Atração Involuntária
19 Capítulo 19
CAPÍTULO 19
Fim de festa era sempre assim. Todo mundo parecendo que tinha sido pisoteado, mordido e jogado no lixo. Quer dizer, não sei se todo mundo, mas era como eu estava me sentindo. Mas agora não adiantava me arrepender de ter aceitado o coquetel que Brad tinha me oferecido. Mas eu ainda poderia xingá-lo o quanto quisesse. E era exatamente o que eu estava fazendo.
– Aquele imbecil disse que tinha pouco álcool – eu murmurava, sem conseguir aumentar mais a minha voz.
Estava deitada na cama com as mãos pressionando a têmpora numa tentativa inútil de fazer minha cabeça parar de doer. Jesse estava ao meu lado com a cabeça apoiada em uma das mãos, me olhando, enquanto a outra acariciava meus cabelos.
– Você precisa tomar alguma coisa para a dor – ele falou baixo para não piorar meu desconforto. – Ela não vai desaparecer sozinha.
E foi assim que nós dois passamos o nosso primeiro dia do ano. Ele cuidando de mim, me seguindo por todo lugar e eu fingindo que ainda estava mal.
Tudo já tinha voltado à normalidade na minha casa. Minha mãe e Andy já tinham voltado para o trabalho depois de passarem as festas de final de ano em casa e David estava no acampamento dos nerds.
Os dias estavam passando muito rápido e quando eu dei por mim, faltava apenas dois dias para o meu aniversário. Em breve eu estaria com dezessete anos. Era para eu estar feliz, mas por algum motivo que eu ainda não tinha entendido, eu não estava. Eu não sei se era pelo fato de estar envelhecendo ou se era pelo estranho comportamento que Jesse vinha tendo nos últimos dias. Infelizmente eu estava mais inclinada a acreditar na segunda opção.
Jesse desaparecia por horas durante o dia e nunca dizia onde estava. Quando eu perguntava, ele inventava alguma desculpa que nunca me convencia. E estava mais calado que o normal. Várias vezes, quando estávamos juntos, eu o pegava encarando o nada totalmente perdido em pensamentos. E, mais uma vez, ele não me dizia o motivo.
– Ele deve estar preparando alguma surpresa para o seu aniversário – Gina sugerira quando eu tinha comentado meus temores.
Em parte, ela estava certa. Era o dia do meu aniversário e eu estava subindo uma colina de olhos vendados, sendo guiada por ele.
Depois de muito esforço eu tinha convencido minha mãe a me deixar sair na parte da manhã, prometendo voltar antes do jantar.
– Jesse, se eu cair...
– Você não vai cair, hermosa. – Ele ria. – Eu nunca permitiria isso.
E assim nós continuamos nosso caminho. Quer dizer, o caminho dele já que eu não fazia ideia para onde estávamos indo. Eu sentia o cheiro da água salgada misturada na brisa que soprava e sabia que deveríamos estar perto do mar, mas não na praia. Eu podia sentir a grama nos meus pés.
Finalmente paramos, depois de andar por cerca de quinze minutos. Ele ficou atrás de mim e tirou a venda dos meus olhos. E o que vi em seguida me deixou completamente sem fôlego.
Estávamos muitos metros acima do mar, em uma espécie de penhasco. A grama muito verde se estendia por todo o caminho e mais a frente, havia uma árvore frondosa com pequenas flores amarelas. Não fazia ideia que tipo de árvore era aquela, mas era linda. E logo abaixo dela, à sua sombra, havia uma toalha estendida com uma variedade incrível de comida. E em toda extensão da toalha havia pétalas de rosas vermelhas entrando em contraste com o branco do tecido.
– Jesse, que lindo! – Eu corri até a sombra da árvore rodando em torno de mim mesma, excitada como uma criança. O cenário parecia ter saído de um filme.
– Achei que fosse gostar – Jesse disse chegando perto de mim e me envolvendo pela cintura. – Feliz aniversário, hermosa.
