Atlanta

14 Capítulo Treze


Após alguns dias, havia chegado o dia de vasculhar os hospitais para executar os doentes. O cientista Levi Benton havia sido mandado por Jeremy para o Atlanta Medical Center. O rapaz agora estaria trabalhando juntamente com outros médicos e principalmente a jovem enfermeira Judy Jeppesen. Jack estaria na missão de vasculhar outros estabelecimentos. Vários mortos já voltaram a vida durante esses dias, e tinham sido mantidos em quarentena em um outro setor do hospital. Aliás todos os hospitais haviam mantido uma área em quarentena: um para os mortos, outros para os doentes que se tornariam futuras ameaças.

Grace havia deixado suas coisas em casa naquele dia quando fora pro Grady novamente. Sabia que se houvesse uma fuga, seria para fora da cidade, e não para o anexo do Governo pois, se lá houvessem infectados, viraria um cemitério, porque o Exército foi mandado para lá também, segundo soube por Jack.

―Grace! ―chamou Lavínia.

―Sim, senhora. ―respondeu prontamente.

―Olhe pela janela. ―o clima todo estava tenso no local. Eles já esperavam por algo. Ambas olharam para baixo pelo vidro da janela. Eram quatro da tarde em Atlanta.

―Minha nossa, eles já chegaram. ―Grace assustou-se.

―Sim, o Exército está aqui para evacuar o Hospital. ―falava Lavínia sem saber o que fazer diante da situação. ―Eles abrirão a área em quarentena, e tentarão levar os outros pacientes para um lugar seguro.

―Ou irão matá-los... ―Grace falou para si mesma, mas Lavínia escutou e ficou com uma expressão de assustada em seu rosto. ―Escute, os noticiários já avisaram as pessoas, não é?

―Sim. ―Lavínia assentiu.

―Certo. ―Grace olhou para o lado pensando em seu plano de fuga que havia combinado com Jack. ―Lavínia, vou precisar ir em casa.

―Tudo bem. ―a diretora assentiu e a liberou. Grace tirou seu jaleco e desinfetou as mãos com álcool. Logo indo em direção a sua casa a algumas quadras dali.

**

Ivne estava desolada. Seu noivo havia morrido em casa, quase em seus braços. Não suportaria mais viver naquela casa. E nem poderia. Não tinha assistido ao noticiário. Então não sabia o que estava acontecendo naquele momento na cidade. O corpo de Edward Bruce estava no chão da sala. Ela tentou levá-lo para o hospital e o arrastou pela sala mas ele não agüentou. Lá estava, pálido, sem vida. Ivne acariciava o rosto do cadáver, com esperança de que ele pudesse voltar e dizer que amava. Só que aconteceu o contrário. A modelo sentiu o cadáver respirar, colocou os ouvidos próximos a boca do homem e escutou realmente uma respiração arrastada, mas como era possível? Ele havia morrido há três horas. O corpo já estava frio.

―Edward? ―ela sussurrou na esperança de que ele respondesse.

Nada de respostas. Apenas olhou para o rosto de seu noivo, e este abriu os olhos. Estavam diferentes, contrastava com o tom de pele morta do homem. O cadáver olhou para Ivne que o segurava pelo pescoço.

―Edward, meu amor... ―ela sussurrou com os olhos castanhos cheios de lágrimas e a voz embargada. ―Me desculpe... Eu tentei salvá-lo...

O homem agora era um zumbi, Ivne sabia, e tinha uma arma consigo no cós da calça.

―Eu tentei, Edward... mas falhei. ―ela dizia, o zumbi de seu noivo agarrou-lhe pelos cabelos e agora tentava mordê-la. ―Preciso fugir daqui, preciso deixá-lo meu amor... Eu te amo. ―ao falar a última frase, imediatamente sacou a arma e apontou para a cabeça do zumbi, ao mesmo tempo que deu-lhe um beijo na testa, disparou um tiro na cabeça, eliminando de vez a ameaça.

Ivne Laurent não levou nada consigo apenas a arma que tinha, e uma faca afiada que pegou na cozinha. Abandonou sua casa e fugiu, em busca de algum lugar, ela não tinha noção do que estava havendo no centro de Atlanta, então, apenas queria fugir, só não sabia para onde.

Os vizinhos haviam escutado o tiro. Eles estavam pegando as coisas necessárias, e colocando-as nos carros. Todos estavam deixando o local. Ivne apenas andava, sem rumo, e sem se interessar no motivo pelo qual os vizinhos fugiam.

**

Eram quase cinco e meia da tarde quando o Atlanta Medical Center foi invadido. Judy e Levi assustaram-se com o baque repentino no 5º andar. Pareciam macas caindo e tiros ecoavam pelo local. Ainda havia energia.

―O que está acontecendo? ―perguntou Judy assustada.

―O Exército está aqui. Vieram executar os doentes e os mortos. ―Levi olhou com expressão tensa no rosto.

―Oh meu deus... ―Judy colocou a mão na boca, perplexa.

―Vem, pegue estes relatórios e proteja-os em uma pasta resistente, pequena e fácil de carregar. ―ele disse a enfermeira que logo providenciou tudo. ―Temos que fugir daqui.

