Até você voltar

29 O Chamado da Memória


Era um sábado.

E eu passei o dia inteiro na cama.

Não porque eu estava fisicamente incapaz de levantar, mas porque tudo parecia exigir mais energia do que eu tinha disponível. O teto branco do apartamento virou minha companhia por horas. O celular vibrava às vezes. Mensagens pequenas. Notificações sem importância. E eu respondia menos do que deveria.

Ane me ligou no fim da tarde.

— Você vai ficar aí o dia todo?

— Talvez.

— Levanta. Vem jantar comigo.

Eu hesitei.

— Não tô com muita vontade…

— Beca.

O jeito como ela falou meu nome já era resposta suficiente.

— Tá bom.

E eu fui.

O restaurante era simples, mas quente. Luz amarela, mesas próximas, cheiro de comida caseira. Ane falava enquanto comíamos, tentando preencher os silêncios que eu deixava escapar sem perceber.

Ela sempre fazia isso.

E sempre tentava me sondar sem parecer invasiva.

— Você lembra de mais alguma coisa hoje? — perguntou, mexendo no copo.

Suspirei.

— Não.

Ela assentiu, como se já esperasse.

— Tá tudo bem… vai vir aos poucos.

Eu só concordei com a cabeça, sem muita convicção.

O silêncio entre nós durou alguns segundos até ela mudar de assunto.

— Legal a empresa te oferecer um carro. Ficou melhor pra você se mover pra consultas.

— Sim… tem sido bom. — respondi. — Estou pensando em comprar um.

Ane abriu um sorriso leve.

— Compra sim.

Ela mexeu na comida, distraída, e completou:

— É como se tivesse comprado sua liberdade.

Fiquei olhando para ela por alguns segundos.

Liberdade.

A palavra soou estranha.

Como se eu ainda não soubesse do que estava sendo liberta.

Ou presa.

— Talvez. — respondi, por fim.

Ela não insistiu.

Mas o olhar dela ficou em mim por mais tempo do que o normal.

Quando cheguei em casa, a chuva já tinha começado.

No início, era leve. Depois ficou forte. Daquelas que parecem preencher tudo lá fora, abafando o mundo inteiro.

Entrei no apartamento e deixei a bolsa em cima da mesa.

Silêncio.

Eu olhei ao redor.

E senti de novo.

Aquela sensação.

Como se estivesse faltando algo.

Não um objeto.

Não uma tarefa.

Algo maior.

Algo invisível.

Passei os olhos pela sala.

Pela cozinha.

Pelo quarto.

E o pensamento veio sem permissão:

Sobrou espaço demais aqui.

No quarto, a cama parecia grande demais.

O lado esquerdo… ou direito… eu não sabia dizer. Só sabia que havia uma ausência ali.

Uma ausência que não tinha forma.

Sentei na cama por alguns minutos.

Respirei fundo.

Tentei ignorar.

Tentei racionalizar.

Mas não funcionou.

E então veio o pior.

A sensação de aperto no peito.

Como se algo estivesse tentando emergir de dentro da minha memória.

E eu não conseguia alcançar.

Levantei de repente.

Rápido demais.

Como se o corpo tivesse decidido antes da mente.

Peguei um moletom por cima do pijama, desci correndo as escadas do prédio, sem nem pensar direito no que estava fazendo.

O carro alugado ainda estava comigo.

Entrei.

Liguei o motor.

E dirigi.

Sem destino.

Sem lógica.

Só impulso.

A cidade parecia desfocada pela chuva.

As luzes se misturavam no vidro molhado.

Os pensamentos vinham em flashes.

Fragmentos soltos.

Vozes.

Um olhar.

Uma sensação de calor no meio do frio.

E então… nada organizado.

Só o corpo guiando.

Sem direção clara.

Até que eu parei.

Devagar.

Franzi a testa.

Olhei para fora.

Uma casa.

Não reconheci de imediato.

Mas meu corpo… reconheceu antes de mim.

