Atmosphere
9 Now you — Part II
Notas iniciais
And now you send me here alone
Left alone the ones loved you coward
Send me here alone, here alone
Now you send me here alone
Left alone the ones loved you coward
Oh, the one who loved you
— Now You, Gjan.
As pessoas estavam se divertindo, mesmo que já estivessem tão bêbadas a ponto de provavelmente esquecerem seus nomes. Clarke apenas ficou ali, observando todos ao seu redor, ignorando uma ou duas cantadas que um adolescente qualquer fora de si lhe fazia. Ela abrira um sorriso de orelha a orelha quando vira Wick e Raven conversando animadamente, talvez por causa da bebida, mas a habilidade especial da Griffin em ler lábios não lhe deixara enganar. Conseguira pescar as frases "malditos engenheiros" e "malditos mecânicos" saindo da boca dos dois. Era bom ver que sua amiga e seu primo estavam, pelo menos, conversando.
Sua língua ansiava por Moonshine, mas estava mais que decidida a permanecer sóbria. Da última vez que a bebida especial de Monty e Jasper entrara em contato com sua boca, ela precisou cuidar de Bellamy por quase uma noite inteira. Quando ergueu os olhos para observar a "pista de dança" — mais conhecida como sala de estar dos Blake —, um misto de raiva, alegria, surpresa e energia tomou conta de seu corpo. A única frase que viera a sua cabeça naquele momento encaixava-se perfeitamente para a situação em que estava. Por falar no Diabo…
— Não me diga que você veio para a festa pra ficar sentada nessa cadeira. — o moreno sorriu de canto, os cachos caindo sobre os olhos castanhos escuros.
— Da última vez que eu bebi, não teve um resultado muito bom.
Ela retrucou, enquanto ele se sentava ao seu lado e tomava um gole da bebida de seu copo. Mesmo com a alta música tocando, o silêncio impregnou o ar em volta dos dois, como se a casa estivesse preenchida apenas com ambos ali. Bellamy queria saber que tipo de "poder" Clarke Griffin usava contra ele. Se fosse qualquer outra mulher, era mais do que óbvio que os dois estariam em seu quarto, no segundo round de um sexo quente. Mas aquela loira… Ela o fazia querer ir devagar, aproximar-se sem lhe assustar ou espantá-la da sua vida. Queria aproveitar cada segundo ao seu lado, guardar em suas mais profundas memórias cada centímetro do rosto daquela garota. Nunca em sua vida ele havia se sentido daquela forma, cauteloso, preocupado… Dependente. Aquelas poucas horas sem vê-la haviam quase o deixado louco. E claro, ele não conseguiria enganar sua irmã nem se quisesse… Ela percebera o estranho comportamento de Bellamy Blake. E ainda brincara dizendo "nunca achei que viveria para ver você louco por uma garota, irmãozão".
Sendo bem sincero, ele também não achava que estaria.
— Uau, você vai mesmo passar o resto da festa sentada nessa cadeira. — ele apoiou os cotovelos no balcão, com a cabeça baixa e encarou os olhos azuis da loira entre seus fios rebeldes.
— Eu não te pedi pra me acompanhar, pedi?
Se havia algo em que Clarke poderia facilmente superar Bellamy, este algo era sarcasmo. Desde a última vez em que quebrara seu coração por causa de um pirralho, ela subira muros de concreto em volta de si, utilizando do sarcamos e ironia como sua única defesa. Acontece que aqueles sentimentos também eram uns dos maiores escudos do Blake. Não, numa discussão entre os dois, certamente não faltariam xingamentos, falsos elogios e insinuações. O rapaz abriu um sorriso de lado, e as defesas de Clarke começaram a apresentar falhas. Maldito sorriso.
— Ei, Bellamy, Clarke, nós vamos jogar verdade ou desafio! — Raven declarou, levemente alterada pela bebida — Vocês vêm?
Blake se levantou e abriu os braços, dando as costas a Reyes enquanto caminhava na sua direção. Abriu outro sorriso para Griffin, desta vez carregado com o mais puro veneno do desafio.
— É, senhorita Sarcasmo. Você não vem, ou prefere ficar sentada nesse banco com medo de falar alguns segredos?
A mente de Clarke a fez se levantar da cadeira, arrumar o decote da blusa e deixá-lo perigosamente exposto e dizer um "estou indo" para Raven, passando diretamente por Blake com um sorriso de vitória, que estava visivelmente surpreso com a atitude da moça. Ambos então seguiram a mecânica até o centro da sala de estar, onde Anya, Lexa, Lincoln, Octavia, Wick, Jasper, Monty, Miller, Murphy e mais algumas outras pessoas estavam sentados em um círculo, com uma garrafa vazia de Moonshine no meio. Todos ali se entreolharam nervosos, e a questão "quem gira primeiro" causou um pequeno conflito nos presentes. A garota Blake rolou os olhos azuis e engatinhou até o meio, segurando o recipiente com o indicador e o polegar e o girando.
— Murphy pra mim. — Raven declarou, encarando o rapaz do outro lado da roda.
— Verdade ou desafio, Reyes?
— Verdade.
— Então, é verdade que você largou seu namoradinho por que ele colocava uma bela galhada em você? — John debochou, rindo.
— É. E sendo sincera, — a mecânica abriu um sorriso mergulhado na ironia — ele não tinha um tamanho muito adequado.
