Até você voltar
8 Como Se Já Existisse Um Nós
A mão dele continuava no meu rosto.
Quente.
Delicada.
Como se tivesse medo de me quebrar.
E talvez tivesse mesmo.
Eu respirava com dificuldade, tentando organizar os pensamentos enquanto o mundo inteiro parecia ter parado dentro daquele carro. As luzes da rua atravessavam o vidro e iluminavam parcialmente o rosto do Bernardo. Os olhos azuis ainda presos nos meus, intensos demais, sinceros demais.
Era injusto alguém olhar daquela forma.
Porque fazia parecer impossível fugir.
— Você tá chorando… — ele falou baixo, quase arrependido.
Passei rapidamente a mão pelo rosto.
— Eu odeio chorar na frente dos outros.
Um pequeno sorriso triste apareceu nos lábios dele.
— Ainda bem que eu não sou “os outros”.
Meu coração apertou tão forte que precisei desviar o olhar.
Aquilo era exatamente o problema.
Bernardo já não parecia “os outros” fazia tempo.
O silêncio voltou, mas dessa vez não era desconfortável. Era carregado. Vivo. Como se nós dois estivéssemos cansados demais para continuar fingindo que aquilo não existia.
Ele afastou a mão devagar do meu rosto, como se precisasse se controlar.
E eu senti falta do toque no mesmo instante.
Odiei perceber isso.
Bernardo respirou fundo antes de voltar os olhos para frente.
— Eu vou te levar pra casa.
Assenti em silêncio.
O restante do caminho foi estranho de uma forma bonita e dolorosa ao mesmo tempo.
A rádio tocava baixo, quase inaudível. A cidade parecia mais vazia naquela hora da noite. Algumas pessoas caminhavam pelas calçadas, bares ainda acesos, semáforos piscando em amarelo.
E nós dois presos dentro daquele carro com sentimentos grandes demais para caber ali.
Em alguns momentos eu percebia Bernardo me olhando rapidamente.
Como se quisesse dizer alguma coisa.
Mas ele cumpriu a promessa.
Não falou mais nada.
E, sinceramente, aquilo piorava tudo.
Porque o silêncio dele dizia muito mais.
Quando finalmente entramos na minha rua, senti um aperto estranho no peito.
Como se chegar em casa significasse encerrar alguma coisa.
Ou talvez começar.
Bernardo estacionou devagar em frente ao prédio.
Nenhum de nós se mexeu imediatamente.
Olhei pela janela tentando encontrar coragem para sair do carro, mas minha mente continuava presa na conversa, no elevador, na mão dele no meu rosto.
No jeito que ele disse que sentia algo real.
Fechei os olhos por um segundo.
— Chegamos. — ele falou baixo.
Assenti.
Mas continuei parada.
Bernardo me observou em silêncio antes de perguntar:
— Tá tudo bem?
Soltei uma risada fraca, cansada.
— Eu realmente não sei.
Ele abaixou a cabeça, apoiando as mãos no volante.
Parecia exausto emocionalmente.
E, pela primeira vez naquela noite, eu reparei em outro detalhe:
Bernardo ainda precisava voltar sozinho.
Tarde.
Depois de beber.
Depois de praticamente desmontar emocionalmente na minha frente.
Meu peito apertou de novo.
— Bernardo…
Ele levantou os olhos imediatamente.
Fiquei nervosa na mesma hora.
Porque eu ainda não sabia exatamente por que estava prestes a dizer aquilo.
Talvez preocupação.
Talvez carinho.
Talvez medo de deixá-lo ir.
— Hm?
Engoli seco.
— Você… não precisa voltar hoje.
Ele ficou imóvel.
Completamente imóvel.
Meu coração acelerou imediatamente ao perceber o peso daquilo que eu tinha acabado de sugerir.
Tentei consertar rápido:
— Quer dizer… você bebeu. E já tá tarde. Não faz sentido dirigir assim por tanto tempo.
Bernardo continuava me olhando em silêncio.
E aquele silêncio quase me fez desistir.
— Você pode dormir lá em casa. No sofá. — falei rápido demais. — Só pra não precisar pegar estrada agora.
Os olhos dele suavizaram lentamente.
Mas junto disso veio algo ainda mais perigoso.
Esperança.
— Beca…
Desviei o olhar imediatamente.
— Não faz disso uma coisa maior do que é.
Ele soltou uma risada baixa pelo nariz.
— Difícil, considerando tudo que aconteceu nas últimas horas.
Meu rosto queimou.
Abri a porta do carro antes que me arrependesse.
— Você vem ou não?
Bernardo me observou por mais alguns segundos.
Então desligou o carro.
E saiu logo depois de mim.
— Boa noite, Jeff. — falei ao porteiro tentando parecer normal.
— Boa noite, Dona Beca. — respondeu ele, lançando um olhar curioso para Bernardo.
Meu cérebro demorou um segundo para perceber.
— Ele é meu amigo, Jeff. Esse é o Bernardo.
