Até você voltar
7 O Que Existe Entre Nós
— Ei, vocês estão bem? O elevador parou. — a voz metálica do interfone ecoou pelo espaço pequeno, interrompendo o silêncio mais intenso da minha vida.
Bernardo passou a mão no rosto rapidamente, respirando fundo antes de responder:
— Acionei sem querer o botão, amigo. Desculpa.
— Sem problemas. Boa noite. — respondeu o técnico.
O som desligou.
E o silêncio voltou.
Mas agora parecia ainda pior.
Mais pesado.
Mais íntimo.
Bernardo engoliu seco. Eu tentei controlar a respiração, mas meu coração batia tão forte que eu tinha certeza de que ele conseguia ouvir.
Meu corpo inteiro queimava.
E ele continuava me olhando.
Aqueles olhos azuis me atravessavam de um jeito que me deixava completamente sem defesa.
As portas do elevador finalmente se abriram no térreo.
Saí primeiro, quase fugindo daquela proximidade sufocante. Meus passos eram rápidos demais para alguém tentando parecer calma.
Mas eu sentia ele vindo atrás de mim.
— Posso te levar em casa? — perguntou.
Parei imediatamente.
Virei devagar.
— Acho…
— Prometo que não vou falar mais nada. — ele me interrompeu antes mesmo que eu terminasse.
Suspirei nervosa.
— Você mora perto. Eu moro longe. E você bebeu.
A preocupação na minha voz saiu sincera.
Bernardo deu um pequeno passo na minha direção.
— Deixa eu cuidar de você.
Meu coração apertou de novo.
Porque ele falava aquilo com tanta verdade que era difícil continuar criando distância.
Fechei os olhos por um segundo antes de assentir.
— Tudo bem.
Caminhamos em silêncio até o estacionamento.
O som dos nossos passos ecoava pelo local vazio enquanto eu tentava desesperadamente organizar meus pensamentos.
Mas era impossível.
Não depois daquela conversa.
Não depois do jeito que ele me olhou.
Bernardo destravou o carro e abriu a porta para mim. Entrei devagar, sentindo um desconforto estranho, como se meu próprio corpo não soubesse mais onde ficar.
Fiquei olhando para frente enquanto ele dava a volta e entrava no carro.
O cheiro dele tomou o espaço imediatamente.
Perfume, álcool fraco, café… e Bernardo.
Ele ligou o carro e me olhou rapidamente.
— Me fala seu endereço.
Estendi a mão.
— Me dá seu celular. Eu coloco.
Ele desbloqueou e me entregou o aparelho.
Nossos dedos se tocaram por segundos mínimos.
Mesmo assim, senti um arrepio subir pelo braço.
Coloquei o endereço no GPS e devolvi.
— Quarenta minutos até lá. — ele comentou.
Virei o rosto rapidamente para ele.
— Bernardo… não é perigoso? Você bebeu.
Ele soltou uma respiração leve pelo nariz, quase um sorriso cansado.
— Nada suficiente pra me fazer desistir de você. Nem pra colocar a gente em risco.
Meu peito apertou violentamente.
Ele já tinha tirado o blazer antes de entrar no carro. As mangas da camisa estavam dobradas até os antebraços e suas mãos seguravam firme o volante.
Firme demais.
Como se ele estivesse tentando controlar muito mais do que o carro.
Talvez estivesse tentando controlar a si mesmo.
O silêncio tomou conta do veículo enquanto ele saía do estacionamento.
A cidade passava lentamente pelas janelas, cheia de luzes, movimento e pessoas vivendo suas vidas normalmente.
E eu ali, sentindo que a minha estava prestes a virar de cabeça para baixo.
Abaixei os olhos para minhas próprias mãos inquietas.
— O silêncio é ensurdecedor. — falei baixo.
Bernardo manteve os olhos na estrada.
— Às vezes ele é a melhor resposta.
Aquilo me desmontou um pouco mais.
Porque parecia exatamente o que estávamos fazendo desde o começo.
Sentindo tudo.
E fingindo nada.
Respirei fundo antes de falar:
— Desculpa.
Ele franziu a testa levemente.
— Pelo quê?
Passei a mão nervosamente pelo cabelo.
— Eu sou confusa. Perdida. Acho que nem eu consigo me entender direito agora.
Foi então que ele perdeu a calma.
— Não é isso, Beca. Porra… — bateu a mão no volante, frustrado. — Você realmente não entendeu o que tá acontecendo aqui?
O tom da voz dele me fez olhar imediatamente.
Meus olhos já estavam cheios de lágrimas.
Meu coração apertou tão forte que chegou a doer.
Engoli seco.
— Eu entendi, Bernardo.
Minha voz falhou.
— Você é meu chefe. Tá me levando embora depois da gente parar um elevador porque você resolveu confessar que pensa em mim. Você mexe comigo… e isso me assusta. Como isso poderia dar certo?
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Longos segundos.
Então reduziu a velocidade do carro e virou numa rua mais vazia.
Parou no acostamento.
Meu coração disparou imediatamente.
Bernardo soltou o volante e finalmente me olhou de verdade.
Completamente.
— Porque, pela primeira vez em muito tempo… eu sinto alguma coisa real.
A forma como ele falou me destruiu.
Sem jogos.
Sem charme.
Sem sedução.
Só verdade.
Os olhos dele estavam cansados. Vulneráveis. Quase desesperados.
— Você acha que eu não tentei ignorar isso? — perguntou baixo. — Acha que eu não percebi o problema desde o começo? Eu sou teu chefe, Beca. Eu sei exatamente o tamanho da merda que isso pode virar.
As lágrimas escorreram antes que eu percebesse.
— Então por que insistir nisso?
Bernardo me olhou como se a resposta fosse óbvia.
— Porque você chegou na minha vida quando eu já tinha desistido de sentir qualquer coisa de verdade.
Meu ar faltou.
Ele passou a mão no rosto, nervoso.
— E eu odeio o jeito que você entrou na minha cabeça. Odeio o fato de procurar você quando chego no escritório. Odeio perceber quando você não tá bem mesmo tentando fingir que tá. Odeio sentir ciúmes quando alguém te faz rir.
Meu peito queimava.
— Bernardo…
— Mas o que eu mais odeio… — ele continuou, a voz falhando levemente — é perceber que você sente também. E mesmo assim continua fugindo de mim.
O silêncio que veio depois parecia impossível de suportar.
Eu chorava quieta.
Porque ele tinha razão.
Eu estava fugindo.
Não dele.
Mas do que eu sentia quando ele me olhava daquele jeito.
Bernardo se aproximou devagar, como se ainda me desse a chance de recuar.
Mas eu não consegui me mover.
Sua mão subiu lentamente até meu rosto, limpando uma lágrima que escorria pela minha bochecha.
E foi naquele toque simples… delicado… que eu percebi o tamanho do perigo.
Porque não era só desejo.
Nunca tinha sido.
Era sentimento.
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