A luz do sol brilhava através das janelas de vidro do quarto de Calliste, iluminando as paredes brancas e o chão de mármore. A princesa estava sentada em sua cama, enquanto Serena, sua serva pessoal, arrumava seu cabelo.

Calliste era a princesa de Atlântida com 200 anos, mas sua condição de semi-deusa a mantinha com a aparência de estar na casa dos 20 anos, com pele ébano e cabelos negros lisos. Ela tinha olhos negros com um brilho amarelo dourado e um sorriso doce.

Apesar da idade, incomum para um mortal, ela ainda mantinha um ar de inocência em seu rosto.

Já Serena era uma jovem de 16 anos, com pele clara, um pouco pálida demais, diriam alguns, e cabelos em um tom azul claro. Ela tinha olhos castanhos e um sorriso amigável.

O quarto de Calliste era um refúgio de paz e beleza. As paredes estavam decoradas com pinturas de paisagens subaquáticas, e o teto era feito de madrepérola. O quarto ficava em uma torre acima da parte submersa do castelo e, da janela, as duas garotas podiam ver os bairros submersos da cidade.

"Você está linda, princesa", disse Serena, terminando de arrumar o cabelo de Calliste.

"Obrigada, Serena", disse Calliste, sorrindo. "Eu me sinto bem com este vestido."

O vestido ciano de Calliste era feito de seda, com acessórios feitos de ouro puro. Era um vestido elegante e sofisticado, costurado especialmente para participações especiais da princesa nos eventos do governo atlante.

"Você está indo para a reunião no centro de governo?" perguntou Serena.

"Sim", disse Calliste. "Meu avô Poseidon marcou uma reunião com todos os nobres do reino. Ele deve ter alguma notícia importante."

Calliste estava preocupada com a reunião. Ela tinha ouvido rumores de que sua família estava planejando casá-la em um acordo político. Ela não queria se casar com alguém que não amasse. Porém, sabia que um dia poderia precisar sacrificar sua felicidade pelo bem do reino.

"Os rumores… meu avô meu pode estar pensando em me casar…" pensava ela em voz alta. "Planejei tanto ir passar um tempo com meu pai na superfície..."’

"Eu espero que tudo corra bem", disse Serena. "Eu sei que você não está pronta para se casar agora.", ela completou, quase com medo de que Poseidon pudesse ouvir as suas palavras.

"Obrigada, Serena", disse Calliste. "Eu sei que você está do meu lado."

As duas saíram do quarto, com cuidado para não estragar a maquiagem e o cabelo da princesa, principalmente ao chegarem nos andares submersos do palácio.

Elas então nadaram até o centro de governo, que ficava no centro da lendária cidade.

A reunião já havia começado quando elas chegaram. Calliste e Serena encontraram um lugar para sentar e ouvir o que Poseidon tinha a dizer. Os nobres estavam por lá, muitos dos quais não participavam ativamente da vida política do reino, mas os rumores de que a princesa seria oferecida em casamento atiçaram a curiosidade de todos.

"Meus nobres", disse Poseidon, "eu convoquei esta reunião para anunciar uma notícia importante. A guerra com a superfície está se aproximando."

O silêncio caiu na sala. Todos os nobres estavam chocados com a notícia.

"Eu sei que isso é um momento difícil para todos nós", continuou Poseidon. "Mas precisamos nos preparar para o pior. Eu estou pedindo que todos vocês se preparem para defender nosso reino."

Adotando um tom mais sério, o rei completou. "Nossos relatório são completos, os povos da superfície estão se armando. Eles construíram armas gigantescas que navegam por todos os oceanos. E os rumores de mortais com poderes de Deuses se confirmam a cada dia. Neste ritmo, nem mesmo ou meus irmãos seremos suficiente para manter os humanos da superfície longe das nossas amadas cidades."

A reunião continuou por várias horas. Calliste ouviu atentamente as palavras de Poseidon. Ela sabia que os tempos eram difíceis, mas estava determinada a fazer o que fosse preciso para proteger seu reino e a população.

