também. Em todos os sentidos.
– Eu amo você, Suzannah Simon – ele sussurrou com os lábios roçando nos meus. – E a última coisa que eu quero é que você me leve de volta, porque isso sim seria a minha morte.
Nossos olhos estavam cheios de lágrimas e eu não resisti e o beijei com ardor. Sua mão apertou mais a minha nuca para intensificar ainda mais o beijo. Eu só me afastei quando ouvi o “bip” do aparelho que marcava os seus batimentos cardíacos disparar perigosamente.
– Como eu senti sua falta! – eu sussurrei dando mais um beijo de leve nos seus lábios. – Ai meu Deus, Jesse, eu não acredito que é você mesmo! – Eu agora distribuía beijos por todo o seu rosto que estava com pequenos cortes resultantes da briga. Eu queria abraça-lo forte e nunca mais soltá-lo, mas eu não queria machuca-lo mais do que ele já estava. – Me promete que você nunca mais vai fazer isso. Me promete que nunca mais vai me abandonar.
– Nem se eu fosse louco eu sairia de perto de você novamente, hermosa. – Ele ergueu a mão livre, já que eu continuava segurando a sua outra, e acariciou meu rosto de leve. – Mesmo que isso não tivesse acontecido – ele falou num sussurro –, eu já tinha decidido voltar para você.
– Eu sei. – Meu tom de voz também era baixo, embora eu quisesse gritar de tanta alegria que eu estava sentindo. – Gina me contou o que aconteceu.
– Nós nos desencontramos.
– Muito.
Ficamos nos olhando por alguns instantes, apenas matando a saudade um do outro até que ele quebrou o silêncio.
– Como você conseguiu se deslocar dessa vez? – ele perguntou com o cenho franzido. – Você não tinha nada meu.
Eu usei a mão livre para retirar a miniatura do bolso do casaco e mostrei para ele.
– Você roubou isso, Suzannah? – ele perguntou com uma sobrancelha arqueada.
– Peguei emprestado – eu sorri lembrando que tínhamos tido esse mesmo diálogo da outra vez que ele pegara a imagem no museu.
– E posso saber como você vai fazer para devolver?
– Acho que vou pedir para Stephanie. – Pelo menos ela não corria o risco de ser pega.
Seu polegar começou a descrever círculos na minha mão que ele mantinha segura na dele.
– Por que você fez isso de novo, Suzannah? – Sua voz era tensa. – Você sabia que poderia ser perigoso se deslocar pela segunda vez. Nós havíamos combinado que você só faria isso uma única vez.
– Eu sei – murmurei de cabeça baixa.
– Então por quê?
– Eu só... Queria dar paz para pelo menos um de nós. Não seria justo você ficar sofrendo para sempre.
Ele me olhou sério e eu pensei que ele fosse reclamar do que eu tinha feito, mas ele sorriu.
– E você diz que eu sou altruísta. – Eu dei um sorriso torto enquanto ele acariciava meu rosto. Era simplesmente maravilhoso sentir o toque das suas mãos firmes e agora quentes novamente. – Como foi lá? O que aconteceu?
– Você não lembra? – perguntei com o cenho franzido.
– Não. Eu continuo com as mesmas memórias de antes, como se nada tivesse mudado.
– Mas muita coisa mudou – eu afirmei. – Inclusive o fato do seu “assassino” ter morrido.
– O quê?! – ele perguntou espantado. – Como?
Então eu contei para ele com tudo tinha acontecido; como eles começaram a lutar, como eu peguei a faca e me envolvi na briga.
– Você não deveria ter feito isso – ele me repreendeu. – Você poderia ter se machucado.
– Eu me machuquei – falei, apontando para o curativo no meu rosto com orgulho. – Mas ele levou a pior porque na hora que ele veio para cima de mim eu estava com a faca na mão. Eu acho que ele pensou que eu não teria coragem de feri-lo.
– E você o feriu?
– Foi meio que um acidente. – Minha voz saiu em um tom como se eu pedisse desculpas. – Ele chegou muito perto e foi tudo muito rápido. E a faca acabou entrando na barriga dele.
