Notas iniciais
Eu mal posso acreditar que já se passou mais de um ano desde o feliz dia que resolvi começar a postar essa história aqui, minha falta de noção de tempo foi tão grande que não percebi isso no último capítulo postado, mas logo depois fiquei com isso na cabeça. E caramba, 13 meses, 21 capítulos até agora, cada um deles feitos com muito carinho e paciência para deixar as ideias amadurecerem até ficarem no ponto. Naquela época eu jamais imaginaria que chegaria até aqui com a minha primeira história e devo muito disso a vocês queridos leitores que me incentivaram a continuar postando aqui ao invés de deixá-la "presa" num arquivo solitário de word. Como já mencionei aqui algumas vezes, eu escrevo por gostar e nunca pararia de postar antes de acabar, mas a partir do momento que alguns de vocês se envolveram tudo mudou, o que antes eu escrevia para mim, agora escrevo para nós, por isso, mais uma vez, muito obrigada! Nossa história está chegando nos últimos capítulos e por mais animada e contente com isso que eu esteja, vai me dando uma dor no coração... mas mesmo assim estou tão feliz! Prometo que quando a minha ficha cair eu aviso rsrs

Luna’s POV.

— Nossa, isso tá quente pra caramba! — Len sacode os dedos depois de largar o livro que cai fechado no chão.

— Sério?

— Não. — Ironiza e eu reviro os olhos suspirando.

Ele estava “me olhando” de um jeito esquisito, como se fosse falar alguma besteira, devia ser por causa do que eu tinha falado antes de sairmos do livro ou por eu estar tão perto… Eu desencosto minha cabeça do abdômen dele e me afasto sentando sobre os meus joelhos para, usando a manga da blusa, colocar o livro na tampa aberta da arca.

— Nossa… — Realmente dava para queimar os dedos naquilo. — Deve ser de tanto abrir e fechá-lo dentro da história. — Penso alto colocando uma mecha do meu cabelo para trás enquanto me esticava para pegar e guardar uma pilha de livros próxima a ele. Não era uma boa ideia deixar a biblioteca daquele jeito. — Mesmo assim, não pensei que isso pudesse acontecer.

— Nem eu… — Ele coloca a mão sobre a minha coxa chamando assim a minha atenção. — Aliás, não sei se eu entendi direito, mas pouco antes de entramos na história você disse que o livro estava brilhando, certo?

— Disse? Ah, sim, eu disse. Achei estranho porque não estava tecnicamente aberto. Talvez um pouco frouxo, mas…

— Não era pra ter acontecido. — Ele completa.

— Acho que devemos tomar mais cuidado daqui pra frente ou não, eu não sei… — Começo a rir. — Bom, talvez marcar uma meta, pelo menos.

— E qual seria?

— Hm… Lermos uns cinco, seis livros por semana, um por dia mais ou menos ou então um pouco mais! Assim vamos juntar logo todos os fragmentos da estrela e evitar que coisas piores acabem acontecendo.

— Pode ser… — Suspira. — O frasco está aí com você? — Pergunta e eu me estico para pegá-lo dentro da arca. Só agora percebendo que a mão dele continuava na minha coxa. O frio que ficou no lugar quando me afastei era incômodo… — Lun?

— Oi?

— Quanto da estrela já está aí? — Eu mal coloco o frasco no chão e ele já o enlaça com os dedos chacoalhando-o devagar, como se estivesse tentando perceber alguma diferença no peso ou esperando que fizesse algum barulho.

— Mais da metade, uns dois terços eu diria. Na verdade ela está um pouco diferente. Não só colorida e brilhante como antes; está inconstante, como se estivesse tentando ganhar a forma da estrela, mudando como…

A luz, de alguma forma, estava passando pelas lentes escuras dos óculos dele quase sem fazer reflexo, então eu pude ver aqueles olhos descendo instantes antes de se fixarem na minha boca enquanto eu falava. Aquilo era desconcertante…

— Como…? — Ele batuca com os dedos no chão nervosamente.

— Como uma nuvem, sabe? Não parece ser sólida nem líquida. — Eu desvio olhar para a porta aberta.