―Mas e as pesquisas? A busca pela cura que estamos fazendo?! ―exclamou a jovem.

―Grace Hirschfelder, preciso encontrá-la. Não iremos para a base do CDC, lá é o maior local de risco e provavelmente o Exército foi mandado para lá. ―ele fez uma pausa enquanto olhou o corredor através de um espaço na porta, olhava ambos os lados.

―Aonde vamos então? Precisamos continuar e achar uma resposta. ―ela estava ficando mais assustada.

―E vamos encontrar as respostas, mas não aqui em Atlanta. ―ele voltou para dentro, olhando-a. ―Temos que ir para Savannah. Ninguém disse mas, estavam construindo uma base segura para os sobreviventes numa ilha de Freeport. Lá estaremos a salvo. ―ele finalizou, pegando Judy pela mão e os dois saíram, com cuidado para não serem vistos.

**

No Grady Memorial, Lavínia Audrey estava apavorada. Não tinha mais o que ser feito. Ordens superiores, não podia salvar ninguém. Nem os cientistas residentes do CDC que estavam lá, poderiam ajudar. Leslie estava indo buscar os pacientes doentes em fase terminal para os soldados, que a acompanhavam. A porta que isolava os mortos vivos ali naquele mesmo local, estava aberta, alguém deixou. Dois soldados que estavam de costas, foram surpreendidos por zumbis que saíram dali. A arma de um deles disparou e acabou atingindo outros soldados. Leslie tentou fugir, mas foi pega por um zumbi que a mordeu no pescoço, e outro zumbi veio, mordendo-a no braço.

**

No sétimo andar do Atlanta Medical Center, no quarto 729, havia uma linda jovem, que estava sem acompanhante. Não tinham liberado a entrada para visitantes naquele dia. A diretoria do hospital já sabia da evacuação e não deixou mais ninguém entrar durante aquela tarde. Lorene Berlioz tinha 19 anos, havia sofrido um acidente de carro e teve o abdômen perfurado durante o acidente. O ferimento já havia sido curado, mas a garota permaneceu em coma durante um mês. Inesperadamente naquele momento, acordou. Respirou fundo e olhou em volta do quarto.

―Enfermeira! ―ela pediu ajuda. ―Enfermeira!

Nenhuma resposta. Ouviu barulho de tiros no andar de cima, vozes de homens e passos fortes em seu andar. Sentiu uma onda de adrenalina percorrer seu corpo. Olhou o local do ferimento e viu que já estava bom. “Preciso sair daqui.” Ela pensou, logo tirou os fios nos quais estava ligada nos aparelhos de batimento cardíaco, e o respiratório. Ela ainda vestia a roupa do hospital, a camisola branca. Ela abriu a porta do quarto e olhou através do corredor, alguns soldados evacuavam as enfermarias do andar e ouviu-se um estrondo ecoar no local. A energia acabou. Ela foi em direção as pessoas que fugiam, e quando virou-se para trás viu alguns pacientes encostados na parede, os soldados atiraram sem dó.

―Ah meu Deus... O que está havendo? ―sussurrou para si mesma. Logo foi andando e sentiu alguns passos fortes, entrou em um dos quartos que estava vazio. Escondendo-se atrás do armário. Um soldado entrou no quarto. Vasculhou todo o local.

―Eu sei que está aí! ―ele gritou.

―Não há nada aí, soldado, vamos. ―falou o outro que estava com ele.

―Pode ir, logo acompanho o restante. ―respondeu Ryan, que tinha certeza que havia alguém no local. O outro soldado deixou Ryan ali e seguiu. O rapaz adentrou o quarto, deixando a porta aberta para que pudesse sair. ―Vamos! Responda! ―gritou mais uma vez, dando três tiros no assoalho que estava caindo aos pedaços, e este desmoronou, fazendo a jovem que estava escondida tropeçar e cair para a frente enquanto tossia.

―Por favor... não me mate. ―ela pediu acabando de tossir, ajoelhada no chão. Os cabelos levemente bagunçados e empoeirados, assim como sua roupa. Ela estava descalça.

Ryan mantinha a arma mirando a garota.

―O que você teve? ―ele falou rude.

―Estava em coma. ―ela respondeu calmamente, mas ainda assustada, com medo dele disparar aquela arma contra ela. ―Acidente de carro, perfurei o abdômen, tem quase um mês. Mas já estou com os ferimentos cicatrizados.

―Está infectada? ―ele perguntou grosseiro.

―Infectada? ―Lorene franziu a testa sem saber do que se tratava.

Ryan nada disse, apenas empunhou firmemente a arma, tendo a jovem em sua mira. Logo ele viu o olhar dela, marejado. Era apenas uma jovem assustada. Violaria as ordens de seus superiores? Sim. Mas não deixaria ela em perigo, não agora que viu o medo em seus olhos.

―Droga! ―praguejou o jovem soldado de 25 anos, abaixando a arma em seguida. ―Vem. Vamos para um lugar seguro. Irei protegê-la. ―ele deu a mão e a garota segurou, levantando-se. ―Segure-se em meu casaco, não solte. ―ele recomendou, logo saindo dali com a garota, a partir daquele momento, não seguiria mais as ordens do Exército. Apenas manteria a jovem Lorene em segurança.