– Você não teve culpa, hermosa – ele disse carinhosamente. – Você só estava tentando se defender. E me defender também. – Ele sorriu de leve. – Eu já te agradeci por ter feito isso?
– Sim, mas não nesse século – eu falei acompanhando seu sorriso.
– Obrigado por salvar a minha vida – ele falou sorrindo ainda mais.
– Mas ainda não acabou. Vazo ruim não quebra fácil – eu falei apressada e ele franziu o cenho. – O homem não morreu nessa hora. Ele só ficou inconsciente.
– E o que aconteceu depois?
– Depois que eu me recuperei do soco que ele me deu nós... conversamos um pouco.
– Eu espero que eu tenha te tratado bem.
– Você foi um perfeito cavalheiro. Como sempre! – Então eu me lembrei de um pequeno detalhe. – Mas teve uma coisa que me deixou curiosa.
– O quê?
– Quem é a senhora Hepburn?
– Quem? – ele perguntou confuso.
– Hepburn. Audrey Hepburn, acho que era esse o nome. Tanto você quanto o outro homem pensaram que eu era filha dela.
– Audrey Hepburn? – ele estava com o cenho franzido pelo esforço para lembrar. – Eu não... Nombre de Dios! – ele exclamou quando pareceu ter recordado. – Me perdoe, hermosa. Dios! – Ele parecia completamente ultrajado. – Eu sinto muito mesmo. Independente das suas roupas eu jamais deveria...
– Você falou mesmo alguma coisa sobre as minhas roupas da outra vez – eu falei quando ele não continuou. – O que tem as minhas roupas?
– Eu falei? – ele perguntou com os olhos arregalados e eu apenas assenti. Ele pareceu ainda mais torturado. – Dios mio. Eu sinto muito, Suzannah!
– Ok, Jesse. Eu já entendi que você sente muito, mas dá para explicar o porquê de tanto arrependimento?
– Eu não posso falar uma coisa dessas. Jamais!
– E vai me deixar curiosa aqui? Nem pensar! Anda. Desembucha!
– Desem... o quê?
– Desembucha. Solta o verbo. Fala!
– Hermosa...
– Se você não falar eu vou ficar com raiva. – Era mentira. Eu não tenho como ficar com raiva dele. Mas ele não precisava saber disso.
– Audrey Hepburn era uma mulher que tinha uma casa de... entretenimento próxima ao hotel – ele falou rápido e ficou me observando inseguro.
– Casa de entretenimento? – Eu continuava sem entender. Mas então se fez a luz. – Um prostíbulo?! – minha voz saiu esganiçada.
– Não use essa palavra Suzannah! É muito pesada.
– Dama da noite? Foi isso que você pensou que eu fosse?
– Eu sinto muito. – E ele parecia mesmo arrasado por isso.
– Céus! E como foi que você ainda falou comigo depois de pensar isso de mim?
– Você salvou minha vida, hermosa – ele falou com ternura. – Eu não me importaria com quem você fosse ou o que fazia.
Céus, como eu amo esse homem. Mas havia uma pergunta que não queria calar.
– Você já... usou os...serviços de lá alguma vez? – eu perguntei e senti meu rosto esquentar. Não sei se eu queria ouvir a resposta.
– Suzannah...
– Usou, não usou? – eu insisti.
– Sim – ele admitiu corando também.
Como ele fica lindo corado. Se concentra, Suzannah! Ele acabou de dizer que já dormiu com prost... epa... damas da noite e você fica calada?
– Tudo bem. – Hein? – Isso foi há muito tempo. – Qual é?! O cara nem me conhecia e era solteiro. Também não poderia exigir que ele fosse um santo!
– Tudo bem mesmo? – ele perguntou estranhando a minha reação.
– Acho que sim – eu falei dando de ombros e acabei sorrindo. – Mas agora você é só meu.
– Só seu! – ele afirmou e sorriu também.
