Notas iniciais
E não é que eu também estava com insônia quando escrevi esse capítulo...

— Até que enfim!

Comemoro quando finalmente saímos do livro, mas ao contrário de mim, Len apenas bufa dando um passo para trás, encostando-se na parede. Sua franja escura caia sobre a testa e seus óculos estavam um tanto tortos, se ele não estivesse com a cara tão fechada, talvez eu até achasse fofo… Ele arruma os óculos, ríspido apontando o queixo para mim.

— O que foi?

— Nada. — Olho para meus pés.

Por que ele estava mal humorado? Esfrego meus braços soltando o ar devagar e acabo bocejando. Não sabia dizer o que passava pela cabeça dele e isso estava começando a me incomodar. Seria tão mais fácil se ele fosse um pouquinho mais óbvio… Queria perguntar o que ele tinha, mas antes que eu percebesse, ele já estava fora da biblioteca.

— Onde você vai? — O alcanço no corredor.

— Para a cozinha. — Ele não para de andar para me responder, então continuo atrás dele. — Qual é o seu problema? Vai ficar me seguindo agora!?

Ele gira o corpo, cruzando os braços impaciente e com a cara ainda mais fechada. Eu dou dois passos pesados, parando bem na frente dele.

— Qual é o SEU problema!? Uma hora está tudo ótimo e depois, do nada, não está! O que eu fiz de errado?

— Gritem mais baixo, a vó já foi dormir! — Gabriel resmunga do sofá da sala.

Len continua andando como se nada estivesse acontecendo. Por que ele estava sendo tão idiota!?

— Ótimo! Se é assim que você quer…

Falo alto o bastante para apenas ele ouvir. Eu pego o meu pijama na sala e vou para o banheiro bufando irritada. Ele estava sendo no mínimo bipolar… No espelho, uma moça com o rosto bastante vermelho me encarava com os lábios encolhidos. Eu precisava me acalmar um pouco… Encho minhas mãos com a água e lavo o rosto sentindo a minha pele esfriar. Finalmente mais calma, eu troco de roupas.

Quando passo pelo corredor, encontro Gabriel me esperando, ele olhava para mim com os olhos cansados e com parte do corpo encostada na parede, como se metade dele ainda estivesse dormindo e a usando como colchão. Eu bocejo e ele também o faz.

— Está muito frio para dormirmos na sala. Então deixaremos os filmes para amanhã de manhã. — Suspira. — Você pode ficar no meu quarto. Eu e meu irmão vamos ficar no dele.

— Tudo bem.

Eu dou risada imaginando que se ficássemos na sala, nós dois dormiríamos antes mesmo do filme chegar na metade. Eu nem conseguiria mexer mais um pouquinho no computador como desejava… Gabriel cobre os ombros com o meu cobertor e segura o meu travesseiro me ajudando a subir minhas coisas para o quarto dele. Quando coloco a mão na maçaneta, ele arregala os olhos.

— Cuidado com bagunça!

Do jeito que ele falava, parecia que algo iria pular em cima de mim quando eu entrasse no quarto, o que felizmente não aconteceu. Toda a mesinha e uma parte do chão estava abarrotada de pilhas de papeis e livros que certamente estavam assim por causa dos trabalhos. De resto, até que o quarto estava arrumado, exceto um pôster, este estava inclinado por causa da mochila que encostava nele.

— Pelo menos não tem uma bota em cima da mesinha…

Eu dou risada colocando o meu notebook e mochila num canto livre do chão. Gabriel joga o que segurava na cama.

— Acho que vou precisar de mais um cobertor…

— Eu pego.

Gabriel ameaça abrir uma das portas de seu guarda-roupas, mas desiste quando vê que era justamente a que estava cheia de livros na frente. Sem dizer nada ele sai do quarto indo para o lado esquerdo do corredor. Eu o sigo com um sorriso no rosto, ele andava quase como um zumbi. Isso queria dizer que ele não tinha mentido para mim quando, ainda na faculdade, dissera que tinha virado a noite acordado.

— Você não ia tomar banho antes de arrumar aqui?

