Atração Involuntária
20 Capítulo 20
CAPÍTULO 20
Eu continuei ali, na mesma posição por não sei quanto tempo. Meus joelhos na grama fofa não doíam, nem minhas mãos que estavam apoiadas à minha frente na grama. Eu via as lágrimas caindo dos meus olhos, direto para o chão, uma atrás da outra sem parar.
O que eu sentia não era nada parecido com o que eu já tinha lido nos livros quando a mocinha estava triste. O torpor não dominou o meu corpo. Eu sentia cada partícula da dor. Cada respiração machucava, como se viver estivesse me matando. Eu queria, mais que tudo naquele momento, que aquela dormência que eu tanto tinha lido nos romances me dominasse, mas eu sabia que aquilo não existia. Eu sabia que eu sentiria aquela dor para sempre. Ou até Jesse voltar para mim.
Assim que ele tinha ido embora eu passei a chamar seu nome, ou melhor, gritar seu nome. Eu era uma deslocadora, afinal de contas, e podia convocar fantasmas. E eu o chamei até quase ficar sem voz. Eu só parei quando as palavras de Paul voltaram a minha mente:
“Depende apenas do fantasma se ele vai responder ao seu chamado ou não”.
E eu sabia que Jesse não iria responder. Ele tinha ido embora. Para sempre.
A dor dessa constatação me atingiu com uma força insuportável e eu gritei. Gritei de dor, gritei de raiva, de desespero. Gritei pelo amor que tinha sido tirado de mim de forma tão abrupta. Eu gritei até sentir o gosto de sangue na minha boca, vindo da minha garganta machucada.
Então eu fiquei apenas chorando, esperando por algo que eu sabia que não viria, até que eu senti uma presença não humana perto de mim. Antes mesmo que eu conseguisse reunir forças para erguer meu rosto e ver quem era, eu ouvi a voz de Stephanie.
– Gina, ela está aqui.
Eu ouvi os passos se aproximando cada vez mais, seguido por um par de braços delicados que envolveram meus ombros.
– Ah, Suze! – A voz de Gina estava claramente preocupada. – Eu já estava começando a entrar em desespero. O que aconteceu?
Mas eu não conseguia responder. Eu não podia falar aquilo em voz alta. Só tornaria tudo pior. Faria com que fosse mais real.
– Suze. – Gina colocou uma mão em cada lado do meu rosto e me forçou a olhar para ela. – Meu Deus, Suze, o que aconteceu?
A quem eu estava tentando enganar? Falar não ia tornar aquilo mais real. O meu coração morto já era o suficiente para isso.
– Ele foi embora – eu consegui falar por fim, minha voz saindo muito rouca devido a minha garganta machucada.
– Jesse? – Gina perguntou visivelmente aflita
Eu apenas voltei a chorar com ainda mais intensidade e foi o suficiente para responder. O que mais me deixaria assim, afinal?
– Ele... Seguiu em frente? – ela perguntou insegura.
Eu meneei a cabeça com força sem consegui falar.
– Eu não entendo. Então o que...?
– Ele me deixou – eu consegui falar, enfim, interrompendo-a, em meio aos soluços que me atingiam agora. – Ele foi embora para me deixar livre. – Então tudo o que eu queria falar veio à tona de vez. – Ele foi embora para que eu possa ser feliz tendo uma vida normal. Mas... Eu não... Posso! – eu comecei a gaguejar sem conseguir conter o choro e os soluços que sacudiam meu corpo. – Eu nunca vou ser capaz de viver sem ele.
– Suze... – Gina murmurou e voltou a me abraçar numa tentativa de me confortar.
– Por que ele fez isso, Gina? – eu chorava no seu ombro, mas sem encontrar forças para abraça-la de volta. – Como ele pôde me deixar? Ele sabe que ele é tudo para mim. Como ele foi capaz de ir embora e me deixar aqui sozinha?
– Suze – Gina murmurou novamente acariciando meus cabelos. – É melhor irmos para casa.
Mas eu a ignorei.
– Eu queria ficar com raiva dele por ele ter me deixado, mas eu não consigo. Eu não consigo sentir nada por ele que faça isso ficar mais fácil. – Meu corpo tremia por inteiro e eu não conseguia fazer parar. – Eu o amo, Gina. Eu o amo mais do que a minha própria vida. Eu nunca vou conseguir viver sem ele. Por que ele não vê isso?