Eu terminei de contar para ele o que mais tinha acontecido naquela noite e quando eu cheguei à parte em que ele tinha sido ferido eu não consegui controlar as lágrimas que teimaram em escorrer pelo meu rosto.
– Eu pensei que tinha te perdido de novo – eu murmurei.
– Eu estou aqui, hermosa – ele sussurrou. – Graças a você, eu estou vivo.
Ele me puxou para mais perto e encostou seus lábios nos meus de leve. Foi engraçado ouvir a aparelho disparar mais uma vez acompanhando seus batimentos cardíacos. Pelo mesmo eu sabia que isso não acontecia apenas comigo.
– Mas eu ainda não entendo como foi que isso aconteceu – eu falei depois que me afastei um pouco. – Eu pensei que, como eu tinha evitado a sua morte, seu espírito desapareceria.
– Eu também não entendo. Só o que eu sei é que eu estava na casa de Gina desesperado para saber como você estava e então eu te ouvi me chamando.
– Eu te chamei? – eu não lembrava disso.
– Sim. Talvez tenha só pensado em mim, porque o som estava baixo. Não era nítido como quando você me chamava antes.
Então eu lembrei de ter mesmo pensado nele no momento em que estávamos em frente ao hospital. Quando eu percebi que tinha trazido ele comigo.
– Foi isso mesmo – eu confirmei.
– Assim que eu ouvi a sua voz, eu fui até onde você estava e te vi ao lado do meu corpo – ele falou com a voz fraca. – Quando você desmaiou, eu pensei que você tinha... – Sua voz falhou nesse momento e seus olhos encheram de lágrimas.
– Eu estou bem – eu o tranquilizei. – O deslocamento só me deixou com uma super dor de cabeça. Nada mais que isso.
– Eu me aproximei de você para tentar sentir sua pulsação, mas no momento que eu te toquei eu senti alguma coisa me puxando para o meu corpo. Como se fosse um imã. E então eu acordei aqui.
Foi a minha vez de me inclinar na direção dele. Mas eu parei a apenas alguns centímetros do seu rosto e olhei no fundo dos seus olhos negros.
– Você tem certeza que é isso que você quer, Jesse? – eu perguntei num sussurro. – Você quer mesmo viver nesse século?
– Eu nunca tive tanta certeza em toda minha vida, Suzannah. Não importa o século. Eu só quero ficar ao seu lado.
Então eu o beijei. Dessa vez aprofundando um pouco mais e sua mão livre tornou a deslizar para a minha nuca, provocando um arrepio por todo meu corpo. Já estávamos quase sem fôlego quando eu me afastei.
– Tudo aqui é muito diferente – eu murmurei tentando respirar novamente.
– Hermosa, eu tive cento e cinquenta anos para me adaptar aos seus costumes – ele falou sorrindo. – Eu posso não conhecer algumas expressões que vocês usam, mas quanto ao resto, não acho que terei muitos problemas. Mas ainda há uma coisa que dificultará tudo.
– O quê? – eu perguntei com o cenho franzido.
– Bem, tecnicamente eu não existo mais.
– Ah, isso.
– É, isso.
– Não se preocupe. Eu já resolvi esse detalhe.
– Como?
– Eu consegui os documentos que você vai precisar. Bem, na verdade, quem conseguiu foi Paul.
– Paul? – ele perguntou irritado. – O que Paul tem a ver com isso? – Era impressão minha ou ele estava com ciúmes?
– Está com ciúmes, Jesse? – eu perguntei arqueando uma sobrancelha e me controlando para não rir.
– E se estiver? – ele perguntou no mesmo tom. – Eu lembro muito bem que esse cara te beijou.
– Mas não foi você mesmo que ficou me empurrando para cima dele depois que ele fez isso? – Ok. Eu estava provocando, mas eu estava adorando ver esse lado ciumento de Jesse.
– Por que você ligou para ele, Suzannah? – Ele estava sério e mais irritado ainda então eu resolvi parar de brincar.
– Eu não liguei para ele – expliquei. – Eu liguei para Gina para pedir ajuda e ela ligou para ele.
