Atlantis - Pronta Para Jogar Uma Nova Vida
1 Capítulo 1 - Uma Pequena Viagem no Espaço-Tempo
Notas iniciais
Janine estava deitada em uma maca, diversos médicos a rodeavam, checando números em maquinas, colocando e tirando tubos e agulhas de ambos os braços, ela se sentia como Jesus Cristo pronta para ir para a sala de cirurgia.
A operação era de altíssimo risco, mas era de suma importância para que ela continuasse vivendo, talvez mais alguns anos se ela tivesse sorte. Se fizesse talvez ela morreria, se não fizesse morreria também, tinha no máximo mais algumas semanas de vida. Então mesmo que a cirurgia só tivesse 10% de chance de sucesso, se falhasse suas perdas não seriam tão grandes assim. Entretanto ela queria viver, a coisa que mais queria na vida era continuar vivendo.
Estar à beira da morte aos 21 anos não era para muitos, mas ela tinha a chance de viver, não era um acidente, ninguém a tinha atacado, era apenas câncer. Uma das mais terríveis doenças que assolava a raça humana a anos.
Uma das enfermeiras checou os aparelhos em seu rosto, quando viu que estava tudo em ordem seguiu para suas têmporas, onde em cada lado tinha um pequeno circulo de silicone colado, um dispositivo de realidade virtual e aumentada que absolutamente todos usavam.
Mesmo que a chance de ela acordar sejam de apenas 10%, ainda existia 70% de chance de ela entrar em coma por tempo indeterminado. Existia muitos relatos de pacientes em coma que entravam em jogos de realidade virtual durante esse período. Isso os ajudava a manter a sanidade, a noção de tempo, e conseguiam continuar aprendendo coisas e interagindo com pessoas. Era o mais próximo de vida para uma pessoa inconsciente.
Aos poucos a mascara em seu rosto começou a soltar um gás anestésico. As coisas ao seu redor começaram a perder foco lentamente, a luz não parecia mais tão brilhante assim, e um imenso sono a abateu.
Ninguém falou nada, nenhum médico ousava, as enfermeiras pareciam robôs, inexpressivas. Seus pais haviam a muito morrido, sua avó e sua irmã estavam sentadas em uma poltrona no canto do quarto, abraçadas e chorando. Ela deu um fraco sorriso para as duas, antes de conseguir ver suas reações, seu mundo ficou preto.
Ela foi tomada por pavor, estava totalmente consciente, vagando no escuro e em seus próprios pensamentos, o tempo começou a passar desordenadamente, poderiam ter percorrido segundos, minutos, dias, meses ou anos, ela não saberia dizer, conseguia pensar e sentir emoções, mas não se sentia ligada a um corpo físico, o ambiente ao seu redor não tinha forma, matéria ou tempo. Ela estava no vácuo do universo, ou na própria mente.
Presa nesse cosmos único ela só conseguia pensar sobre sua vida, que nunca teve muita chance de sucesso, mas que nunca a impediu de lutar por tudo que acreditava e queria conquistar. Para ela era tudo uma questão de tempo, não importava quantos nãos recebesse, se ela se esforçasse o bastante com toda certeza teria sucesso, não tinha como ser diferente. Enquanto vivesse ela seria incrível. Ela só precisava viver. Enquanto conseguisse pensar ela ainda existia, e se ela estava viva então não tinha com o que se preocupar.
Com o passar de mais uma sessão interminável de tempo ela finalmente foi chamada de volta a vida, sentiu um peso se conectando aos seus sentidos, uma luz cegante a invadiu.
Ela foi acordando aos poucos, seu corpo em estado de torpor foi recobrando os sentidos, e quando finalmente pode enxergar novamente ela quase parou de respirar, uma mensagem pairava a sua frente.
[Sistema: Você foi morta. O que deseja fazer?]
Logo abaixo duas opções brilhavam:
[Renascer na cidade mais próxima]
[Usar um pergaminho de ressureição 0/1]
Ela sabia exatamente onde estava, apenas não entendia como poderia se sentir tão viva dentro de um jogo de realidade virtual.
Ela selecionou a primeira opção e imediatamente estava de pé em um pilar de pedra azul, cercada por milhares de pessoas. Ela estava em Atlantis, o mais importante jogo de realidade virtual criado na história, seu lançamento datava de mais de 200 anos, porém continuava sendo o mais jogado por toda a população graças as suas constantes atualizações, ligações econômicas, governamentais e educacionais em todo o planeta terra.
