Luna’s POV.

Mal pisamos na cozinha e Dona Serena já nos enxotou para fora. Ela estava determinada a preparar o café da manhã de todo mundo sem a ajuda de ninguém. Dava para ver pela expressão dele que ele odiava quando simplesmente não o deixavam fazer algo que ele queria sem um bom motivo. Len ficou na porta resmungando e como não queria aborrecer o neto, ela deixou que ele fizesse um suco de laranja. Em poucos minutos tudo estava pronto. Mesmo que não fosse um café da manhã muito farto, tudo estava saboroso. Serena sai apressada da cozinha para acordar Gabriel enquanto eu e Len nos sentávamos um de frente para o outro e nos servíamos. Ele parecia distraído…

Eu coloco uma fatia de queijo no meu pão e mordisco a borda. Eu não estava com muita fome. Só queria poder voltar para a casa e “brincar” um pouco com a minha câmera, o que infelizmente não aconteceria…

— Mais acordada agora?

— Uhum…

Serena chega com um Gabriel de cara amassada na cozinha. Apesar disso ele parecia bastante ativo e animado, o meu oposto. Eles puxam suas cadeiras e começam a comer.

— Que horas você vai voltar para casa, querida?

Voltar para casa… Eu me esforço para esconder o desanimo. Eu não queria votar para lá tão cedo, sabia muito bem que estariam me esperando para mais uma “conversa” que acabaria ainda mais com o meu humor.

— Umas nove horas no máximo…

— Tão cedo!? Fique até as onze pelo menos! Ou melhor, almoce aqui também!

— Não, eu combinei de almoçar fora com os meus pais.

— Até as onze então?

— Tenho que assistir uns filmes com certo sujeito aqui e…

— Sabia que você não iria esquecer! — Gabriel me abraça.

Len estava com o rosto virado diretamente para mim. Suas sobrancelhas se entortavam de forma confusa, como se estivesse tentando descobrir o que eu estava pensando. Por que ele se importaria? Eu deveria estar imaginando coisas… Eu solto um longo suspiro.

— Por que você está com essa cara? — Gabriel boceja.

— Nada…

— Como assim nada?

— Só estou meio cansada.

— Sono? Acordou cedo? Dormiu muito?

— Gabriel, deixa a garota ter a cara que ela quiser.

Len corta o assunto soando entediado. Como já tinha terminado de comer, estava com os cotovelos apoiados na mesa e com o rosto sobre a palma de uma das mãos. Ele parecia cansado, talvez até estivesse com olheiras por detrás daqueles óculos escuros, afinal, ele tinha acordado muito cedo hoje.

— Implicante…

Gabriel resmunga dando uma bela mordida em seu sanduíche e Len ignora. Talvez eu devesse agradecer. Não queria ter que ficar respondendo um monte de perguntas que gerariam outras e outras que eu odiaria ter que responder agora.

— Acho melhor eu começar a arrumar as minhas coisas…

— Você parece tensa. Um banho pode fazer melhorar. — Serena recomenda.

— Em qual banheiro?

— No do meu quarto. Querido, mostre para ela onde ficam as coisas. — Ela toca no braço de Len ao dizer isso.

Ele levanta e eu o sigo até o meio do corredor avisando que iria pegar as minhas coisas. Saio correndo para o quarto do Gabriel, pego a minha mochila no chão e volto para o quarto dela. Eu coloco a mochila sobre a cama de casal olhando ao redor notando que Len acendera as luzes por educação. Era um quarto bonito, o piso assim como o de toda a casa era de madeira escura, já as paredes estavam adornadas com vários quadros pequenos e um grande em cima da cabeceira da cama, nele havia uma paisagem alegre e muito colorida.

— Você já viu se não esqueceu de nada?

— Não…

Tirei minhas roupas e tudo o que precisaria para o banho e avisei que tinha esquecido de trazer uma toalha. Len abre a primeira porta do guarda-roupas e fica parado como se tentasse se lembrar de alguma coisa. Ele fecha essa porta e abre a do lado pegando uma toalha rosa na prateleira mais alta e me entrega.