– Ah, Jesse – eu exclamei enquanto envolvia meus braços no seu pescoço. – Obrigada! Eu amei. Está tudo perfeito! – E o beijei.
Nós nos sentamos embaixo da árvore e, depois que eu já tinha devorado quase toda a comida que ele tinha trazido com a ajuda de Stephanie – ele tinha colhido as frutas e ela tinha pegado os doces, o bolo e o suco da sua casa – ele encostou-se ao troco da árvore e eu me apoiei no seu peito firme. Ficamos ali apreciando a paisagem com ele acariciando meus braços e meus cabelos, sentindo a brisa do mar soprar fresca no meu rosto.
– Eu te amo muito, Suzannah – ele sussurrou no meu ouvido depois de um tempo. – Nunca esqueça isso.
– Impossível esquecer. – Inclinei minha cabeça para o lado para poder olhar nos seus olhos negros. – Eu também te amo.
Ele beijou meus cabelos me apertando mais firme nos seus braços. Foi impressão minha ou eu o senti tremer? Fantasmas tremiam?
– Não importa o que aconteça – ele falou no mesmo tom – eu vou te amar para sempre.
Era normal sentir aquela dor no peito novamente? Normal ou não, foi o que eu senti. E ainda mais forte.
– Está tudo bem? – eu perguntei estranhando o seu tom. Parecia... Não queria nem pensar no que parecia.
– Claro – ele falou, mas seu olhar estava distante mais uma vez. – Eu só queria te dizer isso. Para você nunca esquecer o que eu sinto por você.
– Eu nunca vou esquecer porque você sempre estará comigo para me lembrar.
E mais uma vez eu senti seu corpo tremer. E dessa vez eu tenho certeza que não foi impressão.
– É melhor nós voltarmos antes que sua mãe fique preocupada.
Ele tentou se levantar, mas eu o impedi.
– Eu falei para ela que voltava antes do anoitecer – eu informei. – Ainda falta muito para isso.
Apesar do que Gina falara, Jesse já tinha me mostrado a surpresa do meu aniversário, mas continuava estranho. E isso me deu medo por não saber o que se passava na sua mente.
Mas, antes que eu pudesse perguntar alguma coisa, ele afastou meus cabelos do ombro para deixar a pele do pescoço livre para o beijo que ele depositou ali. E então, como já era tão comum acontecer, eu perdi toda a linha de raciocínio e apenas aproveitei a carícia.
Aos poucos ele foi virando o meu corpo delicadamente até que eu ficasse de frente para ele, com um joelho de cada lado do seu quadril para que ele pudesse me beijar. O beijo foi tão cheio de encantamento quanto a paisagem à nossa volta. Continha paixão, uma paixão avassaladora que me fez corresponder com a mesma urgência quando aqueles lábios perfeitos tomaram os meus, paixão que me fez abraça-lo pelo pescoço e me moldar ao seu corpo forte, viril.
Mas o beijo também era repleto de infinita doçura, com o amor sendo transmitido em cada suspiro, cada toque.
Jesse ergueu a cabeça, enfim, para fitar os meus olhos com intensidade, mas me manteve envolta com seus braços protetores, uma mão afagando os meus cabelos. Ele arfava como se precisasse de ar e eu estava na mesma situação. Com a diferença que eu precisava de ar.
– Você é tão doce – ele sussurrou enquanto percorria o contorno dos meus lábios sensualmente com o polegar e depois afagava meu rosto com imensa ternura. – Seus olhos me hipnotizam, hermosa. – Sua voz estava muito rouca. – Eu te quero tanto.
Oh, Céus! Eu ainda vou ter um treco com esse homem.
– Você já me tem – eu sussurrei, beijando os dedos que iam acariciando minha pele com tanta gentileza.
Eu fechei os olhos com um suspiro de contentamento e pousei a cabeça no peito dele. Ali, naquele penhasco, envolta naqueles braços fortes, eu me sentia segura, protegida. O mundo externo com todas as suas incertezas e sofrimentos não poderia me atingir enquanto estivesse com ele.
