Notas iniciais
Fiz algumas alterações para ver se melhora a visualizaçao. "..." => pensamentos; -...- em negrito => ações das personagens; -...- normal => fala. Espero que gostem.

********************** NO OUTRO LADO DA LINHA. ***************************

- Desligou. Em dez minutos ela chega, é sua última chance. - avisou a voz. - Não deveria lhe ajudar, estou traindo minha melhor amiga, mas não quero que ela se vá. Não sem saber a verdade antes. - suspirou e uma lágrima brotou em seus olhos claros, azuis como o mar.

- Sei disso e não sabe o quanto estou agradecida. - respondeu a mesma voz melodiosa que ligara momentos antes para aquele apartamento, mas, desta vez, com um tom melancólico agregado a ela. - Quero que a verdade seja revelada, não agüentaria perdê-la por algo que não tive culpa. - terminou com voz chorosa.

- Não comece. - repreendeu rispidamente a voz enquanto secava aquela lágrima. — Sei o que aconteceu e a culpa sim foi sua; não deveria ter provocado ninguém, somente colheu aquilo que plantou.

- Tenho consciência disso e o arrependimento me corrói a alma, cada vez que ela se recusa a conversar é um espinho que se encrava em meu peito. - falou séria e passou a mão por seus longos fios escuros. - Se não aceitar minhas desculpas, mesmo sabendo tudo não mais a procurarei.

- Não poderá mais procurá-la, ninguém mais poderá. Ela se fechou numa armadura quase impenetrável, poucos passam e temo que logo nem mais eu possa entrar. - disse a voz num tom de tristeza.

- Ela não faria isso, você é a melhor amiga dela. Não lhe expulsaria de sua vida por ter me ajudado. - exclamou surpresa com a fala da outra.

- Você realmente não a conheceu por inteiro Jack. Uma decepção como a que está sentindo agora só ocorreu uma vez no passado dela e foi arrasadora. Família, amigos, até mesmo, desconhecidos aprenderam o que era o desprezo dela. Quem você conheceu não era nem um milésimo da Raquel de antes. - revelou com pesar - Quando começaram a namorar vimos aquela Raquel de outrora renascendo, mas logo aconteceu aquilo e ela novamente desmoronou, acho que nunca mais vai se recuperar desse golpe, mesmo que vocês voltem e a confusão seja esclarecida. - ouviu um carro parando na frente de sua casa e terminou. - Nada mais será como antes e a mulher que você conheceu desapareceu para sempre. Ela chegou é melhor se preparar.

O som da campainha retumbou pela casa, seguido de batidas na porta.

- Entre, tenho que achar minha carta e já vamos - a mulher gritou, mas não se moveu do lugar onde estava.

As duas viram como a porta era aberta e a entrada de uma mulher com os cabelos castanhos escuros, um pouco abaixo dos ombros, roupa escura composta, basicamente, de uma calça jeans larga, estilo hip-hop, cheia de bolsos, de cor azul desbotado, uma camiseta branca com pedaços de tecido costurados por cima, dando a impressão de remendos, e uma camisa de veludo preta, também larga completando o conjunto. A falta do sorriso fácil e do jeito despojado que lhe eram característicos causou estranheza em Jack fazendo com que compreendesse parte da mudança dita pela outra.

- O que ela está fazendo aqui Carol? - perguntou fria, controlada.

- Vocês precisam conversar. Depois aceito qualquer ato que queira toma, mas antes tem que ouvir o que ela tem a dizer. - respondeu encarando a amiga, a troca de olhares chegou a me assustar, era quase uma batalha.

- Não tenho nada para ouvir. Se você acredita nela tudo bem, deveria ter previsto isso. - abaixou a cabeça cortando o contato entre ela, suspirou e levantou a cabeça novamente, com um olhar frio e a voz controlada, mascarada, escondendo uma raiva e mágoa muito grande. Infelizmente conheci esse tom de voz no dia em que a confusão começou. - Tudo está se repetindo não é Carolina? Novamente você fica contra mim e a favor de quem me machucou. É assim que se considera minha amiga? Traiu-me pela última vez. Quer ser a defensora dos malfeitores seja, mas não me peça que siga junto nessa - virou-se e abriu a porta, ia sair quando corri e segurei seu braço, parou, mas não se virou, Carol fez um gesto para que aproveitasse a oportunidade.