— Imagino. — Ele ajeita os óculos. — Então não deve demorar muito para conseguirmos o resto.

— Amanhã mesmo posso passar aqui nesse horário. Na verdade não sei quando fica melhor pra você por causa do trab…

— Não. — Ele se afasta mergulhando as mãos no tapete do meio da biblioteca.

— Por quê? — Reparo que ele estava pensativo. — Fica muito corrido, né? É que eu não sei se depois das seis é uma boa ideia. Seria estranho eu chegar aqui tão tarde e mesmo que eu ache abusivo, sua avó me convidou para almoçar aqui quando eu quiser, então tenho uma desculpa para vir aqui no horário de almoço se precisar, mesmo que eu prefira passar em casa e comer antes ou…

— Não, não é isso, é que… — Ele passa a mão pelos cabelos e todas as mechas voltam, uma atrás da outra, para o mesmo lugar. — Só amanhã não, pode ser?

— Uhum. — Eu suspiro.

— Eu cansei! — Len encosta a cabeça no meu ombro e eu faço de tudo para não dar um pulo por causa do movimento inesperado. Obviamente ele percebeu, porque riu passando a mão pelos cabelos, alongando ainda mais o pescoço para cima de mim. Folgado… — Sei lá, ainda é como se eu tivesse passado o dia entrando de casa em casa atrás de você com aquele sapatinho. Até achei estranho porque ele nem era tão pequeno assim para não caber em outras mulheres, devia ter algum tipo de magia. — Ele ri. — Falado nisso, o que foi aquilo no f…

— Len, você já ficou sabendo que a sua m… — Era Dona Serena aparecendo na porta, cortando a frase. — Ah, vocês dois estavam lendo ou estavam…

— Acabamos com mais um. — Eu levanto rindo daquela sequência de frases inacabadas. — E olha, está quase inteira! — Mostro o pote que estava na mão dele para ela. — Acho que só mais umas semanas, se formos com calma, e pronto.

— Que bom, eu já estava ficando preocupada com o progresso, mas parece que não vai demorar muito para acabar. — Ela sorri. — Ah, Lun, você vai ficar aqui, não vai?

— Não. — Nós dois dizemos ao mesmo tempo e Serena nos olha com certa curiosidade.

— Por quê? A comida já está quase pronta e logo todos vão chegar.

— É que eu só vim aqui para ler um pouco, eu prometi almoçar com o meu irmão hoje e eu estou devendo sorvete para ele. Sabe como é, não? — Eu me espreguiço.

— Entendo, mas prometa que vai passar aqui mais tarde.

— Pode ser. — Sorrio para ela e Len suspira cansado.

— Eu te levo até a porta. — Ele levanta logo atrás de mim.

Atravessamos a casa e o pequeno jardim em silêncio. Só quando toca no portão que ele para de andar e tira as chaves do bolso colocando a outra mão na fechadura. Eu suspiro vendo-o destrancar o portão. Eu não sabia se o abraçava, dava um simples tchau ou um beijo na bochecha. Aquilo era confuso.

— Lun, — Ele chama enquanto girava a chave entre os dedos distraído, assim que dou os primeiros passos para fora. — não sei se o Gabriel te falou, mas nossos pais e tios estão vindo para cá hoje… Enfim, não se surpreenda se tudo, de uma hora para outra, parecer com uma novela mexicana, tá bom?

— Tudo bem. — Eu aperto de leve a mão dele e então percebo o quanto aquele gesto pode ter parecido estranho, mas ele não parecia se importar. — Bom, eu vou indo…

Era um fato, Gabriel não falava muito sobre a família além do irmão e da avó, é claro. Isso porque durante os últimos anos, os pais deles viveram viajando por causa do trabalho. Duncan, o pai, era o único que eu conhecia, vagamente aliás, tivemos uma conversa curta há meses, quando eu entrara na casa da avó deles pela primeira vez.

— Se cuida. Até mais tarde. — Algo na voz dele me fez pensar que ele não queria que eu fosse embora.

