At The Ballet
26 O que eu fiz por amor
Notas iniciais
Meados do segundo mês
Rachel havia pedido para que Felícia deixasse que fosse sozinha pra a escola naquela sexta-feira. Relutante e desconfiada, Felícia deixou que John a levasse sozinha. Rachel achava que estavam todos dormindo quando saiu sorrateiramente de seu quarto. Contudo, ela conseguiu ver Santana passando pelo corredor muito cedo quando a mesma estava andando em círculos, nervosa.
–O que você está fazendo acordada? -perguntou Rachel baixinho. Santana escorregou pelo susto que tomara. Rachel ajudou-a a ficar de pé e esperou a explicação.
–Eu estava no banheiro. -disse Santana arrumando os sapatos, tentando desviar do olhar de Rachel. -Pare de me olhar assim.
–Tudo bem, eu apenas perguntei. -disse Rachel lhe dando um sorriso. Santana lhe deu um sorriso pequeno e bocejou.
–Eu vou voltar a dormir. Apenas não comente com a mamãe que eu tenho ido ao banheiro com tanta frequência.
–Por que não?
–Hã... Porque ela pode achar que é uma doença e eu não quero que ela se preocupe. -disse Santana correndo para o seu quarto e deitando debaixo das cobertas frias que ficaram solitárias durante a noite inteira.
Rachel realmente não fazia questão de entregar Santana, ela própria ia fazer algo que não contaria para sua mãe. Nem sobre certas circunstâncias.
–John, deverá seguir até o fim dessa rua e virar até a próxima rodovia. Nós vamos ter que fazer algo um pouco longe da escola.
–Senhorita, você não tem permissão de...
Rachel o interrompeu. -Você está certo, mas se eu não for minha vida pode estar acabada, John.
–Tenho certeza que não é algo tão grave.
–É grave, mas temos diferenças quanto a isso, hã? Eu sei que temos. Você não entenderia o quão importante é um sonho. Ou entenderia, John? Somos feitos de sonhos, não somos? Quais são os seus sonhos? Tenho certeza que ser o motorista da nossa família não devia ser sua primeira opção.
–Não me entenda errado, senhorita. Eu adoro trabalhar para a família Kutterin e não os deixaria no momento, mas você está certa. Eu nunca quis ser apenas um motorista. Eu tive um sonho tão grade que ele me alimentava nas noites de fome.
Rachel sorriu. Ela o havia persuadido. -Veja a importância, John! Não deixe que apenas a ideia desse sonho me alimente. Deixe o sonho me alimentar!
–Sua mãe não iria gostar...
–Por favor! Minha mãe está se importando com assuntos mais fúteis. Não quer deixar a cama. Está assim pela Santana e por um momento, sinto como todos os natais e aniversários. Acho que existe muito contras em ser a irmã do meio. Uma transição para a relação entre as outras duas irmãs. Apenas outra filha para os pais. Sem amigos na escola...
–Tudo bem! Eu entendi. Seguimos até o fim?
–Até o fim.
Rachel ficou em silêncio e limpava a garganta o quanto podia. Apenas abria a boca para instruir John. Eles chegaram numa estação de rádio. Era gigantesca! Parecia quase como se quatro casas enormes estivem lado à lado. John ficou impressionado por alguns segundos antes de ver alguém acenando e sorrindo escandalosamente. "Onde diabos essa menina se meteu?"
–Menina! Como você está? -perguntou o homem. John o olhou estranho e apertou sua mão apreensivo. -Prazer senhor. Prazer senhor Kutterin.
–Ele não é o meu pai, senhor Bloom. -disse Rachel rindo. -Esse é o John. Um amigo.
–Então, prazer John. -disse o senhor sorrindo. Ele coçava a barriga e a careca ao mesmo tempo. Ele era rechonchudo e achatado. O anel de ouro no dedo anelar estava quase sumindo pelas dobras que o cobriam. E tinha um cheiro estranho, como se tivesse queijo derretido por todo o corpo. -Meu nome é Billy Bloom, da estação de rádio Bloom. Pronta para hoje, coração?
–Eu nasci pronta, senhor Bloom. -Rachel o acompanhou até as entranhas do prédio. Entraram numa sala pequena com uma mesa cheia de papeis com letras de música e no fundo estava um pequeno estúdio de gravação.
–Gravamos fora da rota de barulhos. -comentou Bloom. Ele estava recolhendo alguns papeis da mesa. -Esperem um pouquinho.
Ele gritou da porta e um menino apareceu. Rachel o olhou por alguns segundos até piscar os olhos. O menino sorriu para ela, arrancou-lhe até o último suspiro.
–Thomas, essa é a Rachel. Nossa nova locutora. Quero dizer, ela está aqui para fazer um teste. -disse Bloom. -Rachel, este é o meu sobrinho e seu sonoplasta.
–Prazer. -disse Thomas segurando a mão fina de Rachel e depositando um beijo.
–Galante. -comentou Bloom rindo. -Antes de você soltar essa voz, estrela, preciso lhe fazer algumas perguntas. Primeira. Você está consciente desse tipo de trabalho?
–Sim. -respondeu Rachel olhando para Bloom que se sentou na cadeira de veludo.
–Seus pais assinaram o papel?
Rachel lhe entregou o papel e sorriu. Sua mãe enlouqueceria se soubesse que ela falsificou sua assinatura. Seu pai, num primeiro momento, ficaria impressionado por conseguir copiar exatamente a assinatura de um banqueiro popular e bastante rico. E depois ficaria desapontado, como o próprio dever de pai mandava. -Eles estão bastante empolgados, senhor Bloom.