Sua mão acariciava minhas costas sedutoramente, primeiro nos ombros, descendo para a cintura e indo até o quadril.
Eu senti uma corrente eletrizante me percorrendo, meu corpo arqueando de encontro ao dele, enquanto o fogo da paixão era despertado bem no centro do meu ser, aquele toque tão hábil fazendo as chamas se alastrarem por todo meu corpo.
– Jesse... – eu sussurrei, erguendo o rosto para fita-lo, minha voz repleta de anseio.
Ele tomou meus lábios com um inebriante misto de volúpia e sofreguidão. Me beijou longamente até que ambos estavam sem fôlego novamente. Ele me fitava mais uma vez com intensidade, em meio aquela atmosfera de magia, os olhos negros brilhando de desejo. Por um momento interminável, ficamos em suspenso no tempo, tomados pela intensidade da paixão, da necessidade mútua. Então, com um gemido abafado, Jesse tornou a se inclinar para tomar meus lábios com um beijo faminto, possessivo.
Somente naquele ponto em que nós dois teríamos mergulhado irremediavelmente em completo abandono, Jesse finalmente me afastou. Atordoada, eu o encarei com um protesto incoerente. As mãos grandes e fortes que haviam me acariciado até que meu corpo ardesse de desejo, agora seguravam meus braços, me mantendo longe.
– Não, minha querida, não... – A voz de Jesse soou trêmula e rouca, enquanto tentava recobrar o fôlego e o controle. – Não aqui.
Meu próprio desejo clamava por ser aplacado e minha respiração estava igualmente ofegante, o coração disparado.
– Por que não? – foi só o que eu consegui perguntar com a voz entrecortada pela falta de ar.
Ele me encarou com os olhos arregalados e seus lábios se abriram sensualmente enquanto ele tentava processar o significado da minha pergunta.
– Hermosa – ele falou enfim –, estamos em um lugar aberto. Alguém pode ver.
– Eu não vi ninguém desde que chegamos aqui. – O encarei com uma sobrancelha erguida. – Acho que temos privacidade suficiente.
Ai meu Deus. O que deu em mim? Desde quando eu tinha vontade de fazer amor em um lugar público? Desde quando eu tinha coragem para propor isso? Mas o pior de tudo era que eu queria mesmo fazer aquilo. Ali naquele lugar, que eu já sentia que era só nosso, eu queria ter Jesse só para mim.
Incerto, Jesse continuou me olhando sem falar nada e eu tenho certeza que ele via a determinação no meu olhar.
– É meu aniversário, Jesse – eu o lembrei com um sorriso suave no rosto e me inclinei para beijar seu pescoço, lambendo a pele eroticamente.
– Suzannah – ele me repreendeu, mas sua voz estava fraca, completamente dominada pela luxuria. – Isso é chantagem.
– E está funcionando? – eu perguntei sem interromper a carícia fazendo com que minha respiração roçasse sua pele.
Sua única resposta foi um gemido rouco e eu soltei um riso de contentamento quando ele me abraçou pelos ombros e me fitou com um brilho nos olhos negros. Um brilho que dizia mais do que qualquer palavra.
E sem falar mais nada, ele me deitou com as costas na toalha cheia de pétalas de rosa vermelha e agora com algumas flores amarelas que tinham caído da árvore, e se deitou sobre mim com gentileza e quase reverência.
– Suzannah – sussurrou num tom de voz torturado, ansioso.
Então ele começou a depositar beijos suaves no meu ombro, no pescoço, no colo.
Eu deixei a cabeça pender para trás e fechei meus olhos enquanto aqueles lábios experientes deixavam uma trilha de fogo na minha pele.
As mãos fortes percorriam meu corpo, acariciando, provocando. Eu sentia o ar fresco de encontro a minha pele febril e o toque de Jesse enquanto ele deslizava meu vestido até minha cintura. Ouvi quando ele respirou fundo e abri os olhos, deparando com os olhos dele percorrendo meu corpo nu.