Fiquei alguns segundos parada dentro do carro.

O coração mais rápido.

A chuva batendo forte no vidro.

E então percebi:

A luz de um dos cômodos estava acesa.

Como se alguém estivesse acordado.

Como se alguém estivesse me esperando.

Antes que eu pensasse, eu já estava saindo do carro.

A chuva me atingiu de uma vez.

Fria.

Pesada.

Molhando meu cabelo, meu rosto, o moletom em segundos.

Mas eu não parei.

Atravessei o pequeno caminho até o portão.

Meu coração batendo forte demais.

E toquei a campainha.

Esperei.

A chuva não diminuía.

O frio entrava na pele.

E então ouvi passos.

A proximidade.

O portão se abriu.

E ele estava ali.

Bernardo.

O rosto dele mudou imediatamente ao me ver.

Surpresa.

Preocupação.

E algo mais profundo que eu não soube nomear.

— O que você faz aqui? — ele perguntou rápido, olhando meu estado. — Você tá toda molhada, Beca. Não pode…

Eu o interrompi.

Porque as palavras já estavam presas há tempo demais.

— Eu não sei.

Ele franziu a testa.

— Como assim não sabe?

A chuva escorria pelo meu rosto, e eu mal sentia o frio direito agora.

Só aquela pressão no peito.

Aquela falta de resposta dentro de mim.

— Eu só precisava vir aqui. — falei, mais baixo. — Eu não lembro como sei seu endereço… eu não lembro como cheguei aqui.

Ele ficou imóvel por um segundo.

— Beca…

Eu dei um passo à frente.

A voz falhando um pouco.

— Você me perguntou se eu confiava em você.

Ele ficou tenso.

— Eu lembro.

Engoli seco.

— Eu quis dizer sim… mas eu não sei por quê.

Silêncio.

A chuva parecia mais alta agora.

Mais presente.

— E eu sinto saudade de algo. — continuei, a voz tremendo levemente. — Algo que eu não lembro.

Os olhos dele não desviaram dos meus.

E naquele olhar havia algo perigoso.

Como se ele estivesse segurando uma resposta há muito tempo.

— Do que você sente falta? — ele perguntou, baixo.

Eu não pensei.

Não consegui.

Só senti.

E o resto veio antes da razão.

Eu agarrei o pescoço dele.

E o beijei.

Sem aviso.

Sem lógica.

Sem permissão da mente.

Só necessidade.

Intensa.

Confusa.

Viva.

Ele congelou por meio segundo.

Mas depois… respondeu.

Como se aquele instante também fosse lembrança.

Quando nos afastamos, a respiração dos dois estava irregular.

A chuva ainda caía.

Mas agora parecia distante.

— Você lembrou da gente? — ele perguntou, a voz baixa.

Eu engoli em seco.

— Não. — respondi. — Mas eu sinto algo aqui.

Levei a mão ao peito.

— Muito forte.

Ele ficou me olhando como se aquilo fosse mais perigoso do que qualquer memória perdida.

— Entra. — ele disse por fim, abrindo mais o portão. — Vem. Vamos sair da chuva.

E eu entrei.

Sem saber que, naquele momento, eu não estava apenas entrando numa casa.

Eu estava entrando em algo que minha mente tinha apagado… mas meu corpo se recusava a esquecer.


Ele fechou o portão atrás de nós.

O som do metal batendo pareceu alto demais no meio da chuva.

Por um segundo, eu só fiquei parada ali dentro, encharcada, respirando rápido, tentando entender por que meu corpo parecia tão… certo naquele lugar, enquanto minha mente não reconhecia absolutamente nada.

Bernardo passou a mão no rosto, como se estivesse tentando organizar o próprio pensamento.

— Você tá gelada. — ele disse, mais baixo agora. — Vem.

Ele não me tocou de imediato.

Só abriu espaço.

Como se estivesse esperando que eu decidisse se ficava ou ia embora.

E isso, de algum jeito, me atingiu mais do que o beijo.