Eu saio de lá pensativa o bastante para tomar um susto ao perceber que meus pés me levaram para a frente da minha casa, sem que eu me desse conta. Eu ando até o fim da rua e pego um ônibus, buscaria o meu irmão direto na escola.

O dia passou voando e depois de lancharmos, Nico me fez comer quatro bolas de sorvete (não que eu fosse reclamar) e de lá fomos para o shopping. Passamos horas no playground antes de eu devolvê-lo para a minha mãe e voltar para tomar um banho na esperança de ver o meu estresse crescente diminuir.

Estava escuro quando tornei a sair de casa. As luzes acesas dos postes eram levemente ofuscadas pelo fio de sol que se punha. Quando cheguei no topo da rua da Dona Serena, já era noite. Se eu demorasse muito ali, teria problemas para voltar para casa…

— Oi? — Todos os pelos do meu corpo se arrepiaram quando aquela voz chegou à minha orelha.

Eu viro de uma vez só, sentindo toda a paranoia que andar sozinha de noite na rua quase sempre me fazia sentir, brotar, para ver aquele infeliz dando um passo para fora das sombras de uma das várias árvores altas que ficavam na borda da calçada da rua.

— L-Len, seu…— Eu dou uns tapas no ombro dele. — seu idiota, você quer me matar de susto? — Ele começa a rir. — Você fica aí no meio do nada cochichando na orelha dos outros… Quer que eu pense que você é o quê? Um saqueador o-ou pior?

— Desculpa, eu não te vi. — Ele tem a coragem de fazer piada.

— Pare de rir. — Eu cruzo os braços odiando ver aquelas covinhas. Ele faz uma cara engraçada tentando segurar o riso e eu saio andando.

— Espera… — Bate com a ponta da bengala no meu pé e eu me viro ficando bem de frente para ele. Ele parecia concentrado? — O que é isso?

— Isso o quê?

— Shiu… — Ele se aproxima e abaixa um pouco ficando cada vez mais perto. — Caramba, isso é o seu coração?

— Por sua culpa! — Eu me afasto sentindo o coração pular ainda mais forte, estava toda quente e com certeza vermelha. Detestava isso. — O que você estava fazendo ali? — Eu bufo olhando ao redor, notando que o céu estava fechando e que estávamos na frente do muro de um terreno vazio.

— Nada.

Ele tira os óculos para limpá-los na camiseta e eu reparo que ele usava roupas diferentes das de mais cedo, mas carregava a mesma bolsa transversal do trabalho. Estranhando, eu ligo o visor do meu celular e vejo as horas, na verdade, já era para ele estar em casa há meia hora pelo o que me dissera outro dia. Devia ter se atrasado, mas algo me fazia pensar que ele ia no sentido oposto da casa.

— Então, aproveite que está aí fazendo nada e me dê as chaves ou abra o portão para eu entrar! — Viro de costas para ele e começo a andar pela calçada.

— Espera! Eu… — Len coloca a mão no meu ombro. — Eu não quero entrar.

— Por quê? — Era como se um ponto de interrogação estivesse se materializando sobre a minha cabeça.

— Só vamos sair daqui? — Ele parecia arredio. — Você escolhe o lugar. Eu pago, mas não vale me explorar. — Passa a mão no relógio.

— Eu tenho que jantar em casa hoje, eu só iria dar um oi, ficar uns minutinhos, quem sabe abrir um livro… e ir para a casa dos meus pais. Um saco, mas eu prometi e a minha mãe estava fazendo tanta questão… Deve ser porque minha tia vai estar lá e eu fugi das últimas vezes, então não tenho muita escolha…

— Ah… — Ele pareceu decepcionado.

— Bom, se você quiser ir… — Solto sem pensar. Ele abre um sorriso largo e zombeteiro e eu me arrependo imediatamente.

— Finalmente vou conhecer a Dona Rebecca!

— Se você ficar fazendo gracinhas eu te mato. — Eu cruzo os braços e saio andando.

— Calma, estranha. — Ele dá dois passos largos e pega no meu antebraço direito. — É longe, não? Vamos de quê? De ônibus?