— Obrigada.

— É da primeira torneira à esquerda que sai a água quente, a da direita, fria. Você pode abrir as duas ao mesmo tempo, mas é melhor começar pela fria. Tem um rodo atrás da porta, tente não deixar tudo molhado depois, seria ruim se a minha avó caísse.

— Sério? — Eu ironizo e ele ri. Uma covinha bem de leve aparece em uma de suas bochechas.

— Se a água ficar fria de repente é porque eu desliguei o disjuntor de propósito. Até logo…

Ah, ele não faria uma maldade dessas… Eu coloco as minhas coisas na pia, tranco a porta do banheiro e ligo o chuveiro. A água esquentou rápido e quando senti que estava na temperatura ideal, coloquei as minhas costas debaixo dela. Meus músculos relaxaram imediatamente, mas por algum motivo meu cérebro achava que toda aquela água era um convite para transbordar de pensamentos.

Eu estava tão preocupada com o meu irmão… Precisava trazê-lo para mais perto de mim logo. Ele ela uma criança muito boa e não merecia passar metade do dia com uma babá e o resto dormindo ou na escola. Eu só pude vê-lo uma vez nessa semana por causa da correria da faculdade e estava me sentindo culpada. Ele merecia mais tempo meu e dos nossos pais principalmente. Era mais fácil eu adiar alguns trabalhos e ficar com ele no meio da semana…

Eu sempre perdia a noção do tempo dentro do chuveiro, por isso levava o celular para o banheiro. Por sorte não tinha passado tanto tempo assim. Eu não podia ficar gastando litros e litros de água na casa dos outros. Eu enxuguei meu corpo, enrolei a toalha nos cabelos e coloquei minhas roupas. Daria tempo de assistir uns dois filmes com Gabriel antes de voltar para casa. Pendurei a toalha na porta e dobrei o cobertor que tinha pegado emprestado.

Gabriel colocou duas comédias bobas quaisquer e nós dois ficamos rindo e comendo pipoca feito dois bobos enquanto Len lia um grande livro sentado no sofá pequeno da sala. No começo até pensei que ele estava fingindo, mas ele passava os dedos pelas folhas e mudava de página num ritmo constante e rápido. Era incrível aquela capacidade de concentração. Nem em mil anos eu conseguiria ler num lugar tão barulhento. Quando o segundo filme acabou Gabriel levou as tigelas para cozinha e eu olhei para o meu celular vendo as horas.

— Caramba, o tempo passou voando!

Eu começo a recolher as coisas que eu tinha deixado em cima da mesinha. Precisava me arrumar antes do motorista chegar e me levar para a casa dos meus pais.

— Cuidado.

Len ri fechando o livro quando eu derrubo minha mochila no chão por ter tropeçado nos meus próprios pés. Quando eu ficava tensa a chance de eu fazer burradas dobrava. Eu a pego do chão e enrolo o meu travesseiro até que, com muito esforço ele coubesse dentro dela. Só teria que levar o meu cobertor nas mãos.

— A gente se vê no metrô!

Gabriel joga o cobertor que eu tinha acabado de dobrar no sofá e me abraça. Eu faço um bico e ele ri devolvendo-o depois de dobrar a parte que ele bagunçara. Len tinha sumido então fui atrás de Dona Serena na biblioteca, ela estava sentada em cima mesinha anotando algo na agenda.

— Fiquei muito feliz por você ter dormido aqui hoje. Sempre que quiser, pode passar aqui e dar um oi. Gabriel me contou que você mora sozinha e sei como pode ser solitário às vezes.

— Muito obrigada por tudo. — Eu a abraço apertado.

Quando eu volto para a sala, vejo ninguém lá. Eu abro a porta e ajeito a minha mochila nas costas. Preferia ficar e abrir mais uns…

— Depois de tudo isso pensou que iria embora sem me dar tchau?

