Atlantis
6 Capítulo 5 - “Todas as vidas têm um fim, todos os corações são partidos”.
Eu não faço ideia do porquê, mas não parei de pensar no que Jayden havia me dito na praça.
Quando ele teve alta do hospital, senti que minha mãe estava escondendo algo de mim. E anteontem, assim que Jayden saiu com Scarlett, tive aquela sensação novamente. Como se minha mãe, a tão transparente e verdadeira Paige, estivesse omitindo algo. Não acho que o fato de Jayden sentir o mesmo com sua mãe é só uma coincidência.
Já tentei muitas vezes acreditar que tudo isso só se tratava de alguma coisa relacionada ao pagamento das consultas, remédios ou algo não muito importante. Mas é como se meu inconsciente insistisse em se perguntar qual era o motivo daquele mistério todo. Eu sentia como se as duas estivessem passando base facial – aquelas que as mulheres usam quando se maqueiam – em alguma imperfeição, para que eu e Jayden não a notássemos.
Mas base sai com água.
– Raven? Você está surda? – Pergunta minha mãe, sentada na mesa e me olhando com uma preocupação fingida – O jantar já está pronto, venha logo, antes que esfrie.
Faço que sim com a cabeça e me sento à mesa, sem prestar muita atenção na séria conversa que Patrick e minha mãe estão tendo sobre a batata de marca diferente que ela comprou.
– O que você acha, Rae?
– É uma boa batata. Quer dizer, é batata. O que poderia mudar?
– Exatamente, Raven! Viu só, tia Paige? Não adianta a senhora comprar essa marca mais cara, sendo que batata tem o mesmo gosto, até porque é uma batata.— Exclama Patrick, parecendo muito sério, e me seguro para não revirar os olhos.
Ele sempre parece tão preocupado com as coisas mais banais possíveis, e deixa passar o fato de que o que realmente importa está indo por água abaixo, e não me refiro só às suas notas.
– O que você tem, Rae? – Indaga minha mãe, finalmente parecendo preocupada de verdade – Você está muito calada...
– Acho que você pode me responder essa pergunta, mãe. – Digo sem receio, querendo chegar rapidamente ao ponto – Quando eu e Jayden estávamos no parque, eu...
– Ah, filha, antes que termine, eu... Queria te pedir uma coisa. É sobre o Jayden – Interrompe ela, mas resolvo não reclamar, já que parece algo sério – Sei que esse não é o momento certo de dizer isso, mas... Não acho que ele seja uma companhia excepcional.
– O quê? – Posso dizer que estou incrédula.
Nunca imaginei que escutaria minha mãe dizendo isso, e demoro um certo tempo para processar. Justo ela, que me apresentou à ele, dizendo-me que ele não é uma boa companhia?
– Não quero que me entenda mal, eu adoro Jayden, ele é um garoto incrível, mas eu realmente não queria que vocês fortalecessem tanto essa amizade, entende? – Ela olha em meus olhos – É para o seu bem.
–Mãe! Você me apresentou a ele, se somos amigos hoje, isso é graças à você! Me diz, o meu bem é ficar longe de quem eu gosto? – Sinto minha voz cada vez mais alta, mas essa é a ultima coisa com a qual me importo no momento.
A única coisa que consigo me lembrar é da promessa que fiz para Jayden, e o quanto seus olhos ficariam arrasados se eu me afastasse dele.
– Raven, o seu bem é ficar longe do Jayden – Minha mãe é sempre tão controlada que tenho vontade de jogar um prato em seu rosto.
– Por quê?! Por acaso ele vai atirar no meio da minha testa? – Levanto da cadeira abruptamente, e Patrick se assusta ao meu lado – Ele não me faz mal! Ele gosta de mim, mãe. E eu gosto dele, e sinto te dizer que a culpa é toda sua.
– Eu não estou dizendo que ele te faz mal. Se apegar a ele é o que realmente será o problema.
– Ah, sério? Tarde demais.
– Raven, por favor, se acalme... – Diz Patrick, tocando de leve em minha mão, toque cujo desvio como se fosse um choque.
– Sente-se. – Ordena minha mãe, e juro que minha única vontade é de lhe mostrar o dedo do meio. Não que isso vá fazer com que ela mude de ideia, mas é a única forma menos agressiva de demonstrar o quanto estou puta com ela.
– Por quê? Por que eu devo me afastar dele? – Grito, e minha mãe finalmente deixa de sustentar seu olhar – Não vai me dizer?
– Raven, eu só não quero te ver sofrer – Diz ela, olhando para seu prato quase vazio.
– Me afastar dele só vai fazer com que eu sofra! E ele também – Minha voz continua num tom alto, e me pergunto quando os vizinhos irão aparecer na janela tentando entender o que está acontecendo – Você é uma pessoa horrível! Eu pensei que se importava com ele, mas pelo jeito...
– Não diga isso, Raven – Pede ela, com os olhos marejados.
– Pois eu digo, e digo mais! Eu não...
– Ele vai morrer, Raven! – Grita ela, e só então calo a minha boca – Jayden... Ele está em estado terminal. E-eu sei o quanto você gosta dele, e... Eu só não quero que você sofra.
Antes que eu possa fazer alguma coisa, meus olhos enchem-se de lágrimas, e um soluço desesperado toma conta de mim.
Eu queria água para tirar essa “base facial”, e, bem, aqui está a minha água. E a imperfeição também.