Serena suava frio em sua cadeira, ela não imaginava que as histórias dos povos da superfície que sua mãe contava para assustar as crianças pudessem ser reais.

Poseidon continuou a discursar para os nobres, sua voz grave ecoava pela sala.

"Meus nobres", disse ele, "como vocês sabem, o mundo da superfície está se desenvolvendo rapidamente. Sua tecnologia está se tornando cada vez mais avançada, e em breve, suas armas podem ser uma ameaça para nós."

Os nobres ouviram atentamente as palavras de Poseidon. Eles sabiam que ele estava certo.

"Eu sei que isso é uma notícia difícil de ouvir", continuou Poseidon, "mas precisamos nos preparar para o pior. Eu estou pedindo que todos vocês se preparem para defender nosso reino."

Um homem alto e musculoso, com cabelos negros cuidadosamente penteados para trás e olhos castanhos penetrantes levantou-se para falar. Ele era o general Ragendra, comandante do exército atlante. Sua aparência o distinguia da maior parte da população do reino. Embora a maior parte da população fosse descendente dos gregos que habitavam a cidade original de Atlântida, muitos agora eram descendentes dos povos africanos que vieram até o reino, após Poseidon mover o reino para a costa do Marrocos durante uma guerra com seus irmãos, em tempos passados.

Já Ragendra, sua aparência era fortemente próxima ao povo de seu pai, um indiano que conheceu uma atlante e acabou gerando uma criança em seus encontros, embora o próprio general nunca tenha conhecido o homem.

"Majestade", disse ele, "eu entendo sua preocupação. Mas eu quero que vocês saibam que o exército de Atlântida está pronto para enfrentar qualquer ameaça. O príncipe Tritão está nas Nações Unidas, realizando acordos de paz. Mas, caso ele falhe, nós estaremos preparados para defender nosso reino."

Os nobres aplaudiram as palavras do general. Eles confiavam em sua liderança. Os seus feitos eram lendários para um mortal, e os rumores sobre os meios que ele empregava para tais feitos, aumentavam ainda mais a aura mística ao seu redor.

Calliste ouvia atentamente as palavras de seu avô e do general. Ela não acreditava que os povos da superfície queiram guerra com Atlântida. Ela acreditava que havia outra explicação para a tensão entre os dois mundos.

Ela se virou para Serena e sussurrou:

"Eu não acredito nas palavras do general Ragendra. Ele está apenas tentando se promover."

Serena assentiu discretamente. Ela também não acreditava nas palavras do general, mas a ideia de que ele soubesse que ela o desaprovava, apavorava a jovem garota.

A reunião continuou por várias horas. No final, Poseidon anunciou uma notícia que deixou Calliste em choque.

"É hora de pensar no futuro do reino", disse ele. "Quando eu não estiver mais entre os vivos, o futuro deve caber às novas gerações. Eu acredito que Calliste é a pessoa certa para liderar Atlântida."

Poseidon apontou para Calliste, que estava sentada, escondida atrás de um dos nobres mais obesos do reino.

"Calliste, é hora de você se casar", disse ele. "Eu anuncio o acordo para a continuidade de nossa família: o seu noivado com o general Ragendra."

Calliste ficou em choque. Ela não queria se casar com o general Ragendra. Ela não o conhecia e não acreditava que ele poderia ser a pessoa com a qual iria casar.

Os nobres aplaudiram a notícia. Eles estavam felizes com o noivado de uma semideusa com um dos generais mais notórios da história do reino.

Calliste levantou-se da cadeira e fez um gesto de aprovação para seu avô. Ela estava confusa e desapontada, mas sabia que tinha que fazer o que era melhor para o reino.

Calliste caminhou até o centro da sala, onde seu avô estava sentado em seu trono. Ela se aproximou dele e sussurrou em seu ouvido:

"Vovô, eu não esperava por isso. Precisamos conversar…"

Poseidon olhou para Calliste com um olhar sério, mas aliviou o seu tom ao perceber a tristeza no fundo do olhar se sua neta.