–Isso é ótimo, princesa. -disse Bloom abrindo seu terno que estava com os botões no máximo. -Você sabe que é difícil fazer alguém falar e mostrar isso para o mundo, não sabe?
Rachel ficou um pouco sentida de como Bloom esperava que ela fosse idiota. -Quer dizer, transmitir sons com uma perfeita sonoridade? Sei sim.
Thomas começou a rir. Ele estava em pé atrás do tio, tentando controlar as gargalhadas prendendo-as na garganta.
–Boa menina. -disse senhor Bloom olhando para Rachel com um pouco mais de maturidade. -Você vai fazer um teste para a Mrs. Fitz.
–A marca de farinha?
–Sim! -disse Bloom rindo. -Não é ótimo? Imagine! Mulheres estão em casa, fazendo absolutamente nada, como sempre fazem, e escutam sua doce voz. Elas fazem filas! Eles ganham dinheiro, nós ganhamos dinheiro! É um ótimo negócio!
–Mas eu achei... -Rachel perdeu o sorriso. -Não é um pouco... rude? Quero dizer, tanto que eu posso falar! Esses abalos europeus que estão acontecendo!
–Eu tenho um equipe muito bem montada para trazer a notícia em primeira mão! -disse Bloom como se se ofendesse e achasse que fosse um brincadeira. -Mas é claro que você sabe disso.
–Eu apenas achei que eu poderia fazer parte dessa equipe.
–Princesa, não me entenda mal. Mulheres compram comida. Homens: notícias. Mulheres compram o que mulheres vendem. Homens não compram o que mulheres vendem, não se estiverem vestidas.
–Tio. -repreendeu Thomas olhando-o. -Acho que ela já entendeu.
–Homens não iram acreditar mesmo na mínima notícia, nem mesmo os que estarão em combate, se eu colocar uma mulher para falar. E eu preciso de lucros. Resultados!
–Rachel, você sabe que não precisa... -indicou Thomas a olhando. Era um aviso que não daria para qualquer um.
Rachel sorriu para ele, docilmente. Então, com os olhos mortíferos olhou para o senhor Bloom. -E onde eu assino?
Billy Bloom se encostou na cadeira satisfeito. Rachel olhou para Thomas e acolheu um pouco os ombros.
Diane estava sentada na varanda com uma xícara de chá e olhos bem atentos ao jornal. Era uma edição matinal que Lalita pedira especialmente para lhe entregarem. Ela havia ido para o jornal cedíssimo e deixou Diane que estava dormindo. Diane olhou para o céu cinzento como uma massa uniforme e despejou más palavras sobre aquele dia. Ela jogou o resto no chá no jardim e entrou para dentro de casa. Emily passou rapidamente pela escada e Diane a olhou. Se esgueirou até a cozinha tentando achar o que procurava. Deixou cair uma pesada panela quando alcançou a garrafinha pequena.
–Senhora, não! -disse Emily rapidamente tirando as mãos ossudas de Diane da garrafinha. -A senhora prometeu!
–Eu não posso passar esse dia sóbria. -resmungou Diane com olhos pedintes. Emily quase lhe esbofeteou a cara, mas respirou fundo e jogou o líquido âmbar na pia. -Não são nem nove horas da manhã para a senhora ficar bêbada.
–Emily. -disse Diane exasperada. -Olha para mim! Eu não consigo! Você me conhece a muito tempo...
–Tempo o bastante para lembrar que hoje é o dia especial da Senhora Lalita. -Emily levantou a sobrancelha esquerda. -Eu escondi suas bebidas. Você terá que ficar sóbria.
–Eu não posso!
–Por que você não acha um novo significado para esse dia? Lalita vai receber um prêmio, porque não usufrui desse novo significado?
–Eu estou maravilhosamente feliz pela Lali, mas você não entende. Um pesadelo nunca vai embora.
–O seu se foi, à muitos anos. E se ele ainda te assombra é por sua causa.
–A culpa é minha? -perguntou Diane olhando para a garrafinha vazia sobre a mesa.
–É claro que não, Diane. Você não tem culpa, mas enquanto ele viver na sua cabeça, ele vai viver para sempre.
–E você espere que eu fique sóbria?
Emily riu. Ela tirou outra garrafinha do avental. Deu um gole e fez um careta feia enquanto despejava o líquido na pia. -Espero.
–Assanhada. -disse Diane revirando os olhos e rindo. -Eu vou me deitar.
–Eu troquei as toalhas do banheiro. Você deveria tomar um banho para pensar um pouco.
–Não posso tomar um banho nesse frio, Emily.
–Eu fervo a água.
–Você acha que irá chover, Emily? -perguntou Diane brincando com os dedos. -Eu gostaria que chovesse. Em todos esses anos, sempre nesse dia, o céu fica cinza.
–Hoje faz parte de um ano diferente. -Emily sorriu pondo a chaleira no fogo. -Se chover, algo está lhe dizendo para seguir em frente.
Diane a olhou antes de subir as escadas até o seu quarto e se deitar por alguns minutos antes de ouvir a batida na porta. Um vapor umedecia o quarto quando Emily entrou e despejou a água na banheira de porcelana. Ela abriu um pouco a torneira esperando a água fria cair até que se misturasse com a quente formando uma temperatura ideal e suportável. Diane se despiu e sentiu o frio transpassar seu corpo como uma faca antes de se deitar na banheira e suspirar aliviada.
Quando a água atingiu uma coloração cinza pelo sabão que usava, ela se lembrou do céu no exterior e misturas de cenas irrompiam sua mente. O filme estava a rodar novamente e ela, como sempre, não o podia parar. Eram cenas do qual ela tentava escapar, mas eram inevitáveis e sempre lutavam por seus pensamentos. Ela, que já estava ficando mais velha, misturava as cenas e os cenários e os diálogos. Ela não se lembrava tão bem das coisas, mas de algumas ela poderia sentir até o cheiro. Algumas muito boas, sem a menor das dúvidas. E apenas uma ruim.
