Atmosphere
11 You're driving me wild
Notas iniciais
You make my heart shake
Bend and break
But I can't turn away
And it's driving me wild
You're driving me wild
You make my heart shake
Bend and break
But I can't turn away
And it's driving me wild
You're driving me wild
— Wild, Troye Sivan
Quando Clarke abriu os olhos azuis, encarando o teto por alguns segundos, ela pôde reparar que, primeiramente, não estava em sua casa, e que seu corpo dolorido descansava em um sofá de couro que claramente não era o seu. As paredes ao seu redor subiam em cores vermelhas vivas, e uma porta de vidro com bordas pretas deixava a luz do primeiro dia de verão em Savannah entrar sorrateiramente em direção às escadarias da casa desconhecida. Ela ergueu o peito para cima, ajeitando-se contra as almofadas do móvel em que estava, olhando o lugar ao redor.
Toda a decoração da sala era moderna e contemporânea. A lareira diante da mesinha de vidro parecia não ser acesa a boas três ou quatro semanas. Não haviam porta-retratos em lugar algum, de modo que a impedia de descobrir quem era o dono da casa. A televisão estava desligada, e o controle meticulosamente posicionado no centro da mesinha. Ao lado da porta de vidro que levava para um possível quintal, havia uma planta muito bem cuidada que Clarke não fazia ideia de qual seria o nome. Todo o lugar estava impecável, então certamente ela não invadira aquela casa completamente sozinha.
Jogando os pés — descalços, ela pôde perceber — para fora do sofá negro de couro, ela sentiu seu mundo girar e uma pontada aguda de dor atingir a lateral de sua cabeça. Resmungou um palavrão, levando as mãos à suas têmporas, massageando as mesmas. De olhos fechados, a garota conseguiu lembrar-se de alguns fatos da noite passada. Lembrou-se de sair furiosa da festa de Octavia por causa de Bellamy e Anya, lembrou-se de si mesma entrando em casa e quase quebrando a maçaneta de sua própria porta. Lembrou-se também de entrar em um bar e tomar algumas bebidas, até uma garota chamada… Echo, ela achava, lhe dizer para ir até o palco cantar. Desde aí, suas lembranças eram vagas e apenas borrões brancos, nada que a ajudasse a se recordar de como chegara até aquela casa.
— A princesa finalmente acordou.
A voz rouca de Bellamy soava cansada. Ele tinha pequenas olheiras embaixo dos olhos negros e o rosto contorcido numa expressão de fadiga. Usava uma calça jeans frouxa em sua cintura — de modo que as curvas próximas à suas virilhas ficassem perigosamente por aparecer (não que Clarke tenha notado, claro) — e uma camisa preta livre de estampas. Os cachos estavam bagunçados, assim como as roupas. Toda sua postura exausta indicava que ele estivera acordado a noite inteira, ou pelo menos, grande parte dela.
— Onde nós estamos? — falar era quase um martírio para a médica, visto que todo o seu corpo reclamava de dor, principalmente a cabeça.
— Na casa da Raven. — o moreno deu de ombros, enquanto um bocejo escapava de seus lábios.
— Como nós viemos parar aqui? Nós não...?
Ele riu, irônico, irritado e exausto.
— Se nós tivéssemos feito alguma coisa, — ele tinha um sorriso torto em seus lábios, obra do mais puro sarcasmo — eu te asseguro que você não estaria usando suas roupas agora.
— Como nós entramos aqui? O que aconteceu?
— Primeiro, — Blake lhe entregou um comprimido junto com um copo de água — você deveria tomar isso ou vai passar o resto da semana acabada. Não, Clarke, eu não vou te drogar. Eu te trouxe pra cá porque obviamente não tenho a chave da sua casa, e Octavia está ressacada demais para abrir a porta pra mim, e eu fiz o favor de esquecer as chaves.
— Você tem as chaves da casa da Raven?
— Ela e Octavia tem essa coisa de "chave secreta". Rav deixa uma debaixo das escadas da varanda, e O me disse isso uma vez quando estava bêbada. Te trazer pra casa dela foi a única opção.
Clarke acenou com a cabeça, apoiando os cotovelos em seus joelhos e encarando o chão por alguns segundos. O que ela teria feito quando bêbada e inconsciente? Eram perguntas demais para poucas respostas. Bellamy caminhou pela sala até sentar-se ao lado da loira, tão quieto e sorrateiro quanto uma cobra. Mas, desta vez, ele não parecia perigoso. O rapaz estava realmente exausto.
— Depois de cantar no karaokê, você desceu do palco, e precisei te ajudar a ficar de pé. — ele contou, de olhos fechados e a cabeça jogada para trás — Você me pediu pra te levar até o estacionamento, e vomitou todo o álcool que tinha bebido. Aí você desmaiou, e eu tive que te carregar até aqui, depois de tentar entrar na sua casa e na minha.
Clarke sorriu amarelo, envergonhada por ter dado tanto trabalho. Bellamy, por outro lado, abriu uma gargalhada gostosa de se ouvir, rouca e profunda, que fez o corpo inteiro da loira tremer. O cansaço deveria estar o consumindo, e ela se sentiu culpada por fazê-lo perder uma noite inteira de sono apenas para observá-la e evitar que ela fizesse qualquer besteira durante a madrugada.