"Eu sei, minha querida", disse ele. "Mas é o melhor para o reino."

Calliste assentiu, mas ela ainda não estava convencida.

Os nobres aplaudem e gritam, comemorando o noivado. Serena olhava tudo com preocupação. Ela sabia que Calliste não estava feliz com a situação e o próprio noivo escolhido lhe assustava.

O general Ragendra se aproximou de Calliste e Poseidon. Ele era um homem imponente e seu olhar de superioridade assustou Calliste, que deu leve salto ao perceber o homem ao seu lado.

"Minha princesa", disse ele, "eu estou honrado com esse noivado. Eu prometo que serei um bom marido para você e que geraremos muitos filhos para garantir o futuro do reino.” Este trecho, ele falou em voz alta, direcionado aos nobres que os escutavam.

Calliste olhou para Ragendra com os olhos arregalados. Ela não conseguia acreditar que ele estava falando sobre filhos.

"Eu não quero ter filhos com você", disse ela.

"Mas é o seu dever", sussurrou Ragendra. "Você é a princesa de Atlântida, e você precisa garantir a continuidade da linhagem."

Calliste estava furiosa. Ela não queria se casar com Ragendra e, com toda a certeza deste mundo, ela não queria ter filhos com ele.

"Eu posso ter de me casar com você", disse ao pé de seu ouvido, "mas eu não vou dar filhos a você."

Ragendra sorriu.

"Isso está bom para mim", disse ele. "Eu só preciso de você para ser a minha rainha."

Ragendra puxou Calliste para perto de si e a beijou na frente de todos. O beijo foi forte e possessivo. Calliste resistiu no começo, mas depois ela se rendeu.

O capitão Dimitros, que estava observando a cena, sorriu cínico. Ele sabia que seu plano estava começando a dar certo.

O general soltou Calliste após sentir-se satisfeito com o beijo. A princesa ficou extremamente confusa ao ver-se livre dos braços do homem. Ela limpou os lábios e olhou incrédula para o homem.

"O que foi isso?", perguntou ela, ainda em choque.

O general sorriu.

"Isso foi um beijo de compromisso", disse ele. "Agora, você é minha noiva."

Calliste não respondeu nada. Ela não sabia o que dizer. Ela ainda estava processando tudo o que havia acontecido.

Serena, que estava observando a cena de longe, ficou chocada. Ela não conseguia acreditar que o general Ragendra havia beijado Calliste na frente de todos.

"Isso não pode estar acontecendo", pensou ela. "Calliste não merece isso."

Tomada pelo medo de conviver com aquele homem, Serena se levantou e decidiu retornar ao castelo. Ela precisava de um tempo para processar tudo o que havia visto.

Vários nobres se aproximaram do velho Deus Poseidon, desejando-lhe sorte e que a sua dinastia continue no poder por milênios. O general Ragendra escutava com prazer. Ele sabia que já tinha conquistado o apoio dos nobres.

Calliste viu uma oportunidade para afastar-se do homem enquanto ele estava ocupado gabando-se com os nobres, mas, antes que ela percebesse, o general a segurou pelo pulso e a manteve ao seu lado.

"Não se preocupe, princesa", disse ele. "Eu cuidarei de você."

Calliste olhou para o general com ódio. Ela sabia que ele estava mentindo. Ele nunca cuidaria dela. Ele só estava interessado em seu poder.

A princesa foi forçada a fingir concordar com tudo que acontecia. Ela sabia que, se resistisse, o general a puniria.

Calliste se viu obrigada a ouvir todos os nobres e seus comentários sobre o que ela deveria fazer. O general Ragendra estava ao seu lado, sorrindo com satisfação.

"Ela é uma princesa perfeita", disse um nobre. "Ela é jovem, bonita e inteligente."

"Ela será uma rainha maravilhosa", disse outro.

Calliste ouvia tudo com um sorriso falso no rosto. Ela queria gritar com todos eles, dizer que não queria se casar com o general Ragendra, que ela não amava ele.