"Diane ouviu a porta sendo fechada com força e grunhidos. Ela tocou o outro lado da cama a procura de Jean, mas a cama estava vazia e ela começou a tremer. Buscou de baixo da cama, a arma que pertencia a Jean e silenciosamente deixou o quarto.
–Mamãe, o que está acontecendo? -perguntou a jovem Joanne, era magra e ingênua e coçava os olhinhos.
–Acalme sua irmã. -pediu Diane escondendo a arma. -Vá para dentro e não saia até eu dizer que pode. Você me entendeu?
Joanne assentiu nervosa e entrou no quarto, fechando a porta. Diane destravou a arma e desceu até os grunhidos que aumentavam. Ela desceu até onde a sombra da escada permitia. Eles moravam numa casa pequena, onde qualquer barulho poderia ser ouvido não importasse de onde estavam. Ela começou a ouvir um choro alto e percebeu que era Jean. Ela destravou a arma e entrou na sala. Jean estava de joelhos no chão, chorando sobre um corpo ensaguentado.
–Jean! Por que você voltou com essa mulher para cá? Eu já não falei que depois daquele dia era para ela ir embora? Eu já aguentei demais. Leve ela embora!
–Isso é culpa sua. -disse Jean se levantando e indicando o corpo inerte. Ela percebeu que ele estava bêbado, mas muito ciente e brutal. -Você a matou.
–Ela está morta? -perguntou Diane com nojo. -A tire daqui!
Jean empurrou Diane no chão e recolheu a arma.
–Isso é meu. -disse Jean apontando a arma para Diane. Ela a chutou e Diane levou a mão até sua costela. Ele continuou a dar chutes e ela não chorou uma vez que fosse. A arma já fora esquecida e ele sentia prazer em ouvir as exclamações de Diane. -Isso é por você a ter matado, sua vadia.
–Eu não sou a vadia aqui. E eu não a matei. Foi apenas sorte. -Jean a chutou na cabeça e ela ficou inconsciente por algumas horas.
Diane ficou num limbo que ainda podia ver se parasse de pensar. Ela pensava numa veia sanguínea. Imaginava o sangue percorrendo os vasos, sendo bombardeado pelo coração, fazendo o caminho novamente e tudo com apenas uma batida. Ela não conhecia muito sobre corações porque ninguém podia abrir um corpo e estudar o coração batendo, não quando ela ainda era enfermeira. Quando ela acordou, depois das horas inconscientes ela já havia decidido e não iria mais ser enfermeira. Mas essa não era a única decisão que havia feito naquela tarde."
–Senhora, já terminou?
Diane levantou o rosto ainda centrada no pensamento. -Já sim, obrigada Emily.
Diane se levantou e Emily colocou o roupão em seu corpo. Diane caminhou até sua cama e se deitou, ainda molhada.
–Senhora, por favor. Coloque algo quente para não resfriar.
–Emily, fará alguma diferença?
–Você não quer ficar com o nariz vermelho hoje a noite, quer?
Diane sorriu convencida. -Tudo bem, Emily. Você foi buscar o meu vestido?
–Eles vão entregar pela tarde. -avisou Emily deixando os pijamas em cima da cama e puxando Diane para fora da cama. -Você está bem misteriosa sobre esse vestido.
–Não é qualquer vestido. Acho que é por isso. -disse Diane se despindo. -Eu ganhei de aniversário de uma amiga e ela fez especialmente para mim. Cada detalhe.
–Deve ser lindo, senhora. -disse Emily docilmente. -Vocês vão ficar tão lindas.
–Obrigada, Emily. -disse Diane se deitando na cama. Ela tentou descansar, mas o "filme" ainda corria.
–Santana! Acorda! -Joanne escancarou a porta e a garganta fazendo Santana acordar cansada. Joanne estava magra com olheiras profundas e roxas, a pele estava esticada sobre os ossos da clavícula. -Agora!
Santana se levantou e caminhou até Joanne. Ela viu Brittany parada no hall da escada. -Isso é idiotice.
Joanne apenas abraçou os ombros de Santana e levou as duas até a copa, por onde entrava a cor sem graça que era o cinza.
–Você está animada por hoje, Brittany? -perguntou Joanne. Ela fez as meninas se sentarem em polos opostos das mesas. Santana revirou os olhos.
–Sim, senhora. -confirmou Brittany com um sorriso.
–E deve mesmo! Isso é um momento muito importante na sua vida. Talvez o mais importante.
Brittany apenas assentiu e o café na manhã terminou num silêncio absoluto e constrangedor.
–Vocês podem me dar licença? -perguntou Brittany deixando sua torrada pela metade e subindo as escadas. Ela estava se sentindo mal e não sabia muito bem o motivo, mas ela tinha ido direto para a sala de dança e ficado por um tempo apenas sentada com a cabeça nos joelhos.
–Por que você finge que gosta dela? -perguntou Santana quando Brittany deixou a copa.
–Eu não estou fingindo, eu gosto dela. Mas não gosto do que ela tem ou o que ela escolheu ser.
–Mãe, por favor. Apenas não faça nada com ela. Ela não merece.
–Eu não mereço! -gritou Joanne. Ela recolheu os ombros e sentiu os olhos se perderem. -Você era perfeita...
–Parece que ninguém é perfeito. -disse Santana deixando a copa e ignorando os pedidos de sua mãe para que ficasse. Ela foi direto ao estúdio de dança. Trancou a porta e se sentou ao lado de Brittany.