— Se passarmos em casa, podemos ir de moto. — Falo brincando. — Ou você tem algum problema com motos? — Insinuo.

— Desde que eu não tenha que dirigir, nenhum. — Ele dá de ombros e eu não consigo segurar o riso.

— Ok, então vamos pra minha casa. — Penso que assim não correríamos o risco de pegar a chuva.

Já em casa eu peço para ele esperar e no meu quintal, procuro pelo meu equipamento e pelo o terceiro capacete, afinal, o segundo era do Nico e não caberia em um adulto. Estava feliz por, ontem mesmo, ter dado uma limpada na moto, abastecido e calibrado os pneus. Tudo estava no jeito. Eu afivelo o capacete e visto a jaqueta subindo na moto para ir para o lado de fora. Depois de descer e fechar o portão, desenrosco o capacete do sissy-bar e o entrego para ele que já estava sem os óculos, pronto para colocá-lo.

— Quer ajuda? — Pergunto vendo-o guardar a bengala no bolso interno do casaco depois de, com ela, achar uma das pedaleiras.

— Não precisa. — Ele começa a passar as mãos pelo assento para saber o que esperar ao subir e ele o faz com destreza, como se já tivesse feito isso vária vezes antes. — Com licença. — Ele fecha o visor e toca nas minhas costas causando um arrepio ao trilhar o caminho até a minha cintura com as mãos e me abraça. Isso me fez sentir como se ele fosse ainda maior do que já era.

— Quer dizer que você sabe ser um bom garupa? — Eu brinco e ele ri.

— Espero que você pilote bem.

— Você vai ver. — Eu fecho o visor e dou partida.

Eu estava certa, por isso o caminho até a mansão foi tranquilo, sequer o silêncio era desconfortável. Ele seguia os meus movimentos direitinho, não tinha “medo” das curvas e não jogava todo o peso em mim quando eu desacelerava para frear nos faróis. Isso me fez lembrar do extremo oposto, da infeliz vez em que resolvi levar o Adam pra uma praia mais distante da que todos estavam no dia, e ele, parecendo uma tábua, quase nos fez cair da moto umas quatro vezes.

Eu suspiro, não queria pensar naquilo. Eu paro a moto no portão principal e falo com o porteiro antes de estacionar na garagem lateral da mansão, bem ao lado da Lamborghini prateada da minha tia.

— Pode descer. — Eu aviso desligando a moto. — Aprovada?

— Hm… — Ele ri apoiando as mãos nos meus ombros para passar a perna para o outro lado e descer. — Aprovada. — Estende o capacete e assim que eu o pego, ele coloca os óculos.

— Como eu disse. — Eu desço e tiro o capacete sacudindo os cabelos como se eu estivesse num comercial de shampoo. Estava ventando e o cheiro de chuva ficava cada vez mais forte. Chegamos bem a tempo.

— Quem vai estar aí? — Ele desdobra a bengala.

— Dos meus parentes, você diz? — Eu começo a andar vendo que ele não me seguia, parecia um tanto preocupado, na verdade… — Você não vai vir? — Ele começa a andar na minha direção imediatamente.

— É….

— Meus pais, o meu irmão, a minha tia, talvez um noivo ou namorado dela, vai saber… a minha prima da idade do Nico e a minha outra prima, pior que ela tem quase da minha idade aquela fresca. — Eu viro os olhos e ele ri. — Estou falando sério, só de olhar para aquela cara de cínica dela eu já fico com raiva.

— O que ela te fez?

— Passamos uma semana das férias do meio do ano no chalé beira-mar da família dela e nos obrigaram a dormir no mesmo quarto para “ficarmos amigas de novo”. Foi bem entediante e conturbado, ela estava muito frescurenta e pra ajudar, ainda trouxe uns amigos e um deles, o Adam… — Eu suspiro. — Enfim, não é algo que eu queira repetir.

— Deve ter sido engraçado. — Ele abre um sorriso pensando na minha tragédia.

— Diz isso porque não foi com você.