- Raquel, por favor, me ouça, depois pode ir embora que, se quiser, nunca mais vai ouvir falar de mim. - ela voltou-se apenas para me fulminar com o olhar e isso me doeu mais do que podia imaginar.

- Não gaste suas palavras, mesmo sabendo para onde vou pela boca dessa traidora. - a garota de olhos azuis abaixou a cabeça, sabia que deveria estar chorando. - Não penso que poderá me achar, cumprirei minha última promessa para você, sair de sua vida para nunca mais voltar. E, diferente de certas pessoas nessa sala, eu mantenho minha palavra. - aquilo foi dirigido para nós duas, falhamos com ela.

- Peço perdão, mas, por favor, me escute. Todo condenado tem direito a um último pedido, não era o que você sempre falava? - sabia que havia jogado sujo, as situações em que me dizia isso eram totalmente diferentes, mas era meu último trunfo. Vi que respirou fundo e fechou as mãos, soltei o braço, entendi que não sairia, não agora pelo menos.

- Você acaba de matar mais uma série de boas recordações entre nós duas, esteja ciente disso antes de fazer ou falar qualquer outra coisa. - sentenciou com voz pesada para logo prosseguir. - Mas, infelizmente, tem razão isso é algo que sempre defenderei não importa quem esteja proferindo a frase. Vocês não têm mais de quinze minutos, depois disso parto, pois tenho que pegar o avião. - terminou, fechou a porta e virou-se para mim.

- Vamos sentar, venha. - fiz menção de pegar sua mão, mas um olhar bastou para que não o fizesse, me dirigi para uma das poltronas da sala, ela se sentou em outra e Carol na restante. Estávamos uma de frente para a outra, mas não éramos mais as amigas e namoradas que ficavam ali para se divertir e sim três estranhas reunidas para sua, provável, última conversa.

- Comece, o tempo não pára, para você pensar na melhor mentira. - alfinetou maldosamente, abaixei a cabeça e logo a levantei novamente.

- O que você vai ouvir aqui é a verdade, nada mais que isso. Não fingirei que não tive culpa, nem que o culpado é apenas um, mas também não posso mentir dizendo que foi só minha culpa. - comecei encarando-a para que tivesse certeza da veracidade de cada palavra dita por mim. - Sei que está magoada, mas tente entender.

- Só poderei entender se me contar e já perdeu mais alguns minutos. - falou controlada.

- Tudo começou com um jogo de sedução por nós dois, um jogo que, agora vejo, não teria vencedores. A meta seria conquistar o maior número de pessoas, fazê-las se apaixonarem e depois dispensarem-nas. Era um jogo perigoso, cruel, mas era isso que o deixava tão irresistível, o saber-se desejada, o poder controlar as emoções dos outros. Era, ouso dizer, prazeroso, na época. - parei para respirar e ela nada disse, mas um sorriso sarcástico apareceu em sua face, Carol resolveu intervir.

- Naquele tempo eu não sabia de nada disso, então lhas apresentei e uma atração surgiu entre vocês. Não sabe que felicidade deu-me quando notei que você voltara a ter aquele brilho nos olhos, sua característica mais marcante. - sua voz falhou e seus olhos brilharam, resolvi continuar, aquele sorriso não saia de seus lábios.

- Quando nos conhecemos foi amor à primeira vista, não pude nem quis resistir. Foi como uma onda no mar, arrasadora, intensa, hipnotizante. Resolvi largar tudo, mudei, resolvi voltar a estudar, o destino quis que fosse no mesmo curso que você, parei com as saídas exageradas, com a curtição adoidada, parei com o jogo. - respirei, não podia perder tempo e a pior parte aproximava-se, sentia todo meu corpo tensar, mas não pararia, não agora. - Começamos a namorar, eu era a pessoa mais feliz do mundo. O cara do jogo, não deu sinais de vida e achei que tudo estava resolvido. Enganei-me completamente, ele achou que estava brincando. Tentei fugir, não queria lhe envolver, por isso escondi tudo, tinha certeza que, logo, acabaria, mas não acabou. Ele começou a perseguir-me, descobriu nossa relação, me ameaçou, mas não desisti de nós. - parei, Carol continuou.