–Sant, você não pode continuar a enfrentar a sua mãe. -disse Brittany segurando a mão de Santana.
–Eu quero apenas que ela entenda.
–Mas não vai ser assim. -Brittany lhe sorriu tristemente e beijou os lábios imóveis de Santana. -Você não quer me contar o que aconteceu?
–Ela disse que não gosta do que você escolheu ser.
Brittany se sentiu culpada pelo problema estar em torno de si. Não é como se sentisse em casa, mas havia esses pequenos momentos que ela se sentia uma intrusa e desajustada. Como se não pertencesse ali e achava que de fato não pertencia. Ela ficava extremamente feliz por estar com Santana, mas aquilo estava muito diferente do que esperava.
–Eu não escolhi ser assim. -disse Brittany tocando a face de Santana. -Mas se eu pudesse escolher, eu ainda escolheria me apaixonar por você.
Santana sorriu e abaixou a cabeça. Brittany levantou o rosto de Santana com dois dedos e a beijou. O beijo quente que lhe faltavam.
–Podemos esquecer a minha mãe por alguns minutos? -perguntou Santana olhando nos olhos azuis.
–Eu sinceramente não sei como ela ainda não está aqui pedindo para que abríssemos a porta.
–Não duvide. -Brittany riu. -Você quer passar aquela parte da dança que você trocou o giro en dehors?
–Eu não sei se eu devo.
–Seu pé está bem melhor. -relembrou Santana.
–Eu sei, mas e se eu cair de novo?
–Você não vai! Porque você tem os pés mais firmes que eu já vi.
–Você me viu cair, eu não tenho os pés mais firmes que você já viu.
–Eu vou dançar com você. -disse Santana se levantando. -Você não queria? Se você fizer o giro certo, eu danço com você e ainda ganha um beijo.
Brittany sorriu. -E se eu for bem no meu teste? -Brittany se levantou com ajuda de Santana.
–Se você for bem no seu teste? -perguntou Santana puxando o corpo de Brittany contra o seu e sussurrou em seu ouvido. -Então eu vou fazer muitas coisas.
Brittany se arrepiou e Santana riu. -Então acho que tenho que ir muito bem.
Santana a girou. A gargalhada de Brittany enchia aquele lugar de vida e Santana se deliciava com aquilo.
Quando o almoço se aproximava, John levou Brittany até Royal Ballet. Ela havia ido sozinha e passou o caminho sentada no canto do carro pensando nos passos, mas quando elas começou a confundir ela desistiu de pensar ficou olhando o caminho. Santana tinha se despedido dela na sala de dança onde lhe desejou boa sorte e todos os tipos de boas vibrações, Brittany agradeceu e Joanne a acompanhou até a porta. Ela tocou a bochecha e ainda podia sentir os lábios de Santana contra a sua pele. Ela queria gritar. Era difícil de aguentar muito mais do que as avisaram. Ter que se esconder, sentir Santana deixando a cama de manhã cedo, fingir que nada acontecia. Ela queria gritar! Mas não podia.
–Senhorita Grant. Chegamos. -John abriu a porta do carro e Brittany saiu do carro. O vento passava por seu corpo e balançava seu vestido. Ela estava com a roupa de Ballet separadas em sua bolsa. -Boa sorte, senhorita.
–Obrigada, John. -disse Brittany sorrindo.
–Eu vou buscar a senhorita Kutterin e no caminho, eu volto para pegar a senhorita.
Brittany agradeceu. Ela sorriu, por um primeiro momento, fantasiando que John fosse buscar Santana, mas a lógica lhe deu boas vindas e ela sabia que se tratava de Rachel. -Tudo bem, John.
O prédio era três vezes maior do que a Academia e Brittany ficou impressionada com a arquitetura. Ela pode ver algumas bailarinas que fumavam na rua com seus números já grudados na roupa. Ela não fazia ideia do que a esperava. Ela pegou seu número e foi se aquecer no estúdio designado. Era uma sala com quarenta bailarinas e Brittany via seus saltos e giros e piruetas e pensou logo em procurar seu lugar na barra e começar. Algumas bailarinas eram medíocres, outras extremamente perfeitas. Por um segundo, Brittany achou que não poderia nem sequer tentar. Ela deixou a barra e olhou para o grande relógio em cima da janela de vidro. Ela inda tinha vinte minutos e ela começou a caminhar a Royal até encontrar um banheiro. Ela vomitou o pouco do café da manhã e limpou a boca. Ela estava de collant com uma saia e os checou para ver se estavam em ordem. Se olhou no espelho e tapou a boca que queria gritar. Se encostou na cabine e escorreu até o chão. Respirou fundo e saiu da cabine. Buscou por suas sapatilhas na bolsa e a apertava delicadamente a parte dura. Um papel rosa caiu sobre seu pé descalço e ela recolheu. Estava em nanquim com a letra de Santana. "Eu te amo! Você nasceu para fazer isso, nunca se esqueça."
Ela caminhou, com as sapatilhas já nos pés, e voltou para o seu lugar na barra. Ela não teve mais dúvidas.
–Atenção! -chamou uma mulher com uma postura exata. Ela havia falado alto para que todas se calassem e a olhassem. -Sejam bem vindas. Eu queria começar com alguns avisos. Primeiro, enquanto esperam o senhor Marseille, eu repassarei a coreografia principal. Vocês devem ter reparado que você estão num numero maior do que o esperado. O primeiro corte tirará vinte de vocês. As outras vinte seguirão para um teste particular. Apenas cinco entraram na Royal Ballet. Vocês sabem como procede os testes. Préparer!