— Lulu, minha menina! Pensei que você não viria tão cedo. Estamos trabalhando a tarde toda e seria difícil te dar um olá antes do jantar, pelo menos. Eu pedi pra Jean fazer aquele prato que você gosta, você sabe, ela está se esforçando tanto com aquele curso de culinária… — Dona Camila, que levava o lixo para fora, limpa as mãos no avental antes de me dar um abraço, então repara na minha companhia. — E quem é esse moço bonitão aí do seu lado? — Pisca para mim.

— Tem mais alguém aqui? — Len sussurra no meu ouvido antes que eu a respondesse. Será que ele pensava que tinha mais alguém do meu lado?

— Não, por quê?

— Ah, então é de você que a Luna tanto falava, a moça que cuidava dela desde pequena? — Blefa e acerta.

— Que fofa, ela falou de mim! — Olhava para mim com os olhos brilhando tanto que eu pensei que ela apertaria as minhas bochechas. — E que gentileza a sua, acho que não sou chamada de moça desde que a Rebecca e a Margot eram menininhas. — Ela sorri para ele, possivelmente estranhando os óculos escuros no meio da noite, mas sem se dar conta do motivo. — E você é…?

— Eu sou Len, o namorado dela. — Ele diz com a maior cara de pau do mundo enquanto abraçava os meus ombros com um dos braços.

— Nossa, que notícia maravilhosa! Eu não sabia que você estava namorando e sabe, dá pra ver de longe que vocês dois combinam! Bem mais do que… Ah, deixa pra lá. — Camila passa a mão pelo meu cabelo. — Olha, vocês até coram ao mesmo tempo! — Ela sorri olhando para mim e depois para ele.

— L-Len, seu… — Eu dou um beliscão no braço dele me afastando. — Por que você falou isso?

— Ei, isso doeu… — Ele esfrega a mão no braço. — Eu só disse a verdade, amor… — Abre aquele maldito sorriso de lado.

— Oh, seus pais ainda não sabem? — Ela parecia preocupada e confusa ao mesmo tempo, então arregala os olhos por um instante ao reparar no que ele segurava, finalmente assimilando o conjunto: óculos escuros mais bengala. — Ah, eu entendo…

— Nós não somos namorados! Ele só está brincando. — Eu fico meio desesperada por não conseguir fazer as minhas bochechas esfriarem. — E-ele é só um amigo meu!

— É claro, é claro. — Camila pisca ajeitando o uniforme azul. — Prometo que não vou falar nada. — Encolhe os lábios e fecha um zíper imaginário com os dedos sobre a boca e começa a ir para a porta da cozinha. — Ai, que saudades de ser jovem e apaixonada… — Pensa alto.

— Espere… — Eu estendo a mão no ar, em vão e pra ajudar, tinha começado a garoar. O momento de drama passa e a raiva começa a subir até as minhas orelhas. — Len, eu não acredito que você fez isso!!!

— Desculpa, desculpa… — Ele bate com as mãos nos joelhos não aguentando mais segurar e começa a rir descontroladamente. Idiota. Todo o rosto dele estava ficando vermelho, mas duvidava que estivesse só um quarto do tom que o meu deveria estar.

— Por que você fez isso!? — Cruzo os braços respirando fundo várias vezes, fervendo de raiva, para não bater nele de novo.

— Vingança. — Len solta o ar e passa o dedo por debaixo das lentes como se fosse enxugar as lágrimas.

— Como assim? — Eu levo alguns segundos pensando em todas as possibilidades. — Ah, não. Você não pode estar falando sério! — Lembro da minha mão gelada nas costas dele… — Você nasceu quando? Em novembro!?

— O quê? — Ele olhava para mim como se eu fosse maluca.

— E-eu deveria te trancar do lado de fora! — Cruzo os braços bufando e me afasto dele.