Porque havia cuidado ali.

Um cuidado silencioso.

Eu dei um passo.

Depois outro.

E entrei na casa.

O calor do ambiente me atingiu devagar.

O contraste com a chuva fez meu corpo reagir imediatamente, um arrepio atravessando minha pele inteira.

Ele fechou a porta atrás de mim.

— Pega isso. — ele disse, me entregando uma toalha.

Peguei.

Mas não me movi.

Olhei ao redor.

A casa era… chique. Muito maior que o meu apartamento.

Organizada.

Mas havia algo estranho na sensação de familiaridade que insistia em existir sem qualquer lembrança para sustentá-la.

Como se eu já tivesse estado ali.

Ou vivido algo ali.

— Eu já vim aqui antes? — perguntei sem pensar.

Bernardo parou.

A pergunta o atingiu de um jeito que eu vi no rosto dele.

— Já. — ele respondeu depois de um segundo.

Só isso.

Uma palavra.

Mas carregada demais.

Eu apertei a toalha nas mãos.

— E por que eu não lembro?

Ele respirou fundo.

— Porque você sofreu um acidente.

Assenti devagar.

Isso eu já sabia.

Mas não explicava tudo.

Não explicava o vazio.

Nem a forma como meu peito reagia perto dele.

Nem a sensação de que alguma coisa dentro de mim tinha sido interrompida no meio.

— Isso é tudo? — perguntei.

Ele hesitou.

E essa hesitação respondeu mais do que qualquer frase.

— Não. — ele disse por fim.

Meu coração apertou.

— Então o que mais tem?

Bernardo passou a mão pela nuca.

Andou dois passos para o lado, como se estivesse tentando escapar da própria resposta.

— Beca… você não está pronta pra isso agora.

Eu ri de leve, sem humor.

— Eu já ouvi isso muitas vezes.

Ele me olhou imediatamente.

— Porque é verdade.

— Ou porque vocês decidem por mim o que eu posso ou não saber?

O silêncio dele foi resposta.

E aquilo me incomodou de um jeito diferente.

Mais forte.

Mais pessoal.

— Eu não sou frágil. — falei, mais firme.

Bernardo deu um passo na minha direção.

Parou.

A distância entre nós ficou pequena demais.

— Eu sei. — ele disse baixo. — Nunca achei isso.

A forma como ele falou isso me fez engolir seco.

Porque não parecia sobre fragilidade.

Parecia sobre outra coisa.

Algo mais perigoso.

Mais íntimo.

— Então me conta. — insisti, mais baixa agora.

Ele ficou me olhando por alguns segundos.

E eu vi ali.

A luta.

O conflito.

Como se ele tivesse duas versões dele mesmo brigando para decidir o que fazer comigo.

— Você me viu com outra pessoa naquela noite. — ele disse por fim.

Meu estômago revirou.

A frase fez alguma coisa dentro de mim reagir.

Não lembrança.

Mas sensação.

Desconforto.

Dor sem contexto.

— Eu já ouvi isso… — murmurei.

— Mas não do jeito certo. — ele respondeu.

Silêncio.

Eu apertei mais a toalha nas mãos.

— E depois? — perguntei.

Ele fechou os olhos por um segundo.

Quando abriu, estava mais sério.

Mais pesado.

— Depois você saiu da festa. Alterada. E sofreu o acidente logo depois.

Respirei fundo.

— E você estava lá.

— Estava.

— Por quê?

Ele demorou.

Mais do que antes.

E quando respondeu, a voz dele saiu baixa:

— Porque você saiu sem me deixar te acompanhar.

Aquilo fez meu peito apertar.

— Eu não lembro disso.

— Eu sei.

Silêncio.

A chuva ainda batia lá fora.

Mas aqui dentro tudo parecia mais lento.

Mais concentrado.

— Você tentou me impedir? — perguntei.

Ele hesitou.

— Eu tentei falar com você. Eu quis tentar te explicar a situação. Eu tentei te impedir. Eu me coloquei na frente do carro.

