Atlantis
2 Capítulo 1 - Seus olhos.
Notas iniciais
— Meu Deus, Rae, para de andar para lá e para cá! Está me deixando tonto! – Exclama Jayden, soltando uma gargalhada. Cada vez que ele sorri sinto meu coração batendo um pouco mais forte, e não posso explicar o porquê.
– Queria ver o que você faria se estivesse no meu lugar – Reclamo, sem parar de caminhar no pequeno quarto de hospital.
Jayden está deitado na cama com lençóis brancos sobre suas pernas, que provavelmente estão nuas. Sempre detestei essa camisola ridícula que os hospistais obrigam seus pacientes a usar, mas ele não parece se importar. Seus cabelos loiros e ondulados – que parecem dourados quando entram em contato com o sol – estão encostados de modo violento sobre o travesseiro, que julgo ser bem macio. Seus olhos azuis gélidos me encaram com certo encanto, e ele parece uma pessoa totalmente feliz e saudável, se não fosse por sua palidez doentia.
–Já estive no seu lugar várias vezes, acredite. Já tiraram muitas amostras do meu sangue.
–Mas você já está acostumado – Depois de um segundo, percebo a tremenda besteira que disse.
É claro que ele está acostumado, ele tem leucemia, precisam tirar seu sangue inúmeras vezes por mês. Mas eu não deveria dizer aquilo, até porque meu tom parecia acusativo.
Procuro por seus olhos esperando ver uma expressão de raiva ou algo do tipo, mas encontro o contrário disso. Jayden está dando uma risada breve, como se eu tivesse dito algo genial.
– Venha cá, Rae. – Diz ele, batendo de leve em um espaço ao seu lado, na cama.
Sinto uma espécie de fervura por dentro assim que o escuto dizendo “Rae”. Muitas pessoas usam meu apelido, mas o mesmo soa como algo incrível na voz de Jayden, como se essa fosse a melhor palavra do vocabulário dele.
Após relutar, acabo me sentando na cama, próxima ao quadril de Jayden. Tento me sentar do modo mais delicado possível, me esforçando para não fazer nenhum movimento brusco e, consequentemente, machucá-lo.
Jayden segura minha mão com a sua em um movimento que julgo ser angelical. Aperta levemente meus dedos e diz, com uma calma quase surpreendente:
– Quando forem tirar seu sangue, pensa em algo calmo, como o mar. Você nem vai perceber que estão colocando uma agulha na sua veia.
– Eu tenho um pouco de medo de agulha. – Admito, sem tirar os olhos de sua mão entrelaçada na minha.
– Eu também tinha, mas é só você se acalmar. – Diz ele, e logo desvio meu olhar até seus olhos, que são azuis gelados e graciosos.
– Vai ser um pouco difícil.
– Não... O que te acalma? – Pergunta ele, como se fosse uma pergunta extremamente normal, do tipo “o que tem de almoço”?
– Seus olhos me acalmam. – Digo sem pensar, e logo sinto minhas bochechas queimarem, mas sou incapaz de parar de olhá-lo.
Sua boca curva-se em um sorriso largo, e logo tomo nota: seus dentes são lindos e simétricos.
– Então, quando estiver na sala de doação de sangue, pense nos meus olhos.
– Eu vou. – Murmuro, e finalmente paro de encará-lo.
Jayden é mesmo bonito, e acho difícil alguém discordar. Tudo nele parece ter o tamanho perfeito, o jeito perfeito, a coloração perfeita. Mas o que me incomoda é o fato de ele não ter noção do quanto é lindo.
– Ei, Rae, eu tenho que te pedir uma coisa. – Diz ele, tirando-me de meus devaneios.
Nossas mãos continuam entrelaçadas, e, por Deus, eu gostaria de ficar ali para sempre. Nunca considerei um toque tão aconchegante. É como se aquele tom levemente azulado na ponta de seus dedos não existissem, e muito menos a temperatura de sua mão, que é gelada. Será que ele era tão belo assim quando não tinha doença nenhuma?