— Aqui, no meio de… sei lá onde? Duvido que passe algum ônibus por aqui. — Ele volta à cor normal ficando mais sério, como se acreditasse que eu fosse mesmo capaz de fazer aquilo. — Qual é, não foi nada demais. — Ele anda até a minha última posição, mas parecia não fazer a menor ideia de onde eu estava, já que eu estava na frente da porta e ele estava mais para trás com a cabeça virada em outra direção enquanto falava comigo. — É sério, Lun. Não vai me dizer que ficou chateada. Eu não pensei antes, eu só queria brincar. — Eu continuo quieta deixando-o mais nervoso, mas começo a me sentir mal por isso. — Vai… Eu te pago uma pizza! Pode ser até uma daquelas com coisas estranhas que você estava comendo naquele dia.

— Quatro.

— O quê? — Ele vira na direção certa.

— Eu posso querer chamar uns amigos para curtir às suas custas… — De alguma forma, eu apostava que ele sabia que eu estava rindo, mesmo que eu não estivesse fazendo barulho, porque a expressão dele suavizou.

— Eu ganho um pedaço?

— Se sobrar… — Eu mordo o lábio.

— Fechado. — Len estende a mão no ar e eu abro um sorriso apertando-a, algo naquela solução tinha conseguido ser mais fofo do que idiota.

— Então amanhã, na minha casa, no almoço. — Planejo e ele concorda com a cabeça. — Bom, é melhor entrarmos.

Abro a porta da frente e entro com ele logo atrás de mim. Seguimos por alguns corredores e eu vejo que tinha ninguém na sala. Já deveriam estar na sala de jantar, então suspiro e dou meia volta. Só vira Marília passando pano no chão de um dos quartos de hóspedes do térreo, talvez minha tia dormisse aqui hoje…

— Nossa, essa casa deve ser enorme. — Ele comenta. — Quando Gabriel me disse que você morava numa mansão, nunca acreditei que fosse literalmente.

— Como você sabe, eu não moro mais aqui. Desde o ano passado vivo na casa que era do meu avô antes de meus pais se casarem… Uma longa história que eu te conto outra hora, se você quiser… — Eu suspiro. — Ah, melhor deixarmos nossas coisas em um dos quartos. Por que você parou de andar?

— Eu vou cobrar, hein? — Ele pega no meu cotovelo. — Aliás, com você ziguezagueando assim, eu estou ficando desnorteado.

— Desculpa. — Torço o nariz. — Pensei que…

Helena abre a porta da sala de jantar e bufa, fechando-a atrás de si. Quando me avista abre um sorriso falso. Ela vestia um vestido cinza justo e um colar que deveria custar o mesmo que a minha moto, os cabelos loiros dela estavam presos num coque que parecia colar os cabelos no crânio de tão apertado.

— Luna, que milagre te ver por aqui e com… esse sujeito. — Olha para ele de cima para baixo me fazendo sentir nojo da cara que fez ao perceber que ele é cego, aliás, com certeza era a primeira, se não a única coisa que reparou. — Quem é esse?

Não precisei olhar para ele para perceber que aquele comentário o fez sentir desconfortável. Talvez não tivesse sido uma boa ideia trazê-lo assim do nada. Se ao menos eu tivesse lembrado que ela estava tão insuportável antes… Pensando bem, eu não sabia como os meus outros familiares iriam reagir e sabia menos ainda como ele se sentiria sobre aquilo, ou então eu…

— Então, Len, como eu estava dizendo, — Eu a ignoro. — por questão de sobrevivência eu precisava sair de casa, por isso eu tinha juntado algum dinheiro que ganhei trabalhando durante o colegial. Iria morar com uns amigos, mas meu avô acabou me oferecendo a casa. Olha que eu até pensava que ela já tinha sido vendida na época.

— Sério? Você trabalhava com o quê, com filmes? — Ele entra no meu jogo relaxando os ombros e Helena se aproxima revirando os olhos.

— Não, na verdade eu nem gostava do que eu fazia, eu…

— Ela era modelo. — Ela se sente no direito de participar da conversa. — A tia Rebecca te enfiou num estúdio usando a influência dela, não é à toa que foi fácil para você. Era só sorrir e ficar quieta na frente das câmeras. Mas agora você teria que perder uns dez quilos pra ficar em forma de novo. — Desdenha e eu reviro os olhos. Reparo que Len juntava as sobrancelhas como se estivesse tendo dificuldades para acreditar no que ouvia.