Len surge do meu lado me dando um baita susto. É claro que ele ri disso e é óbvio que eu fico irritada. Eu cruzo os braços abraçando o meu cobertor com bastante força. Eu estava começando a ficar mal-humorada, mas surpreendentemente daquela vez não era por causa dele.

— Eu preciso ir… — Eu resmungo.

— Tchau estressadinha!

Saio de lá sem ver quem trancou o portão, estava voltando para casa literalmente correndo. Entro no meu quarto largando minhas coisas no caminho, estava relativamente atrasada. Vesti um a primeira roupa social que eu tinha visto, um evasê vinho não muito colado ao corpo e uma meia calça. Calço meus saltos médios escuros, coloco um casaco felpudo da mesma cor e saio correndo para o banheiro.

Nunca tinha me maquiado tão depressa e só o fiz porque sabia que minha mãe ficaria me chamando de relaxada caso não passasse pelo menos uma boa camada disso desnecessariamente no rosto. Fiz uma trança lateral e coloquei brincos. Meu reflexo não se parecia muito comigo e isso me incomodava mais do que eu admitiria. Era muito artificial, preferia mil vezes passar só um quarto daquilo. Do que adiantava “estar bonita” se não era “eu” ali? Talvez pensasse isso por causa dela, então não era totalmente ruim…

Coloquei meu celular numa bolsa de mão e sai de casa trancando a porta. Sentei na frente dela e fiquei esperando o motorista chegar. Era uma hora e vinte, eu tinha corrido tanto na hora do desespero que até que consegui ficar uns dez minutos adiantada. Tudo que me vinha a mente era o quanto eu preferia que eles almoçassem em casa mesmo… Esses dez minutos demoraram uma eternidade. Só podiam ter pegado transito ou algo assim. Eu me encosto na parede e fecho os olhos.

Caramba, já tinha passado três horas e nada! Eu tiro o meu casaco porque ele estava pinicando muito e pego a minha bicicleta. Eu iria para o restaurante assim mesmo e se fossem reclamar diria para serem mais pontuais da próxima vez. Quando chego lá eu estranho a música chata de elevador que tocava pelos autofalantes, num lugar assim deveriam colocar algo ao vivo ou pelo menos de bom gosto… Depois passar os olhos pelas mesas duas vezes, encontro o meu irmão sentado com três coleguinhas da escola. Todos eles comiam de uma grande taça cheia de bolas de sorvete e mini picolés. Ele me oferece um picolé verde cheio de bolotas.

— Vocês já estão na sobremesa?

— Prova o sorvete, irmã.

— Eu não quero…

— Vai…

Ele enfia na minha boca. Aquilo tinha um gosto estranho e salgado que pareceu ficar preso no meu nariz. Sorvetes não deveriam ter um gosto assim! Eu jogo o picolé esquisito num copo contendo a vontade de esfregar a minha língua repetidamente em um guardanapo.

— Onde estão os nossos pais?

— Em Cancun, eles não te avisaram?

— Como assim!?

— Você está brava.

Ele olha para o chão parecendo estar triste. Os colegas dele apenas continuavam comendo sorvete e olhando para a gente. Onde estavam os pais deles? Eu seguro a mão do meu irmão e o levo para longe deles.

— Não, eu só não gosto quando eles ficam adiando e me deixando… Não, deixando você sozinho…

— Eu também não. Posso morar com você?

Antes de eu conseguir responder. Eu os vejo chegando com uns dois celulares em cada mão. Eles falavam alto e ninguém além de nós dois parecia se incomodar. Nico abraça a minha perna se escondendo atrás de mim.

— Acho que eles estão bravos porquê você chegou atrasada!

— E-eu não…

— Lun, o que você está fazendo aí sua doida!?

— O que está acontecendo?