Gina não falou nada e apenas continuou a me abraçar, acariciando meus cabelos e me apertando mais firme.
Depois de alguns minutos, ela se afastou um pouco para me olhar.
– Precisamos ir para casa. – Seu rosto estava torturado por me ver naquela situação e eu podia ver as lágrimas, que ela não deixava escorrer, se acumulando nos seus olhos.
– Eu não quero ir – eu murmurei.
– Eu sei que não, mas precisamos. Está tarde e sua mãe já estava começando a ficar preocupada quando eu saí para te procurar.
– Como você me achou?
– Steph me ajudou.
Eu olhei para Stephanie que ainda estava ali conosco, mas um pouco afastada.
– Como você sabia que eu estava aqui? – eu perguntei ansiosa, embora já soubesse a resposta.
Tudo bem que eu não estava muito longe de casa, mas eu nunca tinha estado ali antes.
– Ele me disse onde você estava – Steph respondeu de cabeça baixa, evitando meu olhar.
A constatação de que Jesse ainda se preocupava comigo não ajudou em nada. Na verdade, só fez piorar. Minhas mãos tornaram a cair na grama para apoiar o peso do meu corpo quando ele ameaçou desmoronar.
– Está vendo, Gina? – Eu me virei na sua direção aflita. – Como eu... Como eu posso... – Mas eu não conseguia continuar, os soluços tornando a me dominar. Respirei fundo tentando recobrar o controle. – Com eu posso – tentei de novo – continuar seguindo a minha vida normalmente sabendo que ele se preocupa comigo, que se preocupa se eu estou machucada. Como posso ser feliz com outra pessoa sabendo, apesar de tudo que ele me falou, e da facilidade com que ele fez isso, que ele ainda me ama e que isso nunca vai mudar, nem para mim nem, para ele?
Eu tinha voltado a gritar ferindo ainda mais a minha garganta e não me incomodando com o gosto de sangue que eu voltei a sentir.
– Você precisa se acalmar, Suze – Gina falou erguendo meu rosto com suas mãos mais uma vez. – Se não voltarmos logo para casa...
– Eu sei – eu a interrompi com a voz mais baixa. – Eu sei.
Respirei fundo uma, duas, três vezes. Eu precisava me controlar. Eu estava parecendo uma daquelas garotinhas histéricas que surtavam por que perderam a última liquidação. Chegava a ser ridículo. Eu nunca fora do tipo chorona, mas desde que eu conhecera Jesse era só o que eu sabia fazer. Chorar. Seja por tristeza, alegria ou prazer.
– Se sua mãe te ver assim ela vai ter um treco.
E bota treco nisso! Eu me levantei com a ajuda de Gina e enxuguei minhas lágrimas enquanto ela tentava colocar meus cabelos no lugar e removia as folhas que grudaram no vestido. Eu deveria estar parecendo um espantalho. Sabia que ficava horrorosa depois de chorar e acho que estava de dar medo depois de chorar por tanto tempo.
Quando Gina me garantiu que meu rosto já não estava mais tão vermelho ou inchado, nós rumamos de volta para casa. Eu ainda estava me sentindo fraca então ela me manteve em pé me segurando com firmeza pela cintura. Fizemos o caminho em silêncio, pois eu temia que qualquer palavra que saísse da minha boca ou da dela seria o suficiente para acabar com meu controle. Ainda não sabia o que diria à minha mãe ou a todos os outros sobre minha ausência e meu estado atual, mas não tive muito tempo para pensar.
Quando eu cheguei em casa estava tudo às escuras com exceção da luz da varanda.
Ah, não! Por favor, isso não! – exclamei para mim mesma. Eu tinha uma vaga noção do que iria acontecer assim que eu entrasse por aquela porta, mas eu preferia achar que era imaginação da minha cabeça. Minha mãe não faria uma coisa dessas, faria? Ela sabia que eu odiava surpresas, mas parecia que ela não estava interessada em levar minha opinião em consideração já que assim que Gina fechou a porta atrás de mim, as luzes se acenderam e todos gritaram:
– Feliz Aniversário, Suze!
