Até que ponto é fantasia

22 Jantar em família


Notas iniciais
Olá fantasminhas de plantão ou não! Eu percebi que estou esquecendo de postar capítulos prontos aqui (sim, eu posto essa história em outro site também) e isso está me deixando culpada, porque eu não sei se disse aqui, mas essa história é o meu xodó e mais de uma vez eu fiz isso. Se alguma boa alma, ao perceber que estou demorando muito (tipo quase um mês) para postar pudesse mandar um "oi, cadê o resto?" eu agradeceria :D

Len’s POV.

Todos ficaram em silêncio por um instante e eu podia sentir os olhares me atravessando. Era natural: eles só queriam saber o que a sumida da casa estava fazendo ali com um sujeito desconhecido e cego. Praticamente a mesma coisa que tinha acontecido com aquela prima da Luna… Então uma voz masculina deixa escapar bem baixinho um “olha, ele é cego”, comprovando minha teoria. A voz dele vinha de longe e parecia estar de frente, do lado esquerdo da mesa, o mesmo lado que Nico viera correndo para nos cumprimentar e agora, depois de abraçar as minhas pernas, voltava para se sentar.

— Vai ficar tudo bem… — Lun diz tão baixo que parecia ter deixado um pensamento escapar.

Eu respiro fundo e tento relaxar ao perceber que estava apertando demais o braço dela. Um cheiro suave de molho à bolonhesa subia pelo ar fazendo o meu estômago roncar. Chegamos na hora certa. Lun nos leva mais para o lado direito da sala com uns poucos passos meio duros. Dava pra notar que ela estava tensa, talvez até mais do que eu.

— Que bom que você veio, e trouxe esse seu amigo… Quem é? — Uma mulher sentada do lado que estávamos indo pergunta. A voz dela era familiar, se fosse mais doce e menos “soprada” lembraria mais a da Lun. Deveria ser Rebecca, a mãe dela.

— Eu disse que viria, não disse? — Quando para de andar, Lun bate com a mão na parte alta do encosto de uma das cadeiras e arrasta a do lado para se sentar. Eu entendo o sinal e com uma das mãos ali, eu me sento fechando a bengala antes de enfiá-la no bolso. — Aliás, você e Len já se falaram.

— Quando? — Ela pergunta confusa.

— Ao telefone. — Eu esclareço tentando olhar para ela. — Há alguns dias atrás, a Luna esqueceu o celular lá em casa e eu atendi, não se lembra? — Eu quase dou um pulo com o som agudo da porcelana quando, sem aviso, começam a colocar mais louças na mesa.

— Ah, é claro que eu me lembro. Você foi muito gentil. — Ela ri de leve e Lun se remexe na cadeira. — E já está na segunda faculdade, quem diria? — Não sabia dizer se ela disse aquilo por eu ser novo, para me parabenizar, ou por eu ser cego…

— Está? — Lun vira para mim e eu afirmo com a cabeça. Realmente, por mais que estivéssemos próximos por esses dias, nós nos conhecíamos tão pouco… — Ei, ninguém vai se apresentar?

— Ah, desculpa, que falta de educação a nossa. — Rebecca ri de leve. — Bom, você já sabe quem eu sou, então melhor começar por outra pessoa.

— Eu sou Margot, tia da Luna. — Diz uma mulher de voz fria, ela estava sentada do lado oposto da mesa. — Essa é a minha filha Júlia. — Uma voz fininha diz “olá” bem no lugar da frente do da Lun. — E esse é o meu namorado Steven. Fale alguma coisa, Steven! — Murmura irritada e ele coloca algo pequeno na mesa, um celular provavelmente.

— Bom te conhecer. — Diz um tanto alto demais.

— Bom, Camila e Jean também estão aqui, elas trabalham na casa. — Lun sussurra sem se virar para mim. — Aliás, a Camila você já conheceu lá fora. — Tinha um pouco de raiva na voz dela, isso me fez rir enquanto todos estavam quietos. Então o pai dela não estava ali, deveria ser ele quem, pouco antes de entrarmos, tinha saído da sala de jantar.

