CAPÍTULO 13

Gina me deixou em casa e eu entrei no exato momento que minha mãe estava colocando os últimos talheres na mesa e me olhou por cima das lentes dos óculos de leitura. Pelo visto ela tinha acabado de chegar do trabalho.

– Já estava começando a ficar preocupada, Suzinha – ela falou sem parar o que estava fazendo.

– Jake não avisou que eu estava na casa de uma amiga? – perguntei indo até a cesta de frutas e pegando uma maçã.

– Avisou. – Quando ela viu o que eu estava fazendo ela se adiantou até mim e tirou a maçã da minha mão. – O jantar já vai ser servido. – Devolveu a maçã inteira à geladeira e voltou aos talheres. – Eu só não sabia que você iria chegar tão tarde.

– Se eu tivesse um celular como Jake e Brad tem, eu poderia ter ligado e avisado. – Era meio grosseiro falar aquilo para minha mãe, mas depois de passar a tarde com duas pessoas que tinham a mesma idade que eu... Bem, quase. Eu descobri que Paul é um ano mais velho... Mas eu fiquei meio revoltada de ver que eles tinham tanto e eu não tenho nada. Nem celular, nem carro, nem sequer uma linha telefônica só para mim. E nem era por falta de dinheiro. Nossa família ia muito bem financeiramente. Mas toda vez que eu pedia uma dessas coisas minha mãe dizia que eu ainda era muito jovem para isso.

– Você ainda não tem idade para ter celular. – Eu não disse?

– Brad tem a mesma idade que eu, mãe.

– Mas Brad é homem. E vive fora por causa do futebol. Você não precisa disso.

Ai que saco! Mas o problema é que eu não estava com paciência para discutir isso. Eu estava com muita coisa na cabeça para pensar em uma besteira dessas no momento. Eu me limitei a suspirar e dar de ombros enquanto o resto da família chegava e todos sentavam à mesa. Não demorou nem um minuto e a caçarola de batatas gratinadas já estava vazia graças aos dois brutamontes que era os meus meios-irmãos mais velhos. E eu, é claro, fiquei sem.

– Brad, Jake! – Andy reclamou. – Isso lá são modos? Sua irmã não pegou nenhuma.

Eu nem o corrigi quando ele falou a palavra “irmã”. Eu estava tão desanimada que nem me importei com isso.

– Não tem problema, Andy – eu falei, pegando a salada que David me passava. – Eu não estou com fome. – E não estava mesmo. Por mim, eu pegava aquela maçã e iria para o meu quarto, mas o jantar naquela casa era uma coisa sagrada e eu nem tinha esperanças deles me liberarem para subir.

Me forcei a comer um pouco e depois de tirar os pratos e leva-los para a cozinha, eu subi em silêncio. Bem, eu subi em silêncio, mas não posso dizer o mesmo do meu meio-irmão mais insuportável que subiu logo depois e me alcançou no meio das escadas.

– O que você tem hoje, maninha? Levou um fora do namorado, foi? – ele perguntou em voz baixa e provocativa, me cutucando com o cotovelo.

Num dia normal, eu sentiria um impulso enorme de empurrá-lo escada abaixo, mas como aquele não era um dia normal...

– Por favor, Brad... – É, eu estava pedindo ‘por favor’ para o cara mais insuportável da face da terra. – Hoje não.

Minha voz estava tão para baixo que até eu me assustei. Quando chegamos à frente do meu quarto eu estendi a mão para abrir a porta, mas ele me deteve.

– Ei – Eu olhei para ele sem o menor ânimo para discussões e me surpreendi quando vi que ele estava sério e... Preocupado? – Você está legal?

Eu acho que hoje era o dia das mudanças extremas de comportamento.

– Não – respondi num suspiro, sendo honesta com ele. Não tinha nada a perder mesmo.

Percebi que Brad ficou um tanto surpreso com minha resposta quando eu normalmente responderia um sonoro “não é da sua conta!”.

– Tem algo que eu possa fazer para ajudar? – Eu nem faço ideia do esforço que ele fez para dizer isso, mas eu fiquei comovida. Não a ponto de chorar nem nada. Só um pouquinho comovida.

– Eu só quero ficar sozinha. Pensar um pouco.

Ele me soltou e assentiu enquanto ia para o seu quarto.

– Brad? – eu chamei antes que ele entrasse. Ele me olhou com uma mão na maçaneta. – Obrigada.

Ele deu de ombros e eu já ia entrando no quarto quando ele me chamou.

– Sabe o que cura qualquer depressão? – ele perguntou com um sorriso perverso no rosto. – Uma boa noite de sexo!

– Idiota! – E bati a porta enquanto o ouvia rindo no quarto ao lado.

Esse sim era o Brad! Imbecil e infantil!