Janice desceu do circulo de pedra azul com as pernas bambas, olhou-se de baixo a cima, era ela mesma! Ela da vida real, não sua personagem no jogo!
Como isso era possível? Apesar de toda a tecnologia disponível, todos os jogos criados tinham um severo sistema de controle sensorial, as pessoas tinham sensações normais para se mover, porém as semelhanças terminavam por aí. Não era possível sentir dor ou qualquer sensação de fraqueza física nesses mundos, fadiga era inimaginável, tontura, fome, sono, tudo isso era monitorado pelo sistema para que não existisse perigo ao entrar em uma realidade alternativa, se seu corpo começasse a se tornar fraco na vida real, necessitando de sua atenção, o sistema emitiria um aviso para deslogar, e se não fosse cumprido o sistema o faria por você dentro de 15 minutos.
Então por que ela se sentia totalmente presente nesse mundo? Ela olhou ao redor, toda a interface do jogo era perfeita, melhor e mais realista do que ela jamais vira. Ainda existiam todas as mecânicas do jogo obviamente, no seu campo de visão esquerdo superior estavam todas as informações relacionadas a sua saúde, mana, estamina e experiência, além de seu nome e nível.
Ela observou seus dados em choque. Ela estava no nível 0! E no local de seu nome estava seu nome real, não o que ela usava no jogo, Mirallis.
Janice estava extremamente confusa, ela se sentou nos degraus de mármore que rodeavam a pedra de teletransporte e absorveu o ambiente em que estava, diversos jogadores apareciam a cada segundo, ela percebeu que todos eram novos, nível zero assim como ela. Não havia ninguém no nível 1 sequer, ela poderia dizer simplesmente pelo equipamento que todos vestiam.
Seria um novo servidor? Ela tratou de logo abrir o menu principal do jogo, o painel continuava idêntico, exceto pela opção de deslogar. O espaço estava simplesmente vazio! Ela estava presa. Suor escorreu por suas costas e calafrios começaram a correr por seu corpo.
Ela respirou fundo, tentando se acalmar. Nem tudo estava perdido ainda. Era só uma questão de tempo até que conseguisse sair. Entrando nas configurações ela foi tomada por choque. O nome do servidor, a data, varias informações impossíveis pairavam em seu painel.
[Servidor: Primário
Seja bem-vinda a Atlantis! Um novo mundo digital, onde tudo é possível!
16/05/2037
Horário: 13:02:17 GMT: -3]
Seu coração recém operado provavelmente vacilou por um momento. Ela estava a mais de 200 anos no passado, no exato momento em que o jogo foi lançado, ela acordou. Como isso era possível?
Ela ainda não sabia, mas faria o possível para descobrir e voltar ao seu tempo. Uma coisa era voltar no tempo, outra coisa era voltar a um momento decisivo na história do mundo. Seu coração vacilava a cada pensamento que fluía por sua mente. Ela era um vírus na história da humanidade! Sua simples presença no jogo poderia causar mudanças drásticas no mundo. Ela sabia como o efeito borboleta funcionava, mude uma pequena coisa em um cenário e espere, as consequências tendiam a ser monstruosas.
Mas o que ela podia fazer? Definitivamente não podia conversar com nenhum jogador. Não queria nem pensar o no que apenas se comunicar com alguém poderia mudar na vida dessa pessoa. Ela se levantou e se moveu pela cidade, rapidamente chegando a uma parte remota da cidade, pouco a pouco as construções se tornaram mais simples, ao se encontrar em uma parte praticamente mórbida, uma ou outra casa de pedra eram vistas aqui ou ali, e durante seu percurso um plano foi se desenvolvendo em sua mente. Ela tinha um destino.
Ao seguir para o sul da cidade, uma área que só começaria a ser visitada por jogadores nos níveis mais altos, ela procurou a casa do ferreiro Samuel. Um homem na casa dos 40 anos conhecido por poucos jogadores. Seus itens eram praticamente inúteis, sendo todos de nível base, apesar de baratos, poderiam ser adquiridos pelo mesmo preço em um lugar mais acessível na própria cidade de Atena, o lugar se seu renascimento.