Brittany alinhou a postura, ficou na primeira posição, alinhou seu quadril com os ombros e esperou as ordens que vieram em segundos. Quando era a vez de reproduzir, um homem desceu as escadas e começou a olha-las. Ele parecia bastante crítico, mas Brittany apenas repetia a coreografia tentando dar a emoção que sentia. Depois da primeira vez, ele chamou cinco números.
–Vocês estão cortadas. -disse o homem com sotaque francês bem forte. -Continuer!
As cinco bailarinas saíram chorando. Brittany iniciou a mesma dança e viu de relance, enquanto "batia cabeça", o homem no outro lado da sala. Ele cortou mais seis bailarinas e Brittany respirava aliviada. Dançaram outra vez e qualquer atraso, respiro dado fora de hora, pé para dentro, ela estaria cortada. Ele olhou para as bailarias e cortou mais três. Agora, ele caminhava para perto da barra de Brittany. Cortou duas e uma chegou a cair de tão chocada, mas deixou logo que recebeu um olhar desprezível do senhor. O pianista recomeçou a tocar as mesmas teclas e as bailarinas a dançar os mesmo passos. O senhor Marseille cortou apenas uma, mas pediu que não começassem direto. Ele olhou e seus olhos pararam nos azuis de Brittany. Ele não olhou desprezível para ela e isso era como um sorriso. Cortou a menina atrás de Brittany e uma ao lado. A tortura com as vinte bailarinas havia acabado, mas a pressão não havia nem começado. Brittany ficou numa sala de ballet convencional enquanto ao lado estava tendo os testes
particulares. Ela treinava as mãos na barra e a força dos pés ao mesmo tempo. Seis meninas já haviam ido e quando voltavam pareciam ainda mais nervosas.
–Número vinte e três! -chamou a mulher de postura dura. -Número vinte e três.
Brittany correu com sua bolsa e acompanhou a mulher até a sala ao lado. Ela tirou os papeis assinados pela senhora Palender e deixou em cima da mesa quadrada com o diretor, senhor Marseille, e outros três professores.
–Você é a Brittany? -perguntou a professora da ponta. -Sua diretora recomenda você para nós faz alguns anos. Ela esperou até a idade certa para esse teste.
–Sou eu sim, senhora. -disse Brittany com um sorriso pequeno. A professora trocou olhares com os outros professores e sorriu. O senhor Marseille ficava em silêncio, prestando atenção nos mínimos detalhes de Brittany.
–Brittany, você já teve algum ligamento rompido, algo que te impedisse de dançar por um tempo muito longo?
–Não, senhora. -Brittany respondeu. A professora anotou algo em um papel.
–Você pode soltar os cabelos? -perguntou o professor ao lado do diretor.
Brittany puxou os cabelos para baixo e arrumou com os grampos enquanto a observavam.
–Nos mostre o máximo de piruetas que consegue fazer. -Brittany arrumou a linha e fez trinta piruetas sem cambalear, cair ou olhar para um ponto que não fosse a mancha na parede.
–Impressionante. -disse a professora na ponta. -Brittany...
–Por que o ballet? -perguntou o senhor Marseille. Ele não havia aberto a boca até aquele momento e pela reação dos professores, não era algo normal de acontecer.
–É o que eu amo fazer, senhor. -respondeu Brittany num sorriso involuntário. -É o que nasci para fazer.
O diretor assentiu e mandou que Brittany começasse. Ela levou a partitura até o pianista que sorriu com a escolha. Era calma e tranquila. Ela se alinhou enquanto o pianista dedilhava Sonata ao luar. Brittany respirou fundo e se esqueceu de todos os problemas que a incomodava. Ela partiu para um lugar exclusivo que criava enquanto dançava.
Quando terminou, ela se levantou e olhou para os professores. A mulher estava com a boca um pouco aberta e os outros dois professores pareciam ter gostado. O que mais lhe intrigou foi a reação do diretor. Serena e calma, sem nenhum reação de fúria ou prazer aparente.
–Os nomes serão liberados no quadro do estúdio dez. -avisou a mulher balançando a cabeça. Brittany agradeceu com uma reverência e saiu da sala. Ela caminhou até a sala convencional e se deitou no chão, exausta mentalmente.
Lalita estava terminado de fechar o vestido de Diane quando Emily anunciou que o carro havia chegado. Ela deixou as duas sozinhas em seguida.
–Você está tão linda, Diane. -disse Lalita sorrindo. Ela passou a mão pelos cabelos curtos de Diane e sorriu.
–Você já se olhou no espelho, moça? -perguntou Diane rindo. -Olhe para você! Você está divina!
Lalita beijou os lábios de Diane rapidamente e sorriu ainda sobre os lábios. Lhe estendeu a mão e desceram juntas até o carro. Elas ficaram de mãos dadas no carro e Diane ainda estava tentando parecer calma, mas estava nervosa. O céu já escurecia e o dia demorava a passar como anos atrás, como todos os anos nesse mesmo dia. Lalita a olhou e segurou sua mão mais forte, Diane sorriu e voltou a olhar para o caminho. Era um jantar no Plaza e ficava longe de onde Diane e Lalita moravam.
–Emily falou que você não bebeu nada. -disse Lalita a questionando com os olhos. -Isso faz parte daqueles assuntos misteriosos?
–Faz, mas hoje é o seu dia. -avisou Diane levando a sua outra mão ao emaranhado de mãos. -E é apenas com isso que temos que nos preocupar.
–Diane, isso apenas um jantar. Se você está mal, eu quero que você me diga o que está acontecendo para poder te ajudar. Eu não vou ser feliz se você não estiver.
–Eu prometo te contar, mas mais tarde.
Lalita assentiu e levou a mão de Diane aos lábios.