Uma voz que parecia vir bem de longe começou a soar nos autofalantes, ela mudava de tom o tempo como se quem estivesse falando estivesse bêbado. Era engraçado, eu tinha uma vontade louca de rir. A segunda voz me fez pensar que tinha algo errado, era clara e familiar e parecia vir da entrada do salão. Meus pais fizeram uma cara feia para o dono dela, mas estava escuro e eu não conseguia vê-lo direito. Aquela voz parecia tanto com a do…

— Ela está sentada na frente da porta da casa dela, a porta está fechada e tudo está apagado lá dentro… Acho que ela está dormindo!?

— Eu falo que ela é doida…

— Len! G-Gabriel!

Eu dou um pulo assustada e passo a mão no rosto. O que eles estavam fazendo aqui? Estava toda gelada por causa do frio. Eu olho as horas no meu celular e solto um longo suspiro. Eu tinha passado não só uma ou duas horas esperando, foram quatro horas inteiras. Em algum momento eu tinha pegado no sono, cansada por não ter dormido tão bem de noite.

— Vai ficar aí parada nos olhando?

Len equilibrava sua bengala com as duas mãos sobre os ombros claramente aborrecido. Eu esfrego os meus braços e levanto derrubando a chave no chão. Aproveitei para coçar a minha canela. A meia-calça fina que eu usava não tinha me protegido dos pernilongos. Eu abro o portão indo para o lado de fora e pergunto:

— O que vocês estão fazendo aqui?

— Não acredito que você estava dormindo! Por que está vestida assim?

— Eu ia sair para almoçar com os meus pais, mas deixa…

— Almoçar? — Dessa vez é Len quem pergunta.

— É, eu acabei me virando aqui. É sério, não importa mais…

Gabriel estava preocupado e parecia não acreditar muito na minha mentira, já Len, percebendo ou não que eu estava mentindo, levara ao pé da letra a minha última frase. Eu passo a mão pela minha trança desengrenada. Estava me sentindo mal e meu estômago roncava baixinho.

— Por que vieram aqui?

— Nós íamos te chamar para comer pizza. Você quer?

— Não, eu… Bom… Sim! — Eu estava confusa. Deveria ligar para eles e ver o que raios tinha acontecido, mas não queria descobrir que mais uma vez eles…

— Você bebeu?

Ele coloca a ponta da bengala no chão “olhando” para mim. Eu fiquei irritada com ele. Mesmo que minha frase não tivesse lá tanto sentido assim, ficar insinuando esse tipo de coisa só me fez ficar vermelha.

— Deixa a Luna em paz! — Gabriel vira os olhos.

Len suspira e eu tranco o portão guardando as chaves. A barra de notificações do meu celular estava completamente vazia. Mandei uma mensagem para o meu irmão perguntando se tinha acontecido alguma coisa e o deixei junto com as chaves.

— O que foi? — Gabriel bloqueia o meu caminho.

— Nada.

Eu me afasto dele e ele continua parado. Parecia querer insistir no assunto e eu não queria explicar toda a confusão da família Yarlok. Eu olho para Len estática, queria ter alguém para lançar um olhar de socorro, mas não tinha jeito. Quando Gabriel abre a boca para falar Len pigarreia. Aquilo não poderia ter sido proposital! Podia? Eu suspiro jurando ter visto o vestígio de um sorriso travesso em seu rosto antes dele atravessar a rua. Lá vem…

— Sabe a Emily, a luz do dia, a italianinha, a Mily-Mily, o amor da vida do Gabriel…

Ele mal termina de falar e Gabriel fica rosa, o cabelo loiro e curto dele o fez ficar parecendo um morango. Len vira para trás dando uma risada gostosa e aquela covinha aparece de novo. Provocar um ao outro era um hábito dos dois irmãos. Gabriel vai até ele pisando pesado.

— O que foi? Se não quiser que eu fale da Emily, fale você!

— Eu vou falar.

Gabriel passa o braço em volta dos ombros do irmão e bate nas costas dele com força enquanto ele ria. Eu aperto o passo ficando atrás dos dois, estava bem mais tranquila… Gabriel se solta do irmão e anda ao meu lado.

