Até você voltar

6 Entre o Caos e Você


Eu olhei para ele.

E ele estava ali.

A gravata frouxa, o cabelo levemente bagunçado, o cheiro da bebida misturado ao perfume que eu já reconhecia de longe. Os olhos azuis brilhavam de um jeito perigoso, intenso demais para alguém que tentava fingir calma.

Respirei fundo antes de falar.

— É complicado, Bernardo… — minha voz saiu mais baixa do que eu gostaria. — Eu acabei de me separar. Ainda estou confusa. Você me deixa confusa. Essa situação me preocupa. Você aparece, me olha… e parece que desmonta tudo dentro de mim.

Passei a mão nervosamente pelos cabelos.

— Isso tudo é complicado.

Ele me observava em silêncio. Sem desviar os olhos. Sem interromper. Como se absorvesse cada palavra.

— Por que você não deixa eu te mostrar que pode dar certo? — perguntou finalmente.

Soltei uma risada fraca, sem humor.

— Porque eu sei que não vai.

— Você não sabe.

— Sei sim. Trabalhamos juntos, precisamos um do outro todos os dias. Isso não vai dar certo. Não tem como dar certo.

Bernardo passou a mão pela nuca, respirando fundo, claramente frustrado.

— Você tá condenando algo que nem aconteceu, Beca.

Meu peito apertou ao ouvir meu apelido saindo daquela forma da boca dele. Tão íntimo. Tão cuidadoso.

Desviei o olhar.

— Bernardo… eu preciso ir.

Apertei o botão do elevador tentando encerrar aquela conversa antes que ela me atravessasse ainda mais.

As portas se abriram.

Entrei rapidamente.

Mas ele entrou logo atrás.

O silêncio dentro do elevador parecia sufocante. Pequeno demais para tudo que existia entre nós.

Descemos apenas um andar.

Então Bernardo apertou o botão de emergência, travando o elevador.

Meu coração disparou imediatamente.

— Bernardo…

Ele se aproximou devagar.

Sem pressa.

Como se tivesse medo de que qualquer movimento brusco me fizesse fugir.

E talvez fizesse mesmo.

— Esse teu cheiro… — a voz dele saiu rouca. — A tua voz. O jeito que você mexe no cabelo quando alguma coisa te incomoda. Quando coloca a mão no meu ombro enquanto fala comigo… Você acha mesmo que eu não percebo essas coisas?

Minha respiração falhou.

Ele estava perto demais.

Perto o suficiente para que eu sentisse seu perfume misturado ao álcool. Perto o suficiente para perceber o quanto ele também estava nervoso.

— Eu te escuto até quando você não fala. — continuou. — Aprendi a ler seus olhos, suas expressões… Eu sinto sua falta nos dias que você não vem trabalhar. Eu penso em você o tempo inteiro.

Os olhos dele desceram lentamente até minha boca antes de voltarem para meus olhos.

— Eu desejo você.

Meu coração bateu tão forte que chegou a doer.

— Eu te olho e preciso fingir que não estou perdendo completamente a cabeça. E você não faz ideia do quanto isso é difícil.

— Bernardo… — falei baixo.

Minha mão subiu automaticamente até o peito dele numa tentativa fraca de manter distância.

Mas aquilo foi pior.

Porque eu senti o coração dele batendo acelerado sob minha mão.

Tão acelerado quanto o meu.

Sua boca estava próxima demais da minha. Seus olhos me olhavam com uma intensidade quase desesperada.

E aquilo me assustava.

Porque parte de mim queria atravessar aquela distância mínima entre nós.

— Você bebeu… — sussurrei tentando recuperar algum controle. — Isso é o álcool.

Ele fechou os olhos por um segundo e soltou uma risada baixa, desacreditada.

Quando abriu os olhos novamente, havia algo doloroso neles.

— Você realmente acha que eu precisaria beber pra sentir isso?

A pergunta atravessou meu peito.

Porque não parecia impulso.

Não parecia carência.

Parecia verdade.

Bernardo segurou delicadamente minha mão que ainda estava apoiada em seu peito.

— O álcool só me deu coragem pra falar o que eu tento esconder todos os dias.

Meu corpo inteiro estava tenso.

Eu deveria me afastar.

Deveria lembrar dos problemas, do trabalho, da separação recente, de tudo que poderia dar errado.

Mas era impossível pensar racionalmente quando ele me olhava daquele jeito.

Como se me enxergasse inteira.

Como se realmente me visse.

— Você tem medo de mim. — ele falou baixo.

Balancei a cabeça devagar.

— Não é de você.

— Então é do quê?

Engoli seco.

— De sentir tudo isso também.

O silêncio caiu entre nós como uma explosão.

Os olhos dele mudaram imediatamente.

Ficaram mais suaves.

Mais perigosos.

Mais esperançosos.

E isso fez meu coração disparar ainda mais.

Bernardo se aproximou apenas o suficiente para encostar a testa na minha.

Fechei os olhos no mesmo instante.

Aquele pequeno toque acabou comigo de uma forma muito pior do que qualquer beijo poderia acabar.

Porque era carinho.

Era cuidado.

Era desejo misturado com algo que parecia muito mais profundo.

Sua respiração bateu contra meu rosto enquanto ele falava baixo:

— Então para de fugir de mim.

Senti minhas mãos tremerem levemente.

E pela primeira vez em muito tempo, eu não sabia distinguir o que era razão… e o que já era sentimento.