— Prazer em conhecê-los. — Digo tentando ignorar a sensação de que ainda me mediam de cima para baixo. Eu não sabia como eles estavam vestidos, talvez eu estivesse informal demais, mas então seriamos dois, a Lun usava uma jaqueta e jeans de cintura alta que eu pude sentir por baixo do tecido leve da blusa dela quando estávamos na moto.

— A Lena já deve estar voltando, aí você pode mostrar o tsuru que fez para ela. Acho que ela vai gostar. — Nico suspira bem ao lado da garotinha. Ele falava baixo como se estivesse com vergonha.

— Tomara. — Júlia responde, não parecia muito crente sobre isso… A irmã deveria ser muito exigente com ela, mesmo que eu julgasse, pela voz infantil que vinha quase da mesma altura da mesa, que a caçula deveria ter só uns cinco anos. — Depois do jantar eu entrego.

— Falando nela… — Luna bufa ao meu lado e o som agudo dos saltos aumentam. Helena puxa a cadeira do lado da Lun e senta. Deu para sentir que nenhuma das duas estava feliz com isso, mas nenhuma estava disposta a mudar de lugar.

— Então, estamos só esperando o seu pai voltar para nos servirmos. Jean, — Rebecca chama a empregada. — você poderia apressá-lo, por favor?

Passos leves vão para o extremo oposto da sala e uma porta é aberta. Lá deveria ser a cozinha. Eu me encosto no fundo da cadeira pensando em como Lun estava curiosamente calada. Todos voltaram a conversar com a voz calma e baixa, bem diferente de quando minha família se reunia…

Pensando no todo, o clima nem estava tão carregado quanto eu imaginei que ficaria. Descobri que Rebecca e Margot eram irmãs, herdeiras de uma família muito rica e tradicional, mas o pai da Luna não, isso porque Margot soltara umas indiretas com uma sutil reprovação na voz, talvez pensando em mim e na Lun como um casal. Algo no jeito dela falar, ou talvez de nos olhar, deixava a Luna inquieta. Não demorou muito para a porta se abrir, mas a conversa não parou por causa disso.

— Depois eu retorno a ligação. — Diz com uma voz grave e macia ao mesmo tempo. Então o celular vibra como se ele estivesse desligando o aparelho. — Nem jantar direito eu posso… — Ele parecia aborrecido. — Hm… Quem é você? — Arrasta a cadeira da ponta da mesa e senta.

— Sou Len, um amigo de sua filha. — Eu respondo virando o rosto para ele.

— Ah, muito prazer, meu nome é Enzo Yarlok, sou o pai da Luna. — Ele diz sério e todos ficam quietos. Ele deveria estar estendendo a mão para que eu o cumprimentasse e agora estranhava os meus “maus modos” por não retribuir.

— Er… Prazer. — Eu sorrio sem graça e estico a mão na direção dele torcendo para não ter nada no caminho e ele a aperta segurando-a por mais tempo, certamente me encarando. Como se os óculos escuros não fossem o bastante…

— Quantos anos você tem?

— Vinte e dois…

— Você faz, trabalha, estuda, o quê? — Ele se inclina para frente para compensar a distância de uma cadeira que estávamos um do outro.

— Sou formado em Produção Audiovisual, agora faço Rádio e TV de manhã na Anhembi e trabalho durante o resto do dia numa multinacional. — Digo de uma vez só, contendo o impulso de começar a batucar os dedos na lateral da cadeira.

— Como vocês se conheceram? — Várias “imagens” passam pela minha cabeça e eu passo a mão na nuca. Estava ficando mais calor…

— Pai! — Luna bufa do meu lado.

Percebo que todos estavam quietos assistindo ao interrogatório, exceto Nico que falava algo sobre “dobrar para cima antes de entregar”.

— O que foi? — Enzo fala mais de longe, como se estivesse inclinado para trás.

— Não acha que está exagerando? — Margot aponta. Havia certa maldade na voz dela, talvez os dois não se dessem muito bem.

— Sobre? — Dessa vez era Rebecca falando. Ela parecia brava.

— Pai, o senhor já viu se eu posso usar o porão da sede da empresa para filmar aquele meu trabalho da faculdade? — Luna mal respira ao falar. Só queria mudar logo de assunto.