Seu propósito com ele era outro, o Ferreiro Samuel era um NPC* dotado de um vasto conhecimento. Conversar com ele por um longo tempo normalmente dava aos jogadores pontos de inteligência, sabedoria e influência onde seus conhecimentos fossem úteis. Se ela estivesse certa, adquirir pontos nessas categorias aumentaria sua própria inteligência. O sistema do jogo era bem simples, ao subir de nível o jogador poderia distribuir seus pontos em qualquer categoria a sua vontade, criando um sistema de classes infinitas, definidas pelo equipamento do jogador e sua sorte ou fortuna para adquirir habilidades que poderiam ser utilizadas se certos pré-requisitos fossem realizados.
Ela chegou a uma área densamente florestada, quente e escura. Uma grande casa de pedra se encontrava a sua frente onde fumaça saia da chaminé nos fundos.
Ela entrou e ouviu o barulho de atrito de metais. Não havia ninguém na recepção, onde um balcão fechava a passagem para os fundos. Algumas armas estavam penduradas na parece atrás do balcão, nada mais chamava atenção no local.
“Olá, tem alguém aqui?” todas as vezes que ela veio a esse local no passado a filha do Ferreiro, Donzela Karina, estava no balcão cuidando dos negócios. Alguma coisa não estava certa... A programação do jogo até o momento parecia igual a do passado, então o que...
Ela ouviu o barulho de alguma coisa caindo no chão atrás de si e virou rapidamente. A Donzela Karina estava na porta, um balde cheio de metais caiu no chão, fazendo com que tudo rolasse ao seu redor e levantasse poeira. Ela era uma moça na casa dos 20 anos, de pele bronzeada e longos cabelos castanhos cacheados, presos em um coque solto. O corpo da moça tremia de medo e ela tinha uma expressão embasbacada.
Janice nunca tinha visto nenhum NPC com esse tipo de reação, salvo em alguns diálogos de missões. Ela verificou os status da moça.
[Donzela Karina – nível 45]
Logo abaixo uma série de coisas como sua saúde, estamina e mana apareceram, não havia nada de diferente do jogo em sua configuração, porem a atitude....
“Olá, tudo bem? Eu estou procurando pelo Ferreiro Samuel” A moça a ignorou e se esgueirou para o fundo da loja rapidamente. “Espere um pouco”.
“Pai! Pai! Cadê você? Nós temos um problema!” Ela sumiu de vista e continuou chamando por seu pai. Janice suspirou profundamente. O que diabos estava acontecendo? Toda noção de realidade que ela tinha ia aos poucos se esvaindo, sua mente ia se tornando mais e mais confusa. Onde infernos ela tinha ido parar?
Depois de 5 minutos esperando, ela já tinha recolhido os metais para Karina e colocado a bacia no balcão, ela se sentou no chão e começou a vasculhar seu inventario e as configurações de seu personagem. A primeira coisa que fez foi trocar seu nome, todos os jogadores podiam trocar uma vez de graça, se quisesse continuar trocando deveriam pagar uma quantia de ouro exorbitante, que continuava a aumentar quanto mais vezes trocassem. Seu nome real, Janice Orlove, foi substituído instantaneamente por seu nome de jogo, Mirallis.
Seu inventário possuía três itens, o primeiro era para escolher uma arma qualquer básica de nível 0, o segundo para escolher um conjunto de armadura completo de nível 0, e o terceiro para se escolher uma habilidade de ataque básica de nível 0. Esses itens eram como missões para o sistema, então após abri-los todos receberiam experiencia suficiente para upar para o nível 1.
Ela se apressou em abrir o primeiro, o sistema reconheceu como a missão primaria de arma e uma lista com dezenas de armas apareceram em sua frente, haviam espadas, adagas, machados, lanças, escudos, porretes, bestas e tudo mais que levaria a imaginação dos novos jogadores a loucura. A qualidade das armas era boa o bastante para durar até o nível 5, ela pegou um par de adagas médias com dano magico e físico balanceado.
Em sua vida passada ela era uma mercenária necromante de nível 250, usava habilidades furtivas para atacar seus inimigos pelas costas e dar um alto dano, enquanto os deixava com status negativos usando magias e os tankava com invocações. Era uma escolha arriscada de classe que dependia muito da sorte dos jogadores para se conseguir jogar graças a sua vida e defesa extremamente baixa principalmente no começo do jogo, além da dificuldade para conseguir e manter as habilidades balanceadas e obter invocações, eram como animais, que poderiam ser comprados ou domados. Ela decidiu que seguiria pela mesma linha, ela podia ser considerada uma perita nessa classe tão negligenciada, que com certeza causava medo em muitos jogadores quando usada com maestria.
