Atiradores da Nevasca
1 Prólogo - Um Trabalho em Vermelho
Notas iniciais
Boa leitura!
O vento gélido soprava calmo em um céu de nuvens escuras, que contrastavam com o branco do horizonte urbano coberto pela neve.
Segurei firme em minha Barrett. Olhando pela luneta, calmamente ajustei meu dedo ao gatilho e esperei pelo momento certo, esperei o vento se calar.
E então o estrondo de um projétil de 12,5 mm de diâmetro sendo disparado quebrou o silêncio.
Uma bala, uma morte. Um corpo de um tirano caindo ao chão, e até a um quilômetro dali, pela luneta, eu conseguia observar a surpresa misturada ao horror, uma expressão familiar para mim, estampada no rosto de seus subordinados, que pareciam desesperadamente tentar ver algo no lugar de onde veio o som, enquanto lentamente a neve perto de seus pés se tingia de vermelho. Não era a primeira vez que eu havia feito aquilo, mas sentir o peso de uma vida em meus ombros é dolorido, mesmo sendo por um bom ideal.
Uma voz irrompeu meu devaneio:
- Belo tiro. Agora, pare de ficar admirando seu trabalho e vamos sair daqui, eles já estão vindo para nossa posição!
Meu observador começou a levantar-se com seus equipamentos, tirando do coldre e empunhando a Colt M19 que lhe pertencia, fazendo um sinal para que eu me apressasse. Levantando o mais rápido que pude, a Barrett parecia mais pesada depois de ficar dois dias parado esperando pelo alvo, mas logo me recuperei e comecei a correr para o outro lado do prédio em ruínas em que estávamos, aparentemente um velho prédio empresarial, que agora tinha mais neve e vegetação do que pessoas. Chegando à janela, eu e meu parceiro checamos as cordas que aviamos deixado ali para a fuga. Fora um pouco de neve que se acumulara por cima delas, estavam como deixamos, e fizemos rapel por elas até o chão.
Quarenta minutos depois disso, eu continuava sendo atormentado pelos meus pensamentos, mas logo me foquei novamente no nosso objetivo: Ir até o ponto de extração. Sabia que se continuasse distraído, provavelmente acabaria morto pela minha distração, mas sabia que nunca ia me acostumar a tirar vidas. Olhando ao horizonte, vi uma forma distante se aproximando, e logo consegui ver o que era.
- Helicóptero, pro chão! – Disse eu em aviso, enquanto me deitava novamente com o dedo no gatilho à ponto de bala. As roupas e outras camuflagens ainda estavam brancas, mesmo depois de tantos dias de uso, pelo menos o suficiente para sermos quase parte da paisagem da mesma cor. Respirei fundo, e esperei, enquanto o barulho do helicóptero passava acima de mim e se distanciava, me deixando aliviado. Levantando devagar, ajudei meu parceiro a se levantar, e continuamos nossa jornada pela cidade em ruínas coberta de neve que um dia fora uma das maiores cidades do Canadá, Toronto.
Depois de mais caminhada, continuava sem conseguir ver o Sol por trás das nuvens que cobriam o céu, o dia se escurecia mais, e finalmente estávamos chegando ao ponto marcado, um prédio alto e arruinado pelo abandono e pela guerra. Empunhando firmemente minha arma, fiz um sinal para meu parceiro e continuamos em frente, entramos no saguão, começando a longa subida pelas escadas que levavam até o terraço. Chegando lá, mais uma vez me deitei segurando a Barrett, olhando por sua luneta procurando por qualquer sinal de movimento. Fazia três dias que eu não dormia mais que uma hora, e meus olhos protestavam ao comando de continuarem abertos e focados, enquanto conseguia ouvir perto dali meu parceiro chamando nossa carona, um helicóptero de transporte de codinome “War Bird”.
- Vinte minutos é o tempo estimado, mas ficaremos atentos. Ainda estamos sendo caçados. – Disse ele pra mim, enquanto parava perto de mim para me ajudar a montar guarda.
Vinte minutos a mais parecia uma eternidade, eu realmente me sentia exausto. Meu corpo doía, e cada músculo parecia cada vez mais perto de se romper, até que um aviso fez com que tudo isso não importasse mais – Dois atiradores inimigos se movendo às dez horas!
No momento que isso foi dito, eu encontrei meu foco novamente, rapidamente vasculhando a minha visão por uma pista de onde estavam, e o reflexo fraco do sol na luneta de um dos soldados inimigos o denunciou em meio à neve, o também significava que ele estava mirando em minha direção, e mirei rapidamente por instinto, apertando o gatilho e ouvindo novamente o som da explosão da pólvora e da cápsula metálica caindo ao meu lado, e observei a bala chegar ao seu alvo, que se coloriu de vermelho, se destacando da neve.
Meu coração começou a bater mais rápido com a adrenalina do combate, e mais ainda começou a passar pelas minhas veias depois que um clarão no fim da rua que acabávamos de ter andado, seguido de um pedaço do pequeno muro em que eu estava encostado voando após o impacto da bala no mesmo.
Abaixei minha cabeça instintivamente após aquilo, mas levantei-a novamente para poder olhar a luneta em busca do local de onde veio o clarão. Olhando a neve na rua abaixo, nada se destacava mais do que a mancha avermelhada no corpo do meu outro alvo abatido, porém um movimento brusco foi o bastante para distinguir o outro soldado da neve, que se esgueirava para longe da posição que entregara com seu tiro que errou.
Colocando minha mira na posição rapidamente, atirei em direção ao meu segundo alvo, meu terceiro abate naquele dia, e a bala o atingiu em cheio, sendo que o impacto foi tão forte que uma grande quantidade de sangue se esparramou pela neve atrás dele. Respirei fundo, e comecei a me levantar.
- Tainter, quantos minutos faltam para o War Bird chegar?
Não houve resposta por parte do meu parceiro.
- Tainter?
Olhei para trás, e então corri em direção a meu parceiro caído, o qual segurava seu braço ferido. O projétil que tinha atingido o muro não era para mim, mas sim para ele.
Um ferimento de raspão. Mas isso me fez lembrar que eu apenas dei sorte.
Sorte de não ser um dos três que cruzaram minha mira hoje.
Notas finais
Enfim, espero que tenham curtido esse prólogo õ/ Planejo escrever mais se vocês gostarem mesmo desse começo do enredo.
Obrigado por ler!
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