— O porão? — Com certeza ele não tinha se lembrado. — Claro que eu lembrei… Ainda não consegui resolver lá… Vou pedir para a Anna cuidar disso para mim, bom, ligue para ela amanhã cedo.

— Hm… Obrigada. — Ela soa um pouco chateada, mas nem um pouco surpresa.

— Mãe, eu estou com fome. — Júlia “mia”. — Desculpa. — Cochicha. Deveria ter sido repreendida com um olhar.

— Então, vamos comer antes que esfrie. — Rebecca diz com um sorriso na voz.

Quando Lun pergunta quais eram os pratos, a senhora que eu fiz acreditar que nós dois éramos namorados diz sorridente que eram rondelli à bolonhesa e salmão poché. Eu sorrio com isso, além de eu adorar o primeiro prato, era muito fácil de localizar no prato com a própria faca antes de começar a comer.

Como não era de se estranhar, as duas as mulheres começaram a servir todos à mesa como se estivéssemos em um restaurante. Aliás, eu nem tinha parado para ver se havia só um prato na mesa ou se eram vários com todas aquelas frescuras que se via em filmes…

— Com licença. — Depois de eu dizer o que eu queria, a senhora pega o meu prato e coloca algo macio perto da minha mão.

Era o guardanapo que antes deveria estar em cima dele, então ela devolve o prato e o cheiro, já maravilhoso, do molho se intensifica fazendo o meu estômago roncar com mais força. Eu coloco as mãos do lado do prato verificando; só havia dois garfos, um maior e outro menor, à esquerda, e uma faca ao lado de uma colher à direita. Simples. Como eu não sabia qual era a “regra” da casa, eu esperei alguém acidentalmente bater o garfo no prato para começar a comer e estava delicioso.

— Ah, antes que eu me esqueça… Semana passada, José fez uns bolinhos maravilhosos como acompanhamento e eu gostei tanto que eu pedi para ele fazer novamente. Já estão prontos, Jean? — Rebecca fala e instantes depois, colocam dois pratos em pontos diferentes da mesa. — Provem, aposto que vão adorar.

— Nossa, isso tem um cheiro muito bom… Quer que eu pegue um para você também? — Lun pergunta em voz baixa e quando eu concordo, ela pega o meu garfo e espeta um deles antes de devolvê-lo.

— Obrigado. — Ela o coloca no mesmo lugar e eu sorrio mentalmente por causa disso enquanto dava uma mordida no bolinho. A carne se desfazia na boca, macia e suculenta com o gosto forte de… — Luna, não coma isso, é camarão!!!

— O quê? — O garfo faz um barulho agudo ao cair no prato. — Mãe! — Lun resmunga. Era claro, ela estava muito brava e não era atoa, nós dois sabíamos bem até demais que ela era alérgica. — Por que não me avisou!?

— Te avisar? Eu não lembrei, oras…

— Não sei porque eu ainda espero algo de você. Você nunca lembra, mesmo que sempre, há 19 anos, eu tenha sido alérgica. Nem deu tempo de decorar, não é? — Ela dizia com a voz cada vez mais dura e eu penso em segurar a mão dela para ver se a acalmava, mas ela não parava de se mexer. — Eu posso morrer por causa disso, sabia? — Os outros não devem ter percebido, mas Helena soltou um risadinha baixa.

— Não fale assim comigo, garota! — Rebecca levanta. A voz dela estava firme e alta, mas dava pra perceber certa mágoa no meio, quase como se ela fosse chorar, mas não estivesse demonstrando.

— Calma. — Era o Sr. Yarlok falando. Ele não parecia saber o jeito certo de reagir, mas se não tomasse partido, Lun ficaria ainda mais irritada. Eu coloco a mão no joelho dela tentando acalmá-la ou sei lá… demonstrar apoio, mas ela nem deve ter sentido.

— Eu estou grávida! — Rebecca exclama e todos ficam calados e Steven a parabeniza imediatamente. Eu estava tão perdido sobre o que estava acontecendo…

— O quê? — Lun bate com a mão na mesa. — Por que está falando isso assim agora?

— V-você está nos fazendo passar vergonha na frente dos convidados! — Rebecca aponta com a voz trêmula, como se estivesse chorando e Lun bufa.