Todos riram, mas Clarke imediatamente se sentiu incomodada. Ela provavelmente era a única com o bom senso ainda limpo de álcool, e sabia que, mesmo que ninguém fosse se lembrar do que disseram no dia seguinte, poderia surgir algum problema. Ela se esquivou da roda, voltando para o balcão da cozinha onde poderia assistir a todos. Não estava nem aí para os comentários de todos aqueles bêbados. Depois do tumulto, a rodinha voltou ao jogo. Octavia segurou a garrafa e a girou, o vidro rodando no carpete até parar com a boca virada para Anya e o fundo para Miller. Desta vez, a loira não deu ouvidos e pescou o celular em seu bolso, onde imediatamente uma ligação de Wells aparecera em sua tela, e um sorriso brotou em seu rosto. Havia dias que ela tentava criar coragem para falar com ele, mas assim que tocava em seu telefone para mandar-lhe uma mensagem, as palavras fugiam de sua mente, assim como sua bravura para poder conversar.
Ela se levantou da cadeira e correu até os fundos da casa, entrando no quintal, onde algumas pessoas estavam desmaiadas no chão, de cara em seus próprios vômitos. Depois de um profundo suspiro, ela atendeu o telefone.
— Oi, Wells.
— Por que não atendeu minhas ligações?
— Eu estava ocupada em arrumar a casa e encontrar um emprego. Me desculpe. E como... Como está minha mãe?
Mesmo após tudo o que Abigail fizera, ainda era sua mãe, e Clarke não poderia simplesmente parar de se importar com ela, mesmo que ainda tivesse mágoa em seu peito. Seu melhor amigo então lhe revelou que Abby se entregara a polícia, e agora estava presa numa penitenciária no norte do estado. A médica encarou o nada por alguns segundos, sentindo seu peito arder de culpa. Estaria ela errada em não ter ligado para sua mãe? Não ter se importado. Com um suspiro, ela agradeceu e desligou a ligação, dizendo que retornaria no dia seguinte. Clarke voltou para dentro, onde a roda dos garotos parecia estar a loucura. Ela mesma segurou um gritinho "fangirl" ao ver Jasper e Monty juntos, se beijando enquanto Octavia gritava "casal do ano!" animadamente. Eles não se lembrariam do beijo no dia seguinte, mas pareciam estar aproveitando bem o momento. Após alguns segundos, ambos se separaram ofegantes e a menina Blake gargalhou, girando a garrafa novamente. A boca caíra para Wick, e o fundo para Bellamy.
— Verdade ou desafio, Bell? — Kyle chamou, em ironia.
— Desafio.
— Vai ter que beijar a Anya.
O moreno riu e logo os dois estavam se atracando violentamente no meio da roda. Algo quente subiu no peito de Clarke, queimando feroz seu corpo com a chama do puro ódio. Ela deu as costas, caminhando pesado na direção da saída e deixando a casa, tão furiosa que o ar ao seu redor parecia entrar em combustão. Por que estava irritada? Ele não era nada dela, por que se importava? Lágrimas cálidas escorriam pelas suas bochechas rosadas e as unhas estavam cravadas em suas palmas, pisava tão forte contra o concreto que o mesmo parecia estar prestes a ruir debaixo de seus pés. Era uma corrente quente e impetuosa que rugia em seus ouvidos, correndo pelo seu corpo veloz como um flash. "Por que você se importa?!", ela ralhou consigo mesma, "Imbecil, imbecil, imbecil!". As gotas pingavam contra o betão debaixo de seus coturnos, como se novamente ela estivesse numa versão lôbrega da história de João e Maria. Estaria mesmo fadada a sofrer por perdas?
Ela parou no meio da calçada, de cabeça baixa, encarando os próprios pés. Chegara a uma conclusão que queria evitar por muito, muito tempo. Uma reportagem boba passou na sua cabeça naquele momento, que havia lido numa revista a alguns meses atrás, e que seu subconsciente parecia ter guardado para atormentá-la depois. "Usando equipamentos de ressonância magnética, os pesquisadores, que tinham como objetivo descobrir como o amor afeta nosso cérebro, concluíram que o tempo necessário para que duas pessoas se apaixonem é de um quinto de segundo; quase tão rápido quanto conseguimos pensar."
Era o que ela mais queria evitar. Clarke Griffin havia caído nas garras de Bellamy Blake.
Mas o que ela mal sabia é que ela também havia o capturado.
Sentiu seu pulso ser envolto pela mão quente e levemente calejada do rapaz, a puxando para trás, fazendo-a virar-se na sua direção. As malditas lágrimas ainda estavam escorrendo pelas suas bochechas, mas ela recusava-se mostrar que estava abalada. Ergueu o rosto e o encarou firme, sentindo o ódio que sentia fluir lentamente para fora de seu corpo enquanto o azul entrava em batalha contra o negro. Não haviam palavras. O mundo ao seu redor parecera evaporar. Havia apenas ele e ela num universo paralelo, ligando-os apenas por aquele simples toque. Nenhum dos dois ousava quebrar a guerra entre seus olhos. Respirações descompassadas, corações acelerados. Olhares alternados, cada centímetro desaparecendo enquanto ele se aproximava...
Até ela sacudir a cabeça e abaixá-la, puxando seu pulso de forma feroz e logo depois subir seu rosto de novo, a fúria novamente brilhando em suas lagoas azuis. Ela virou as costas e caminhou veloz até em casa, deixando-o de pé no meio da calçada, decepcionado e irritado consigo mesmo.
Clarke havia o conquistado e limpado sua mente. Agora, ele havia a deixado sozinha, como um covarde. Era mesmo sua culpa, e pela primeira vez ele estava admitindo.
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