Ao abrir o item de equipamento outras dezenas de combos de armaduras apareceram para Janice, ela foi passando e avaliando cada uma delas, no passado ela tinha focado em defesa, pois era o que mais lhe colocaria em perigo se faltasse, porem agora ela conhecia diversos métodos para conseguir suprir sua falta de defesa em alguns níveis, mesmo no começo do jogo. Ela se decidiu por uma armadura leve, feita de couro, que aumentava sua destreza e sabedoria.
Ela começou a verificar seu personagem por completo após isso.
[Vida: 250 – Mana: 400 – Estamina: 400]
[Ataque: 70-115 – Defesa: 45-60]
Outras informações diversas também estavam contidas, como velocidade, acerto, chance de critico, furtividade e assim por diante. Ela então abriu seu ultimo item, o de habilidades. Com esse item um jogador poderia escolher qualquer habilidade básica de ataque, ela sabia exatamente qual queria: Fome do Pecador. Ela selecionou e seu corpo inteiro brilhou, anunciando que seu nível subiu para 1.
Ela observou as características da habilidade tão usada por ela em sua vida passada.
[Fome do Pecador – Nível 1
[Descrição: Instantaneamente pula em um oponente causando dano físico básico mais 58.
Alcance: 5 metros
Custo: Consome 10 Estamina
Conjuração: 0.1 segundos
Resfriamento: 20 segundos
Requisito: Armas físicas de curto alcance
Restrição: nenhuma]
Não era uma habilidade muito forte nos dois primeiros níveis, mas assim que subisse para o terceiro se tornaria uma habilidade de dano descente, e quando subisse para o quinto e ultimo nível, seria avançada, com um dano explosivo e sendo uma das principais.
Seu conjunto completo era o Conjunto do Passado Caótico, era formado por um vestido colado curto, uma calça legging, manoplas, botas macias, perneiras e um peitoral. Tudo feito de camurça e couro preto.
Ela abriu o espelho para ver como a vestimenta ficava em si. O corpo que aparecia era ela aos 18 anos, antes de descobrir que tinha câncer. Uma mulher baixa, com as pernas torneadas e a parte superior magra, ela era curvilínea até certo ponto, com quadris fartos e uma cintura fina, seu corpo era puramente elegante. Ela ficou impressionada com a postura, não lembrava a ultima vez que conseguiu manter os ombros retos. Seu rosto era normal, cabelos na altura do ombro, lisos e revoltos, seu queixo angular chamava atenção, junto com seus olhos grandes e lábios bem desenhados, seus olhos eram medianos e brilhantes. Ela sorriu para a própria imagem, nunca imaginou que fosse se ver tão bem conservada novamente. Na ultima vez que se viu no hospital estava exalando doença, o corpo extremamente magro mal tinha força para ficar de pé, seu rosto pálido tinha profundas olheiras e o cabelo a muito tinha sido raspado.
Ela girou e riu, se sentindo feliz consigo mesma por alguns minutos.
Na parte de trás da casa do Ferreiro podia-se ouvir murmúrios de uma conversa longa e demorada, Janice viu vez ou outra a Donzela espiando pela cortina da porta, antes de retornar e falar “Ela ainda está aqui”. Isso se repetiu por mais de 30 minutos, então eles finalmente criaram coragem para vir conversar com ela. Ou mandar ela vazar.
O Ferreiro Samuel era um homem alto e feito basicamente de músculos, sua pele era bronzeada como a da filha e seu cabelo raspado deixava uma careca cheia de tatuagens tribais. Janice foi em direção ao balcão com um sorriso suave.
“Olá, meu nome é Mirallis, será que vocês poderiam me ajudar?” Os dois se entreolharam, o pavor em seus rostos era palpável. O ferreiro assumiu a conversa, como se assim pudesse proteger sua filha.
“Minha querida, por que você não entra? Pelo jeito temos muito a conversar” Seu tom era cordial e acalmou um pouco Janice. Ela foi em direção a porta do balcão que da Donzela Karina segurava para ela.
[Você descobriu a Casa do Ferreiro Samuel]
Os três entraram para o fundo da casa, passando por um corredor com 4 portas fechadas e chegando a uma sala de estar no meio de uma cozinha, a direita Janice podia ver outro corredor, que dava na forja da casa.
Eles se sentaram em um sofá com uma mesa de centro. Janice só conseguia pensar no absurdo da cena ‘Eu estou indo tomar chá da tarde na casa de um NPC’, mas esses pensamentos logo foram cortados de sua mente quando olhou para as duas figuras a sua frente.