— Fácil? Aquilo era o inferno. — Eu cruzo os braços. — Tanta gente mesquinha no mesmo lugar, sem contar que tratavam a produção muito mal… Coisas assim que fizeram a equipe ser ruim, não era atoa que tínhamos que passar horas no estúdio, nada fluía direito. Prefiro mil vezes o que faço agora.

— O quê? Bicos ajudando a filmar produções pequenas de filmes que ninguém vai assistir?

— Não, algo que eu goste e faça direito. — Digo sorrindo e ela olha feio para mim. Não era atoa que ela implicava tanto comigo, ela tinha caído na conversa clássica de nossas mães que insistiam que deveríamos ser médicas, arquitetas ou advogadas, ter um diploma que elas aprovassem para enfeitar a parede da sala. Por causa disso, Helena estava no segundo ano de um curso que odiava e não tinha coragem de fazer o que fosse sobre isso.

— Grande coisa. Nem preciso estudar se eu não quiser. — Ela tenta soar superior, mas a frase não teve o efeito esperado. Aquilo era óbvio, a mesada dela era grande o bastante para ela comprar um carro diferente por mês. Ela não precisava, mas se sentia pressionada a estudar Arquitetura.

— Len, — Reparo que ele parecia meio perdido naquela “discussão relâmpago”. — é melhor irmos lá ver se já serviram o prato principal, o Nico prometeu que se eu não viesse ele comeria a minha sobremesa e ele já comeu doces demais hoje.

— Ok, sem judiar do seu irmão. — Ri de leve.

— Ele é o que seu? Seu namorado? — Pergunta com as mãos na cintura e uma cara de “era só o que me faltava”.

Só aqueles gestos já estavam me fazendo querer mandá-la para fora da casa, mas eu já não via aquela casa como minha… Sem contar que o fato dela —mesmo em todos aqueles minutos de conversa— deixá-lo completamente de fora, como se não existisse ou pudesse responder por si, estava me irritando cada vez mais. Até hoje eu não entendia o que tinha acontecido para ela mudar daquele jeito, a Helena que eu brincava na infância jamais faria uma coisa dessas, ou pelo menos tentaria disfarçar.

— E se for? — Eu bufo. Qual era o problema dela? — Espera que eu peça sua aprovação? — Eu estava me esforçando para não ficar nervosa, mas era impossível.

— Duvido que tenha a da titia, pelo menos…

— Calma, nós nem namoramos… Se continuarem assim vão acabar saindo no tapa e eu vou sair de fininho fingindo que não vi. — Len resolve se pronunciar, brincalhão como sempre, para tentar quebrar a tensão do clima. — E que mudança repentina de postura sobre nós dois! — Diz a segunda frase baixo o bastante para só para eu ouvir.

— Bom, eu estou com fome, com licença. — Eu passo por ela que olhava para ele de cima para baixo novamente me fazendo bufar e coloco as mãos nas duas maçanetas redondas de ébano. Assim que Len segura no meu braço, eu abro as portas.

Seis dos doze lugares da mesa enorme de vidro estavam ocupados. Cinco quando meu pai que estava sentado de costas para a porta que eu abrira, saiu pela porta da cozinha para falar ao celular. Minha mãe e a tia Margot estavam sentadas uma na frente da outra enquanto Nico tentava ensinar Júlia a fazer um tsuru com o guardanapo de tecido, e um homem barbudo, o namorado novo da minha tia, estava ao lado dela mexendo no celular. Nico foi o primeiro a me ver, abriu um sorriso imediatamente.

— Lu, você veio e ainda trouxe o Len junto com você! — Nico empurra a cadeira para trás e corre desviando de Jean que colocava o prato principal no meio da mesa naquele exato momento, para me abraçar.

Por algum motivo tive uma vontade estranha de rir. Todos os olhares que até então ignoravam a algazarra do meu irmão, foram, assim que ouviram o nome dele, para o rosto de Len que imediatamente apertou com mais força o meu antebraço. Era claro, ele estava nervoso, talvez eu também estivesse…

Notas finais
Até mais seus lindos ♥