Len franze o nariz confuso. Ele vestia uma calça moletom simples e uma blusa cinzenta de mangas compridas. Seus cabelos estavam levemente úmidos, caindo sobre seus olhos fechados. Ele parecia ter acabado de sair do banho.

— A Lun vai precisar de mais um cobertor.

Gabriel, sem cerimônia, invade o quarto do irmão.

— Ei, esse é o meu!

Len resmunga enquanto Gabriel aparecia na porta arrastando parte de um cobertor azul-marinho no chão. Eu tampo a boca com as duas mãos tentando não rir alto. Len não precisava saber que eu estava ali.

— Pega outro no guarda-roupas…

Boceja fechando a porta na cara do irmão que nem teve tempo de questionar. Ele sorri para mim pouco antes de jogar o cobertor na minha cara.

— Obrigada…

— Vou tomar banho, qualquer coisa é só gritar.

Ele entra na porta ao lado do quarto dele se espreguiçando. Gabriel era engraçado quando estava com sono. Esses momentos eram marcados por frases curtas e raciocínio exclusivamente lógico e direto. Ele não via nada de errado em responder literalmente tudo que lhe perguntavam isso rendia vários risos de quem estava por perto. Pelo menos umas duas vezes eu o flagrara assim. Uma foi num dia que por acaso ficamos na Universidade fazendo trabalhos na mesma área da biblioteca e outra no meio de uma palestra que os professores recomendaram para uma par de cursos.

Arrumo os cobertores e me encolho embaixo deles tentando me aquecer. O sono estava diminuindo, provavelmente por causa do frio. Resolvo pensar no que acontecera desde que eu chegara ali mais cedo. De Gabriel demorando para atender, de Len tentando (e conseguindo) me provocar e dos livros… Ah… Aqueles livros! Eu estava encantada com tudo aquilo. Eu respiro fundo sentindo um cheiro bom e estranhamente familiar. Não era exatamente amadeirado, forte ou então doce, mas com certeza era sutil e fresco… Eu sento na cama tentando descobrir de onde vinha tal cheiro, mas ele desaparece, eu deveria estar imaginando coisas por causa do sono. Não era como se aquilo fosse incomum…

Dessa vez eu deito para o outro lado tentando aquecer meus pés, começando a pensar em como Len estava seco desde que saímos do livro. Será que ele ainda estava bravo por ter sido “a princesa”? Eu dou risada baixinho pouco antes de fechar os olhos tentando dormir, mas percebo que todo aquele sono tinha ido embora. Rolei na cama por uns minutos, mas o sono não vinha e meu estômago começava a roncar.

Eu não conseguiria dormir bem de estômago vazio, então decido levantar. Coloco meu cobertor sobre os ombros, calço meus chinelos e desço as escadas usando a luz do celular para iluminar os degraus. Ainda usando o celular, encho um copo com água e bebo metade, esperando que aquilo enganasse o meu estômago. Pretendia levar o resto para o quarto, mas quando dou um passo me assusto com um barulho no corredor. Eu quase derrubo o copo, mas consigo juntar as mãos antes que ele escorregasse para longe de meus dedos, mas por causa do movimento brusco deixo o celular cair no chão com a luz da lanterna virada para baixo. Mal abaixei e já o encontrei, por muita sorte a tela estava inteira.

— Gabriel?

— Não.

Aquele desgraçado se materializa bem na minha frente no momento em que aponto a luz para o corredor. Com o susto eu deixo o copo cair no meu pé, quicando para o chão. Por causa do doloroso amortecimento os estilhaços parecem não cair muito longe.

— Droga! Você deveria ter acendido as luzes…

Resmungo esfregando o meu pé dolorido antes de começar a empilhar os cacos maiores. Só desejava não me cortar…

— Agora vai reclamar com o “cara cego” porque ele não acendeu as luzes? — Por que VOCÊ não acendeu as luzes? — Com um gesto simples ele acende a luz da cozinha.