“O que é você?” A Donzela perguntou sem rodeios. Ela não poderia ter feito uma pergunta pior no momento.
“Na verdade, isso é exatamente o que eu estou tentando descobrir” Pai e filha se entreolharam mais uma vez. Todos estavam extremamente confusos na sala, cada um com suas próprias perguntas e medos.
“Explique melhor, por favor” Samuel olhou para ela com puro interesse dessa vez, porém o semblante de sua filha continuava sério.
“Bom, eu não sei bem como explicar isso, mas... De onde eu venho, o mundo de vocês é um jogo” Ela tentou, não tinha a menor ideia de como começar a explicar a confusão em que se metera. Para seu espanto nenhum dos dois moveu um músculo de surpresa.
[Você adquiriu o interesse do Ferreiro Samuel: +10 Sabedoria]
[Você adquiriu o interesse da Donzela Karina: +8 Sabedoria]
A sabedoria no jogo era usada principalmente para a interação com NPCs, para barganhar preços de itens e propriedades, para adquirir serviços exclusivos e até mesmo para desbloquear missões secretas com ótimas recompensas. Era um dos atributos mais difíceis de se conseguir, pois não eram embutidos em equipamentos, era necessário horas de conversa com NPCs que não lhe forneceriam nenhuma experiencia ou qualquer outra recompensa além desses pontos. No entanto as vantagens ficariam com o jogador para sempre e seu uso era ilimitado.
“Sim, por favor continue” Ela ficou tonta por um momento, então resolveu contar tudo, que ela estava doente e passou por uma operação, que ficou presa em uma espécie de lapso temporal escuro em sua própria mente, e quando acordou estava literalmente viva no mundo de um jogo, 200 anos no passado. Ela contou seus medos em relação a sua presença alterar a realidade em seu mundo, em como se sentia realmente viva dentro do jogo, como se fosse ela, e não uma personagem criada por dados de um programa de realidade virtual.
Os dois ouviram tudo em silencio, sem demonstrar nenhuma reação. “E é isso, depois eu decidi vir aqui por que lembrei que o senhor era uma pessoa muito sábia, então talvez conversando eu conseguisse alguns pontos de inteligência e sabedoria, que me ajudariam a sair dessa roubada”.
Pai e filha suspiraram juntos. Mesmo em silencio pareciam ter chegado a uma conclusão que Janice não entendia, mas era palpável pelo humor deles.
“Bem” Karina se endireitou e começou. “Por alguma razão no universo você veio parar nesse mundo, nesse exato momento, nós ainda não sabemos por que, mas vou tentar te explicar como esse mundo funciona. Você pode escolher o que vai fazer a partir disso, nós não nos importamos muito por aqui.” Janice assentiu, fazia sentido, porem ela achou muito fácil falar isso quando o mundo dela não era o que corria perigo com sua aparição anormal perambulando no passado.
“Nós vivemos em um planeta chamado Elegante, existem centenas de planetas habitados com as raças inteligentes que vivem aqui, e incontáveis planetas com vida inteligente que nós ainda não conhecemos, como o seu planeta, a Terra.” Alienígenas eram reais, maravilhoso, por que não? O mundo já não estava fazendo sentido mesmo. Janice apenas assentiu, nem um pouco surpresa, até ela poderia chegar nesse tipo de conclusão e não era a pior das hipóteses.
“Nós acreditamos em algumas coisas que podem parecer peculiares para você, então tente não se assustar. Em primeiro lugar, todos os seres orgânicos têm a capacidade de viverem pelo tempo que quiserem, nós não somos imortais, mas se não quisermos envelhecer nunca, nós podemos. Eu, você, meu pai, uma planta, absolutamente qualquer um.” Janice não acreditava nesse tipo de coisa, por que não era possível onde ela vivia, porém uma animação incrível a percorreu com a possibilidade, para uma pessoa tempo ilimitado era similar a resposta para todos os seus problemas, a partir do momento que tivesse tempo, era só uma questão de quando poderia realizar seus desejos.
“Qual a idade de vocês?” A Donzela parecia estar na casa dos 20 anos, e seu pai chegando nos 50, mas dadas as alegações anteriores era muito improvável.
“Eu acabei de completar 216 anos, sou considerada nova no meu planeta.” O Ferreiro Samuel deu uma risada envergonhada ao ouvir sua filha falar. Nada mais surpreendia Janice a essa altura, então ela apenas assentiu.