- Ela veio me pedir ajuda, explicou toda a situação, lhe aconselhei a contar a verdade, mas se recusou, ficou com medo de sua reação. - suspirou, sabia que doía dizer isso tudo, ir de frente com sua melhor amiga. - Concordei em ajudá-la sem nada contar a você, marcamos um encontro com o cara, seria o último, conversamos, ele ficou violento, mas nada fez contra nós. Estávamos para dar um fim na conversa quando você me ligou, sai para atender assim que vi seu número, quase morri quando disse que estava chegando até onde estávamos. Pedi para que não viesse, que esperasse, mas não me deu ouvidos. Vi como começava a aproximar-se, mas estagnou de repente e imaginei o pior, girei a cabeça e deparei-me com aquele canalha beijando a Jack, então tudo começou a passar em câmera lenta. Você dando um soco nele que sorria e dizia para Jack que estavam quites, você virando-se para ela e as palavras duras que proferiu saindo logo em seguida. - parou novamente detida pelas lágrimas, continuei por ela.

- Corri atrás de você para explicar tudo, mas não quis ouvir, não quis entender. Liguei como doida durante dias, esperei na porta de sua classe, mas você nunca chegou. Fui à secretaria e disseram que trancara o curso. Desesperei-me ao ouvir isso e fui procurar Carol, ela relutou muito, mas por fim contou todos os seus planos. - parei, pois as lágrimas não deixavam mais.

- O resto você deve imaginar. Vocês nunca mais conversaram, preparou tudo para sua viagem em segredo, me disse apenas dois dias antes, não pensei muito, tinha que agir e rápido. - terminou Carol e olhamos para Raquel. Ela não disse nada por alguns minutos, olhei no relógio, faltavam quatro minutos para que o prazo dado por ela acabasse, fiquei mais nervosa ainda.

- E Então? - não resisti e perguntei faltando três minutos, Carol censurou-me com o olhar.

- Sabe, muito comovente essa historinha de vocês. Combinaram tudo ou resolveram improvisar na hora? - perguntou com escárnio, seus olhos frios e sarcásticos nos fitavam esperando uma reação continuou. — Considerando que tudo seja verdade, não acha que está pagando por tudo o que fez Jackeline? Por todo o desespero que deve ter espalhado entre as que seduziu? Ou se acha imune a lei que controla o universo? Ação e Reação significam algo para você? E confiança? - parou e aproveitei a deixa para me defender.

- Sei disso, mas não acha que já é demais? Sou condenada de um crime sem culpados. Meu caráter era vazio de qualquer sentimento naquela época, erros do passado não interferem no futuro, não é assim? - falei desesperada, gelei ao ver a cara de terror que Carol fez e o sorriso malicioso na cara de quem eu considerava meu amor.

- Não diga isso. - gemeu Carolina abaixando a cabeça e colocando-a entre as mãos, gelei e entendi meu erro, mas agora não havia volta. Ela soltou uma sonora gargalhada e virou-se para mim.

- Ainda tenho que escutar isso, meu pai! - exclamou em zombaria, com voz de diversão. - Sabe? Até cogitei que poderia sair do país levando sua amizade comigo, mas até isso você conseguiu matar não é? - o sorriso desapareceu de seu rosto e a voz tornou-se séria. - Como pode afirmar que está arrependida se cada palavra contradiz a anterior? Pelo jeito não aprendeu com o que a vida lhe ofereceu e não sou eu que vou lhe ensinar. Já sofri demais com sua imaturidade, com seu descaso com os sentimentos dos outros. - levantou-se e foi em direção a porta. — Quem sabe não fomos feitas para estar juntas não é mesmo? Bem, C\'est la vie. Espero que me esqueçam, pois não vão mais significar mais nada para mim quando fechar esta porta. Adeus. - saiu e bateu a porta.

Cai no sofá, nem notei que levantara, Carol estava com a cabeça baixa, encoberta pelas mãos, soluçava baixinho enquanto seu corpo era tomado por espasmos. Passei a mão por meu rosto e senti que lágrimas desciam por minha face, estava chorando. Ouvi o som de pneus derrapando e, logo mais, o silêncio. Agora tudo estava terminado e o destino cobrou todas as vezes que quebrei um coração. O preço foi sentir a mesma dor que espalhei.

*************

Ouvi outra voz metálica, mas, desta vez, era a aeromoça chamando os passageiros para embarcarem. Olhei para o lado e Mauro olhava para mim, sorri e mais lágrimas desceram por meus olhos, ele chegou mais perto e secou-as com os dedos abraçando-me depois.

