At 7 a.m
5 Capítulo 4
— Você não vai mesmo me dizer para onde estamos indo? – Jesse perguntou assim que adentrou no veículo parado a frente de seu prédio.
— Não. Afinal, faria diferença? Você iria de qualquer jeito. – Lake sorriu e acelerou o carro.
— Convencide. – O rapaz pensou alto.
A outra deu de ombros e aumentou a música que tocava no rádio, sincronizado com as playlists de seu celular. Era uma mistura de indie rock, folk e relacionados. Jesse não reclamou. Curtia qualquer estilo de música.
— Ei, você está usando a blusa que eu escolhi! – Exclamou ele, notando que elu não estava usando o casaco de couro de sempre.
— E você a que eu escolhi. – Disse sem tirar os olhos da estrada.
Ele sorriu. Continuaram a viagem em silêncio, por vezes cantando juntos as músicas que soavam do rádio e rindo, se divertindo com a companhia um do outro.
Pararam no meio da viagem para abastecer em um posto a beira da estrada.
— Vai me dizer que também não sabe como abastecer? – Ê garote abriu a porta. O rapaz negou com a cabeça, sem graça. – Ok. Vou te ensinar. – Saiu do carro e o outro a seguiu.
Ela o estendeu a mangueira de combustível. Ele pegou com receio e colocou no carro.
— Espero não explodir o posto. – O rapaz disse tentando ser cômico, mas o medo em sua voz era maior.
Ela riu. – Não vai! Olha só, tá conseguindo. – Apontou para o visor da bomba, onde mostrava que estava sendo abastecido e informava o preço logo acima. – Vou pagando enquanto isso. Não exploda nada até eu voltar! – Ordenou divertida. O garoto deu um riso nervoso em resposta.
Aguardou. Quando notou que o tanque estava cheio, retirou a mangueira e devolveu-a a bomba receoso. Ela retornou não muito tempo depois, segurando dois pacotes de doces.
Ao se aproximar, ofereceu a que estava comendo. Ele aceitou, e ao colocar na boca, rapidamente notou que era uma daquelas balinhas ácidas e fez uma careta, o que fez a motorista rir.
— Sabia que não gostava dessas. Toma. – Ofereceu o outro pacote, com as mesmas balas só que sem a acidez.
— Como sabia que eu gostava dessas? – Ele perguntou quando adentraram no veículo.
— Não sabia, mas todo mundo gosta delas. Só imaginei que você preferisse as que não fossem azedas. – Elu apontou para o pacote dele enquanto colocava o cinto.
Ele suspirou.
— Só queria ser misterioso que nem você. – O garoto abriu o pacote e foi comendo as balinhas de uma a uma.
— Como é? – Elu sorriu. – Eu? Misteriose?
— É! Eu não sei muita coisa sobre você. – Ele relatou.
— E por que gostaria de saber? Minha vida não é muito interessante. – Ela ligou o carro e retomou a viagem.
— Sei lá, tenho curiosidade. – Respondeu dando de ombros.
Lake pensou por um momento. Talvez, elu também tivesse um pouco de curiosidade.
— E a sua vida? É interessante? – Perguntou.
Jesse a olhou com os olhos brilhando. Pelo resto da viagem, ele contou a elu da sua história. De seu irmão mais novo Nate e de como sentia sua falta estando longe. Da infância e adolescência que passara no Arizona. Das férias de verão que o marcaram e até da aprovação da faculdade e de sua vida como universitário.
Elu o escutou pacientemente. Por vezes rindo com ele quando contava dos momentos engraçados.
Chegaram no destino não muito tempo depois. A história do rapaz de certa forma auxiliou a viagem a parecer mais rápida.
— Onde é aqui? – ele questionou quando adentraram uma rua sem asfalto. No lugar das árvores coníferas, havia um campo de flores de várias cores e uma floresta mais ao longe.
— Meio que uma parada obrigatória pra qualquer ume que trabalhe com fotografia. Tem flores, florestas, até um lago. – Informou.