“Já eu não posso dizer o mesmo, bom, não sei minha idade exata, mas já passei dos milhares de anos. Uma das pessoas mais velhas nesse universo.” Ele sorriu. Janice retirou suas palavras, ela estava surpresa. Quanto uma pessoa deveria viver para começar a esquecer a própria idade? Os idosos as vezes brincavam de não lembrar da própria idade por vergonha, porem essa pessoa na sua frente era uma existência única!
“Uau! Você deve saber sobre tudo!” Pai e filha riram em conjunto, Janice se sentiu constrangida, como uma criança que fala algo que parece fazer muito sentida na frente de pessoas mais velhas.
“Bom, acho melhor continuarmos, ainda temos um longo caminho pela frente”. O Ferreiro Samuel resolveu guiar a conversa, o clima estava muito mais descontraído agora, ele sentia que falar com Janice era como explicar as coisas para Karina ainda criança, ele foi tomado de uma alegre nostalgia.
“Além disso, ainda podemos teletransportar seres e coisas se as condições forem favoráveis. Não vou entrar em muitos detalhes, apenas acredite que é possível, por favor, é importante.”
Janice assentiu, ela imaginou isso, quando percebeu que as coisas do jogo eram reais foi como se essas informações tivessem imediatamente entrado em sua mente, mesmo que ela não estivesse ciente disso ainda. Se existia inventários que desapareciam no jogo e pedras de teleporte, então como não existiria nesse estranho planeta?
“O que você considera como um jogo na realidade é o nosso planeta, isso não é uma coincidência, nós desenvolvemos uma técnica complexa com o passar dos anos que interliga as realidades de diferentes planetas, então podemos trazer a mente de pessoas para o nosso planeta desde que elas estejam ligadas a uma forma física tanto aqui quanto lá. A proposta é basicamente mão de obra gratuita, nós desenvolvemos corpos físicos aqui, que outros controlam como forma de diversão, sem sofrerem nenhum dano físico na realidade em que vivem. Nós também não podemos interferir diretamente na realidade de vocês, então apenas pense nos jogos como um empurrão do destino na imaginação dos criadores. A mesma coisa acontece com sonhos, nós normalmente não lembramos de sonhos, mas estamos em algum lugar do universo ajudando pessoas que tinham alguma dificuldade. Vocês também fazem isso o tempo todo, sempre que pede para uma força maior te ajudar com alguma tarefa, se algum ser vivo no universo estiver disponível, mesmo que inconscientemente, tentará atender esse desejo. Muito dizem que veem coisas, como espíritos ou as pessoas que morreram, bom, nós também não sabemos o que acontece com a consciência de uma pessoa após a morte. Essa visão dos vivos não passa de pessoas que elas mesmas chamaram para seu mundo por algum motivo. Aqui em Elegante e nos outros planetas da União das Raças nós apenas desenvolvemos um método para canalizar esse fenômeno para algo mais palpável.”
Tanto Janice quanto Karina ouviram tudo em silêncio, era realmente muita informação.
Janice se levantou com uma tontura forte, era muita informação para raciocinar de uma vez, ela precisava de ar. “Com licença, eu preciso de um tempo para absorver tudo isso.” Nenhum dos dois a impediu quando ela saiu pela parte de trás da casa e se infiltrou na floresta.
Janice foi perambulando pela floresta até chegar a uma área de nível 0 onde alguns jogadores nivelavam.
[Você descobriu a Floresta do Medo]
Ela se manteve a distância, apenas observando enquanto aquelas pessoas matavam alguns bichos que pareciam uma mistura de porcos e rinocerontes, animais de um tom rosa acinzentado com uma pele grossa e varias presas. O nome que aparecia para ela era Porco Grotesco Aterrorizado. Eles eram considerados dóceis, se ninguém os atacasse eles não atacariam de volta. Um grupo de três jogadores havia acabado de matar um deles, a criatura caiu morta no chão antes de se transformar em uma luz azul e sumir. No local apareceram alguns itens e moedas para os jogadores coletarem.
Quantos desses seres ela havia matado em sua vida passada? O que eles sentiam? O que acontecia com seus corpos? Ela tinha milhares de dúvidas. Se sentando no chão ela respirou fundo por um tempo, tentando conter o turbilhão se emoções percorrendo sua mente sem nenhum controle.
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