Minha mãe estava mais a frente com um bolo de chocolate nas mãos com uma vela acesa no centro, meus irmãos logo mais atrás com Andy ao fundo. Então foi como se eu entrasse em um daqueles filmes que a cena rodava em câmera lenta. Eu via tudo nos mínimos detalhes: a sala atrás de todos cheia de bexigas coloridas e uma grande faixa pintada à mão com os dizeres “Parabéns Suzannah!”, a lágrima de felicidade que escorria pelo rosto jovial da minha mãe, suas bocas se movendo devagar enquanto cantavam aquele estúpido refrão de “Parabéns a você”, suas mãos indo uma de encontro a outra enquanto batiam palmas, seus sorrisos enormes nos rostos eternamente felizes.
– Parem! – gritei, tampando meus ouvidos com as mãos e apertando os olhos com força. – Parem com isso. Calem a boca!
Quando eu tornei a abrir os olhos estavam todos me encarando como se tivessem visto um fantasma. Ou como se me visse de verdade.
– Suzinha, o que...?
– Agora não, mãe. – E andei até as escadas, mas fui detida novamente pela minha mãe que tinha deixado o bolo nas mãos de Jake.
– Suze, o que aconteceu? – ela perguntou muito preocupada segurando minha mão que estava no corrimão.
– Mãe – comecei tentando a todo custo ficar calma. Já bastava ter surtado há alguns segundos –, por favor, eu só quero ficar sozinha.
– Mas é seu aniversário, Suzinha – ela falou com a voz chorosa.
– Dane-se meu aniversário! – eu tornei a gritar e puxei minha mão com força.
– Suze, o que... – Andy se aproximou, tentando entender a situação quando minha mãe ficou sem reação com a minha atitude.
– Que droga! Me deixem em paz! – E subi correndo os degraus, batendo a porta do quarto quando entrei.
O primeiro impulso que eu tive quando entrei foi olhar na direção do assento da janela, mas é claro que ele estava vazio. O segundo impulso foi pegar uma tesoura ou uma faca para destruir aquele assento idiota e quebrar tudo naquele quarto que pudesse me lembrar dele. Mas eu tive que conter esse impulso ou não sobraria um móvel sequer. Cada pequeno pedaço do meu quarto, desde a minha cama até aquele CD ridículo de James Morrison, me faziam pensar nele, nos momentos que tivemos juntos.
Quando Gina bateu na minha porta alguns minutos depois eu não abri.
– Eu quero ficar sozinha, Gina.
– Suze... – ela falou do outro lado da porta.
– Por favor, Gina.
– Tudo bem. A gente se vê amanhã – ela falou e eu a ouvi descendo as escadas e, alguns instantes depois, ouvi seu carro saindo.
Eu sei que Gina era a única pessoa que eu poderia conversar abertamente sobre esse assunto, mas no momento a última coisa que eu queria fazer era conversar.
Eu não acendi a luz quando entrei no quarto, ou tomei banho, ou troquei de roupa, tampouco me deitei na cama. Eu estava deitada no tapete no meio do quarto olhando para o teto, sem realmente vê-lo. Deixei as lágrimas virem e elas escorriam pela lateral do meu rosto entrando nos meus cabelos.
Minha mãe também bateu na minha porta. Depois foi a vez de Andy. Todos bateram e pediram para eu abrir, querendo saber o que aconteceu, ou se eu precisava de alguma coisa. Mas eu não respondi e nem abri para ninguém. Ninguém ali poderia me ajudar. E o que eu precisava eles não poderiam me dar.
Finalmente, em algum momento da noite ou da madrugada, o cansaço falou mais alto e eu adormeci. E eu sonhei. Com Jesse. Mas o sonho estava longe de ser bom. Nele Jesse andava para longe de mim no meio de uma floresta escura enquanto eu tentava alcança-lo. E mesmo eu correndo e ele andando devagar eu nunca conseguia chegar mais perto. Ele ia se distanciando cada vez mais até que desaparecia na escuridão e eu acordei suada e arfante como se tivesse corrido de verdade.
