Até você voltar

11 O Tipo de Dor Que Volta Sem Avisar


O dia ficou chuvoso inteiro.

Daqueles dias cinzas em que o tempo parece acompanhar exatamente o que acontece dentro da gente.

Eu passei o sábado olhando para o celular como uma idiota, esperando alguma mensagem que nunca chegava. Às vezes desbloqueava a tela sem nem perceber, só para confirmar que continuava vazio.

Nada do Bernardo.

Nenhum “chegou bem?”

Nenhuma piada.

Nenhuma mensagem impulsiva.

Só o relógio andando devagar demais.

Tentei me distrair com séries, filmes, qualquer coisa que ocupasse minha cabeça. Mas eu não conseguia focar em absolutamente nada. Colocava alguma coisa para assistir e, minutos depois, já estava mexendo nas redes sociais sem realmente prestar atenção.

Meu corpo estava em casa.

Minha cabeça não.

Em algum momento acabei me jogando no sofá.

E senti o cheiro dele.

Fechei os olhos imediatamente.

O perfume ainda estava ali, fraco, misturado ao tecido.

Meu coração apertou de uma forma ridícula.

Fiquei alguns segundos parada, sentindo aquele cheiro e pensando em tudo que tinha acontecido nas últimas horas.

No elevador.

No carro.

Na mão dele no meu rosto.

No jeito que ele me olhava como se eu fosse algo importante.

E então minha mente foi direto para Derick.

Para tudo que vivi.

Para tudo que deu errado.

Para o medo absurdo de estar entrando em algo complicado demais outra vez.

Passei a mão no rosto tentando afastar os pensamentos.

Mas o “e se…” continuava ali.

E se eu estivesse me enganando?

E se Bernardo fosse só intensidade momentânea?

E se eu estivesse confundindo carência com sentimento?

E se ele cansasse?

Meu telefone vibrou em cima da mesa, me tirando dos pensamentos.

Peguei rapidamente.

Ane.

“Ei, bora tomar umas e esquecer todas.”

Acabei rindo na hora.

Era exatamente uma mensagem que ela mandaria.

Fiquei alguns segundos olhando para a tela antes de responder.

Talvez sair fosse melhor do que continuar presa dentro da própria cabeça.

Tomei um banho rápido, coloquei uma roupa simples, mas arrumada o suficiente para Ane não reclamar, e fui encontrar com ela no barzinho que tinha mandado localização.

Assim que entrei no lugar, ouvi a voz dela imediatamente.

— Ei, Beca!

Sorri ao encontrá-la numa mesa mais ao fundo.

— Oi, Ane. Impressionante como sempre estamos cercadas por gente do trabalho.

Ela começou a rir.

— Mas esse lugar vive cheio do pessoal da empresa. Peguei a dica com o Eric, do outro setor.

Ergui uma sobrancelha imediatamente.

— Aquele que você tava trocando ideia?

Ane abriu um sorriso cheio de malícia.

— Sim. Inclusive… vim aqui com ele.

Comecei a rir.

— Você realmente não perde tempo.

Ela apontou pra mim dramaticamente.

— E você perde tempo demais.

Pegamos drinks e começamos a conversar.

Ane tinha uma capacidade impressionante de flertar apenas com olhares. Em menos de vinte minutos ela já tinha trocado sorrisos com metade do bar e conseguido arrancar o Instagram de alguém sem sair da cadeira.

Eu ria das besteiras dela, mas minha mente continuava inquieta.

Em vários momentos tive vontade de contar sobre a noite com Bernardo.

Sobre ele dormindo no meu sofá.

Sobre o café da manhã.

Sobre o jeito que ele me olhava.

Mas alguma coisa me impedia.

Parecia cedo demais para transformar aquilo em palavras.

Ou talvez real demais.

— Ei. Ei! — Ane me cutucou de repente.

— O quê? Fala comigo.

Ela discretamente apontou para o outro lado do bar.

— É o Bernardo ali?

Meu coração disparou antes mesmo de olhar.

Virei devagar.

E senti meu corpo gelar.

Era ele.

Bernardo estava sentado numa mesa perto do balcão.

Mas não sozinho.

Julia estava com ele.

Muito perto dele.

Rindo de alguma coisa enquanto segurava o braço dele com intimidade demais.

Meu estômago afundou instantaneamente.

— É a Julia? — Ane perguntou baixo.

Assenti sem conseguir responder direito.

Na mesma hora senti a bebida subir amarga pela garganta.

Meu corpo ficou estranho.

Frio.

Distante.

Como se eu tivesse saído de mim mesma por alguns segundos.

Mas eu estava esperando o quê exatamente?

Bernardo nunca me prometeu nada.

Nós não tínhamos nada.

Nada além de olhares, conversas intensas e uma madrugada confusa.

Mesmo assim… doeu.

Porque eu tinha acreditado.

Porque uma parte minha realmente achou que aquilo entre nós era diferente.

E agora eu me sentia ridícula por isso.

Decepcionada.

Mais uma vez.

Respirei fundo tentando manter a postura.

— Ane, eu vou embora.

Ela me olhou imediatamente.

— Mas já?

Forcei um sorriso fraco.

— Acho que prefiro minhas séries e filmes mesmo.

Ela percebeu na hora.

E eu odiei isso.

Porque significava que minha expressão entregava tudo.

Levantei tentando parecer tranquila.

Mas minha cabeça girava.

Meu peito doía.

E eu me sentia estúpida por estar tão afetada.

Foi então que ouvi uma voz perto da mesa deles.

— É a Beca? Aquela sua amiga?

Julia.

Meu nome atravessou o bar inteiro.

E automaticamente meu olhar encontrou o dele.

Bernardo já estava me olhando.

Como se tivesse me percebido ali desde o começo.

Mas eu não consegui sustentar.

Virei imediatamente e segui em direção à saída.

Precisava ir embora antes que meu orgulho quebrasse de vez.

A chuva fina batia na calçada lá fora enquanto eu tentava chamar um carro pelo celular com as mãos tremendo discretamente.

Foi então que senti alguém segurar meu braço.

E depois minha mão.

Meu corpo inteiro reagiu no mesmo instante.

— Beca.

Bernardo.

Fechei os olhos rapidamente antes de virar.

— Bernardo… — falei tentando soar indiferente. — Não deixa sua amiga sozinha.

Ele franziu a testa imediatamente.

— Não é o que você tá pensando.

Soltei uma risada sem humor.

— Eu não tô pensando em absolutamente nada.

Os olhos dele me analisavam intensamente.

Como se tentasse entender o que eu estava sentindo antes mesmo de eu dizer.

— Então por que você tá indo embora?

Respirei fundo.

E senti meu peito apertar outra vez.

— Porque agora eu tive certeza.

Ele aproximou um pouco mais o rosto, confuso.

— Certeza do quê?

Olhei diretamente para ele dessa vez.

Mesmo doendo.

— Que isso não vai funcionar.

Os olhos dele endureceram levemente.

— Por causa da Julia?

— Bernardo… chega. Tá todo mundo olhando. Chega.

Minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria.

Levantei a mão fazendo sinal para um táxi que passava naquele momento.

Antes que ele pudesse me impedir, entrei rapidamente no carro.

Fechei a porta tentando ignorar a sensação horrível no peito.

Mas antes do motorista arrancar, ouvi a voz dele do lado de fora.

Firme.

Baixa.

Perigosa.

— Eu te vejo na sua casa.