Atmosphere
7 Jealous
Notas iniciais
It's not your fault that they hover
I mean no disrespect
It's my right to be hellish
I still get jealous
— Jealous, Nick Jonas
Clarke, ainda surpresa e um tanto chocada, sentou-se na cadeira de couro enquanto Jackson abria um sorriso e sentava-se do outro lado da mesa feita de madeira de pinheiros. A sala ao seu redor parecia ter desaparecido, pois toda a concentração da loura estava voltada para o homem a sua frente. Se ele sabia que ela estava ali…
Sua mãe também saberia.
Ela suspirou e suportou o olhar do médico a sua frente. Ele sorriu. Jackson havia sido aprendiz de sua mãe quando estava em Denver, mas havia sido movido para outra unidade no ano passado, e tomara o cargo de médico responsável pela área geral. Ele não era de todo ruim, na verdade, era bem divertido e sempre muito gentil com a loira, lhe dizendo os prós e contras de ser um médico e compartilhando algumas de suas experiências que obtivera durante seu tempo de trabalho. Mas o que realmente encomodava Clarke era o fato de ele e Abby serem como unha e carne.
— Pode ficar tranquila, Clarke. — Jackson declarou, depois de algum tempo em silêncio — Sua mãe não sabe que está aqui.
— Ela não… Ela não sabe?
O doutor sacudiu a cabeça em negativa, com um breve sorriso no rosto. A menina Griffin tinha um afeto diferente pelo amigo de sua mãe, ele era muito inteligente e um médico excelente, mas sempre estava na sombra de Abigail. Agora que estava longe da mesma, o rapaz parecia até mais contente e confiante, de forma que Clarke nunca havia visto antes.
— Sua mãe é um pouco cega para certas coisas, garota. Savannah será o último lugar em que ela vai procurar.
— Por que você ainda não contou a ela?
— Porque não é da minha conta. — ele deu de ombros, e a loira pôde, enfim, respirar aliviada — Assim como eu não contei a você quando ela estava envolvida com tráfico de órgãos.
— Você sabia?
— Por que você acha que pedi transferência do hospital de Denver, Clarke? Eu não quero me envolver com isso de jeito algum. Tentei avisar a sua mãe o quanto isso era perigoso, e o quão grave poderia afetar a sua família. Ela não me ouviu.
— Não vamos falar disso, ok? — ela pediu, amarrando e escondendo as lágrimas no fundo do seu âmago — Você sabia que eu estava aqui?
— Uma enfermeira comentou que vira nosso chefe de segurança conversando com uma garota loira na casa dos Griffin. — ele deu um breve sorriso, enquanto as orelhas da médica começavam a esquentar — Apenas liguei dois mais dois.
— Comentando sobre Bellamy? — o cenho de Clarke se franziu, e uma pequena fagulha de raiva cresceu em seu peito.
— Você não faz ideia de quantas enfermeiras têm interesse no senhor Blake, e nem quantas outras médicas me pediram para dar-lhes a sala ao lado da sala de segurança. — ele deu de ombros, enquanto um gosto ruim preenchia a boca da garota — Mas enfim, você não está aqui para falar disso. O cargo de médica geral é seu.
Ele então lhe entregou os horários de plantões e explicou o que ela teria de fazer, além de uma chave com o número setenta e três, que era da sua mais nova sala de trabalho. O serviço não era nada muito complicado, e Clarke dava conta do recado. Encaixando o identificador que dizia "Doutora Griffin" em seu vestido, ela saiu da sala logo depois de segurar Jackson num breve abraço, e caminhou pelo corredor branco até chegar na recepção novamente. Um belo ponto de interrogação surgira em sua face quando vira Jasper ali, conversando alegremente com Maya, que tentava concentrar-se no computador a sua frente, mas vez ou outra um sorrisinho escapava dos seus lábios claros e logo ela dava risada de alguma piada boba que o moreno lhe fazia. Encontrara também Monty sentado em uma das cadeiras, com uma expressão de tédio em seu rosto e segurando firmemente seu braço contra o peito, onde talas sujas de sangue estavam enroladas. Clarke caminhou até ele, se sentando ao seu lado.
— O que houve, Green?
— Eu me cortei num caco de vidro da estufa do meu pai. — ele gemeu, apertando ainda mais o ferimento — Jasper me deu carona até o hospital, mas meus instintos me dizem que na verdade ele só me trouxe aqui pela Maya.
A cara de insatisfação de Monty fez Clarke sorrir. Ele não estaria com ciúmes, estaria?
— Bem, sorte sua que sou a mais nova médica geral do Ark, — Clarke se gabou com uma pose engraçada que arrancou um sorriso do asiático — e que posso cuidar desse seu machucado. Vem comigo.
Seguindo pelo corredor a sua frente, a sala de número setenta e três podia logo ser vista. Ao destrancar, um sorriso de orelha a orelha crescera no rosto de Clarke. Era uma sala grande, com uma maca, uma mesa e duas cadeiras para pacientes, um armário repleto de remédios e um outro vazio e uma grande janela coberta por persianas azuis, e que aparentemente dava vista para o centro da cidade. Colocando sua bolsa no armário vazio de ferro e jogando o jaleco branco que ali estava sobre seus ombros, a loira pediu ao garoto que se sentasse na cama.