–Hoje nós vamos até o bar do Plaza. Você precisa de uma bebida e eu também. -Diane assentiu.
"Para, por favor!" Diane tentava mandar em sua própria mente, mas apenas o fato de tentarmos esquecer é algo que nos faz lembrar.
"Diane estava tendo dificuldade para dormir porque acabara de chegar de um plantão que havia feito no hospital e teve que cuidar de uma menina doente que não parava de gritar. Ela ainda podia escutar o som irritante e fixo e constante da menina. Ela estava atordoada e quando chegou, Jean não estava em casa. Ela havia estranho um pouco, mas as meninas já estavam na cama e adormeciam. Ela estava sentada na cama com aquela voz estridente gritante, massageando a têmpora para amenizar a dor. Ela ouviu a porta sendo aberta com força e Jean gritando por ajuda. Ela desceu rapidamente e viu que ele trazia uma mulher quase nua nos braços.
–O que é isso, Jean?
–Me ajude, por favor! -ele pediu. Deixou a mulher no sofá e ela parecia estar dormindo, mas ela não sabia o que esperar. -Ela desmaiou e eu não sei o que fazer.
–E você espera que eu ajude? Quem é essa mulher, Jean?
–É uma amiga.
–Você acha que eu sou estúpida? Por que você a trouxe para cá? Qual é o seu problema, desgraçado?
Jean pegou o braço de Diane e a empurrou na parede. -Você vai me ajudar?
Diane se calou e caminhou até a mulher. Ela não podia acreditar no que acontecia. -Ela apenas desmaiou. Sugiro que você leve sua amiga para casa e enfie água goela a baixo. Espere ela acordar e empurre pão.
–Ela estava dançando e caiu e eu não soube o que fazer...
–CALA A MERDA DA SUA BOCA! -Diane gritou. -Eu não quero saber... Outra dançarina? Você é um canalha sem pé nem cabeça. Você é doente se acha que vai trazer esse tipo de mulher para dentro da minha casa.
–Minha casa. -rosnou Jean. -E ela vai dormir aqui, ela não em casa.
–A pobre madame não tem casa? -perguntou Diane irônica. -Vê se dá próxima vez trás alguma que não tenha sarna.
Jean lhe bofeteou a cara. Diane sentiu o sangue na boca e olhou para o marido. Aquele casamento já estava estragado a muito tempo, mas ele não via. Ela queria tanto deixar tudo e fugir. Mas não podia. Ela estava odiando aquelas mulheres, ela não sentia mais pena como aconteceu no outro bordel. Naquele momento, Jean tinha cruzado todos os limites possíveis e aquilo já não era mais saudável. Para ninguém. Diane rezou, mas não adiantava. Jean continuou a chegar bêbado em casa e trazendo aquela mulher. Todas as noites. Todos os dias. Ela se ajoelhava até os joelhos ficarem vermelhos, mas nada acontecia e tudo parecia piorar."
–Querida! -chamou Lalita rindo. Diane abriu os olhos e percebeu que o carro estava parado e alguém as esperava. O céu já estava escuro e foi a primeira coisa que Diane notou quando saiu do carro. Elas seguiram direto ao salão do Plaza e quando entraram, Lalita foi recebida com palmas que começaram lentas até ser único som. Um homem intelectualizado fez o discurso de abertura e anunciou todos os projetos que Lalita havia feito. A respectiva inteira da vida jornalística de Lalita. Ele pediu que ela fosse receber o prêmio. Diane apertou sua mão uma última vez e sorriu até onde não podia. Lalita andou até o palco e as palmas a acompanharam.
–Durante a minha carreira, eu nunca pensei que chegaria a receber um prêmio. Eu trabalhei com tantas pessoas extraordinárias que merecem esse prêmio tanto ou até mais do que eu. Eu nunca acreditei que um dia eu poderia estar fazendo algo que amo tanto, que é informar as pessoas. Fazer o desconhecido se tornar conhecido. Sabem, acho que todos gostam de pensar no que gostariam de ter feito ou se poderiam fazer melhor. Eu não me arrependo de um segundo da minha vida, bem, talvez um. De correr atrás do amor quando minha pernas ainda podiam correr. -A maioria levantou uma risada. -Mas a gente acaba andando até esse amor. E ele é magnífico. -Diane a olhou sorrindo. -Também tentamos focar muito no que nos espera no futuro. Eu nunca me preocupei muito com isso, para ser honesta. Mas de algo deve funcionar, porque pela primeira vez na minha vida eu fui recebida por palmas. Vocês não sabem o peso que é ser uma mulher no controle de algo e ser valorizada, por isso ser recebida para esse prêmio é inacreditável. E eu quero dedicar esse prêmio a uma pessoa que um dia me deu um espelho e esperou que eu visse eu mesma. E eu vi uma jornalista e a pessoa que eu era a quarenta anos atrás. -Lalita sorriu para Diane enquanto as vozes riam naturalmente. Não era comum que ouvissem piadas. -Então, tudo começou com um espelho e terminou com um aplauso. Eu esperei até esse momento especial para declarar que eu vou me aposentar do jornal. -Murmúrios foram gerados. -Eu apenas queria agradecer por tudo que cada um de vocês fez por mim e por acreditar em mim. -ela focalizou em Diane. -Desde o início.
Lalita deixou o palco segurando o prêmio, que era um homem meio curvado, recebendo ainda os aplausos e euforia. O homem voltou ao palco para falar ainda da carreira de Lalita antes de anunciar o jantar, Diane a recebeu com palmas silenciosas. Lalita riu e se sentou ao lado de Diane. Elas ficaram até o fim e Lalita puxou Diane até o bar, as duas iam rindo.