— Não sei você, mas eu não estou aqui para impressionar ninguém. — Ela levanta de uma vez só. — Len, você vem? — Eu nem respondo, simplesmente levanto e seguro no braço dela.

— Ei, não vá pensando que… — Era Rebecca voltando a falar, mas Lun não queria saber. Ela me arrasta para fora imediatamente e eu nem reclamo, apenas me deixo guiar torcendo para não tropeçar no tapete do corredor.

— Rebecca, deixe a menina ir. — Enzo pede cansado. Aquele tipo de situação deveria ser frequente naquela casa.

Antes de sairmos de vez daquele corredor, juro ter escutado Rebecca dizer que estava enjoada, meio tonta por causa do nervosismo. Lun, que no mesmo ritmo apressado nos leva para o lado de fora, nem deve ter escutado. Eu mordo a língua e me concentro no assobio da água que passava na calha do telhado para não perguntar algo que a fizesse sentir desconfortável.

— Desculpa. — Ela solta um grande suspiro de pois de uns minutos de silêncio e incertezas minhas.

— Pelo quê?

— Por tudo… Eu fui tão impulsiva que nem deixei você abrir a sua bengala. — Ri sem graça, refletindo e eu junto as sobrancelhas. Por mais que fosse a primeira coisa que eu normalmente faria, aquela não era a minha prioridade do momento.

— Você não chegou a engolir, certo? — Eu pergunto preocupado. Às vezes, um pedaço pequeno já era o bastante para fazer alguém alérgico começar a passar mal.

— Não. Eu estava colocando na boca na hora que você me avisou.

— Tem certeza? — Eu me aproximo dela.

— Sim. — Ela ri de leve. — Hm… Obrigada por aquilo. — Coloca a mão sobre a minha cruzando nossos dedos, mas logo tira dali, como se tivesse levado um choque.

— Imagina, nem foi para tanto. — Eu viro o rosto, só esperava não estar corando feito um adolescente.

— Claro que foi, se não fosse você, eu poderia ter passado muito mal mesmo…

— Aliás, o que você faria sem mim? — Eu brinco.

— Seu bobo. — Ela dá um soco leve no meu ombro. — Pensando bem, como você sabia que eu era alérgica?

— Bom… — Eu ouço a chuva batendo em algo de plástico que se aproximava, um guarda-chuva.

— Luna? Ah, que bom que vocês ainda estão aqui! — Ela parecia aliviada.

— Oi, Camila. — Lun se afasta de mim e eu acho que era uma boa hora para abrir a minha bengala.

— Seu pai mandou eu te entregar as chaves. Você veio de moto e é perigoso dirigir com essa chuva.

— Eu sei, eu sei… — Suspira. — Qual carro?

— O sedã vermelho. — Ela se esforça para lembrar, mas ainda assim parecia incerta.

— Bom, se não for eu descubro. — Luna suspira pegando as chaves. — Vamos, Len. Se ficarmos muito aqui, daqui a pouco alguém vem nos encher. — Obrigada, Camila.

— Boa noite. — Eu sorrio esperando que ela estivesse olhando na minha direção.

— Ah, fale para o Nico que eu peço desculpas por ter saído assim correndo. — Lun suspira novamente.

— Vou avisar sim. Juízo, hein? — Ela recomenda pouco antes de sair e Luna ri fazendo-me imaginar que Camila fizera algum gesto ou cara engraçada.

— Quantos carros o seu pai tem? — Eu pergunto para descontrair enquanto atravessávamos o caminho coberto.

— Uns… cinco… oito? Não lembro. Ele gosta de carros. — Ela esclarece como se aquilo fosse amenizar a minha cara de surpresa.

Eles deveriam ter muito mais dinheiro do que eu imaginava. Aquilo me fez pensar pela primeira vez que ela vivia uma realidade bem diferente da minha em quase todos os sentidos possíveis, mas eu deixo aquilo quieto. Não queria começar a sentir que antes eu realmente era um intruso na mesa de jantar, na vida dela…

O bip acionado pela chave ecoa pela garagem fazendo com que ela parecesse ainda maior aos meus ouvidos. Assim que Lun abre a porta, eu dou a volta e entro guardando a bengala, nós colocamos o cinto e ela dá partida em silêncio. O ronco do motor era tão baixo que o som da chuva se sobressaia, Lun ligara o ar condicionado provavelmente para que o vidro não embaçasse e depois disso não tirou as mãos do volante.

