At 7 a.m

3 Capítulo 2


Ao Jesse entrar no metrô, encontrou Lake não muito distante da porta que entrara. Ao notar que o assento ao seu lado estava vazio, sentou-se ali.

— Não vai ouvir música hoje? – Ele pergunta. É a primeira vez que a vê sem os fones.

— Nah. – Lake inclinava a cabeça para trás, as mãos nos bolsos do casaco. Sua bolsa descansava perto de seus pés.

— Para onde vai? – Continuou.

— Prometeu que não iria perguntar mais nada. – Ê outre sorriu.

— Ah, é. Verdade. – Jesse se acomodou no assento. Não deveria ter feito a promessa. Tinha mais algumas perguntas a fazer.

— Tem algo marcado pra domingo? – Dessa vez, é ela quem pergunta.

— Não. – Ele se segurou para não questionar o porquê.

— Sabe dirigir?

— Um pouco.

— Certo. Onde você mora?

— Não vou dar meu endereço pra você. – Ele responde rapidamente.

Elu ri. – Esperto.

Não dizem nada até chegarem ao destino.

— Até. – Lake se despede e se junta a multidão apressada para cumprirem seus deveres. Jesse vai em seguida, tentando processar porque elu perguntara aquelas coisas e não dissera nada depois.

No fundo, gostava desse mistério.

Recebeu uma mensagem da garota assim que saiu do auditório. Sua cabeça ainda estava desnorteada de tantas informações que recebeu durante a palestra. Mesmo assim, conseguiu ver a notificação de que ela já estava esperando por ele.

Estava a caminho da estação quando ouviu uma voz familiar.

— Sua faculdade é bem bonita. – Lake comenta, levando a câmera ao olho direito e tirando uma foto dele com um clique.

— Não sou a faculdade, mas sei que sou bonito também. – Ele faz uma pose de modelo exagerada.

— Idiota. – Elu ri. – Só estou aproveitando a iluminação e o fundo.

Ele sorri, cansado.

— Nossa. Estudou demais? – Ele assente. – Você deveria sair pra beber, se divertir, sei lá.

— Não posso beber ainda. – Ele tentou se convencer.

— Isso não quer dizer que não queira. Né? – Elu ergue uma sobrancelha, sugestive.

Antes que se dê conta, ambos vão até a loja de conveniência mais próxima.

— Fica aqui. – Ela ordena.

— Eu vou junto.

— Você tem um RG falso?

— Não..?

— Então você fica. – E ela entra no estabelecimento.

Ela volta poucos minutos depois, segurando uma sacola com duas latas de cerveja e alguns pacotinhos de chocolate.

— Por que do chocolate? – Ele indaga assim que elu o entrega a lata com os chocolates.

— Dizem que açúcar ajuda a cortar um pouco do efeito do álcool. Não quero ter que ficar te puxando por aí se ficar bêbado demais. – Lake abre a lata fazendo um estalo e vira a lata logo um seguida. Faz uma careta, mas Jesse nada diz.

Ele abre a dele e toma um gole, receoso. É amargo, mas a sensação de tomar é interessante. Ele bebe mais um pouco.

— Ei, calma aí. Lembra que se ficar bêbado vou te deixar jogado em algum beco. – Elu relembra. Jesse não sabe dizer se está brincando ou não.

— Não vou, relaxa. – Ele guarda os chocolates no bolso da jaqueta e vai levando a lata em uma das mãos.

— Então... O que teve hoje pra você ficar assim? – Ela puxa conversa enquanto caminham.

— Palestra. São boas, mas drenam muito da minha energia. – Ele dá mais um gole.

— Ah. Talvez eu tivesse que ter comprado um energético. Se quiser eu posso... – Ela começa a dar meia volta para retornar à conveniência, mas ele segura sua mão.

— Não precisa. De verdade. Valeu. – Ele sorri. Os olhos parecem menos cansados.

— Tá. – Ele desvencilha a mão da dela e recolhe para o bolso. Elu faz o mesmo.