– Tão macia – ele disse, reverente, e traçou o contorno arredondado dos meus seios com a ponta dos dedos, afagando, enfim, o mamilo.
Tornando a se inclinar, ele fechou os lábios sobre o mamilo túmido, descrevendo círculos em volta com a língua. Mordiscou–o de leve e, então, sugou-o gentilmente.
Sem poder me conter, soltei um grito de prazer e arqueei meu corpo numa reação cheia de ardor. Ele prolongou a carícia, estimulando, incitando e, então, levantou-se me erguendo com ele. Abriu o último fecho que mantinha o vestido preso junto à minha cintura, deixando-o deslizar até os meus pés.
Eu deveria estar envergonhada por estar daquele jeito, quase completamente despida, exposta em um lugar tão aberto, mas não estava. Não naquele momento quando vestia apenas a minha calcinha de renda e me sentia totalmente à vontade com o homem a minha frente e com o poder que eu sabia possuir para fazer com que Jesse me desejasse.
E ele me desejava. Isso era totalmente evidente no seu olhar de puro ardor. Ele me queria com a mesma paixão que me tomava.
– Você é tão linda – ele disse com óbvio fascínio. – Tão cheia de vida, real e quente.
Ele observava cada parte do meu corpo como se tentasse decorar cada mínimo detalhe.
Eu sentia que aquelas suas palavras e a sua atitude significavam mais do que ele deixava transparecer, mas, mais uma vez, seu toque foi o suficiente para me fazer esquecer tudo.
Jesse acariciou o meu braço, o quadril e, então, deslizou a ponta dos dedos pela cintura da minha calcinha, o contato quase imperceptível, mas o bastante para me fazer estremecer.
– E você ainda está vestido. – Eu o puxei pela camisa.
Ele abriu um largo sorriso, me abraçando pela cintura, e me puxando de encontro ao seu corpo.
– Você pode remediar facilmente esse pequeno problema.
Eu não sabia o que era mais erótico, Jesse me despindo, ou deixando que eu o despisse.
Eu ri e ergui seus braços para poder remover a camisa. Eu sentia as mãos vibrando enquanto deslizava as palmas em seu peito de músculos bem definidos.
– Não pare... – ele pediu num murmúrio.
E eu não parei. Minhas mãos desceram até o começo da sua calça, mas em vez de retirá-la eu me ajoelhei para remover suas botas. Depois que elas já tinham sido jogadas longe eu, ainda sem me erguer, comei a abrir sua calça, meu rosto ficando na altura do seu quadril.
Devagar, fazendo muito esforço para evitar que minhas mãos tremessem, eu deslizei a peça pelas suas pernas e, com a ajuda dele, removi-a completamente. Minhas mãos tornaram a subir por seu corpo, começando nos seus tornozelos e subindo até o seu quadril. Seu membro rijo estava na mesma altura do meu rosto e, com uma ousadia que eu nunca pensei sentir, eu encostei meus lábios nele. Num gemido rouco e torturado, Jesse me ergueu rápido pelos ombros. No mesmo instante eu envolvi seu pescoço com meus braços e, com um gemido abafado, ele pressionou seu corpo ao meu e me beijou com todo seu ardor.
Ainda me beijando ele removeu minha calcinha, me deitou novamente na toalha e cobriu meu corpo com o seu. Um beijo sôfrego, enquanto os nossos corpos ansiavam pela completa união. E, então, Jesse me possuía e a explosão de paixão enquanto nos entregávamos um ao outro com mútuo abandono o fez dizer meu nome com uma intensidade que pareceu vir do fundo de sua alma.
Eu não ouvia mais nada, tudo foi sobrepujado pelo puro enlevo do êxtase fabuloso que nos arrebatou, nos tornando um só.