— E eu não quis ouvir?

Ele assentiu.

Devagar.

Como se cada palavra estivesse pesando nele.

Eu respirei fundo.

E então veio.

A pergunta que eu não consegui segurar:

— A gente era o quê, Bernardo?

Ele ficou imóvel.

E pela primeira vez desde que cheguei ali, ele não respondeu de forma vaga.

Nem cuidadosa demais.

Nem distante.

Ele só disse:

— A gente estava tentando ficar junto.

Aquilo me atingiu de um jeito estranho.

Porque não parecia mentira.

Mas também não parecia lembrança.

Parecia verdade que eu não tinha acesso.

— E deu errado? — perguntei.

Ele não respondeu de imediato.

Só me olhou.

Longo.

Profundo.

E finalmente disse:

— Não terminou como deveria.

Meu peito apertou.

— Como terminou?

Ele desviou o olhar por um segundo.

E quando voltou a me encarar, havia algo quebrado nele.

— Você esqueceu. — ele disse simplesmente.

A frase ficou no ar.

Pesada demais.

Errada demais.

— Eu não escolhi isso. — falei rápido.

— Eu sei.

Mas a forma como ele respondeu fez parecer que isso não mudava nada.

Ficamos em silêncio.

Eu sentia meu coração acelerado.

E ao mesmo tempo… vazio.

Como se estivesse tentando alcançar algo que estava fora do meu alcance.

— Eu posso tentar lembrar? — perguntei, quase num sussurro.

Bernardo fechou os olhos por um segundo.

E quando abriu, a voz dele veio mais baixa do que antes:

— Eu não sei se isso é uma boa ideia.

Aquilo me doeu.

— Por quê?

Ele me olhou.

E dessa vez não havia fuga.

Só verdade.

— Meu medo é você não conseguir lembrar. Ou quando lembrar você ter preferido esquecer. E toda aquela situação voltar. E eu te perder novamente.

O silêncio que veio depois não foi confortável.

Nem neutro.

Foi denso.

Como se a chuva lá fora tivesse entrado dentro da casa.

E, pela primeira vez desde que acordei sem memória completa… eu entendi que o que eu perdi não era só lembrança.

Era uma história inteira.

E alguém estava com medo de me devolver ela.

Eu fiquei alguns segundos em silêncio.

O tipo de silêncio que não era vazio.

Era cheio demais.

Cheio de coisas que eu não conseguia acessar e, pior ainda, de coisas que ele parecia carregar sozinho há tempo demais.

A chuva lá fora continuava forte, batendo nas janelas como se tentasse entrar também. Mas dentro da casa tudo parecia parado. Suspenso.

— Você está com medo de eu lembrar… — falei devagar, testando a frase. — ou com medo do que isso vai fazer comigo?

Bernardo não respondeu de imediato.

E esse atraso já foi resposta suficiente para apertar meu peito.

Ele passou a mão pelo rosto, cansado.

— As duas coisas. — disse por fim.

Aquilo me atingiu.

Não como informação.

Mas como peso.

— Então foi tão ruim assim? — minha voz saiu mais baixa.

Ele me olhou.

E dessa vez não desviou.

— Não foi ruim. — ele corrigiu.

Pausa.

— Foi intenso.

A palavra ficou no ar.

Intenso.

Como se não coubesse em “bom” ou “ruim”.

Como se estivesse acima disso.

Eu dei um passo à frente sem perceber.

— Eu não entendo… — falei.

Ele também não recuou.

Pelo contrário.

A distância entre nós ficou quase inexistente.

— Você quer mesmo entender? — ele perguntou.

A voz dele estava mais baixa agora.

Mais próxima.

Mais perigosa.

Eu engoli seco.

— Eu quero lembrar da minha vida.

Ele assentiu devagar.

Como se aquilo fosse exatamente o problema.

— A sua vida não começa nem termina nesse ponto que você lembra, Beca.