O rapaz a observou com um olhar divertido, esperando que ela risse do trocadilho.
— Não diga nada. – Elu estacionou logo a frente de uma loja de recordações. Havia vários broches, chaveiros e ímãs sobre a natureza que ali havia.
— Podemos... – ele começou.
— Depois. – Saiu e fechou a porta antes que ele terminasse. Pegou a bolsa com sua câmera no banco de trás logo em seguida. – Vem. – Puxou o rapaz que analisava a vitrine do lugar pela mão. Ele notou o contato de imediato.
A mão delu era fria.
Lake recolheu a mão quando decidiu um bom local no campo de flores que os rodeava para começar a tirar as fotografias. Analisava o ambiente em silêncio e ajustava a câmera conforme achava necessário.
Tirou fotos do céu azul com poucas nuvens, do campo de flores com as árvores ao fundo, das flores com todos os seus detalhes.
Desviou seu olhar para Jesse que observava o lugar com um sorriso. Estava apreciando a natureza. Sentia paz estando ali. Só percebeu que a garota havia tirado uma foto dele depois do clique.
— Ei! – Protestou, mas não parecia irritado com isso. – Virei seu modelo definitivo agora?
Elu sorriu. – Tipo isso. – E mais um clique.
Enquanto elu analisava as fotos, ele colheu uma das flores, uma tulipa vermelha e estendeu a ela.
Ela ergueu o olhar, confusa.
— Pra você. – Ele sorriu.
— Valeu... – Ela pegou a flor e a colocou atrás da orelha, sentindo as bochechas corarem.
— Sabe, daria uma ótima foto sua agora.
Elu o olhou nos olhos, como se cogitasse sua proposta. Cedeu e entregou a câmera a ele.
— Cuide como se fosse sua vida. – Disse, como uma ameaça.
Ele arregalou os olhos. — Você pode ser bem assustadora as vezes. – Pensou alto.
Elu mostrou a língua em sinal de desacordo e sorriu.
Tirou uma foto quando notou que ela estava pronta e posicionada onde queria. Observou a foto que tirara enquanto retirava a câmera da frente do olho e só então voltou seu olhar para a garota. Entretanto, elu ainda estava lá. Parecia absorta em seus pensamentos.
Repentinamente, elu virou para ele.
— Ei, tive uma ideia. Eu vou girar, e quando estiver de costas, você tira a foto.
Ele assentiu e elu retornou a sua posição de antes e então girou. No momento certo, ele pressionou o botão. A garota correu até ele para ver o resultado e sorriu. A foto estava com ela imaginara. A blusa de flanela com a barra esvoaçando com o vento e os braços abertos, como se remetesse a liberdade.
— Ficou muito bom. Daria uma boa capa de álbum musical. – Ele levou um soquinho no braço. – Ai! Que foi?
— Vamos. – Foi na frente, se dirigindo para a floresta. Ele correu para acompanhá-la e segurou sua mão.
Ela pareceu em choque por um momento, mas nada disse.
Enquanto caminhavam, para preencher o silêncio, Jesse começou a cantarolar uma canção que acabara de criar, ainda pensando nas estrofes. Não tinha ritmo, nem rimas, mas não se importou.
— Em um passeio para um campo de flores, árvores e lagos... Para tirar fotos... Com alguém que conheci no metrô!
Achou que ê garote o repreenderia a qualquer momento. Pelo contrário, elu continuou quando ele parou.
— E essa música não tem ritmo então ela é horrível! – cantarolou e ambos riram. – Eu pensaria duas vezes antes de fazer você meu produtor e compositor do meu álbum musical. – brincou.
— Esperta decisão. – concordou ele.
Chegaram à beira do lago e logo desentrelaçaram as mãos para que ela tirasse as fotos. Enquanto ela o fazia, o rapaz aproveitou para explorar a floresta que havia ao redor.
— Ei Jesse. – elu o chamou assim que concluiu as fotos da paisagem. Tinha mais algumas ideias, mas para isso seria necessário a presença de seu modelo. – Jesse? – chamou de novo, após não achá-lo por perto.