~*~
Uma vez, quando eu tinha cerca de meus onze anos, encontrei um caderno de anotações de minha mãe. Ele era preto com alguns detalhes em branco, e a grande maioria de suas páginas – que tinham os números dos dias do ano impressos na parte superior – estavam em branco. Sem nenhuma anotação, desenho ou algo do tipo.
E, dessas poucas páginas escritas, todas eram algo como “Dentista às 15 horas” ou “Tirar o RG”. Todas exceto uma.
Essa página, que me lembro ser do dia oito de julho, estava ocupada por uma só frase que ocupava menos de duas linhas: “Todas as vidas têm um fim, todos os corações são partidos”.
Depois disso, não demorei para deduzir que era por causa de meu pai, que havia morrido no mesmo dia há alguns anos. Eu sabia que minha mãe estava com seu coração quebrado, e que o mesmo não poderia ser remendado de modo algum.
Assim que minha mãe me viu com seu caderno – que ela guardava como se fosse uma jóia preciosa – não demorou para que me desse uma bronca daquelas, e fiquei de castigo por muito tempo. Aquele dia, eu percebi que um dia minha curiosidade iria me matar, ou me deixar num castigo ainda pior.
Mas, dessa vez, minha curiosidade me deixou desolada.
Já estou trancada em meu quarto há quase meia-hora, e não parei de chorar desde que minha mãe me deu aquela notícia.
Eu acho injusto com Jayden, e não estou me referindo só ao fato de estarem escondendo algo tão importante dele. A questão é que ele não merece sofrer tanto. Embora nossa amizade não seja de longa data, eu conheço seu coração e sei que ele não merece ter essa doença, não merece tomar aqueles remédios que fazem com que ele se sinta vulnerável, não merece lidar com algo tão complicado que é o câncer.
Além disso, parece que ainda não consegui processar o fato de minha mãe querer que eu fique longe dele.Tudo bem, o motivo dela é até plausível, ela não quer ver sua filha sofrer – aliás, qual mãe quer? Mas, mesmo que eu sofra, ela sabe como Jayden é e que ele merece, acima de tudo viver – e muito bem.
Me pergunto se o sangue que doei à ele não adiantou de nada, se tudo que ele passou no hospital foi em vão. Como Jayden irá reagir ao saber que pode morrer em poucos anos por causa do câncer?
Tudo que tenho é perguntas, e uma só certeza: eu não vou me afastar dele. Agora, mais do que nunca, ele precisa de alguém ao seu lado, alguém que o ame e que não tenha medo de admitir isso. E, se sua mãe não é capaz de fazer tal coisa, eu vou tentar. Vou tentar fazer com que ele se sinta amado, e, seja lá quanto tempo ele ainda tenha vivo, vou fazer com que esses sejam os seus melhores últimos dias de vida.
Claro, isso vai ser muito mais difícil se minha mãe continuar com essa ideia quase doentia. Mas isso é algo que devo fazer por ele, até porque tenho quase certeza que ele faria ainda mais por mim.
E quando consigo finalmente enxugar minhas lágrimas, Patrick abre minha porta após bater apenas uma vez.
– Ei. – Diz ele, entrando em meu quarto e sentando-se na ponta da minha cama – Trouxe comida para você – Patrick aponta para o prato, que deixou em cima de minha cabeceira quando entrou no quarto.
– Eu não estou com fome. – Respondo, e logo percebo quão minha voz está embargada.
– Fala sério, você é Raven Purpleskull, a draga. Impossível você não estar com fome – Ele brinca, e consegue arrancar um riso fraco meu.
Patrick me olha com um pouco de dó, e tento imaginar o quanto estou horrível. Toda vez que choro, meu nariz faz questão de ficar muito avermelhado, assim como minhas bochechas e meus olhos. Uma vez, quando chorei por algum motivo que não me recordo, Geórgia achou que eu tinha fumado alguma coisa.
– Eu sei que a minha opinião não importa muito, mas discordo completamente da Tia Paige. – Admite ele, e desvio meu olhar – Eu sei o quanto você gosta desse menino, Rae, sei que ele te faz bem.
– É, ele faz.
– Qualquer um percebe. Você estava com um sorriso de orelha à orelha depois daquela praça que foi com ele.
Me permito sorrir mais uma vez, e Patrcik retribui o sorriso.
– Ele gosta de você também – Ele dá um longo suspiro, daqueles que avisam que algo importante está prestes a ser dito – Escuta, se a Tia Paige continuar com essa ideia de te afastar dele, estou aqui pra te ajudar. Eu posso, sei lá, faço qualquer coisa. Eu sei que esse menino precisa de você, e você precisa dele.
– Por que eu acho que essa ajuda tem algo mais? – pergunto, e nós dois rimos um pouco.
– Tudo bem, talvez seja porque eu não quero que você conte a ela sobre as minhas notas.
– Eu sabia! – Patrick dá uma alta gargalhada, assim como eu.
– Mas estamos falando de algo sério aqui, okay? Você precisa fazer com que ele se sinta o mais vivo possível. E eu prometo ajudar.
– Obrigada, Pat. De verdade – Digo, e sinto um pequeno nó na garganta.
Patrick me abraça brevemente, e logo sai do meu quarto, sem deixar de bagunçar meu cabelo com sua mão duas vezes maior que a minha.
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