– Suzannah?! O que houve? – Jesse perguntou assustado devido a minha entrada intempestiva no quarto.

Eu não respondi de imediato. Simplesmente tranquei a porta e me recostei nela.

– O que aconteceu? – ele tentou de novo se aproximando e acariciando meu rosto.

No instante seguinte eu tinha trocado de lugar com ele fazendo com que ele ficasse entre mim e a porta e pressionei meu corpo contra o seu.

É. Talvez Brad não fosse tão tapado assim. Só de sentir aquele corpo em contato com o meu eu já me sentia melhor. Sexo realmente curava tudo. A única diferença era que aquilo não era apenas sexo. Era amor.

– Suzannah o que...?

– Cala a boca e me beija – eu ordenei interrompendo–o.

E ele me beijou. Em segundos estávamos nus, pele contra pele, lábios úmidos colados a lábios ávidos por paixão e uma noite de amor.

Naquele instante não havia espaço para problemas, mas para a mais pura e completa manifestação de sensualidade e paixão que nós dois experimentávamos. E estávamos tão absortos um pelo outro que era impossível pensar em qualquer outra coisa que não fosse o desejo que nos consumia.

Eu gemi quando o senti acariciando meus seios e depois emiti um gritinho agoniado ao experimentar o toque provocante dos lábios carnudos sobre meus mamilos. Mas foi um gritinho bem baixo. Eu já sabia controlar a altura das minhas demonstrações de prazer para que ninguém da casa ouvisse. Uma vez já fora o suficiente para me ensinar a lição.

– Oh, Jesse! – exclamei, mergulhando as unhas nos ombros largos e musculosos.

Em resposta à minha reação apaixonada, Jesse estendeu aquela carícia dos seios para minha barriga e o baixo ventre, ao mesmo tempo em que as mãos firmes e viris me despertavam para sensações inebriantes.

– Vamos para a cama – ele sussurrou, me beijando no umbigo e traçando o contorno dos quadris com a ponta dos dedos.

– Não – eu murmurei. – Vamos ficar aqui mesmo.

Afinal, o tapete fofo do meu quarto nunca tinha sido usado antes. E Jesse não recusou o pedido. Naquela noite, quando ele me fez dele e se apossou do meu corpo trêmulo, Jesse atendeu aos meus desejos sem questionamentos. Mas eu sabia que eles viriam.

Deixei para pensar sobre isso depois, quando aquelas mãos ávidas não estivesse percorrendo meu corpo ou seus lábios não estivessem de encontro aos meus numa dança sensual que prometia tudo. E era exatamente isso que eu precisava.

Estávamos deitados no tapete, nossos corpos enroscados, o meu suado apoiado no seu peito frio, a respiração voltando ao normal aos poucos.

– Você vai me explicar agora o que aconteceu? – ele perguntou depois de algum tempo.

Eu sabia que não poderia fugir da explicação por muito tempo, mas talvez eu pudesse omitir algumas coisas. Só não sei se seria certo fazer isso com Jesse.

– Eu conheci Paul hoje – falei erguendo o rosto e apoiando meu queixo no seu peito para encará-lo.

– Eu imaginei isso. – Ele sorriu de leve removendo uma mecha do meu cabelo que caía sobre meu rosto, enquanto a outra permanecia embaixo de mim me envolvendo pela cintura.

– E ele me contou tudo sobre o que é ser uma deslocadora. – Então eu expliquei para ele tudo que Paul tinha me falado aquela tarde, mas eu omiti a parte que ele tinha dito sobre aquilo fazer mal para mim.

– Isso é estranho, você não acha? – ele perguntou com o cenho franzido.

– Estranho como? – Eu não entendia o que ele poderia ter encontrado de estranho no que eu falei para ele. Quer dizer, se Paul tivesse me contado apenas aquele resumo que eu fiz para Jesse, eu estaria dando pulos de alegria. Saber que eu poderia convocar fantasmas e leva-los direto para o mundo dos mortos sem precisar me preocupar em sair no meio da noite para ajuda-los era tudo que eu gostaria de ouvir. E eu estaria dando esses pulos se não fosse a parte de que isso poderia me matar. Embora não fosse exatamente por isso que eu estava tão chateada.

– Você não acha que isso vai contra a natureza das coisas? – ele perguntou alheio ao que ia na minha mente.

– Não entendi. – Eu não fazia ideia do que ele estava falando.

– Se uma pessoa permanece nesse mundo depois de morrer, é porque tem coisas pendentes aqui. Levá-los direto para o mundo dos mortos sem resolver essa pendência seria errado, você não acha? – Vendo que eu não respondia, ele continuou com seu raciocínio. – Não é certo fazer isso. Pelo menos eu não acho certo. Esses fantasmas poderiam até seguir em frente desse jeito, mas seria de forma incompleta.

– Jesse...