– Eu não sei se eu quero a ajuda dele – ele murmurou.
– Você sabia que está parecendo uma criança birrenta falando assim? – Mas ele continuava lindo. Dava vontade de apertar ele todo. – Mas você não tem que aceitar nada. Eu já aceitei.
– Ele vai querer alguma coisa em troca.
– Talvez. Mas eu acho que ele vai querer mesmo é te conhecer. – Ele franziu a testa e eu expliquei. – Gina disse que ele ficou radiante por ter descoberto que eu era capaz de me deslocar com alguém de carne e osso.
– Sei.
– Relaxa, Jesse. – Eu tive que rir com sua expressão carrancuda. – Mesmo se ele tentar dar em cima de mim de novo, não que eu ache que ele vá fazer isso, ele não tem a mínima chance. Perto de você Paul é só um grãozinho de areia.
– Hum.
– Jesse...
– O que ele conseguiu? – ele perguntou a contragosto.
– De acordo com Gina, ele conseguiu todo tipo de documentos, mas ainda vai demorar um pouco para ficar pronto.
Ouvi uma leve batida na porta e me sobressaltei. Por um momento eu esqueci onde estava.
Logo em seguida a cabeça de Gina apareceu e ela olhou para dentro me procurando.
– Oi. Entra – eu chamei fazendo um sinal com a cabeça.
Ela entrou e fechou a porta atrás de si. Ela percebeu as nossas mãos unidas, mas não falou nada.
– Desculpa interromper, Suze, mas sua mãe está quase me enlouquecendo com tantas perguntas.
– Ah, é verdade. Eu te deixei com a pior parte. – Do jeito que eu conhecia a minha mãe, ela deveria estar parecendo uma matraca. – O que você disse a ela?
– Por enquanto só a parte do “assalto”, mas ela não desiste fácil. Quer detalhes – ela falou olhando de relance para Jesse. – Eu tive que fingir que ia ao banheiro para me livrar. Mas eu vou voltar para lá agora. Deixar vocês conversarem em paz.
Ela já estava saindo quando Jesse a chamou.
– Não fala comigo, Gina?
Gina estancou no meio do caminho e se voltou devagar.
– Você sabe meu nome? – ela perguntou com uma expressão confusa no rosto.
– Eu não esqueço os amigos – ele respondeu sorrindo.
– Jesse? – ela perguntou se aproximando e me olhando com a expressão ainda mais confusa.
– Ele mesmo – eu respondi com um sorriso enorme no rosto. – O meu Jesse.
– S–seu... Jesse? – ela gaguejou alternando o olhar de um para o outro, completamente chocada. Eu apenas assenti sorrindo. – C-como? Quando? Como foi isso? Tem certeza?
– Absoluta – eu confirmei.
– Ai meu Deus, Jesse! – Ela correu na direção da cama e o abraçou de leve com cuidado para não machuca-lo. – Mas como foi que isso aconteceu?
– Longa história – eu falei. – Depois eu te explico com calma, porque agora eu tenho que resolver umas coisas com a minha mãe. – Então eu olhei para Jesse. – Mas eu...
– O que foi? – ele perguntou com a voz baixa. Seus olhos pareciam pesados como se quisessem fechar.
– Eu não queria te deixar – eu falei me aproximando mais e acariciando seus cabelos.
– Eu não vou a lugar algum. – Ele sorriu e me olhou carinhosamente. – Além do mais, eu acho que o cansaço está vencendo. É estranho me sentir cansado depois de tanto tempo.
– É normal depois de tudo o que você passou essa noite.
– Nós dois passamos por muita coisa – ele me corrigiu. – Você também precisa descansar.
– Eu vou. Mas só quando resolver as coisas por aqui.
– Eu ajudo no que for possível – Gina falou de pronto. – Mas a sua mãe você vai ter que enfrentar sozinha. E, por falar nisso, o que você vai falar para ela?
Boa pergunta. E difícil também.
– Eu ainda não sei. Mas eu acho que a verdade, ou parte dela.