Como não era surpresa, o meu celular começou a vibrar novamente, tinham parado de tentar falar comigo há umas duas horas, mas voltaram atrás… Coloquei um dos fones na orelha e li as mensagens com ele ainda no bolso mesmo. Uma das mais recentes era da minha avó dizendo que todos passariam a noite na casa nova do meu tio e que todos sentiam a minha falta, várias outras, mais antigas, do meu irmão perguntando porque eu tinha saído de lá assim do nada e a última do Felipe perguntando onde eu estava e se eu estava falando sério quando disse que eu dormiria lá na república hoje. Eu respondo os três com poucas palavras: à minha avó que eu ficaria bem e que amanhã eu cuidava disso; ao meu irmão que ele sabia, mas que depois falaríamos disso e ao Felipe que eu não iria mais. Nem se quisesse eu poderia, minhas coisas tinham ficado na mansão. Eu bato com a mão na testa, amanhã eu pensaria nisso, afinal, não tinha nada de essencial lá dentro, só algumas roupas. Meus documentos estavam no bolso do casaco, assim como as chaves de casa. Eu encosto a cabeça no vidro estranhando o fato de Lun não ter perguntado nada. Uma vez ou outra, durante o resto do caminho, ouvi umas fungadas tão leves que pensei que eram da minha imaginação.

— Bom, chegamos! — A voz dela soa fraca.

Nós soltamos nossos cintos de segurança ao mesmo tempo e ficamos ali “nos encarando” ou ela estava distraída olhando ao redor enquanto eu esperava que ela falasse alguma coisa. Mas ela não fala, deveria estar longe.

— Quer descer um pouco? — Pergunto pensando que assim como eu, ela deveria estar com fome, afinal, mal comemos durante o jantar e eu poderia preparar alguma coisa.

— Por quê? — Ela pergunta um tanto arisca.

— Porque não tem ninguém em casa… — e eu não quero te deixar sozinha. — e poderemos ler sem que ninguém nos atrapalhar depois de comermos alguma coisa… Isso se você quiser.

— Mas é claro! — Ela finge estar animada. — Ah, vamos ter que descer correndo porque o meu guarda-chuvas ficou lá naquele quarto… e as suas coisas também! Nossa, mil desculpas por ter esquecido disso.

— Não tem problema, eu estou com as chaves. — Eu dou de ombros procurando a maçaneta.

— Vamos ler bastante então! — Ela continua fingindo.

— Toma, você vai chegar lá antes de mim. — Ameaço rir entregando as chaves para ela e saímos do carro.

A chuva caía mais forte do que antes. Eu enfio a mão livre no bolso e dou a volta pela frente do carro subindo na calçada meio perdido, não sabia onde ela tinha estacionado, só que estávamos na calçada certa. Com poucas passadas da bengala no chão, percebo que estávamos na frente do terreno vazio. Era só seguir a diante por mais duas casas.

— Lun? — Eu chamo por ela e o vento forte faz a chuva parecer ainda mais fria.

— Oi. — Escuto a chave girando no portão e eu aperto o passo. — Desculpa, eu deveria ter esperado você, não?

— Não… — Eu passo pelo portão e depois que ela o tranca, eu tento segui-la, mas ela não seguia linearmente.

— Então o que foi?

— Pare de fingir.

— Fingir? — Ela muda de direção bastante arredia. — Eu não estou fingindo coisa alguma e se você ficar parado assim na chuva vai acabar ficando resfriado!

— Eu sei que você está mentindo, mas não precisa.

— Você está maluco? — A voz dela finalmente estava voltada para mim. Luna parara de andar para me encarar e eu seguro no braço dela apenas para ter certeza de que ela estava onde eu imaginava.

— Olha, você não tem que fingir para mim que está bem quando eu sei que não está. — Tento olhar para ela.

— Mas eu não estou fingindo. — Ela tenta se soltar, mas nem tinha percebido que eu nem a segurava, só estava com a mão ali.