Eu não consegui dormir novamente e continuei ali no chão esperando o dia amanhecer. Levantei e fui em direção ao banheiro. Estava com um gosto terrível na boca e já estava a quase vinte e quatro horas sem tomar banho. Levei um susto quando vi meu reflexo no espelho. O que era aquilo? Minha nossa, parecia mais um zumbi. Havia manchas roxas debaixo dos meus olhos inchados, meus cabelos pareciam que tinham passado no meio de um furacão. Tirei aquela roupa que eu jurei a mim mesma nunca mais vestir e entrei no banho.
Depois de cerca de meia hora eu finalmente saí e sequei os cabelos depois de escovar os dentes. Vesti um pijama de algodão e deitei na cama por cima do lençol. Eu sei que precisava encarar minha família, principalmente minha mãe, mais cedo ou mais tarde, mas eu decidi que seria mais tarde.
Fechei os olhos e fiquei esperando o sono voltar, mas eu não tinha tanta sorte assim.
Ouvi passos subindo a escada e, pela leveza dos passos, só poderia ser minha mãe. Não deu outra.
– Suzinha? – sua voz estava baixa, mas dava para notar a preocupação. – Suzinha, meu amor, você está acordada?
Ela chamou mais algumas vezes, e quando eu não respondi, ela desistiu e tornou a descer as escadas.
Eu continuava de olhos fechados evitando olhar para o meu quarto com medo que as lembranças piorassem a minha situação, mas então eu percebi que uma hora ou outra eu teria que abrir os olhos. Eu teria que ver tudo aquilo que me lembrava dele. Eu não poderia ficar andando pelo quarto de olhos fechados para sempre.
Então eu decidi que o melhor que eu tinha que fazer era me embriagar. Não de álcool, mas das lembranças. Dei um pulo da cama e a primeira coisa que eu fiz foi colocar o CD de James Morrison para tocar e ativei a função de repetir o álbum.
A segunda coisa que eu fiz foi sentar no nosso assento da janela. Meus olhos passaram a percorrer cada pedaço daquele quarto, observando tudo, lembrando de tudo que tinha acontecido ali, desde o dia que nos conhecemos, no modo como quase transamos naquele mesmo dia no móvel do meu computador. Como finalmente Jesse se convenceu que não havia como lutar contra o que tínhamos, como tínhamos feito amor naquela cama por tantas e tantas vezes. Como ele sempre ficava me esperando chegar da escola e me abraçava dizendo que tinha sentido saudades mesmo tendo ficado apenas algumas horas afastados. Como ele me beijava e me fazia esquecer tudo. O modo como seus braços me envolviam quando estávamos sentados nesse mesmo assento e líamos algum livro juntos ou apenas ficávamos olhando a noite enquanto ele me acariciava com ternura. E como essa ternura se transformava em paixão em questão de segundos.
E parei por aí. Pelo menos por hoje a dose já tinha sido suficiente. Mas eu não chorei mais. Não havia mais lágrimas.
Eram quase nove horas da manhã quando minha mãe tornou a bater na porta do meu quarto.
– Suzinha, abre, por favor – ela pediu. E é claro que eu não abri. – Por favor, minha filha, eu estou preocupada com você.
– Então somos duas – eu respondi baixinho para que ela não ouvisse.
– Você precisa comer alguma coisa, Suzinha – ela insistiu. – Tudo bem, se você não quer sair do quarto eu vou trazer o seu café da manhã aqui. Não demoro.
Alguns minutos depois ela tornou a bater na porta.
– Suzinha, eu vou deixar a bandeja aqui na sua porta. Não demore ou as panquecas vão esfriar.
Minha mãe sabia que eu adorava panquecas. Mas, apesar de não ter comido nada desde o piquenique com Jesse, eu não estava com fome. E também sabia que eu não conseguiria fazer nada descer pela minha garganta. Eu sentia um vazio dentro de mim, mas sabia que aquilo não era falta de comida.
Cerca de uma hora depois eu ouvi uma nova batida na porta.
– Por que você não comeu, Suzinha? – minha mãe perguntou do corredor. – Você precisa se alimentar.
Mais uma hora depois...
– Eu sei que você está acordada, filha. Eu posso ouvir a música aí dentro. Por que você não abre a porta para que possamos conversar?
Meia hora depois...
– Por favor, Suzinha, abre a porta.
Uma hora depois...