— E-eu não…

Eu olho para ele sentindo o meu rosto esquentar mais ainda. De tanta coisa para falar eu tinha que escolher justo aquilo… Ele ria do meu constrangimento, na verdade ele gargalhava. Eu mordo o lábio inferior com força tentando não falar nada, mas ele tinha o dom de fazer o meu constrangimento virar raiva.

— Olha, você sabe que não foi por querer! Então para com isso!

Empurro o ombro dele de leve. Não sentia mais nenhuma vontade de pedir desculpas. Com certeza aquela não era a primeira vez que alguém falava algo assim para ele… e talvez eu até devesse rir junto, mas algo nele me deixava irritada demais para usar o meu senso de humor. Fecho a porta da cozinha para não acordar os outros caso fizéssemos mais barulho e tento agachar novamente para cuidar da bagunça, mas ele me impede.

— Não. Assim você vai acabar se cortando, eu vou pegar uma vassoura.

Eu suspiro aceitando a ajuda só porque ele tinha parado de rir. Len vai até a porta dos fundos da cozinha passando pelo caminho mais distante dos cacos possível, destranca a porta e sai por uns instantes voltando com um pano, uma vassoura e uma pá. Ele me entrega os objetos e esfrega os braços por causa do frio lá de fora.

— Obrigada. Segura para mim?

Entrego o meu cobertor para ele e sorrio vendo-o sentar na cadeira enquanto eu limpava a minha bagunça. Quando termino, coloco os cacos no lixo e levo as coisas para fora. Estava realmente frio. Meus pelos arrepiam só de pisar no piso de pedra que se estendia ao redor da casa. O vento frio era cortante, tanto que eu já estava tremendo antes mesmo de voltar para a cozinha e trancar a porta.

— Por que está acordada a essa hora?

— Que horas são?

— Eram duas e meia quando desci…

— Hm… Eu estava com fome.

— Então por que pegou água?

— Bom, eu…

— Quanta frescura…— Ele bufa largando o meu cobertor na cadeira. — Se for lanchar de madrugada faça isso direito. O que você quer?

Ele pega dois pratos num armário e um pacote de pão de forma no outro, antes de abrir a geladeira e tirar alguns potes lá de dento. Ele os alinha em cima do balcão começando a destampá-los. Ele deveria estar ali pelo mesmo motivo que eu. Ele coloca uma fatia do pão no prato e começa a montar seu sanduíche, até então só com coisas salgadas.

— Perdeu a língua?

— Bobo.

Eu dou risada me aproximando dele. Ele me entrega o prato e eu começo a montar o meu. Peguei umas fatias de queijo e coloquei junto com uma de pão no micro-ondas, depois era só juntar com um alface, tomates do pote que eu segurava e… Do nada ele para de montar seu lanche, parecia pensativo… Ele pega uma colher na gaveta, abre o congelador e volta com ela cheia de brigadeiro. Ele abre um sorriso quando a passa em outra fatia de pão finalizando seu sanduíche. Ele realmente tinha um estômago de avestruz…

— O que foi? — Ele pergunta com a colher na boca enquanto guardava os potes.

— Adivinha… — Eu viro os olhos, — Ah, eu estou com um dos potes. — Aviso quando percebo que ele procurava o que eu estava segurando. Ele dá de ombros jogando a colher na pia.

— Acho que sou assim desde sempre. Pode não parecer, mas geralmente fica bom… Aliás, você não vai tirar seu prato daí?

Len aponta para o micro-ondas. Eu não tinha percebido que ele já tinha parado de girar há um bom tempo. Rindo eu termino de montar o meu sanduíche. Guardo o pote na geladeira e levo meu prato à mesa sentando-me de frente para ele que já tinha comido metade daquela gororoba.

— Está sem sono?

— Parece que ele evaporou…

Suspiro olhando para ele enquanto eu dava uma bela mordida na parte com mais queijo. Len comia feito um adolescente, fazendo parecer que aquela era a melhor comida do mundo. Eu tusso tentando disfarçar o meu riso, mas é claro que ele tinha que perceber… Len levanta apenas uma das sobrancelhas enquanto limpava a boca com um dos guardanapos da mesa. Ele nem parecia o mesmo de pouca horas atrás…

— Hm…?