— Não vai tirar mais fotos hoje? – Jesse pergunta.

Ela faz que não com a cabeça. – Já tirei bastante. Se tirar demais vou passar eras carregando elas pro computador.

— Você posta elas em algum lugar?

— Aham. Empresta seu celular? – Ele dá a ela sem hesitar. Ela digita algo e mostra a ele. – Aqui.

Ele desliza o dedo de baixo para cima explorando o feed de fotos dela. São poucas, quase nulas, aquelas em que ela aparece.

— Por que não tira fotos suas?

Elu dá de ombros. – Tem outras coisas mais interessantes pra fotografar.

— Mas você é interessante! – Ela se assusta com o elogio. Não estava acostumada a recebê-los. – É você quem tira fotos ótimas, e se elas são você também é.

— Cala a boca. – A outra dispara.

— Sério! Quer ver? Conheço um lugar para tirar uma foto sua. E além disso, vai ser uma foto tirada pelo fotógrafo internacionalmente conhecido Jesse Cosay! – Ele deu o último gole na cerveja.

— É... Sobre isso, melhor deixar isso aqui longe de você da próxima vez. – Elu recolhe a lata que ele segurava dele e a joga no primeiro lixo que encontra.

Ele caminha na frente, ansioso para encontrar o local que ele recomendou. Quando o acha, exclama um “Tcharam!” com os braços estendidos.

Era um grafite de asas na parede de tijolos do prédio, com um pequeno espaço entre elas onde a pessoa deveria se posicionar.

— Ah, não. Isso é brega. – Lake argumenta.

— Qual é! Vai ficar legal. Me dá sua câmera. – Ela, que segurava a câmera com ambas as mãos mesmo que estivesse pendurada em seu pescoço, a entregou. Foi apenas quando ele já se ajeitava para segura-la que percebeu que não devia ter entregado sua câmera de grande valor para um quase conhecido possível e levemente alterado pelo álcool.

— Quer saber, não é uma boa ideia. – Elu tentou pegá-la de novo, mas Jesse já parecia ter se familiarizado com ela.

— Agora que já estamos aqui? Não mesmo. Vai lá, faz uma pose, algo assim! – Ele ergueu a câmera ao olho, procurando por ela na lente para colocá-la no foco.

Lake se posicionou, sem jeito. Nunca havia sido fotografada por outra pessoa. Nem nas fotos que tirava de si sentia que estava confiante o bastante. Suspirou, tentando reunir autoestima. Seu instinto fora de aproximar-se o máximo da parede e colocar um de seus pés nela, dobrando a perna para frente. Colocou as mãos no bolso do casaco de couro e olhou para o lado, tentando parecer natural.

Não demorou nem mais um segundo antes que ouvisse o clique característico.

— Você ao menos estudou a iluminação e o ângulo antes? – perguntou e correu pegar a câmera de volta.

— Nah. – Jesse afirma, sincero.

Elu analisou a foto com atenção. O pior é que não tinha ficado ruim. Na verdade, estava ótima. O enquadramento certo, a iluminação e o ângulo bons. Devia admitir, estava surpresa com o resultado.

— Uau, ficou incrível. – Deixou escapar. Não tentou disfarçar depois.

— Yes! – Jesse comemorou puxando o braço para si.

Ela riu e lhe deu um soquinho no braço. Ele riu também.

— Tá ficando tarde. Nos vemos amanhã? – Ele perguntou.

A outra assentiu. Ficaram uns segundos sem saber como proceder.

— Tchau, então. – Ele acenou e andou para a estação.

—--

Poucos antes de dormir, Jesse checou o Instagram e a primeira coisa que notou foi uma notificação do perfil de Lake. Ao clicá-lo, percebeu que ela havia postado não apenas a foto que tirara dela, como também algumas fotos que ela tirara dele no dia anterior. Havia marcado ele em ambas as postagens.

Adormeceu sorrindo naquela noite.