- Não chore, quem sabe o tempo e a distância não acalmam esse coraçãozinho dolorido? - sussurrou em meu ouvido gentilmente. - Talvez se um dia você voltar as coisas não se acertem, vocês voltem a ser amigas e toda essa mágoa desapareça.

- Nunca mais nos acertaremos, elas me traíram, me apunhalaram pelas costas, como posso perdoar isso? - perguntei em desespero, ainda no abraço. - Perdi minha melhor amiga, minha felicidade, meus sonhos, tudo. Não sobrou nada para acalentar meu coração, nem mesmo a esperança. - fechei os olhos com força, deveria parar de chorar. - Tudo não passou de ilusão, de sonhos que não tinham o porquê existir. Cultivei uma utopia e acabei sendo jogada para a realidade da pior forma que existe. - terminei e me afastei, rompendo o abraço.

- Querida, não deixe que uma desilusão acabe com todas as suas crenças, com todos os seus alicerces, não vale à pena. Mande a tristeza embora e encontre a felicidade onde achar melhor, mas nunca se esqueça que sempre vai ter a quem recorrer quando a dor parecer maior e mais insuportável do que suas forças, sabe que aqui estão sua família e seus amigos e nós nunca vamos lhe esquecer. - terminou com calma na voz e lágrimas nos olhos. Ele era realmente um amigão.

- Obrigado Mauro, você é e sempre será uma das melhores pessoas que encontrei nessa vida. Um anjo que veio ajudar-nos na forma de um amigo. Espero que um dia receba tudo o que plantou por aqui e quero estar junto de você neste dia, pois a felicidade em seu rosto vai ser indescritível, tenho certeza. - sorria e chorava também. — Muito obrigada mesmo, por ser amigo, irmão e companheiro de todas as horas, você tirou um pouco da raiva que sentia. Muito obrigado mesmo. - terminei e nos abraçamos novamente, ouvi a aeromoça chamar pela terceira e última vez.

- É melhor você ir, senão essa choradeira não vai ter servido de nada. - gracejou sorrindo mais e fazendo-me sorrir também.

- Até mais, meu amigo. - despedi-me e segui para o balcão onde entreguei minha passagem, mas, antes de seguir pelo corredor, virei, tirei algo do bolso e corri até ele. — Entregue isso para a Flá por mim? Não se preocupe que não é nenhuma bomba relógio não viu? É só uma confissão minha que talvez mude nossa relação de ódio para sempre, ou até quando durarem os efeitos do que escrevi.

- Entregarei sim, agora vai que a moça já está chamando o segurança pra levar você pra dentro. - sorri e despediu-se com um beijo na minha bochecha. — Até mais lindinha.

- Já falei pra não me chamar assim que não sou criança, seu chato. - gritei mostrando a língua pra ele enquanto entrava no corredor para o avião.

Sorri assim que vi os passageiros olhando-me diferente, afinal não é sempre que vêem alguém gritando antes de entrar num avião. \"Não deve ser algo muito normal para eles.\", pensei sorrindo e indo em direção a minha poltrona. Quando o avião partiu meu sorriso desapareceu e suspirei.

- Adeus amigas, juro que gostaria de partir com a amizade de vocês, mas não era para ser, não é mesmo? Espero que possam seguir em frente, pois eu irei, não sei se vou conseguir esquecê-las, mas sofrer por isso nunca mais. - sequei mais umas lágrimas que desceram por meu rosto e sorri. — Já quebrei minha promessa de nunca mais chorar por isso, será que conseguirei manter as outras? - suspirei e sorri, fechando os olhos. — Espero que agora eles se acertem. O Mauro me mata quando vir o que escrevi pra Flávia, mas ele bem que mereceu, aliás, os dois mereceram quem manda não se declararem. - ri de olhos fechados e, algum tempo depois, dormi até chegar ao meu destino. Minha nova vida.

Notas finais
Só queria esclarecer dois pontos que me perguntaram:

1º Essa história é baseada em fatos reais, algumas coisas podem parecer exagero, mas foi assim que aconteceu, só mudei algumas coisas por pedido das envolvidas, mas a maioria foram os nomes mesmo.

2º Os diálogos são mesmo grandes, muita gente já reclamou, mas pensem quando vocês estão conversando. Por acaso sai menos do que 200 palavras? Pelo menos com quem já tive contato não. Não consegui achar ninguém que conseguisse conversar normalmente com ninguém com meia dúzia de palavras, a menos que estivesse envergonhada ou fosse tímida.