Bernardo estendeu a mão educadamente.
— Boa noite. Prazer.
O porteiro assentiu lentamente, claramente tentando entender a situação, mas preferindo não perguntar.
Entramos no elevador.
E, mais uma vez, o silêncio parecia mais alto do que qualquer barulho ao nosso redor.
Eu sentia Bernardo perto de mim. O cheiro dele. A presença dele.
Tudo nele parecia ocupar espaço demais dentro de mim.
Quando as portas abriram no meu andar, respirei fundo.
— Vem.
Abri a porta do apartamento e me afastei para ele entrar.
— Não repara na bagunça.
Mas a verdade era que não havia bagunça alguma. Eu tinha arrumado tudo nos últimos dias numa tentativa desesperada de organizar pelo menos alguma coisa da minha vida.
O apartamento estava limpo, cheiroso, aconchegante.
E a rosa que ele havia me dado descansava num pequeno vaso sobre a bancada da cozinha.
Os olhos dele pararam nela imediatamente.
Depois vieram até mim.
Meu coração falhou por um segundo.
— Entra. Seja bem-vindo.
Bernardo sorriu de leve antes de caminhar pela sala observando tudo ao redor.
Enquanto isso, tirei os saltos perto da porta, finalmente sentindo meus pés respirarem.
Percebi ele olhando atentamente para os detalhes do apartamento.
— O que tá procurando? — perguntei rindo.
Ele colocou as mãos nos bolsos.
— Seu apartamento tem sua cara.
Franzi a testa divertida.
— Minha cara?
— Tem. Eu consigo te enxergar aqui. Nos detalhes. Nas cores. No jeito que tudo parece confortável sem esforço.
Aquilo me pegou desprevenida.
Porque ninguém nunca tinha reparado em mim daquela forma.
— E sua casa não tem sua cara? — perguntei curiosa.
Bernardo deu de ombros.
— Ainda tô terminando algumas coisas lá.
Olhei ao redor meio sem graça.
— Meu apartamento não chega aos pés da sua casa.
— Para com isso, Beca.
A forma firme como ele respondeu fez meu peito aquecer.
— Senta. Vou pegar uma água pra você. E… posso tomar um banho rapidinho? Eu não consigo chegar da rua e ficar sem tomar banho.
— Sem problemas. Eu espero.
Bernardo foi para a varanda com o copo de água enquanto eu seguia para o quarto.
Assim que fechei a porta, encostei nela e fechei os olhos.
Meu coração ainda parecia fora do ritmo.
Bernardo estava na minha casa.
Depois de tudo que aconteceu naquela noite.
Depois da forma como ele me olhou.
Depois da forma como me tocou.
Tomei um banho rápido tentando esfriar a cabeça. Coloquei um short confortável, um cardigan largo, pantufas e fiz um coque bagunçado, deixando a franja cair no rosto. Peguei meus óculos e, antes de sair, borrifei perfume no pescoço.
Automaticamente comecei a rir sozinha.
Parecia adolescente.
Mas fazia tanto tempo que eu não recebia alguém ali… muito menos alguém que mexia comigo daquele jeito.
Quando voltei para a sala, Bernardo saiu da varanda e veio até a cozinha.
Então parou.
E ficou me olhando.
Demais.
— O que foi? — perguntei sem graça.
Ele sorriu devagar.
— Nunca te vi tão à vontade.
Meu rosto esquentou imediatamente.
— Desculpa.
— Não pede desculpas por isso.
Desviei os olhos rapidamente enquanto pegava as cápsulas de café.
— Você gosta de café expresso ou comum?
— Duplo.
— Certo.
O som da máquina preenchia o silêncio enquanto eu tentava ignorar o jeito que ele continuava me olhando.
Me encostei na pia esperando o café terminar.
Bernardo cruzou os braços.
— Achei que fosse encontrar foto do ex espalhada pela casa.
Olhei imediatamente pra ele.
— Por que você falaria isso?
Ele riu.
— Tô brincando.
Balancei a cabeça sorrindo fraco.
— Já falei que ele é passado.
E, pela primeira vez, falar aquilo pareceu completamente verdadeiro.
Peguei as xícaras e entreguei uma para ele.
Nos sentamos à mesa.
— Tem uns biscoitos… e a torta que você me deu ontem.
Bernardo arregalou levemente os olhos.
— Você não comeu?
Segurei o riso.
— Jurei que tava envenenada.
Ele começou a rir imediatamente.
Uma risada genuína.
Bonita.
Daquelas que fazem a gente esquecer dos problemas por alguns segundos.
Peguei a torta na geladeira, coloquei sobre a mesa junto com os garfos e sentei novamente.
Por alguns minutos, parecia só isso.
Duas pessoas tomando café tarde da noite.
Conversando.
Rindo.
Como se não existisse confusão alguma entre nós.
Como se já existisse intimidade demais.
Como se, de algum jeito estranho, Bernardo já fizesse parte daquele lugar.
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