— Não é tão ruim assim, — Clarke declarou, após uma breve avaliação — mas vai precisar de alguns pontos.
— Desde que isso me faça ir logo para casa, particularmente eu não ligo.
— Monty, seja sincero comigo. — ela pediu, enquanto pegava os materiais para fechar o corte do rapaz — Você está com ciúmes do Jasper?
O asiático corou, de cabeça baixa, e permaneceu em silêncio. Clarke abriu um sorriso de lado e rapidamente começou a fechar o machucado, com cuidado. Monty continuou calado por algum tempo, vez ou outra soltando um breve gemido de dor devido a agulha atravessando sua pele. Quando tudo pronto, o rapaz agradeceu, ainda sentado na cama, enquanto a Griffin caminhava até o pequeno banheiro de sua sala para lavar as mãos e livrar do sangue que empapava seus dedos. Quando retornou, ela tirou o jaleco e o devolveu a seu armário, pegando novamente sua bolsa e logo os dois deixavam a sua sala.
— Deixa eu adivinhar: você quer vir comigo. — Clarke parou de caminhar, já na saída do hospital, e cruzou os braços na direção do amigo.
— Por favor. — Green pediu — Sinceramente, eu não estou com um pingo de paciência para ver a cara do Jordan agora.
Com um suspiro, a loira concordou, saindo do Ark com Monty em seu encalço. De bônus, aprenderia o caminho até o hospital, e então não precisaria mais dos serviços de Bellamy para trazê-la até o trabalho. Trabalho. Essa palavra parecia animar cada célula do corpo da Griffin. Agora, teria seu próprio dinheiro, estaria livre de qualquer relação com sua mãe. Enquanto o vento soturno daquele começo de tarde soprava seus cabelos para trás, ela abriu um sorriso bonito e orgulhoso.
O dia não fora de todo ruim, afinal.
{...}
Talvez Clarke não pudesse abandonar as caronas de Bellamy até o hospital. Durante a caminhada com Monty, ela percebeu que o caminho era deveras mais extenso do que havia imaginado. Era óbvio que, se fosse para o trabalho a pé, estaria sempre chegando atrasada, visto que o Ark era praticamente do outro lado da cidade.
Despediu-se do asiático, dizendo-lhe quais remédios deveria tomar enquanto o corte não cicatrizasse e finalmente entrou em casa, jogando sua bolsa em cima da mesa e tirando cuidadosamente o crachá de seu vestido, o colocando em cima da mesinha de centro da sala. Subiu as escadas de dois em dois degraus, louca para tirar aquela roupa e voltar para seus confortáveis moletons. Assim que se trocou, amarrou seus cabelos loiros em uma trança sem maiores detalhes e voltou para a sala, justamente quando sua campainha ecoou por todos os cômodos da casa. Dando de ombros, Clarke — literalmente — deslizou pelo chão de madeira polida (graças a suas meias) e abriu a porta, os olhos se arregalando e um belíssimo sorriso de surpresa e alegria abrindo espaço em seu rosto.
— Wick! — Griffin gritou, pulando no colo de seu primo em um abraço apertado.
Kyle "Wick" Griffin era sobrinho de Jake, e estava cursando o último ano da sua faculdade de engenharia. Antigamente, Clarke e ele eram como unha e carne, melhores amigos que nunca se separavam. Mas ele precisara se mudar para outra cidade, já que Denver não era apta para concluir seu sonho de se tornar um grande engenheiro. Ele riu, enquanto entrava na casa e rapidamente observava cada canto da sala, se lembrando de seu falecido tio.
— Como vai, baixinha?
— Primeiro, me chame assim de novo e eu faço você morder seus testículos. — ambos riram, a influência de Octavia era realmente presente — Consegui um emprego no Ark Hospital. E você, como anda a vida?
— Bom, eu tinha voltado pra Denver pra encontrar você e dizer que terminei a faculdade e agora trabalho pra uma empresa que me paga por mês uma quantia de dinheiro que eu só juntaria em dez anos. Aí, passei na casa de Wells e perguntei se você estava lá, mas ele me disse que se mudou pra cá, então vim atrás de você.
— Que fofo, não vive sem mim.
O loiro riu, rolando os olhos enquanto segurava Griffin em seus ombros, a fazendo gritar. Ele e Jaha eram os únicos que conseguiam fazê-la se sentir tão confortável como daquela maneira. Mas, na sua cabeça, uma pessoa encaixou-se nessa lista de forma sorrateira, a fazendo ralhar consigo mesma. Dentro da "zona de conforto" que ela criara na sua mente, as imagens de Wells e Wick tinham mais um companheiro.
Bellamy Blake.
Clarke estava começando a se odiar por aquela causa. Maldito Blake e seu sorriso perfeito. Maldito Blake e sua aura de confiança. Mas sua cabeça repetia um bordão que talvez, em breve, ela adotasse como mantra.
Maldito Blake e sua atmosfera.
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