— Só estava aqui pensando… Você não está mais irritado comigo.

Len termina o último pedaço de seu sanduíche e suspira encostando-se no fundo da cadeira. Ele mantinha os olhos fechados com certa força. Como se precisasse daquilo para ter certeza de que não estavam abertos. Não sabia como ele ainda não tinha se cansado de mantê-los assim por tanto tempo. Por que ele fazia isso? O que exatamente tinha de errado com eles? Será que…

— Eu não estava bravo com você.

— Não!? — Derrubo a metade do pão que eu segurava no prato.

— Não diretamente, pelo menos…

Eu o encaro cética. “Não diretamente”… Eu viro os olhos. De um jeito ou de outro, foi em mim que ele descontou a raiva. Mordo mais um pedaço do meu lanche com força. Detestava aquele jeito frio que ele várias vezes exibia. Parecia tão… Tão errado…

— Que tal falar alguma coisa…? — Ele bufa batucando os dedos na mesa.

— É que eu não te entendo e isso me irrita. Do nada você muda de humor e saí andando sem explicar nada. Sem contar que fica jogando a culpa de coisas que têm nada a ver em cima de mim. Isso não é justo!

— Não é justo? Falou a pessoa com o humor mais equilibrado daqui…

— Está me chamando de desequilibrada?

— Sim. Não! Droga… Eu não quero brigar com você agora. Desculpa.

— Não quer? Pois não está ajudando! — Eu cruzo os braços irritada percebendo que ele estava ficando vermelho.

— Eu já pedi desculpas, não é o bastante?

— Não.

— Então o que você quer que eu faça!?

— Como assim o que eu quero?

Poxa, ele não podia ver que era ele quem causava a maioria daquelas brigas? Eu até podia ter alguma contribuição, principalmente quando queria tirar as coisas à limpo, mas não era pra tanto. Desde o começo, eu não tinha nada contra ele, mas ele, depois do dia em que nos conhecemos, sempre vinha para cima de mim com “tijolos” na mão.

— O que você quer para parar de brigar comigo agora?

— Quero que abra os seus olhos! — Então percebo o duplo sentido da frase. — Bom… Não no sentido literal, mas se quiser não é como se eu fosse achar ruim ou… — Minha voz vai morrendo quando percebo que ele ficou pálido.

Por que eu estava pensando no duplo sentido? Eu sempre acabava falando demais… E por que ele estava tão pálido? Teria experiências ruins sobre aquilo? Não era como se eu quisesse invadir a privacidade dele e descobrir qual era a cor daqueles olhos… Ou era? Nunca tinha me perguntado sobre a cor deles antes… Eu não entendia o que estava acontecendo comigo, mas sabia que a curiosidade só cresceria dali para frente. Talvez, se eu só preguntasse a cor, ele poderia…

— Você é estranha…

— E daí? Acha tão ruim assim?

— Para evitar conflitos, prefiro não responder. — Ele ri de lado, mas parecia contraditório.

— Chato.

Eu suspiro finalmente terminando o meu lanche que já estava frio. Ele estava com a cabeça entre os braços cruzados sobre a mesa. Algumas mechas dos cabelos dele, especialmente as da parte de trás estavam arrepiadas, como se questionassem a gravidade.

— Está com sono? — Eu pergunto recolhendo os pratos e ligando a torneira.

— Não muito.

A voz dele sai abafada pela blusa. Eu ensaboo tudo rapidamente e enxaguo mais rápido ainda tentando ficar com as mãos debaixo da água fria pelo menor tempo possível.

— O suficiente para lermos um pouco? Acho que seria legal fazermos isso antes de irmos dormir. Não sei qual vai ser a próxima vez que vou ficar aqui por tanto tempo.

— Talvez…

Ele ri pegando um pano de prato para me ajudar com as poucas louças. Jogo o meu cobertor sobre os ombros e coloco minhas mãos debaixo dos braços tentando aquecê-las um pouco enquanto o esperava terminar. Juntos caminhamos até a biblioteca, ele ia um tanto atrás, um pouco apreensivo…

— Você não parece muito animado…

Murmuro sentando no tapete vermelho-terroso, vasculhando a arca. Estava frio perto do chão, mas meu cobertor estava fazendo um ótimo trabalho.