– Você vai ter que sair desse quarto uma hora ou outra.
Duas horas depois...
– Suzannah, já são duas horas da tarde e você não comeu nada ainda hoje. – Sua voz estava começando a ficar alterada. – Eu sei que você não está dormindo, então abra a porta e pegue a comida que eu estou deixando aqui.
E mais meia hora depois...
– Suzannah, é melhor você abrir essa porta agora ou eu vou chamar o chaveiro.
Mas era domingo e eu sabia que não havia chaveiros vinte e quatro horas em Carmel.
Dez minutos depois...
– Suzannah Simon, se você não abrir essa porta nos próximos cinco minutos eu vou mandar arrombar!
Ouvi a voz de Brad gritando do andar de baixo: “Pode deixar comigo!”, mas ainda assim eu não abri.
Logo em seguida eu ouvi uma nova batida, mas dessa vez mais suave.
– Suze, sou eu. – Era Gina. – Você vai abrir a porta para mim ou eu vou ter que pular a janela?
Eu continuei olhando para a baía que se estendia a perder de vista e tentei não pensar em nada. Depois de alguns minutos eu percebi um movimento na árvore ao lado do telhado da minha janela e então a cabeça de Gina surgiu entre os galhos. Com muita facilidade ela pulou da árvore para o telhado. Eu a encarava com os olhos arregalados e não consegui falar nada.
– Pode me bater se quiser – ela falou enquanto passava pela janela e entrava no quarto passando por cima das minhas pernas que estavam estiradas no assento –, mas daqui eu não saio.
Ela andou até a porta e, antes que eu pudesse pedir que ela não deixasse ninguém entrar, ela simplesmente abriu a porta e pegou a bandeja, com suco, frutas, biscoitos e uma fatia do bolo de chocolate – do meu aniversário –, que ainda estava no chão do corredor. Fechou a porta novamente com os pés, depositou a bandeja na minha cama e voltou para trancar a porta.
– Então – ela falou, com as mãos nos quadris –, você vai comer sozinha ou eu vou ter que te amarrar e empurrar tudo goela a baixo?
Eu preferi comer com as minhas próprias mãos, afinal, Gina era maior do que eu e, provavelmente, mais forte. Além do mais, eu não queria brigar com a minha melhor amiga quando sabia que ela só estava tentando me ajudar.
– Mas eu vou logo avisando que não quero papo – eu falei, minha voz saindo rouca pela falta de uso, enquanto levantava e ia em direção à cama.
– Sem papo então será – ela respondeu e sentou na cama junto comigo.
Minha garganta estava bastante dolorida graças aos meus gritos histéricos de ontem, então eu só consegui tomar o suco e comer algumas uvas, mas Gina me forçou a comer um pedaço da fatia de bolo.
– É seu bolo de aniversário, afinal de contas – ela falou, empurrando o garfo na minha boca.
Gina se encarregou dos biscoitos de avelã e depois que eu engoli o último pedaço da fatia que, por sinal, estava muito gostoso, ela me encarou com uma sobrancelha erguida.
– O quê? – eu perguntei limpando a boca com um guardanapo de papel.
– Você precisa mesmo sair desse quarto, sabe?!
Eu bufei irritada e pulei da cama, indo até o assento da janela e sentando lá para contemplar a vista da baía novamente.
– Sua mãe está preocupada, Suze. – Ela também saiu da cama e afastou minhas pernas para poder sentar comigo. – Todos estão.
Eu comecei a acompanhar a letra da música, ignorando-a. Depois de tanto repetir o mesmo CD eu já tinha memorizado todas as músicas.
Gina entendeu que eu não iria responder então se limitou a ficar em silêncio e pegou uma revista para passar o tempo. Eu queria pedir para ela ir embora, mas ao mesmo tempo não queria ficar sozinha.
– Ele não vai voltar, não é? – eu me peguei perguntando depois de cerca de meia hora com as duas em silêncio.
Gina levantou os olhos da revista e me encarou se falar nada.
– Ele me deixou para sempre. – Eu continuei sem olhar para Gina. Minha vista não saía da paisagem lá fora. – Não importa o quanto eu chore, ou grite, ou quantas vezes eu chame por ele, ele não vai mais voltar. – Eu respirei fundo e soltei o ar pesadamente. – Antes de ir embora Jesse me pediu uma coisa, uma única coisa – eu falei. – E essa é a única coisa que eu jamais conseguirei de fazer.