Continuamos abraçados esperando nossa respiração voltar ao normal com ele acariciando meus cabelos e eu acabei adormecendo. Quando despertei Jesse tinha dado um jeito de me cobrir parcialmente com a toalha, mas ele não estava ao meu lado. Me ergui um pouco e o vi sentado encostado ao tronco da árvore, já completamente vestido, me observando com aquele mesmo olhar distante que eu tinha visto por toda semana e o medo voltou com força total.
– Um dólar pelo seu pensamento. – Eu me esforcei para soar natural.
Ele continuou em silêncio por alguns instantes antes de responder.
– Eu estava pensando em como você é perfeita – ele falou e sua voz estava repleta de carinho e admiração. – Em como eu tive sorte de te conhecer. E como você me completou com seu amor. E ainda mais sorte por você me amar sendo quem eu sou.
– Sendo esse homem maravilhoso que você é – eu falei com a voz embargada não pela emoção, mas pelo medo.
– Sendo apenas um fantasma – ele me corrigiu.
Eu me envolvi na toalha e me aproximei mais dele pegando seu rosto em minhas mãos.
– Você nunca foi um fantasma para mim, Jesse. – Eu tentava a todo custo manter a minha voz firme.
– Eu sempre serei um fantasma, Suzannah. – E, para meu completo desespero, ele afastou minhas mãos e se ergueu. Andou até a ponta do penhasco e se voltou para me olhar. – Ao contrário de você. Você é jovem, Suzannah, e tem toda uma vida pela frente.
– Jesse – eu o cortei me aproximando dele – nós já tivemos essa conversa antes.
– Eu sei – ele falou –, mas então eu percebi o quanto estava sendo egoísta de impedir você de ter uma vida normal.
– Eu já te disse que minha vida é com você! – eu contrariei, mas sem encontrar força suficiente para deixar minha voz firme.
– Você não pode ter uma vida ao lado de uma pessoa que está morta. Eu não posso permitir que você desista de tanto por mim.
– Eu não me importo...
Eu lutava para controlar os tremores que percorriam meu corpo.
– Mas eu sim. – Então ele andou até onde estavam as minhas roupas e me entregou. – Vamos. Depois terminamos essa conversa.
– Não! – eu gritei e joguei a roupa no chão. – Vamos conversar agora!
– Daqui a pouco vai anoitecer e sua mãe ficará preocupada.
– Eu não me importo – tornei a dizer.
Ele apenas me olhou com aqueles olhos negros e, sem falar nada, tornou a pegar as peças e colocou-as nos meus braços.
Eu sabia que ele estava certo. Se eu não chegasse no horário prometido era provável que minha mãe mandasse os meninos virem atrás de mim. Relutante, eu me vesti e ele pegou a toalha dobrando-a de qualquer jeito.
– Vamos.
Começamos a descer a colina e ele não falou mais nada.
– Por que você está fazendo isso, Jesse? – eu perguntei em dado momento, não suportando mais seu silêncio.
– Em casa nós conversamos – foi só o que ele falou e tornamos a ficar em silêncio.
Estávamos a cerca de cem metros de casa quando ele parou ao lado de uma palmeira. O sol já estava se pondo deixando tudo ao redor com um leve tom alaranjado. Eu me encostei, ainda de pé, no tronco da palmeira e fiquei olhando os meus pés esperando ele falar. Ele estava parado na minha frente, mas mantinha uma pequena distância. Eu o ouvi respirando fundo antes de começar.
– Suzannah – sua voz não continha nenhum traço de emoção e isso foi o suficiente para acabar com todo meu alto controle.
Eu ergui meus olhos para olhar nos seus, mas ele não estava me encarando. Ele olhava para algum ponto atrás de mim, mas eu sabia que era só um motivo para não me encarar.
– Jesse, por favor, não faz isso – eu estava implorando.
– Eu preciso...
– Não precisa, não! – eu gritei para ele e me adiantei na sua direção estendendo a mão para tocá-lo, mas ele andou para trás me evitando.
Minhas mãos caíram mortas ao lado do meu corpo.