— Então, o pai dela abriu uma pizzaria não muito longe daqui e ela nos convidou para a inauguração. Pensei que seria uma boa ideia te convidar.

— Aí seremos nós dois segurando vela…

Não preciso dizer que Gabriel deu meia volta e deu uma cotovelada no irmão. Eu sabia que Emily e Gabriel tinham uma relação um tanto conturbada. Eles ainda não eram namorados, mas nem de longe eram apenas amigos.

— Espero que já estejam servindo pizza quando a gente chegar… — Meu estômago ronca alto como se reconhecesse a palavra “pizza”.

— Você vai ver, as pizzas deles são realmente boas, misturaram bem o estilo Italiano com o brasileiro… Imagine o resultado. — Gabriel parecia animado.

Nós esperamos pelo ônibus por poucos minutos e assim que eu me sento ao lado de Gabriel que não saia do celular, eu recebo uma mensagem do meu irmão. Ele dizia que nossos pais tinham chegado há pouco tempo e que tinham esquecido de mandar o motorista me buscar. Logo mandariam outro. Eu mordo o lábio com força encosto a cabeça na janela. Pedi para avisar que só iria lá amanhã. Eu não conseguia mais ficar com raiva deles por coisas assim… Mas detestava saber que Nico ficaria triste.

Gabriel sacode o meu ombro. Havíamos chegado. Eu desço com cuidado e percebo que o cobrador estava me encarando. Era estranho, por isso grudei nos dois e nós andamos um pouco até chegar na rua da pequena pizzaria. Uma moça de uniforme vermelho e cabelos compridos acenou para a gente. Gabriel sorriu e saiu correndo até ela.

— E já viu a Emily…

Len ri. Aquele era o único motivo lógico para o seu irmão sair correndo sem dizer nada. Eu estava tão distraída que acabei tropeçando num pequeno buraco do asfalto. Len segura o meu braço segundos antes de eu quase dar um beijo no chão.

— Quer emprestada?

Ele aponta para a bengala branca que ele usava. Idiota… Eu bufo olhando feio para ele. Len tosse tentando esconder o riso. Quando tento me afastar dele meu tornozelo dói e eu solto um pequeno gemido, mas continuo andando. Não parecia ter sido uma torção grave, mas mesmo assim estava dolorido.

— Você está mancando, segura em mim.

— Não… Eu consigo sozinha.

— Para de frescura.

Ele me puxa para o lado esquerdo dele e passa a mão pela minha cintura. Eu até iria reclamar, mas para entrarmos na pizzaria precisaríamos atravessar a rua que era larga. Nós chegamos lá sem problemas, meu tornozelo nem doía tanto então eu ameaço me soltar, mas ele era mais teimoso do que eu.

Aquele cheiro de tomates assados estava incrível. Garçons com pizzas e pratos vazios andavam de um lado para o outro tentando atender a demanda. Estava mais cheio do que eu esperava para aquele horário. Emily nos cumprimenta com um abraço e nos leva até a mesa perto da janela. Eu sento do lado dele e estico o pescoço procurando Gabriel.

— Cadê o seu irmão?

— Deve estar na cozinha, ele prometeu ajudar o sogro…

Eu dou uma cotovelada leve nele mordendo o lábio para não rir alto já que Emily estava vindo junto com Gabriel para a mesa. Os dois sentam de frente para nós e ela coloca a pequena agenda que usava para anotar os pedidos na mesa.

— Qual nós vamos pedir primeiro? — Eu pergunto.

— Nós ainda não decidimos tudo o que colocaremos no cardápio, então por enquanto nós temos os mais clássicos, mas se quiserem algo bem maluco hoje é o dia. — O sotaque dela não era tão forte quanto eu pensei que seria.

Cada um pede de um sabor, afinal eles estavam vendendo apenas por fatias naquele dia. Ela foi para a cozinha prometendo caprichar e trazer uma jarra de suco enorme.