Passou a procurá-lo pela floresta, e não demorou muito para que o encontrasse.
— O que está fazendo?! – disparou ao vê-lo acariciando a cabeça de um cervo de cauda branca. O animal parecia manso, porém de qualquer forma continuava sendo selvagem.
— Fazendo um amigo! – respondeu tranquilamente. – Conheça o Alan Dracula! – ele o apresentou a ela com os braços estendidos. O animal bufou, como se estivesse cumprimentando. – Igual a sua pelúcia, mas de verdade! – Ele mal conseguia conter o sorriso estampado em seu rosto.
— Ele é selvagem! Não podemos simplesmente sair fazendo carinho assim. – Exclamou ela.
— Mas ele é diferente. Olha. – ele acariciou a testa do animal e depois o queixo. O mesmo fechou os olhos, parecendo gostar do cafuné.
Ela se aproximou relutante. Esperou que o garoto terminasse seu momento com o animal para que ela o tocasse. Quando o tocou, o cervo aproximou o rosto lentamente na direção dela, como se a dissesse que não precisava sentir medo.
Elu riu de leve. – Você tem o pelo bem macio. – Conversou com o animal, que não respondeu. – Nunca imaginei que ficaria amigue de um cervo. – pensou alto.
— Nem eu. Mas é legal né? Queria poder levá-lo pra casa. – Jesse murmurou e a garota revirou os olhos. Só ele para pensar que poderia levar um animal daquele porte pro seu apartamento.
— Acho que eu poderia tirar umas fotos suas com ele, ou só com ele, se ele não se importar. – o cervo permaneceu imóvel enquanto recebia carinho do rapaz, levando a entender que não havia problema.
Ele assentiu e Lake começou a fotografar, tomando o cuidando de não utilizar o flash para não assustar nem machucar a visão do cervo. Com isso, cerca de meia hora se passou rapidamente.
— Terminado. – Ê garote retirou a câmera do foco de um dos olhos e ajeitou sua postura. – Por mim o cervo já poderia substituir você. – brincou.
— Ah qual é! Poderíamos ser colegas modelo, o que acha Alan? – O animal abaixou a cabeça para pastar a grama que ali havia. – Viu? Ele concorda.
— Como sabe que ele está falando isso?
— Eu só sei. Temos uma conexão muito especial. – Ele abraçou o cervo, que não reagiu.
Ela sorriu e se aproximou novamente do animal para acariciá-lo.
— Sinto dizer isso, mas já tirei todas as fotos que eu queria e não quero chegar tarde em casa. – Murmurou. Temia que o cervo pudesse ficar triste cedo fossem embora tão rápido. Uma parte de si achava isso uma besteira. Ignorou esse pensamento.
— Não imaginei que você se importasse de chegar tarde em casa. – o garoto sorriu.
— E não me importo! – disparou a outra. – Só quero editar essas fotos ainda hoje.
— Ah... Tendi. – Jesse estendeu a mão para acariciar a parte de trás do pescoço do animal, olhando para ela com um olhar divertido.
Elu revirou os olhos.
— Podemos voltar aqui semana que vem pra ver ele. – Apontou para o cervo com a cabeça.
— Então quer dizer que gostou dele! Sabia que não resistiria a essa carinha. – O rapaz sorriu.
— Mas não vou chamá-lo de Alan Dracula. – Afirmou.
— Eu ainda vou te convencer de que Alan Dracula é um nome incrível. – Ele pensou alto.
— Vai sonhando. Vamos. Você quer passar na loja ainda não é? – Elu guardou sua câmera na bolsa.
— É... – Ele abraçou o cervo. O outro pareceu não entender. – Tchau amigão. Até mais. – Correu para acompanhá-la.
— Que tal apostarmos uma corrida? Quem perder paga o que quer que seja que você queira comprar lá. – Ela propôs.
— Certo. – os dois se posicionaram.