– Eu entendo seu lado, hermosa. Eu sei que você às vezes fica cansada disso tudo e pode ser perigoso também, mas tem suas recompensas. – Eu ergui uma sobrancelha, cética. – Eu estou falando sério. Você lembra daquela fantasma que estava na escola? Acho que seu nome era Stella?

– Lembro. – Como eu poderia me esquecer? Ela fazia parte do grupo dos treze fantasmas que tentaram me matar cerca de um mês atrás.

– Você lembra qual foi a pendência dela nesse mundo? – Mas ele mesmo respondeu embora eu lembrasse bem o que era. – Ela pediu para você dar o número do seguro de vida dela para a mãe. E se a mãe dela não tivesse recebido aquele dinheiro para pagar a hipoteca da casa, sabe-se lá onde ela estaria agora. Na melhor das hipóteses ela estaria morando de favor e passando necessidades. Isso sem mencionar...

– Ok, Jesse – eu o interrompi. – Eu já entendi seu ponto de vista. E... Eu acho que você está certo.

E achava mesmo. Pensando dessa maneira, deslocar um fantasma sem mediá-lo primeiro poderia por muita coisa a perder.

– Mas o que foi que Paul falou, fora isso?

– Como assim? – eu perguntei me fazendo de desentendida e desviando o olhar. – Ele não falou mais nada.

– Suzannah – ele virou meu rosto de volta com delicadeza, me forçando a encará-lo –, Eu conheço você. Se Paul tivesse falado apenas isso você estaria feliz e não batendo portas e xingando seu irmão.

– Meio-irmão. E eu o xinguei porque Brad é um grosso.

– Suzannah, eu vi seu rosto quando você entrou no quarto. Você estava triste. Por quê? – Droga! Por que eu não poderia ter um namorado normal que não percebe nem quando a namorada pinta o cabelo de laranja? – Suzannah? – ele insistiu, fixando aqueles olhos negros nos meus.

Eu não teria como esconder isso dele. Respirei fundo e resolvi contar.

– Ele me disse também que eu posso me deslocar no tempo. Sabe... Voltar no tempo.

– É? – seu cenho estava franzido e seus olhos brilhantes. – Mas isso ainda não é motivo para você ter ficado assim.

Ai meu Deus. Será que ele não poderia ser um pouco menos perceptivo.

– Não é nada, Jesse – eu falei enquanto me afastava dele e levantava indo em direção ao banheiro. Mas é claro que eu não consegui chegar lá, já que ele logo me alcançou e me segurou pelo pulso.

– Suzannah, o que você não está me falando?

Era estranho conversar com ele assim, estando os dois em pé no meio do quarto, completamente nus. E era difícil me concentrar também.

– Er... O quê? – eu perguntei tentando desviar os olhos do seu corpo maravilhoso.

– Tem mais alguma coisa que você não me contou, hermosa. O que é? – Seu rosto estava sério e preocupado. Eu não tinha como evitar contar tudo.

– Paul disse que se eu ficar me deslocando entre os mundos isso iria matar as células do meu corpo e com o tempo eu morreria – falei de uma vez.

Jesse me encarava agora ainda mais assustado, com os olhos arregalados de terror. Então, para minha surpresa, ele relaxou os ombros que estavam retesados e sorriu para mim.

– Então não tem por que nos preocuparmos com isso, já que nós dois concordamos que deslocar os fantasmas direto para o mundo dos mortos é ir contra a natureza, certo? – Como era bom ter alguém tão racional naquela relação. Isso teria feito meu dia melhorar bastante se fosse tão simples assim.

– É verdade. – Eu me esforcei para dar um sorriso animado para ele e me ergui para beijar seus lábios antes de entrar no banheiro, mas eu não consegui realizar meu intuito porque ele me deteve novamente.

– Hermosa. – Eu o encarei ainda com o sorriso forçado no rosto, mas ele não sorria mais. – Qual é o problema?

– Que problema, Jesse? – Era impressão minha ou minha voz estava um tanto esganiçada?

– Eu te conheço, Suzannah.

– Não tem problema nenhum. É sério. – O problema era aquela voz que estava me traindo.

Então ele me soltou e deu um passo para trás me encarando.

– Tudo bem, Suzannah. – O que era aquilo no seu olhar? Seria... Mágoa? O que eu tinha feito para magoá-lo?

– Jesse, o que...

– Se você não quer me contar, eu não vou te forçar. – Sua voz estava fria e ele se afastou indo em direção as suas roupas que estavam espalhadas pelo chão do quarto.

Eu fechei a porta do banheiro antes que ele visse a lágrima que corria pelo meu rosto. Eu odiava magoá-lo daquela forma, mas eu não poderia falar o que realmente tinha me deixado triste.