Eu finalmente olhei para Gina e ela me encarava com o cenho franzido.
– Ele me pediu para ser feliz – eu expliquei, por fim.
– Suze... – ela sussurrou gentil.
– Mas não importa – eu a interrompi. – Eu posso não conseguir ser feliz como ele queria, mas eu também não vou ficar aqui trancada para sempre como uma moribunda.
– É assim que se fala, amiga! – Gina abriu um sorriso e deu um tapa de leve na minha perna.
– E eu estou cansada de fingir ser alguém que eu não sou só para agradar os outros.
– Hein? – Gina franziu o cenho novamente e me olhou confusa.
– É isso mesmo, Gina! – eu exclamei me levantando de um salto e indo em direção ao guarda-roupa. Peguei um short jeans curto e uma regata preta e os vesti.
– O que você vai dizer a sua mãe? – Gina perguntou ainda sentada no mesmo lugar. – Sobre ontem?
– Nada – respondi enquanto ajeitava os cabelos em frente ao espelho. – Vamos?
Descemos as escadas e encontramos todos na sala, com exceção de Andy que estava na cozinha temperando alguma carne.
Brad e Jake estavam jogando videogame na sala e minha mãe estava lendo, deitada em um dos sofás, ou fingindo já que assim que me viu ela fechou o livro sem marcar a página. O jogo também estava pausado agora e a sala tinha ficado em silêncio. Gina foi para onde Jake estava e sentou ao seu lado no sofá, pegando uma revista para poder esconder seu rosto atrás e eu fiquei sozinha ao pé da escada encarando aqueles olhos curiosos. Todos esperando eu falar alguma coisa.
Cada vez que minha mãe tinha batido na porta do meu quarto naquela manhã, eu ficava pensando no que eu diria para ela; alguma coisa que justificasse o meu comportamento durante a minha “festa” na noite anterior. Eu até tinha pensado em algumas coisas, como:
– “Hei, mãe, me desculpa por ter gritado com você daquela forma, mas é que eu estou naqueles dias, e a senhora sabe como é... Hormônios à flor da pele, mudanças constantes de humor.”
Ou então:
– “É que eu tinha acabado de levar um fora do meu namorado. Pois é, mãe, eu estava namorando um cara há alguns meses e... Ah, e ele é um fantasma.” – É... Seria interessante.
Mas eu sabia que nenhuma dessas opções eram viáveis. Eu não poderia, de forma alguma, contar a verdade. E também não poderia inventar uma mentira estúpida qualquer. Afinal, eu estava disposta a ser eu mesma daqui para frente. E era o que eu faria.
Mas ainda restava uma dúvida: como eu faria isso?
Eu continuava olhando para a minha família, e eles continuavam me olhando de volta, um esperando que o outro tomasse a iniciativa.
– E aí? – Brad falou. – Vai gritar de novo? Por que se for, me avisa que eu coloco os protetores.
– Vai se ferrar, Brad!
Minha mãe já tinha aberto a boca para repreendê-lo e parou o movimento no meio do caminho e me olhou com a boca aberta.
É. Foi melhor assim. Rápido. Indolor. Como arrancar um band-aid em um só puxão.
– Mãe, me desculpa por ter gritado com você – foi só o que eu falei.
Ela ainda demorou um pouco para se recobrar, mas então pareceu voltar a si antes de falar.
– O que aconteceu com você, filhinha?
Eu me aproximei mais e sentei ao seu lado no sofá.
– Não importa. Eu só peço desculpas por não ter aproveitado a festa que vocês prepararam para mim. – Eu olhei para todos ali na sala, inclusive para Andy que nos observava por cima do balcão – Mas eu vi tudo que vocês fizeram e... Obrigada.
– Mas o que te deixou daquele jeito, Suzinha? – minha mãe perguntou com a voz doce, passando um braço pelos meus ombros.
– Eu não quero falar sobre isso.
Ela continuou me olhando por alguns segundos, mas então pareceu ter decidido não insistir no assunto.
– Filhinha, eu fiquei tão preocupada com você. Eu nunca te vi agindo daquela forma. Nem parecia você.