— Por enquanto eu vou abastecer, mas daqui a uma hora mais ou menos eu vou “trocar de turno” com a Emily. — Gabriel ri olhando para ela através do vidro que exibia um enorme forno a lenha encostado na parede. Ela estava tirando uma pizza de mussarela lá de dentro.

Nunca em toda a minha vida eu tinha conseguido comer tanto. Emily disse que nós seriamos cobaias e que tínhamos que opinar em tudo. Len e Gabriel comiam pilhas e pilhas de pizza sem nunca ficarem cheios. O tempo voou entre risadas e tumulto. Quando o movimento diminuiu, Gabriel foi para cozinha e Emily sentou tentando descansar um pouco.

— Já vi que precisaremos de mais gente até o fim do mês… Não vejo a hora de ficar livre! Hm… Vocês querem um sorvete de sobremesa?

— Se for só uma bola pode ser…

— Isso, só um pouquinho. Eu estou cheia demais…

Eu lamento, estava satisfeita, mas sempre haveria um espacinho para sorvete no meu estômago. Eu olho para Len um pouco surpresa. Como ele conseguia ser magro comendo daquele jeito? Bem que Gabriel também era assim, deveria ser genética. Eu precisaria compensar caminhando uma hora por dia até…

— Vou trazer uma taça para vocês! — Ela levanta piscando para mim e conversa brevemente com um garçom que vai para a cozinha.

— Uma taça?

— Aí vocês dividem. Vocês estão namorando, certo?

Len quase engasga com o suco que bebia e meu rosto esquenta enquanto eu ria descontrolada. Por que ela estava pensando isso? Nós não tínhamos nada a ver um com outro! Qualquer um perceberia que nós não combinávamos, certo?

— Desculpa! É que io ho pensato que… — Ela começa a mesclar português com italiano e envergonhada, esconde o rosto com a mão.

— Nós somos apenas… Apenas conhecidos.

— Por que pensou isso?

Len pergunta por nós. Estranhei, ele sorria, mas sua voz estava séria. Emily aperta o encosto da cadeira e mexe nos cabelos antes de começar a falar.

— É porque vocês chegaram juntos, sentaram perto um do outro, você estava sendo legal com ela e ela ficava olhando para você e rindo bastante, até das suas piadas sem graça…

Eu não ficava olhando para ele, ficava? Meu senso de humor sempre me ferrava nessas horas, era difícil não rir quando eu estava com vontade… Len vira para o lado da janela e começa a rir. Eu fico irritada, mas ao ver que Emily estava mais calma eu dou de ombros sorrindo.

— O que foi? — Gabriel chega com o sorvete e duas colheres.

— Nada… Eu só vou pegar uma colherada.

Encho a colher e a enfio na boca. Podia não ser natural, mas o sabor estava ótimo, ainda mais com aquela calda de caramelo. Eu empurro a taça para Len e Gabriel bate a segunda colher de leve na mesa. Len come metade do que sobrara e ele acaba com o resto.

— O meu pai falou que vai deixar vocês em casa. Está bastante tarde e o meu irmão pode terminar de fechar. Gabriel, nem adianta falar que vai atrapalhar!

Ela dá um peteleco nele. Len levanta, desdobra a bengala e coloca a mão no encosto da minha cadeira. Antes que eu me levantasse ele se aproxima do meu ouvido.

— Já que parecemos namorados talvez não caia mal se eu tiver que te levar no colo até o carro. — Ele sussurra rindo.

— Eu já estou bem melhor!

Eu jogo uma ervilha que caíra sobre a toalha na cara dele e começo a rir muito. Ele bufa e se afasta indo até a porta. Meu rosto estava quente e meu corpo inteiro tremia a ponto de doer. O sono me tornava risonha, mas era estranho. Aquele não era para ser um dia de risos. Gabriel olhava para mim sem entender quando entramos no carro.

Notas finais
Até logo :D