–Você não me disse que ia se aposentar!
–Era para ser uma surpresa. Surpresa!
Diane revirou os olhos rindo e pediu dois martínis. -Você foi tão bem!
–Obrigada. Acho que enlouqueci eles um pouco.
–Você sempre fala isso quando tem que falar em público.
–É porque parece verdade. Minha voz não é insuportável?
–Sua voz é doce. É claro que não. -Lalita beija a mão de Diane.
–Lalita! Minha amiga! -disse um senhor com uma bengala. -Estava te procurando. Boa noite, senhora!
Diane sorriu para o senhor e o cumprimentou. Lalita começou a falar com o homem que não parecia deixar o lugar antes de falar com Lalita. Diane engolia a bebida antes de voltar a pensar no que aconteceu.
"Diane havia bebido naquele dia. Mas ela tinha um motivo. Ela voltou para casa, depois de um dia inteiro de plantão e quando entrou no quarto, a dançarina estava deitada e roncando como pedra. Jean estava saindo do banho e Diane quis alcançar a arma debaixo da cama, mas Jean se ajoelhou na frente dela e pediu perdão. Pediu que Diane trouxesse algum remédio, que a dançarina estava mal e ele não sabia o que era. Diane voltou para o hospital no mesmo momento, mas não para buscar o maldito remédio, ela passou no bar e tomou o conseguiu para que a deixasse estúpida o bastante. Ela voltou para o hospital e buscou qualquer frasco de remédio, escondida. Voltou para casa e encontrou Jean abraçado a dançarina. Ela cuspiu no chão e entregou os remédios. Ela não fazia ideia do que estava fazendo. Jean pediu que ela fizesse já que ela sabia como fazer. Ele entrou no banheiro e era possível escutar seu choro. Diane acordou a dançarina e a primeira coisa que ela falou diretamente foi: "Eu vou me casar com Jean e levar suas
filhas embora." Diane socou a cara da dançarina que cuspiu sangue. Ela deixou três comprimidos e ela não fazia ideia se era a dosagem certa.
–Não tem água, pode engolir com sangue. -disse Diane.
Diane nunca soube do que aquela dançarina morreu, mas não sentiu sua falta. Ela apenas sabia que não tinha nada a ver com a morte dela, como pensava. Talvez os remédios tivessem-na deixado sem sentidos e alguém a matou, mas fora seu marido que havia pedido os comprimidos. O hospital não comentou sobre o assunto, mas Diane pediu a carta de afastamento mesmo assim. Ela não se via tão capaz de voltar num lugar de respeito. Ela havia mandado Jean embora e ela deixou-a com as meninas. Anos depois, ela havia descoberto que ele havia morrido de pneumonia. Ela dizia que era de desgosto."
–Está no hora do senhor ir. -disse o medido que segurava um guarda-chuva negro. -Eu já avisei seu motorista.
–Tenho mesmo? -perguntou o senhor. O menino assentiu. -Querida Lalita, foi um prazer te ver. E um prazer te conhecer Diane.
–Obrigada. -disse Diane com a voz falha. Lalita acenou. Diane de repente percebeu algo fora do comum. -Está chovendo?
–Sim. -disse Lalita olhando para as grandes janelas na lateral do bar.
–Vamos sair daqui! -disse Diane. -Vamos correr e nunca mais parar.
Diane puxou Lalita que derramou a bebida no chão e foram correndo até a rua. Chovia muito que era quase algo sólido de se ver. Diane correu até a rua, sem se importar com o vestido que seria secado por alguém especializado, e girou contra as gotas. Durante vinte e cinco anos, nunca choveu nesse dia. Mas naquele dia chovia. Lalita se juntou a ela e ficaram sentindo as gotas pesadas contra o corpo. A chuva que caia sobre seu corpo era como fogo em sua mente. O fogo que derretia o o filme, finalmente. Diane beijou Lalita por a amar verdadeiramente.
Naquela noite, Emily deixou as garrafas de bebida sobre a cama delas, onde Diane não precisou de nenhuma gota para contar tudo que prometera.
Santana ficou a tarde inteira na estúdio. Quase no fim da tarde, ela ficou na janela olhando para o mundo fora de sua casa. Ela conseguiu ouvir Rachel avisar a mãe delas que já estava em casa, mas Joanne estava dormindo. Ela esperou Brittany onde prometera. Em pé, no meio da sala de dança. Demorou alguns minutos para que ela ouvisse a porta da biblioteca sendo aberta. Brittany abriu a porta da sala de dança e tinha uma postura cabisbaixa e o rosto estava escondido. Santana apenas a abraçou e beijou seus lábios.
–Britt.
–Espera, Sant. -disse Brittany a olhando. -Eu nunca iria conseguir passar por aquilo sem você. Muito obrigada por me suportar e por ficar na minha mente enquanto eu dançava e pelo bilhete que me ajudou muito. -Brittany arrumou a postura e deixou a bolsa cair no chão. -Eu te amo. E foi por você que eu consegui!
Brittany sorriu sendo esmagada por Santana que deu um grito. -Parabéns! Brittany, estou tão orgulhosa de você! Britt! Você irá para faculdade de ballet! Britt! Isso é maravilhoso. Isso é... Britt.
Santana mal respirava direito. -Você não tem ideia de quão assustador foi.
–Mas você passou! Me conta como foi! Tudo! Eles falaram algo sobre você, eles te elogiaram? Céus, Britt! Você vai para a faculdade!
–Eu conto sim, mas espere apenas um segundo. -Brittany agarrou Santana e beijou seus lábios. As mãos a puxavam contra seu corpo. -Você prometeu.
–Prometi? -perguntou Santana rindo. Ela beijou os lábios de Brittany.