– Eu sei que nós já falamos sobre isso antes, Suzannah, mas agora é sério. – Apenas nesse momento ele olhou nos meus olhos e isso só fez piorar a situação, porque eu vi que ele estava mesmo decidido.
– Você está terminando comigo? – eu perguntei num fio de voz.
Mais uma vez ele respirou fundo antes de falar numa voz firme.
– Estou.
As lágrimas finalmente começaram a rolar pelo meu rosto e eu não me preocupei em enxuga-las.
– Por quê? – foi só o que eu consegui perguntar.
– Você sabe o motivo.
– Não, eu não sei, Jesse! – eu gritei novamente agora com raiva. – Porque eu lembro que quando nós falamos sobre isso da outra vez você tinha me dito que queria se afastar porque isso era o melhor para mim, mas nós dois concordamos que isso não é verdade.
– Suzannah...
– Eu não posso viver sem você Jesse – eu o interrompi aos prantos.
– Pode e vai! – Então ele se aproximou e me pegou pelos ombros me forçando a encará-lo. Sua expressão estava dura e seus olhos brilhavam intensos. – Eu vou embora hoje...
– Não! – eu gritei mais uma vez interrompendo-o. – Você não pode.
– Eu vou embora hoje – ele falou novamente. – Vou sair da sua casa e deixar...
– É sua casa também!
– Eu vou deixar você livre para seguir a sua vida.
– Eu não quero seguir sem você!
– Para com isso, Suzannah! – foi a vez dele de gritar e se afastar de mim visivelmente irritado. – Eu não posso ficar com você.
– Claro que pode...
– Eu estou morto! Não há nada que eu possa te oferecer.
– Eu não me importo!
Nós dois gritávamos um com o outro. Doía demais o que ele estava fazendo. Ele estava tentando me convencer que o melhor para mim era ele se afastar, mas não era.
– Mas eu me importo! – ele continuava gritando. – Como eu posso ficar ao seu lado estando morto? Como você vai fazer quando as pessoas começarem a perguntar o motivo de você não namorar ou casar ou...
– Dane-se as pessoas! Eu te a...
– Não fala isso! – gritou. Ele respirou fundo e passou as mãos nos cabelos num gesto de nervosismo. Então ele continuou com a voz mais calma. – Você fez dezessete anos hoje. Em breve você será adulta e terá que seguir a sua vida. Você vai trabalhar, casar, ter filhos. É assim que tem que ser. Então o melhor que eu tenho a fazer é me afastar agora quando...
– Eu te amo – eu falei num sussurro.
Então ele não conseguiu mais continuar com seu discurso patético e ficou apenas me olhando.
– Eu sei que você me ama também. E não importa o que você diga ou faça, eu nunca serei capaz de viver sem você!
– Você fala isso agora, mas daqui a algumas semanas...
– Pode se passar semanas, meses, anos, eu nunca, nunca vou conseguir viver sem você. – Eu o encarei ainda chorando, mas agora minha voz estava firme. – Eu posso até existir, mas eu não estarei mais viva.
– Hermosa...
– Não me chama de hermosa! – eu gritei para ele novamente. – Para quê você me trouxe até aqui para falar isso? Por que você não me deu o fora lá em cima mesmo?
– Eu precisava te trazer para casa para não...
– O quê? – eu perguntei irritada quando ele não continuou. – Você pensou que eu fosse me jogar do penhasco depois que você me desse o fora? – ele ainda não respondia e eu tomei seu silêncio como uma confirmação. – Foi por isso não foi? Então você me trouxe para perto de casa para que eu não pudesse fazer nenhuma besteira?
– Hermosa eu...
– Eu já disse para você não me chamar mais assim! – A raiva atingiu o meu limite e, antes que eu pudesse me controlar eu já estava partindo para cima dele batendo-o em todo lugar que as minhas mãos em punhos conseguiam alcançar.
– Para... – Jesse tentava se proteger erguendo os braços para cobrir seu rosto do ataque.