— Já! – Lake disparou, mas ao contrário dele, elu não correu em direção a loja. Esperou que o rapaz se distanciasse o suficiente para que pudesse retornar até onde o cervo pastava para abraçá-lo rapidamente para em seguida cumprir com seu desafio.
Algo no animal chamava sua atenção. Entretanto não queria parecer sensível perto do garoto.
Chegou à frente da loja não muito depois de Jesse. Ele ainda estava ofegante da corrida.
— Eu... Ganhei! – Ele se recompôs. – Prepare-se para comprar uma daquelas placas de carro com o seu nome!
— Sabe que em hipótese alguma eu compraria um negócio desses, né? — Elu cruzou os braços.
— Valeu a tentativa. – Sorriu e adentrou na construção.
A fotógrafa entrou logo depois, observando os produtos que havia no balcão do caixa.
— Procurando por algo, gata? – Uma mulher com traços felinos surgiu detrás do mesmo.
— Só vendo. Valeu.
— E aquele que está com você? É seu namorado? – Ela se debruçou pelo móvel com um sorriso convencido.
— O que? Não! Não. – Elu corou.
— O que estão falando? – Jesse se aproximou segurando menos lembrancinhas do que ê garote imaginava que ele pegaria. – Ah, oi! Sou o Jesse. – Ele se apresentou para a comerciante.
— Sam. – Ela informou. Esperou que ê garote se apresentasse, e após não receber nada em resposta, começou a passar os produtos que o garoto escolhera no caixa.
— Do que estavam falando? – Ele perguntou assim que adentraram no carro.
— Nada importante. – Retrucou, tentando disfarçar as bochechas ruborizadas.
O rapaz pensou em brincar com ela, mas preferiu manter o silêncio. O máximo que fez foi ligar o rádio baixinho, para que escutassem na viagem de volta.
Jesse acabou adormecendo por alguns minutos. Lake aproveitou para observá-lo, de vez em quando, sem tirar muita da atenção na estrada.
“Até que ele é ajeitadinho.”, pensou e sorriu. Apesar da frase nem sempre ser positiva, ela estava sendo sincera.
Chegaram no prédio do garoto não muito tempo depois. Ele acordou com um susto após ela lhe dar um peteleco na testa.
— Chegamos. – Notificou.
— Ah... – Ele murmurou e saiu do carro para recolher sua mala no banco de trás. Ê garote saiu logo depois, contornando o veículo para encontrá-lo no lado da calçada.
— Obrigado pela viagem. Foi bem divertido! – Ele disse com um sorriso genuíno. – Então semana que vem vamos de novo? Senão o Alan Dracula vai sentir minha falta!
Elu deixou escapar um riso.
— Claro.
Ficaram em um silêncio constrangedor por alguns segundos. O que deveriam fazer? Dar apenas um aceno e tchau?
Repentinamente, Jesse a abraçou.
— Valeu mesmo.
A garota ficou surpresa com o gesto, dando batidinhas nas costas dele.
— Não precisa agradecer.
Saíram do abraço e o garoto logo se despediu e adentrou seu prédio.
Lake permaneceu ali por um tempo, ainda processando o que ocorrera. Caso elu estivesse começando a ter sentimentos por ele, ele retribuiria? Afastou os devaneios e se encaminhou de volta para casa.
—--
Jesse estava indo dormir quando resolveu checar o perfil de rede social da garota. Ela era ágil, pois já havia postado as fotos que tiraram no dia. Nas que ele aparecia, elu o marcou. Curioso com os comentários, resolveu dar uma olhada nos comentários.
“Ele é seu namorado? Ele é lindo!”
“Vocês estão namorando? Vocês são tão fofos juntes!”
O rapaz bloqueou a tela e colocou o celular na mesa da cabeceira, sentindo suas bochechas esquentarem. Preferiu evitar pensar nisso para conseguir dormir. Se reunisse coragem o suficiente, poderia falar a elu o que sentia no dia seguinte.
Fale com o autor