— Claro que está! Acha que eu não percebi que você estava chorando lá no carro? Que rever sua prima te magoou e não foi só por minha causa, ou que você estava ficando maluca com aquele jantar antes mesmo do camarão ou do que a sua mãe disse? — Ela não responde. — Eu não sei tudo o que está acontecendo, mas se não está tudo bem, me deixe saber. Eu posso não poder fazer nada para concertar, mas pelo menos não gaste suas energias mentindo. Você faz isso com todo mundo, não faz? — Ela continua em silêncio e eu solto um riso nervoso. — Eu só quero dizer que não precisa fingir, tá bom? …E que tal dizer alguma coisa, porque eu estou começando a pensar que você saiu e me deixou aqui falando sozinho, tomando chuva atoa.

— Mas por que você está dizendo isso? — A voz dela sai num fio, um pouco mais para trás de onde ela estava antes.

— Porque eu me importo de verdade. — Eu viro o rosto torcendo para que ela não visse o quão vermelho eu deveria estar.

— E-eu não sei o que dizer. — Murmura.

— Então não diga. — Eu abro o meu melhor sorriso. — Vamos entrar, não queremos faltar amanhã por causa de um resfriado, mas é melhor você ir primeiro porque você ziguezagueou tanto que eu nem sei mais em que parte da frente da casa eu estou.

— Ah, desculpa por isso…— Eu dou de ombros. — Hm… Obrigada. — Ela me surpreende ao me abraçar meio sem jeito.

Assim que ela me devolve as chaves, eu destranco a porta da sala deixando um espaço para ela entrar primeiro, mas estranho o fato dela não seguir pelo pequeno corredor até a sala.

—Por que está parada? — Eu coloco a minha bengala no bolso do casaco e sorrio para o fato de eu ter guardado todos os meus documentos em um plástico impermeável, se não fosse isso eu perderia um bom tempo tirando novos, já o celular parecia seco até…

— É que nós dois estamos encharcados e eu não quero molhar a casa toda… E se alguém cair?

— Ah, sim. Isso não vai acontecer. — Eu coloco os meus sapatos com as meias dentro no canto da parede e tiro o meu casaco e então a minha blusa jogando-os em cima de tudo.

— Hey! — Ela exclama se encostando na parede oposta.

— O que foi? Só estou tirando o excesso. — Eu torço o pouco que dava dos meus cabelos sentindo a água fria escorrer pelas costas. — Pode tirar as suas também, eu juro que não vou olhar…

— Idiota. — Ela começa a rir e a fazer o mesmo com as próprias roupas.

Depois de subirmos, fomos até o banheiro do corredor com duas toalhas que eu peguei no quarto do Gabriel, disse que depois dela terminar era só ela ir para o meu quarto que eu separaria algumas roupas enquanto ela se aquecia no chuveiro, e foi o que eu fiz. Tinha certeza de que minhas camisetas ficariam como um vestido nela e que os shorts com um cordão para regulagem de um dos meus pijamas ficaria muito largo, mas eu não tinha nada menor. Pensei em pegar algo da minha avó, mas além de não saber como ela guardava as coisas, Lun continuava sendo menor do que ela que era pouca coisa mais baixa que o meu irmão. Eu levo algumas peças para o banheiro e suspiro quando a água morna me faz parar de tremer. Como era uma das funções “existenciais” do chuveiro, eu começo a pensar em tudo que eu acabei dizendo para ela nos últimos minutos e em todas as possibilidades dela ter interpretado errado ou algo assim.

— Lun? — Eu pergunto assim que saio do banheiro ajeitando a toalha em meus ombros para não molhar minha blusa com a água que parecia brotar dos meus cabelos.

— Oi… — Ela estava sentada na minha cama provavelmente olhando tudo ao redor, afinal, nunca tinha entrado no meu quarto.

— As roupas couberam mais ou menos ou acha melhor eu pegar outras?

— Não. Ficaram largas, é claro, mas dá para o gasto. — Diz sem muita emoção na voz. — Eu gosto de mangas…

— Bom, eu vou preparar alguma coisa para a gente comer, sinta-se à vontade.