Então eu comecei a esmurra-lo no peito.
– Para... Suzannah, para! – ele gritava novamente tentando me afastar.
Eu o batia sem dó querendo que ele sentisse um terço da dor que eu estava sentindo.
– Para com isso – ele gritou então agarrou meus braços me forçando a parar.
Eu tentava me desvencilhar das suas mãos me debatendo e gritando, mas ele era muito mais forte do que eu.
– Para, por favor. Você vai acabar se machucando!
Mais machucada do que eu já estava eu não poderia ficar.
– Mas que droga, Suzannah! Eu te amo!
Eu senti meu corpo ficar sem forças e caí de joelhos aos seus pés. Ele se abaixou também e me envolveu em seus braços. A minha vontade era empurrá-lo para longe, ou envolver seu pescoço com os meus braços e abraça-lo de volta, mas eu não tinha mais forças para nada. Meus braços ficaram caídos sem vida e eu não conseguia fazer outra coisa a não ser chorar.
– Eu sempre vou te amar – Jesse sussurrou no meu ouvido. – Não importa quanto tempo passe, eu nunca vou deixar de te amar. E eu sei que você também vai continuar sentindo o mesmo por mim, mas você tem que seguir com a sua vida. Você precisa fazer isso. Você tem sua família que te ama e que vai estar sempre do seu lado. E você tem Gina também que te ama como a uma irmã. – Ele se afastou um pouco e tomou meu rosto em suas mãos para olhar nos meus olhos. – Eu não vou te pedir para deixar de me amar, porque eu sei isso seria impossível. Mas você tem um coração enorme, Suzannah, e você pode amar de novo. Então tudo o que eu te peço é para você seguir a sua vida e ser feliz. Eu quero que você se permita a ser feliz e amar novamente. E eu quero que você me prometa que vai fazer isso.
Mas eu não prometi. Reunindo as últimas forças que me restavam eu ergui minhas mãos e as prendi na sua nuca e então o beijei.
Por alguns segundos seus lábios corresponderam aos meus com ternura, mas então ele me segurou pelos ombros e me afastou delicadamente.
– Não torne tudo mais difícil – ele falou com a voz rouca.
– Difícil para quem, Jesse? – Minha voz baixa e entrecortada em meio às lágrimas. – Porque você não parece estar encontrando nenhuma dificuldade para me falar tudo isso.
– Você não faz ideia do quanto está doendo em mim ter que falar essas coisas para você, mas...
– Então por que, Jesse? – eu gritei em desespero. – Se está te machucando tanto quanto está doendo em mim, por que você está fazendo isso?
– Porque é o certo. – Ele me encarou e eu pude ver a dor nos seus olhos negros. – Eu nunca devia ter deixado essa relação chegar a esse ponto. Eu ficava me enganando dizendo que não havia problema nenhum em estarmos juntos, que o nosso amor seria suficiente para superar todos os desafios, mas eu tinha sido egoísta a ponto de não perceber que era você que estava fazendo o maior sacrifício abrindo mão da sua vida para ficar comigo. Mas agora eu não vou mais permitir isso. Eu vou embora, Suzannah...
– Não – eu gritei entrando em completo desespero. Eu me joguei nos seus braços para tentar detê-lo, mas, mais uma vez ele me afastou delicadamente.
Então ele se levantou, me deixando com de joelhos na grama fofa que se estendia por toda área ao redor da minha casa. O sol já tinha se posto a essa altura e a escuridão a minha volta era total.
– Volte para casa, Suzannah. Sua mãe já deve estar te procurando.
– Jesse não vá... – eu implorei chorando, estendendo minha mão na sua direção.
Ele olhou para a minha mão estendida e então me encarou com aqueles olhos negros brilhantes de tristeza e eu soube que não havia mais volta.
– Adeus, hermosa – ele sussurrou e sua voz ecoou pela noite. – Seja feliz. É tudo que eu te peço. Seja feliz por mim. – E se foi.
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