– Não mãe. – Eu me levantei do sofá, falando calmamente, e andei pela sala até ficar de frente para ela. – Parecia exatamente comigo. E é assim que a senhora vai me ver daqui para frente. Como eu realmente sou.
– Suzinha...
– Eu cansei de fingir ser alguém que eu não sou, mãe – eu a interrompi. – Cansei de agir de um jeito na sua frente e de outro quando estava sozinha. Eu cansei de enganar a todos bancando a santinha quando essa não sou eu.
– E por que você faria isso, filha? – ela estava com o cenho franzido. – Por que você fingiria ser alguém que não é?
Brad nos observava de boca aberta fazendo-o parecer um doente terminal e Jake, que tinha puxado Gina pelos ombros para que ela se recostasse no seu peito, também nos observava com atenção. Ela se acomodou nele, mas continuou escondida atrás da revista de moda. Mas eu sabia que ela não estava lendo.
– É só que... – comecei, criando coragem para finalmente falar tudo aquilo – desde que papai morreu você tem feito de tudo para me manter sempre feliz e está sempre fazendo o impossível para que tudo fique perfeito e eu... Eu me senti na obrigação de corresponder as suas expectativas. Eu não quis parecer uma ingrata. Então eu... Fingi. Eu fingi ser essa garotinha educada e de bem com a vida que a senhora sempre quis que eu fosse.
– Eu nunca pedi para você fingir ser assim. – Ela me olhava aflita e seus olhos estavam marejados – Eu queria que você fosse.
– Eu sei, mãe. Eu sei. Mas não é assim que eu sou. – Eu voltei a me sentar ao seu lado no sofá e peguei suas mãos nas minhas. – Não que eu não tivesse sido feliz, mãe. Eu fui. Mas é só que eu não sou aquela menininha bem comportada que eu fiz a senhora pensar que eu era. Brad sabe como eu sou.
– Brad? – minha mãe perguntou confusa.
– Não me mete nessa historia – ele exclamou finalmente desfazendo a sua expressão de mongolóide.
– O que Brad tem a ver com isso?
– Eu não tenho nada com isso. – Ele parecia querer me esmagar naquele momento.
– Eu bati nele uma vez.
Brad fez um barulho estranho com a garganta. Parecia um rosnado.
– Por que você fez isso? – ela me olhava assustada.
– Por que ele me irritou – eu respondi simplesmente. – E é isso que eu faço quando alguém me irrita. Quer dizer, não que eu saia por aí distribuindo socos, mas eu não sou do tipo que leva desaforo para casa.
– Não é?
– Não mãe, eu não sou.
– E o que te fez mudar assim tão de repente. Digo, o que te fez decidir parar de mentir para sua própria mãe?
Eu sabia que tinha errado feio com ela. Eu menti para a única pessoa que sempre me amou e sempre cuidou de mim.
– Desculpa ter mentido para você por tanto tempo mãe. Eu sei que eu pisei na bola, mas...
– Tudo bem – ela falou dando de ombros.
– A senhora me perdoa? – eu a encarei.
– Claro que sim, Suzinha – ela envolveu meus ombros num abraço e eu retribuí.
– Valeu. – Como tinha sido fácil.
Então ela se afastou e me encarou.
– Mas me diga o que te fez decidir falar a verdade agora.
– Eu já disse. Eu cansei de fingir. De agora em diante tudo que a senhora ver em mim será exatamente aquilo que eu sou.
– E aquela ontem à noite era a verdadeira Suzannah?
– De certa forma sim. Só um pouco mais atacada.
– E você não vai me dizer o motivo de estar tão “atacada”, não é? – Seu rosto estava impassível.
– Não.
– Bem, então você está de castigo.
– Quê? Por quê? – Minha mãe nunca tinha me colocado de castigo antes.
Ouvi Brad tossindo para disfarçar uma gargalhada, mas não olhei na sua direção.
– Hum. Deixa eu ver. – Ela colocou a mão embaixo do queixo como se estivesse pensando. – Primeiro: porque nós duas combinamos que você deveria ter chegado em casa antes do anoitecer e você não chegou. Segundo – ela enumerava os motivos erguendo um dedo de cada vez –, porque você gritou comigo e com o resto da família. Terceiro: porque você não saiu do quarto e nem abriu a porta quando eu mandei. E como eu não sei o porquê de você ter feito tudo isso, não me resta alternativa a não ser colocar você de castigo.