— Desculpa. — a médica deixou escapar — Eu te dei muito trabalho, desculpa.
— Tudo bem. — ele ainda tinha um sorriso no rosto — Eu não poderia deixar uma princesa para se cuidar sozinha, não é mesmo?
A mente da Griffin agora travava uma guerra violenta. Parte dela ainda estava furiosa com ele por ter atracado-se com Anya, mas a outra parte estava profundamente grata. "Maldito seja Bellamy Blake", ela resmungou mentalmente, "você faz meu coração tremer, dobrar e quebrar, tudo ao mesmo tempo". O rapaz se levantou, esticando os braços, dizendo que iria tomar um banho. Ele estava precisando mesmo relaxar, as poltronas de Raven estavam longe de serem confortáveis para passar uma noite inteira.
— Espera. — Clarke o chamou, caminhando até ele — Obrigada, de verdade.
E esticou seu pescoço até encontrar a bochecha do moreno, onde depositou um beijo leve e grato em sua pele morna. Ela abriu um sorriso ao observar a expressão surpresa e sem jeito do segurança, que não pôde impedir as orelhas de esquentarem e suas bochechas tornarem-se vermelhas, além da mão subir imediatamente onde os lábios frios da loira haviam tocado. "Maldição, Clarke Griffin", a voz em sua cabeça ralhou, "Pare de brincar com a merda do meu coração".
{...}
Quando Clarke finalmente estava em sua casa, todo o momento de mais cedo rodava em sua mente como um filme repetido. Bellamy fora tão gentil e atencioso ao cuidar dela, tivera tanto cuidado e preocupação. Ele fora suave, diferente de qualquer outro namorado que ela já tivera em sua vida. Agora, encarando o Sol claro que brilhava através da janela, ela lutava contra sua ressaca na tentativa de relembrar dos cuidados de Blake. Pegou-se tentando se lembrar de sua voz rouca tentando acordá-la, ou dos dedos quentes e velozes passando pelos seus braços e pernas enquanto a carregava. Clarke estava caindo de amores por ele, isso era um fato que ela adoraria poder negar e resistir.
Mas não conseguia.
A ferida pulsante em seu coração, criada pela morte do seu pai, aos poucos parecia se fechar e tornar-se menos sangrenta. Jake sempre dizia que cultivar amor era como cuidar de uma rosa; exigia carinho, dedicação e paciência. Ela agora via o quão certo seu pai estava. Cada célula de seu corpo ansiava para tocar na pele quente do rapaz, sentir seus cabelos negros envoltos em seus dedos e seus braços fortes ao redor de sua cintura. Queria finalmente entregar-se a ele, deixá-lo a chamar de sua. Mas tinha medo. Medo de que ele não sentisse o mesmo, que apenas quisesse usá-la como fizera com todas as outras.
Do outro lado da cidade, Bellamy caminhava calmo pelas calçadas do centro de Savannah. Sentindo o Sol batendo em seu rosto e iluminando sua alma, ele se sentia mais leve do que nunca se sentira antes. Era a primeira vez que o rapaz experimentara caminhar pela cidade com a consciência limpa e ainda funcionando. Clarke tinha um domínio tão grande em sua mente que somente imaginar seu rosto o fazia permanecer longe da bebida. Ele praguejava e se sentia imponente; nada podia fazer se seu coração agora parecia ser totalmente entregue a Clarke Griffin.
Ele avistou o hospital ao longe. Amanhã, toda rotina estaria de volta: acordar, vir ao trabalho, cuidar da segurança, monitorar os quartos e corredores, deixar o hospital, retornar para casa. A mesma rotina, a mesma sequência. Ele esperava que fosse um dia diferente dos que ele sempre levava naquele lugar.
Bellamy encarou a entrada do Ark, e um memorie flash o atingiu por completo. Ele vinha tendo esses lapsos de memória desde que fizera um ano que sua mãe havia falecido. Às vezes acontecia em casa, quando ele observava a cozinha. Em outras ocasiões, era nas ruas, em locares que Aurora costumava frequentar. Mas o mais frequente e perturbador ocorria na frente do hospital, onde ele via sua mãe gritando de dor e desespero, coberta pelo sangue escarlate e uma faca presa em seu peito. Ela berrava, as lágrimas escorriam pelo rosto, enquanto o próprio Bellamy sentia seu rosto encharcar-se por inteiro.
À alguns meses atrás, o garoto Blake havia caído na depressão. Não tinha mais motivação, passava o resto dos seus dias dentro de seu quarto, trancado no escuro. Foram diversas as vezes na qual Octavia tivera de arrombar sua porta para evitar que ele se matasse. E nesse meio caótico em que sua vida se encontrava, Bellamy passara a ter alucinações. Via sua mãe berrando e dizendo que tudo o que acontecera era sua culpa. Com muito custo, ele finalmente vencera a depressão, mas os lapsos de memória ainda continuavam. E o mais impressionante?
Clarke Griffin surgira em sua vida apenas três meses depois que sua guerra contra a depressão fora vencida.
"Ah, princesa.", ele suspirou, dando as costas ao hospital e erguendo o rosto para observar a noite fresca que caía sobre Savannah, "Você está me levando do céu ao inferno em segundos."
Bellamy odiava a amar. Mas o fazia do mesmo jeito.
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