–Eu te amo. -disseram juntas e riram. Elas se beijaram novamente quando houve o estouro. A porta foi arrancada com fúria e Joanne as viu se beijando. Ela olhou de uma para outra antes de desmaiar. E a última coisa que ouviu foi o grito de Santana.
Quando acordou, ela estava deitada na cama e e o seu lado estava George. Quando ela acordou ele logo ajudou que levantasse e falasse. Ela bateu a cabeça e sentiu um curativo embaixo da orelha.
–Você está bem? -perguntou George.
Joanne assentiu antes se lembrar da cena anterior ao desmaio.
–Onde está Santana?
–Ela está bem, se recusa a contar o que houve. -disse George ajeitando os travesseiros na cama. -E o que aconteceu, Joanne? Santana ficou assustada e não parou de chorar até eu chegar em casa. Ela ligou para o médico e ele disse que foi apenas um desmaio.
–Não foi nada, George. -garantiu Joanne. -Foi um mal estar, acho. Eu esqueci de comer hoje. Deve ter sido isso.
Para ela havia sido o máximo. Quando ela achava que existia, ela tinha uma esperança de que aquilo não fosse real. Mas no momento que se provou, não podia fazer mais nada. Ou poderia? Ela sempre poderia. Ela disse que ia ao banheiro. Todos os quartos estavam com a porta fechada e ela caminhou até o escritório de George. Trancou a porta e discou para o central de telefonia. Disse o nome de com quem queria falar e elas logo acharam.
–Você precisa vir busca-la. -Joanne desligou o telefone em seguida. Ela ficou o resto da noite trancada no escritório.
Santana implorou que Brittany dormisse com ela porque ela estava se sentindo mal. Brittany teve receito porque afinal o motivo de Joanne ter desmaiado era dela. Ou não? Ela esperou Santana dormir e apenas assim adormeceu.
Quando o dia amanheceu, Santana foi a primeira a acordar. Ela ficou o máximo que conseguiu até Brittany acordar.
–Eu estou com medo de encara-la. -sussurrou Santana.
–Seja forte, Sant. -disse Brittany lhe tocando a face. -Seja forte.
–Eu estou tentando, mas é tão difícil. -disse Santana se encolhendo no abraço de Brittany.
–Vou fazer uma promessa. -disse Brittany. -Se algo de ruim acontecer, você e eu vamos fugir. Para bem longe.
Santana riu. -Não conseguiríamos.
–É, talvez. Mas é uma promessa. -Brittany levantou o dedinho mindinho.
–As promessas sérias são seladas com um beijo. -disse Santana beijando levemente os lábios de Brittany.
Alguém bateu na porta do quarto e era Elizabeth. Santana deixou que ela entrasse. -Sant, mamãe pediu que Brittany descesse para conversar. Ela pediu que você não descesse, Sant, mas eu acho que deveria.
Brittany tremeu, mas se levantou e calçou os sapatos. Beth deixou o quarto e Brittany tirou a camisola e colocou um vestido simples. Ela desceu e Santana dois passos atrás. Quando chegou ao pé da escada, notou um corpo rígido sentado na ponta do sofá e viu Joanne sentada no outro sofá. Brittany congelou, mas era tarde demais e Joanne já a havia visto.
–Brittany. -disse Joanne. Ela e a moça se levantaram. -Eu acho que nosso convívio está dificultando várias razões.
A moça se virou e Santana se prendeu na frente de Brittany.
–SAIA! -ela gritava. -SAI DAQUI! MÃE! POR FAVOR! A DEIXE AQUI! POR FAVOR!
Joanne puxou Santana para longe de Brittany como um animal. Ela estava chorando e gritando, estava sendo arrancada de longe de Brittany.
–MÃE, POR FAVOR! ME DESCULPA! NÃO A DEIXE COM ELA. POR FAVOR.
Joanne trancou Santana no armário longe da escada. Santana batia na porta tentando abri-la. Ela chorava sem se importar.
–Estou fazendo isso porque te amo mais que tudo, Santana. -disse Joanne saindo de perto da porta.
Brittany estava sendo segurada pela moça, mas ela não fazia nada. Sabia que não adiantaria. Ela tentou apenas se livrar da moça, porque ela sabia que enquanto estivesse ali, Santana sofreria.
–Sua mala já está no carro, docinho. -disse a moça.
–Por favor, não finja que gosta de mim. -cuspiu Brittany. Ela viu Joanne caminhando em sua direção. -Não finjam que se importem ou que querem nosso melhor. Vocês não fazem ideia do que estão fazendo.
–Perdoe minha sobrinha. -disse Julieta sorrindo. -Fico feliz que Santana tenha uma mãe que se importa com ela a esse ponto.
–VOCÊS NÃO ENXERGAM! POR QUE? -Brittany já chorava. Ela se virou para Joanne. -Não a trate menos do que ela merece. E EU A AMO.
Brittany gritou o bastante para que Santana ouvisse. Ela ouviu e sentiu seu coração se quebrar em dois, quatro, oito, trinta e dois pedaços. E ela sentia como se não batesse direito.
Julieta deixou a casa com uma Brittany chorona. Brittany dizia que não podia ser entendida, mas era. Julieta, com as lembranças fortes, se tornou menos solidária e educada e mais sádica e psicótica. Ela faria o que fosse para que Brittany se tornasse normal. Se Julieta conseguiu, por que não Brittany?
Havia apenas um problema com que as pessoas fazem por amor. Existe uma diferença invisível entre amor e ódio, e muitas vezes os dois estão mascarados. Nos tornamos mais... o que? Descobrimos... o que? Vivemos... o que? O que nós fizemos por amor?
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