Ok. Era motivo suficiente. Eu merecia mesmo ficar de castigo.
– E, ah – qual é? Outro motivo? –, por ter mandado seu irmão “se ferrar”.
O quê? Ah, não. Isso não!
– Então é melhor a senhora já ir estipulando um castigo para o ano inteiro – eu falei sem emoção na voz. – Assim a senhora não vai precisar gastar seu fôlego cada vez que eu mandar ele – eu apontei para Brad que ainda fazia esforço para não rir e, como resultado, já estava ficando roxo – se ferrar.
– Suzannah! – ela me repreendeu.
Tinha que me acostumar com o som da sua voz me repreendendo. Era estranho, mas me dava uma incrível sensação de liberdade.
– Mãe – Brad chamou. Ele ainda sorria, mas parecia mais controlado –, não precisa castigar ela por isso. Eu não me importo.
– Até porque – Andy falou vindo da cozinha – você já falou isso para ela uma vez, não foi mocinho? – ele olhou para minha mãe com um sorriso suave no rosto. – Isso parece ser uma expressão muito comum entre os jovens nos dias de hoje. Algo como o “vai catar coquinho” da nossa época.
E que época era essa? Jurássica? Fiquei na minha, claro.
– Bem – minha mãe deu de ombros – então, não por isso. Mas pelos outros motivos a senhorita está de castigo, Suzannah Simon.
E quer saber? Eu nem me importei. Meu castigo tinha sido lavar os pratos do jantar pelo resto das férias e eu estava proibida de ir à casa de Gina – não que eu fosse muito lá, já que ela vivia aqui em casa.
Mas depois eu acabei sendo proibida de ir à praia também. O motivo? Foi apenas porque eu dei um soco na barriga de Brad e minha mãe viu. Mas não foi minha culpa. Ele meio que estava pedindo.
Eu estava voltando para o meu quarto depois que Gina foi embora e Brad subiu as escadas comigo. Na porta do meu quarto ele parou e ficou na frente da passagem.
– Então – ele falou com um sorriso cínico no rosto –, diz aí o que foi que aconteceu ontem?
– Não é da sua conta. – Dessa vez eu não precisei sussurrar. Qualquer um poderia ouvir agora. Eu tentei passar, mas ele me impediu novamente. – Sai da frente, Brad!
– Sabe o que isso está parecendo? – ele perguntou me ignorando. – Dor de cotovelo.
Ele não fazia idéia do quanto aquelas suas simples palavras doeram. Eu não consegui falar nada graças ao nó que se formou na minha garganta.
– Foi isso não foi? O tal do Jesse te deu o fora?
E foi só. Quando ele falou “Jesse” ele ainda estava de pé e quando ele terminou a palavra “fora” ele estava no chão se contorcendo de dor. Minha mãe não ouviu o que ele falou e tampouco eu repeti, então fiquei um pouco mais de castigo do que eu já estava. Mas ainda assim, eu não me importei.
Ela estava me privando de fazer uma coisa que eu adorava, mas eu duvidava que eu pudesse aproveitar uma praia do mesmo jeito que eu fazia antes. Eu sempre me lembraria dos dias que eu ia para a praia e, quando voltava, encontrava Jesse me esperando. E da forma como ele sussurrava no meu ouvido dizendo que adorava o meu gosto salgado.
Eu duvidava que eu pudesse fazer alguma coisa com a mesma empolgação de antes já que tudo me lembrava dele.
Aquela noite eu sonhei com Jesse novamente. O mesmo sonho. E, assim como tinha sido da outra vez, eu acordei suada e tremendo. E não consegui voltar a dormir. O sonho se repetiu nas noites seguintes também.
Aquele foi o pior mês da minha vida. E não apenas pelos sonhos que não me deixavam dormir direito – eu nunca tinha dormido tão pouco –, mas porque cada vez que eu acordava, eu buscava por seu corpo forte ao lado do meu e ele nunca estava lá. E eu tinha que me acostumar que ele nunca mais estaria.
Fale com o autor