Eu desço e escuto os passos dela nos degraus altos da escada logo depois. Deveria estar faminta ou sem vontade de ficar sozinha… Ela senta no balcão da cozinha e fica lá me observando, talvez esperando que eu fosse pedir ajuda ou algo assim. Coloco mais água no arroz que, como eu tinha certeza, tinha sobrado do jantar e o coloco no fogo. Decido fazer bife acebolado, porque tinha uma vasilha com umas duas fatias descongeladas no fundo da geladeira. Outro dia, quando eu não estivesse com tanta fome, eu daria uma de “mestre do micro-ondas”, como meu irmão me chamava brincando, e faria algo mais elaborado.

— Pronto. — Eu aviso assim que coloco um dos bifes no meu prato e provo, não por não saber que eu já tinha acertado o ponto por causa daquele cheiro maravilhoso que fazia meu estômago dar cambalhotas, era por fome mesmo.

— Nossa, isso está muito bom! — Lun exclama depois de se servir, colocar a frigideira (indelicadamente) na pia e sentar provando um pedaço. — Todo mundo dessa família cozinha bem? Não é possível!

— Tirando o Gabriel ou então nossa mãe… — Eu dou risada. — Nada que a pratica não resolva.

A verdade era que eu sabia cozinhar quase nada quando ainda enxergava, então a maior parte do que eu sabia hoje, eu tinha aprendido na marra com comida fora do ponto, pequenos cortes e queimaduras a mais que o “normal” que foram diminuindo com o tempo, principalmente depois que comecei a deixar a minha avó me ensinar direito.

— Uh, droga… — Luna bufa quando o garfo, de alguma forma, escapa de seus dedos e cai perto dos meus pés, nós abaixamos ao mesmo tempo para pegar e por isso batemos nossas cabeças uma na outra e o garfo desliza para longe dos meus dedos.

— Calma. — Eu dou risada. — Acho que foi para longe agora.

— Achei! — Ela encosta a testa no meu joelho se esticando para pegar e então começa a rir muito.

— O que foi?

— Nada… — Ela mente.

— Pare de me enrolar… — Eu bufo.

— Suas meias. — Ri pelo nariz. — Uma é preta e a outra é branca.

— Não acredito. — Eu bufo. Tinha tomado tanto cuidado ao separá-las no começo da semana e ainda assim…

— Só você para me fazer rir numa hora dessas. — Ela encosta com a cabeça no meu ombro. — Obrigada.

— Pelo quê?

— Por tudo, oras… — Ela parecia enrolar uma mecha dos cabelos num dedo. — Sabe, enquanto eu estava tomando banho eu pensei sobre aquilo que você me disse. — Eu enrijeço na cadeira, mas ela não percebe. — E não vou mais fingir. Não para você, tudo bem?

— É claro. — Meu sorriso não podia ser maior.

Depois disso eu peguei um cobertor e nos sentamos na minha cama pensando em ler o livro que ela colocou na minha mesa de estudos, mas decidimos conversar um pouco antes. Nós falamos de tudo. Lun me contou desde alguns sonhos para o futuro, filmes que gostaria de filmar, das sobremesas que mais gostava até a preocupação que a gravidez da mãe estava causando, porque com Nico já era complicado, imaginar mais uma criança naquela casa… E me explicou partes do que a fez sair de lá. Nada que ela havia dito antes tinha me feito entendê-la tão bem, ao mesmo tempo que era raro para mim encontrar alguém que eu me sentisse bem ao me abrir. Ela ria, se preocupava e se empolgava com sinceridade, sem dó e sem receio de dizer o que pensava. Tudo aquilo fazia dela tão linda…

— Lun? — Eu chamo, assim que me dou conta de que eu estava perdido em pensamentos. Como ela não responde eu tateio o colchão e a encontro encolhida.

— Não… — Ela resmunga assim que a toco. Ela vira o corpo e deita em cima de mim ainda adormecida. Eu faço o melhor para colocar o meu travesseiro no lugar do meu braço e ela resmunga. Como tinha descoberto dentro dos livros, não adiantava muito tentar tirá-la da posição em que caíra no sono, ela costumava voltar para o mesmo lugar minutos depois. Depois disso eu puxo a cama auxiliar e pego um cobertor para mim.

— Boa noite. — Bocejo verificando se ela estava coberta e logo depois disso caio no sono.

Notas finais
Gostaram do capítulo? *--*