Meu coração bateu mais forte.

— Então me mostra. — falei, sem pensar.

Ele fechou os olhos por um segundo.

Quando abriu, havia algo diferente ali.

Uma decisão.

— Isso não é simples.

— Eu já ouvi isso também. — respondi, mais firme.

Ele soltou um riso curto, sem humor.

— Você sempre foi assim.

Aquilo me pegou desprevenida.

— Assim como?

Ele deu mais um passo.

Agora estávamos perto demais.

Perto o suficiente para eu sentir a respiração dele misturada ao silêncio.

— Impaciente. — ele disse baixo.

Meu estômago revirou.

— Você fala como se me conhecesse.

Ele sustentou meu olhar.

— Eu conheço.

A forma como ele disse isso fez algo dentro de mim tremer.

Não era só uma afirmação.

Era um peso.

Um reconhecimento.

— Então me prova. — falei, quase num sussurro.

O ar mudou.

Eu vi o momento exato em que ele decidiu parar de segurar.

Bernardo levantou a mão devagar.

E tocou meu rosto.

De leve.

Como se estivesse lembrando algo que o próprio corpo não tinha esquecido.

— Você não devia pedir isso. — ele disse baixo.

— Por quê?

Ele aproximou um pouco mais.

Agora a voz dele saiu quase quebrada.

— Porque quando você lembra… não tem volta.

Meu coração bateu forte.

— Eu não estou com medo.

Ele soltou o ar devagar, como se aquilo fosse exatamente o que ele temia ouvir.

— Você tem certeza disso?

Eu engoli seco.

— Sim.

Ele ficou em silêncio por um segundo.

E então respondeu:

— Eu te desejo desde o primeiro dia que eu te vi. E ficar sem você tem sido um castigo.

A frase me atravessou de um jeito estranho.

Não como lembrança.

Mas como algo que meu corpo reconhecia sem permissão.

Minha respiração falhou.

— Bernardo… — falei, sem saber exatamente o que estava pedindo.

Ele não respondeu.

Só se aproximou mais um pouco.

Agora não havia mais espaço entre nós que fosse seguro.

E então aconteceu.

O beijo veio devagar no começo.

Como dúvida.

Como teste.

Mas no segundo seguinte… deixou de ser isso.

Virou reconhecimento.

Meu corpo reagiu antes da minha mente.

Como se alguma parte de mim tivesse esperado por aquilo sem saber.

Eu levei a mão ao peito dele sem perceber.

Ele segurou minha cintura com firmeza, como se tivesse medo de eu desaparecer de novo.

Quando nos afastamos, o ar parecia diferente.

Mais pesado.

Mais real.

Eu fiquei olhando para ele.

E pela primeira vez desde o acidente… algo que não era vazio apareceu dentro de mim.

Confusão.

Mas viva.

— Isso… — eu comecei, a voz baixa.

— Eu sei. — ele interrompeu.

Os olhos dele estavam mais escuros agora.

Mais vulneráveis.

— Isso é o que eu estava tentando te poupar.

Meu coração ainda estava acelerado.

— Isso é parte de mim. — falei.

Ele fechou os olhos por um segundo.

Quando abriu, a resposta veio como uma confissão:

— É a parte que eu tenho medo de perder de novo.

Silêncio.

A chuva continuava lá fora.

Mas dentro da casa tudo tinha mudado.

Eu não lembrava de tudo.

Ainda não.

Mas pela primeira vez… eu não tinha mais certeza se queria fugir disso.

E quando ele encostou a testa na minha, respirando mais devagar, a voz dele veio quase como um pedido:

— Não força tudo de uma vez.

Eu fechei os olhos por um instante.

E respondi a única coisa que fazia sentido naquele momento:

— Então não me deixa sozinha nisso.

Ele apertou minha cintura levemente.

Como promessa.

Como medo.

Como tudo ao mesmo tempo.

E naquele silêncio entre nós… algo que tinha sido esquecido começou a existir de novo.