Tomei um banho rápido e escovei os dentes depois de vestir uma camisola. Quando eu saí do banheiro Jesse não estava mais em nenhum lugar. Fui para a cama e me deitei por cima dos lençóis. Eu não sei quando eu comecei a chorar, mas quando eu dei por mim eu já estava soluçando. E quase gritei quando senti uma mão no meu ombro.

– Hermosa... – Seu rosto era pura aflição e aquilo aumentou a dor no meu peito. – Hermosa, por que você está chorando?

Mas eu não conseguia falar. A cada segundo eu soluçava mais. E ver a dor que eu estava causando a ele só fazia aumentar a minha própria dor.

Então Jesse deitou ao meu lado e me abraçou forte, deitando minha cabeça no seu peito, me envolvendo com seus braços protetores.

– Eu não aguento te ver assim, Suzannah. – Sua voz transparecia toda a aflição que eu já tinha visto no seu rosto. – Por favor, eu preciso saber o que te fez ficar assim.

– Você não entenderia... – eu falei em meio aos soluços e às lágrimas.

– Tente.

– Será que você não percebe, Jesse? – Eu não sei o que me fez começar a falar, mas agora eu não tinha mais como parar. – Quando Paul me falou que eu poderia me deslocar no tempo, eu pensei que finalmente nós poderíamos descobrir o que aconteceu com você no dia que você morreu – eu falei sem me importar quando seu corpo enrijeceu em baixo do meu. – Nós poderíamos voltar no tempo e descobrir quem ou o que te matou. – Eu levantei e me sentei na cama para encará-lo, ainda chorando, mas já mais calma. Ele continuou deitado olhando para o meu rosto com uma máscara de frieza encobrindo suas expressões. – Eu sei que você falou que não queria ser mediado, mas isso não seria eu mediando você. Pelo menos não é como eu me sinto. Afinal, você mesmo disse que seu destino nesse mundo agora sou eu. – Dei uma pausa para recuperar o fôlego. – Então eu não me preocupo que isso, descobrir como você morreu, possa fazer com que você siga seu caminho. – Ele finalmente levantou, já com a expressão mais suave, mas ainda assim indecifrável. – Porque o seu caminho te trouxe até mim. E agora que eu te tenho ao meu lado, eu não vou deixar você escapar assim tão fácil.

– Suzannah... – Eu estava tão empolgada no meu discurso que nem percebi que sua voz estava rouca.

– É sério, Jesse. Eu não estaria tentando mediar você. – A essa altura eu não chorava mais. Era bom estar colocando todas as minhas aflições para fora. – É só que eu preciso saber. Você passou esse tempo todo sem saber o que aconteceu com você, e agora que eu descobri que posso voltar no tempo e finalmente achar as respostas...

– Você não pode! – ele quase gritou, me interrompendo. Eu o olhei assustada pela sua atitude repentina. Mas seu rosto não estava furioso. Estava... Com medo? – Você ouviu o que Paul falou. Isso pode te matar.

– Eu sei – eu o tranquilizei rapidamente. – E é exatamente por isso que estou assim. Eu me sinto impotente por saber que tenho meios para fazer isso, mas não posso.

– Suzannah... – Sua voz agora estava calma e terna.

– Se fosse só por mim, Jesse – o interrompi –, eu não pensaria duas vezes antes de voltar no tempo para achar as respostas. Afinal...

– Suzannah! – ele me repreendeu me segurando firme pelos ombros. – Prometa que você não vai fazer isso!

– Afinal – continuei como se ele não tivesse me interrompido. –, Paul disse que isso poderia me prejudicar se eu me deslocasse com frequência, então uma única ida ao passado não poderia me matar. Mas... – aumentei um pouco o tom de voz quando ele fez menção de me interromper novamente. – Mas eu sei que isso não depende só de mim e que você nunca permitiria que eu me arriscasse dessa forma.

– Nunca! – ele me assegurou ainda com a voz tensa.

– Eu sei – falei com a voz tranquilizadora. Me sentia muito mais leve agora que tinha desabafado tudo. – Eu sei, meu amor. E eu não vou fazer isso.

Ele me abraçou firme e eu me deixei envolver por aquele abraço.

– A não ser que você me peça – falei, minha voz um pouco abafada com meu rosto escondido no seu peito.

Ele me afastou novamente pelos ombros e me encarou sério.

– Eu nunca te pediria uma coisa dessas.

– Ok.

Ele voltou a me abraçar e dessa vez não me afastou. Deitamos na cama novamente e ele nos cobriu.

– Você às vezes é tão boba, hermosa. – É... Eu acho que sou mesmo. Mas o que posso fazer? Ele me deixa assim.

– Eu te amo, Jesse – foi a minha resposta, quando já estava começando a adormecer.

– Eu também te amo, mi hermosa. – Ele beijou minha testa e eu me aconcheguei mais no seu corpo. – Te amo para sempre.