— É?

Len quase tropeça no livro que estava no chão, ele suspira recolhendo-o pouco antes de sentar de costas para mim e bater com o livro na minha cabeça. Eu o guardo esperando Len se manifestar, mas ele não parecia disposto a dizer alguma coisa por vontade própria.

— Posso saber por quê?

— Deve ser o frio…

— Não é mais.

Inclinada para trás, eu jogo metade do meu cobertor em cima dele. Ele apenas se ajeita e fica calado, com a mesma postura desanimada. Eu suspiro puxando a arca um pouco para frente, conseguindo encostar as minhas costas nas dele enquanto mexia nela, assim nenhum dos dois ficaria com frio.

— Vai me falar o que você tem ou vou ter que te azucrinar até você responder?

— Hm…

Ele se mexe desconfortável. Estava curiosamente calado, mas eu não acreditava que seria por sono ou algo assim. Aquilo me incomodava. Mesmo estando colada nele, eu sentia como se ele estivesse bem longe. Abraço meus joelhos largando o livro que eu segurava.

— Eu queria que você falasse comigo. Quando você fica assim todo quieto, fica difícil de saber o que você pode estar pensando…

— Você fala o bastante por nós dois.

— Provavelmente…

As costas dele sacodem nas minhas enquanto ele ri. Era uma sensação engraçada, acabei rindo também e ele se afastou um pouco se espreguiçando.

— Você quer escolher?

— Para quê? Não é como se eu fosse ler o título…

— Grande coisa. Não é como se algum de nós tivesse escolhido intencionalmente, quando peguei também foi aleatório…

— Até agora foi alternado. Escolhe você!

— Tá bom.

Eu bufo me esticando para pegar o livro que tinha deixado no chão, o giro entre os dedos sem aprestar atenção no título. Aparentemente, quando estava cansado, ele ficava um pouco menos implicante. Comecei a imaginar o que aconteceria se ele ficasse com muito sono… Talvez até fosse legal de verdade comigo.

— Você não gostou muito da última vez.

— Até gostei, mas…

— Mas…?

— Nada.

Era muita maldade começar a falar algo e parar bem no meio. Eu me levanto e ele inclina a cabeça para mim como se quisesse saber o que eu queria. Eu sento ao lado dele com o livro em mãos, puxando a coberta para cima de mim também.

— Pode falar… Eu não vou rir ou sei lá o que…

— Falar o quê?

— O que deixou você irritado com o último livro.

— Se eu não falar você vai continuar me enchendo?

— Sim!

— Parece que não tenho escolha… É que sei lá, eu não quero que aquilo de inverter aconteça de novo… Eu gosto de saber mais ou menos como vai ser antes, mesmo que não possa lembrar do conto dentro dele, eu me sinto mais preparado.

— Entendo… mas isso não vai acontecer.

— Como você sabe? — Ele desdenha.

— Porque vou abrir o livro direito dessa vez.

Resmungo impaciente enquanto ele, com o rosto virado para a parede, ainda parecia confuso. Foi aí que eu percebi o óbvio: ele não sabia que tudo aquilo tinha acontecido porque o livro estava de cabeça para baixo.

— Fala…

Como sempre, ele parece adivinhar que eu o encarava.

— É que naquela hora você abriu o livro, ele estava de cabeça para baixo. Acho que é por isso que entramos trocados na história…

— Hm… Faz sentido.

— Qual vai ser agora? É Cinderela, não é?

Toma o livro das minhas mãos sem conseguir esconder o desespero e passa a mão direita pela capa do livro contornando uma das letra para se certificar de que ele não estava de cabeça para baixo. Eu me sentia perversa por estar rindo daquilo, mas eu não podia evitar. Aquela era a última coisa que eu imaginava que ele falaria.

— Dá para parar!

— Desculpa… Desculpa. — Seco as lágrimas debaixo dos olhos.