– Ih, se for um favor, dez libras cada um. E se eu tiver que levantar, é quinze. – Digo, cumprindo a minha vontade de fazê-lo rir.
– Acho que esse favor vai ser um pouco caro.
– Meus serviços não são baratos, queridão. – Ele ri mais uma vez – Mas, vai, me diz. Já estou curiosa.
– Quando você doar seu sangue para mim, e eu recebê-lo, bem... – Ele faz uma pausa que faz meu coração dar um breve acelerada – Você pode, por favor, não esquecer de mim? Eu sei que pode parecer egoísta ou sei lá, mas você foi uma amiga e tanto. Eu não conversava com alguém da minha idade há um bom tempo. Eu... Eu só não queria perder contato com você.
Tento elaborar alguma resposta inteligente, mas não consigo. A verdade é que nunca tinha pensado nisso. Assim que eu doar sangue e ele receber alta, nada mais vai nos ligar, e perder o contato será algo muito fácil de acontecer.
Pode parecer estranho, mas, em um mês, Jayden praticamente tornou-se meu melhor amigo. Quando eu não recebia notícias dele, o dia parecia sem graça. Ele me encantou com seu jeito extremamente gentil e engraçado de ser, e não posso negar que fico radiante em saber que significo o mesmo para ele.
Quando estou prestes a dizer que irei me esforçar para manter contato com ele, uma enfermeira abre a porta após bater apenas uma vez.
– Senhorita Raven? – Faço que sim com a cabeça – Já está tudo pronto. Estamos lhe esperando para iniciar o processo de doação de sangue.
– Ah, tudo bem. Estarei lá em menos de cinco minutos. – Respondo, e a enfermeira assente, fechando a porta atrás de si.
– Boa sorte. E não se esqueça das dicas que te dei. – Diz Jayden, dando um breve sorriso quando me levanto da cama e solto – infelizmente – sua mão.
– Não vou esquecer. – Pego minha bolsa que está sobre uma cadeira.
– Ei, Rae, e o que me diz sobre aquele favor? – Pergunta ele, assim que abro a porta, prestes a ir embora e deixá-lo sozinho no quarto.
– Pode ter certeza que vou me esforçar para não perder o contato com você.
Queria responder algo mais inteligente ou até mais verdadeiro, dizer que adoro tê-lo como amigo, e que eu tenho sorte de ter conhecido alguém como ele, mas não sai nada. Olho para Jayden, que sorri brevemente.
– E quanto ao valor?
– Não vou cobrar nada, mas só porque você é muito legal e me ajudou a não desmaiar quando ver a agulha. – Brinco, e logo ele gargalha. Dou um sorriso também.
– Obrigado, acho.
– Eu que agradeço.
~*~
Anoto mentalmente: reclamar com a minha mãe assim que chegar em casa. Ao invés de ela, que é enfermeira e é minha mãe, vir tirar meu sangue, ela mandou uma outra enfermeira que nunca vi na minha vida enfiar uma agulha na minha veia.
– Está pronta, senhorita Raven? – Pergunta a mulher, mexendo em alguma coisa que está sobre uma pequena mesa de metal.
Ela parece ser simpática, mas mesmo assim estremeço. Quando eu era menor, as enfermeiras sempre custavam para achar minha veia, e isso me rendia vários furos doloridos no braço.
– Estou. – Respondo após suspirar.
Ela faz que sim com a cabeça e começa o procedimento: passa algodão com álcool em meu braço, tira a agulha da embalagem e apronta a bolsa que irá guardar meu sangue. Acredito ser a hora certa para fazer o que Jayden me disse: pensar em coisas calmas.
Penso numa praia pardisíaca, com areia morna sobre meus pés, e confesso que me acalmo, mas me desespero assim que ela pergunta se pode começar.
– Pode, pode.
Fecho os olhos e mordo meus lábios, tentando lembrar de qualquer coisa que me deixe calma, inclusive os olhos de Jayden.
E funciona.
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