– Ela não vai descansar enquanto não arrancar tudo de você.
– Valeu pela força.
– Estou aqui para isso – Gina falou rindo.
– Me ajuda, Jesse. O que eu digo para a minha mãe? – olhei para Jesse e ele estava quase de olhos fechados. – Jesse?
– Oi? – ele perguntou com a voz fraca.
– Não vai me ajudar também?
– Desculpa, hermosa – ele falou fazendo esforço para manter os olhos abertos. – Não ouvi o que você disse.
– Nossa, já vi que estou sozinha nessa.
– Não, claro que não. Eu vou te ajudar.
– Não. Deixa para lá. – Não era justo com ele força-lo dessa forma. – Dorme um pouco. Eu resolvo isso com ela.
– Mas eu quero ajudar. – Lá estava aquela cara de criança birrenta de novo. Céus, como ele é fofo!
Não resisti e apertei sua bochecha de leve.
– Lindo! – Ele riu e corou. – Está tudo bem. Eu acho que já sei o que vou falar para ela. Só preciso te perguntar uma coisa.
– O quê?
– Eu posso dizer para ela que nós somos namorados?
Ele me olhou como se eu estivesse fazendo a pergunta mais absurda da face da terra.
– Deve! A não ser que você não queira. – Opa. Que cara irritada foi essa agora? Perdi alguma coisa?
– Por que eu não iria querer?
– Não sei. Talvez você prefira apresentar o Paul como seu namorado, já que ele é tão prestativo.
Gina me olhou com o cenho franzido e moveu os lábios para que só eu entendesse a sua pergunta: “O que deu nele?”
– Liga não, Gina – eu falei, não me importando que ele ouvisse. – Jesse deu para ter ciúmes de Paul agora.
– Ciúmes de Paul? – Gina perguntou num misto de riso e descrença. – Por quê?
– Ah, não sei – Jesse respondeu em um tom óbvio de sarcasmo. Isso era novo. – Talvez porque ele a tenha beijado uma vez e agora resolveu ser bom e me ajudar.
– Espera. Para tudo – Gina espalmou as mãos no ar com se parasse o trânsito e se voltou para mim incrédula. – Paul te beijou? – eu apenas confirmei com a cabeça. – Quando?
– Quando ele esteve aqui da última vez – Jesse respondeu me encarando sério.
– Na única vez que ele esteve aqui – eu o corrigi. – E que por sinal, ele foi embora na mesma noite que eu o rejeitei.
– Minha nossa! Como foi que eu não fiquei sabendo disso? – Gina perguntou rindo.
– Eu não quis te contar na época porque vocês eram tão amigos e a gente mal se conhecia – eu falei dando de ombros. – E depois pareceu sem importância.
– Mas ainda assim ele te beijou – Jesse insistiu.
Ele estava com uma carinha de cão perdido que eu não resisti e apertei suas bochechas de novo.
– Eu preciso te lembrar que eu o rejeitei porque eu já estava apaixonada demais pelo homem mais maravilhoso do mundo? – Ele sorriu para mim e me puxou para um beijo rápido. Seus olhos já estavam querendo fechar de novo. – Agora durma um pouco – eu falei começando a acariciar seus cabelos. – Durma porque agora é a sua vez de sonhar comigo – eu falei baixo no seu ouvido.
– Eu te amo – ele sussurrou com a voz sumindo aos poucos.
– Mais que tudo – eu completei no mesmo tom.
Fiquei observando-o dormir pela primeira vez. Seu rosto assumiu uma expressão serena e as lágrimas voltaram aos meus olhos. Jesse estava ali na minha frente. Vivo. Quente. Meu. Nada mais poderia nos separar agora. Nós agora éramos um do outro. Um completava o outro. Um não poderia viver sem o outro. Amigos e amantes. Um só.
Eu me sentia viva novamente, meu coração voltara a bater impulsivamente. Batia por ele. Meu amor. Minha vida. E nada poderia me fazer mais feliz. Nada poderia estragar essa felicidade. Nada.
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