Mas ela sabia que não podia fazer isso. Se ela resistisse, o general Ragendra enocontraria uma forma de revidar.

A tensão no ar era palpável. Os nobres estavam ansiosos para ver o novo casal herdeiro do trono de Atlântida. Calliste sentia-se enojada com tudo aquilo.

Ela passou horas ali, contra sua vontade. Ela queria ir embora, mas não podia.

Após um tempo, Calliste fingiu um leve mal-estar.

"Eu não me sinto bem", disse ela ao general Ragendra. "Eu preciso ir para o castelo."

O general Ragendra olhou para ela com um leve toque de preocupação.

"Claro", disse ele, para voltar sua atenção a um dos nobres, logo em seguida.

Calliste saiu do prédio e chegou à parte submersa de Atlântida. Ela nadava habilmente entre as construções da cidade para retornar ao castelo.

Sua mente era um furacão de sentimentos. Ela sentia nojo do general e raiva de seu avô por ter feito isso sem consultá-la.

Mas, ao olhar para crianças atlantes brincando enquanto nadavam, ela lembrou de quem era, e que precisava proteger o seu povo.

Ela não podia deixar que o general Ragendra fizesse algum mal ao povo de Atlântida. Ela precisava encontrar uma maneira de escapar do casamento e proteger todos.

Calliste nadava rapidamente, determinada a chegar ao castelo o mais rápido possível, seus pensamentos não estavam ali, mas ela poderia nadar este percurso de olhos vendados. Ela estava se sentindo enojada e enfurecida com o noivado forçado com o general Ragendra.

Quando ela estava prestes a chegar ao castelo, viu um dos guardas reais acenando para ela. Calliste mudou o curso levemente, nadando até o guarda.

O jovem guarda era um rapaz de cabelos castanhos e olhos azuis. Ele era um dos poucos guardas que Calliste realmente confiava.

"Olá, Princesa", disse o guarda. "Um dos batedores encontrou isso na praia. Achamos que você gostaria."

O guarda entregou um pequeno saco plástico para Calliste, que olhou para o saco com curiosidade. Ela sabia que era um item da superfície.

"Obrigada", disse ela. "O que é?"

"Não sei", respondeu o guarda. "Nunca vi nada parecido."

A herdeira do trono aproximou-se do saco plástico e fixou seus olhos em um pequeno item preto que está lá dentro. Ela olhou para o item com mais atenção. Era um pequeno aparelho com uma tela brilhante.

Calliste ficou maravilhada. "É um iPod touch", ela disse ao guarda. "É um dispositivo que as pessoas da superfície usam para ouvir música e assistir vídeos."

"Obrigada", disse Calliste. "Eu adorarei."

Calliste agradeceu ao guarda e voltou para o castelo. Ela nadava rapidamente, ansiosa para ver o que o iPod touch poderia fazer.

Quando a princesa chegou ao castelo, ela foi direto para o seu quarto. Ela fechou a porta e se sentou na cama. Tomando todo o cuidado possível para secar o saco plástico, ela o abriu. Ela olhou para o iPod touch com mais atenção.

Ela pressionou o botão de ligar e o aparelho ligou, a bateria estava cheia. Ela viu uma tela inicial com vários ícones.

Calliste tocou no ícone de música e começou a navegar pela biblioteca de músicas. Ela encontrou uma música que lhe agradou e começou a ouvi-la.

A música a fez lembrar do mundo da superfície. Ela pensou em todas as coisas que contaram a ela sobre o lugar e que ela sonhava experimentar um dia.

Ela tocou no ícone de vídeos e começou a navegar pela biblioteca de vídeos. Ela encontrou um filme com uma ator que ela conhecia, havia uma revista com fotos dele em seu quarto, um dos guardas havia encontrado alguns meses antes. Ela assistia a uma comédia romântica pela primeira vez.

Enquanto assistia ao filme, Calliste sonhou em estar entre o povo da superfície. Ela queria experimentar a vida lá e conhecer aquelas pessoas tão diferentes.

Ela sabia que isso era impossível, mas ela ainda sonhava.